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Arquivo mensal: fevereiro 2009


Eu passei o ano passado fora do Brasil, morando na Califórnia. Quando voltei, fiquei abismado com o tanto que o país mudou. Parecia para mim meio mágica, meio inexplicável. De uma hora para outra, dezenas de milhões de pessoas saíram da pobreza e o Brasil, que desde sempre foi dividido entre ricos e pobres (lembra da história do "país mais desigual do mundo"?) de repente virou um país de classe média. Como é que isso foi acontecer? Finalmente encontrei uma resposta, lendo a revista inglesa The Economist da semana passada, que trouxe um excelente dossiê sobre as novas classes médias dos países emergentes.

O que descobri é que esse "surto" de classe média não é mágico nem inexplicável. É pura estatística. E é comum na história. Algo parecido aconteceu no século 19 na Inglaterra e nos Estados Unidos. E de novo a partir dos anos 50 na Europa e América do Norte. E está acontecendo agora mesmo na China e na Índia. Em nenhum desses casos, o crescimento da classe média é lento e gradual. É sempre assim, de repente, de uma hora para outra, transformando a sociedade.

O gráfico acima, que é típico desses casos, ajuda a entender por quê. Ele retrata a distribuição de renda da China em 1980, 1995 e 2008. A linha vertical vermelha representa o limite a partir do qual se ingressa na classe média. Como o gráfico tem essa forma de sino de cabeça para baixo, fundo no meio e baixinho nas bordas, é de se esperar que haja um aumento súbito nos números quando o meio do sino passa a linha vermelha. No caso deste gráfico, por exemplo, note como a classe média chinesa (pintada de azul claro), que era algo como zero em 1980, de repente domina a maior parte da população (a classe média chinesa passou de 15% para 62% entre 1990 e 2005).

Graças a esse surto atual, a classe média pela primeira vez alcançou metade da população mundial. Isso é revolucionário – menos de 10% da população do mundo era classe média em 1900, e em 1980 era algo como um terço do mundo.

Classe média consome. E é em grande parte por causa do consumo da classe média – especialmente nos Estados Unidos e na Europa – que o mundo está nesse apuro de aquecimento global e tal e coisa. Se você pegar essa multidão de bilhões de pessoas nos países emergentes que agora estão ingressando na classe média e der a eles padrões americanos de consumo, baubau. A vaca, que já está pastando no brejo, vai atolar de vez.

Mas será que precisa ser assim? O dossiê da Economist menciona também o incrível potencial transformador da classe média. Justamente porque consome tanto, essas pessoas têm o poder de mudar a lógica de uma sociedade, usando seu dinheiro como incentivo. A história tem exemplos disso. O melhor deles é do século 19, quando ocorreu o primeiro grande surto de classe média do mundo e pela primeira vez países como Inglaterra e EUA tiveram algo que pode ser chamado de "classe média de massa". Esse movimento acabou pressionando quem mandava nesses países a criar uma sociedade mais justa, mais igualitária. Graças a ele, ganhamos a democracia moderna e consolidamos a idéia de direitos humanos. O que precisamos, agora, é que algo parecido ocorra. Que aproveitemos o impulso de consumo dessas novas classes médias para bancar a criação de uma sociedade sustentável. É nossa única chance.

Paro aqui antes que meu post vire um livro, mas quero voltar a discutir na semana que vem a importância das novas classes médias dos países emergentes para a sustentabilidade do planeta. Como sempre, sinta-se muito bem vindo para dar ideias que me ajudem a abordar o assunto.

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Se o New York Times desse de presente para cada um de seus assinantes um Kindle 2 (o livro eletrônico da Amazon.com que permite que você receba o conteúdo do jornal online), iria gastar metade do dinheiro que gasta hoje para imprimir e entregar o jornal na casa dos leitores.

Quem fez a conta foi um blog americano de negócios chamado The Business Insider. Os números da operação do jornal mais importante do mundo são sigilosos, mas o blog apurou que eles gastam algo como 644 milhões de dólares por ano para imprimir papel e mandá-lo para a casa dos leitores. Dar o Kindle de presente custaria apenas 297 milhões.

A idéia do blog não é sugerir a sério que o New York Times faça a troca – é apenas mostrar o quanto a velha indústria de imprimir informação em papel é cara e ineficiente, sem contar seu tremendo impacto ambiental. Olhando para esses números, e também para o apuro financeiro pelo qual o New York Times e quase todos os jornais americanos estão passando, atolados em dívidas e prejuízos, é difícil escapar da conclusão de que os tempos dos jornais de papel estão mesmo perto do fim. É só questão de alguém inventar um livro eletrônico realmente bom. Não. O Kindle 2 ainda não é "realmente bom".

Eu confesso que morro de culpa toda semana quando vejo o tamanho da pilha de jornal que se acumula em casa. Matar árvore para imprimir notícia que dura um dia não é mesmo justo.

Seres humanos têm um defeito crônico: a dificuldade patológica de mudar as coisas quando se está confortável. Bom, não estamos mais confortáveis. A economia mundial está atolada num pântano, está todo mundo bravo e insatisfeito. O aquecimento global está zumbindo no nosso ouvido feito pernilongo. Tenho ouvido até das pessoas menos engajadas que conheço discursos enfezados e idealistas. Tenho sentido nas ruas um clima de urgência, um desejo de mudança, uma massa crítica se formando. Sob risco de ser acusado de ingenuidade, declaro: o mundo vai mudar. Vai mudar muito, e assustadoramente rápido. Se você pudesse dar uma espiada no Planeta Terra de 2019, não iria reconhecer seu planeta.

ps: bom carnaval para você. Viajo hoje para um lugar onde a internet jamais chegou. Volto a postar passada a folia.

Foto: FirstBaptistNashville (CC) – Katrina


Já que falamos esta semana sobre modelos de cidades, me deu vontade de republicar este texto que escrevi originalmente para minha coluna na revista Vida Simples, em janeiro de 2008.

Viver na cidade
Estamos tão acostumados com a vida urbana que achamos que ela é normal. Mas não é.

Ao contrário das formigas e das abelhas, os seres humanos geralmente vivem em grupos pequenos, familiares, bem isolados uns dos outros. E aí você pergunta: como assim? E as cidades? E as metrópoles ao redor do mundo, uma mais imensa que a outra, aquelas enormes manchas de eletricidade visíveis do espaço onde milhões de pessoas se amontoam umas nas outras? Ora bolas, as cidades. Cidades são exceções na história humana. Desde que o primeiro humano pisou a Terra num canto esquecido da África, 100 mil anos atrás, a enorme maioria dos Homo sapiens viveu na roça, no mato, no campo. A enorme maioria das pessoas que já existiram teve uma existência rural ou selvagem e viveu a vida produzindo sua comida, dormindo e acordando ao sabor da luz do sol, convivendo com apenas um punhado de pessoas, sempre as mesmas, a vida inteira.

O ser humano é, como regra, uma espécie rural. Foi só nos últimos milênios que descobrimos o conforto de viver numa cidade. E, mesmo então, gente "da cidade", como eu e muito provavelmente você, sempre fomos uma exceção nesta nossa espécie rural. Sempre fomos minoria. Na verdade, ao longo de dezenas de milhares de anos, a população urbana nunca passou de um terço do total de pessoas. Em 1950, ela era de 30%. Mas, de lá para cá, ela não parou de aumentar. A ONU calcula que, depois de 100 mil anos de maioria rural, a população urbana chegou a 50% em maio de 2007. E agora, pela primeira vez desde o Big Bang, somos maioria. Há mais gente vivendo em cidades que no campo neste mundão. Mas isso não apaga o fato de que somos uma espécie mais dada à vida rural que à urbana.

A evolução nos construiu para plantar, capinar, colher, caçar, fofocar, coçar o dedão. Não para googlar, dirigir e falar no celular – isso aí ainda estamos aprendendo. Nossa vida tecnológica e urbana é uma raridade na história da humanidade. Mesmo assim, é nas cidades que os lances mais emocionantes da história humana acontecem. É que cidades são lugares incríveis. Nelas, as coisas ficam perto umas das outras. As pessoas ficam perto umas das outras. Isso permite que tenhamos vidas riquíssimas, que seriam impossíveis num meio de mato.

Podemos aprender com milhares de pessoas diferentes, circular entre culturas, trocar idéias. Podemos mudar de interesses um trilhão de vezes, em vez de passar décadas submetidos ao mesmo monótono calendário ditado pelas estações do ano, que determinam o plantio e a colheita. Tudo isso é fascinante.

Mas não faz sentido viver numa cidade se não formos aproveitar o que ela tem de bom. Se formos nos trancar em nossas casas, e não andarmos nas ruas, não vamos encontrar os outros, aprender com eles. Se nos dispersarmos com a quantidade de informação, não vamos nos concentrar em nada, e o que a cidade tem de fantástico vira ruído. Se formos nos domesticar por um empreguinho e nos acomodarmos com o fato de que precisamos do salário, toda essa riqueza desaparece de nossas vidas. Se entupirmos as ruas com carros e lixo, com câmeras de segurança e muros, aí ninguém se encontra, ninguém troca. E a cidade não serve para nada.

Que fique claro desde já: o objetivo deste blog não é fazer você se sentir culpado. Há quem ache que a melhor forma de proteger o planeta é dividir a humanidade entre os bons e os maus. Por exemplo, eu poderia perfeitamente passar a vida contrapondo a minha santidade à sua maldade incurável. Eu protejo a natureza, você, leitor, é um irresponsável. Este blog não pensa assim.

Fato 1: a lógica da nossa sociedade nos trouxe para este beco sem saída.

Fato 2: é preciso mudar essa lógica.

Fato 3: não sabemos bem como.

Fato 4: no fundo, enquanto a lógica não muda, cada um de nós seres humanos é um estorvo para o Planeta Terra. Faz-se hora de reconhecer isso. Faz-se hora de identificar problemas nos nossos hábitos e de trabalhar para resolvê-los. Mas isso não se faz pondo a culpa nos outros.

Eu confesso: nem todos os meus hábitos são sustentáveis. Quero melhorar isso. E acho mais produtivo eu focar minha atenção no que eu posso fazer do que apontar meu dedo na sua cara.

Foto: purpleslog (CC)


Você deve ter lido a notícia: hoje o presidente Obama assina o Ato de
Recuperação e Reinvestimento Americanos, vulgo "pacote de recuperação",
a tal bolada de 800 bilhões de dólares que, espera-se, vai botar a
economia americana – e, se dermos sorte, a mundial – para rodar outra
vez. O que você provavelmente não leu, já que a imprensa não está dando
muita bola, é que o tal pacote encerra uma era na história do
ambientalismo. Se eu quisesse mesmo atrair leitores a qualquer custo
(usando a mesma estratégia do Francis Fukuyama, autor de "O Fim da
História"), eu podia chamar este post de "O Fim do Ambientalismo".
Afinal, o ambientalismo como o conhecemos termina hoje, dia 17 de
fevereiro de 2009.

Dos 800 bi (789, para ser mais exato), obscenos 60 bilhões, mais que o
PIB de Cuba, vão ser gastos com o meio ambiente. É grana que não acaba
mais, para ser transformada em energias renováveis, adaptação de
edifícios para economizar energia, sistemas de transporte verdes,
cuidados com a água etc. A idéia é inaugurar novos mercados para
incentivar inovação causar o surgimento de setores industriais
inteiros, chacoalhando a economia. Digo que isso é o fim do
ambientalismo como o conhecemos porque, desde que surgiu, nos anos 70,
o movimento ambiental consistia basicamente em reclamar da inadequação
dos nossos modelos. A partir de amanhã, é hora de começar a construir
novos modelos.

Todo ambientalista americano que tem bons projetos vai ter uma grande
chance de morder um pedacinho dessa grana. Todo mundo com ideias
factíveis, bons argumentos, olhar inovador vai ter uma chance concreta
de abandonar a contracultura ecológica para ser acolhido pelo
mainstream. Demorou mais de 30 anos, mas o movimento ambiental cumpriu
sua primeira missão: convenceu o establishment econômico mundial de que
havia um problema. Agora vem o mais difícil: resolvê-lo.

foto: jetheriot (CC)


Já que o assunto é transporte, quero pegar uma carona nos comentários ao meu post de sexta-feira, sobre o City Car.

O famoso anonimo disse que, em vez de nos preocuparmos em arrumar outras formas de nos locomover, devíamos é encontrar jeitos de não precisarmos nos locomover tanto: trabalhar em casa, descentralizar nossas cidades para poder encontrar de tudo pertinho etc. Já o Tiago acha que soluções para o transporte não devem ser carrinhos individuais como o City Car – segundo ele só se resolve o problema com transporte coletivo (a propósito, o Terreform 1, o mesmo escritório que criou o City Car, tem um projeto sensacional de transporte coletivo – este "zepelim" da imagem acima).

Os dois têm alguma razão. Como disse o anonimo, à medida que as megalópoles crescem, vai ser inevitável que surjam outros centros. O velho modelo da cidade com um centro só, que exige que sua população toda faça os mesmos trajetos para ter acesso aos serviços, é insustentável. E transporte público de qualidade é condição primeira para uma cidade decente.

Mas nenhuma dessas duas soluções deveria ser vista como a solução. Se levarmos ao extremo a ideia do anonimo, o que teremos é uma cidade espalhada, sem centro, sem alma, sem pontos de encontro por onde todo mundo passa, onde a vida acontece e a cultura se enriquece. Um arquipélago de ilhas individualistas no qual ninguém se encontra por acaso.

Se, ao contrário, formos até o fim no modo de ver do Tiago, o resultado é uma cidade massificada, sem espaço para individualidades, para quem quer se mover do seu jeito. A cidade do anonimo me lembrou Los Angeles, a do Tiago me fez pensar em Hong Kong.

Transporte coletivo decente e acesso a comércio e serviços perto de casa são dois componentes importantes das cidades sustentáveis do futuro, mas não podem ser os únicos. Está cada vez mais claro que o caminho a seguir – não só quando o assunto é cidade e transporte – é o da diversidade de opções. Não dá para apostar todas as fichas numa ideia, temos que fugir dos modos monolíticos de pensar. Hoje, somos reféns de uma hegemonia desse tipo: a cidade é inteirinha refém dos carros. No futuro, precisamos escapar da armadilha de achar que uma solução só é boa para todo mundo.