A reinvenção do carro

Uma coisa ficou clara depois do fatídico ano de 2008, quando o sistema financeiro mundial derreteu e o mundo todo sentiu, mais do que nunca, o poder destrutivo do aquecimento global: precisamos reinventar o mundo. Precisamos aprender a pensar diferente. Não dá mais, por exemplo, para dependermos de um objeto de uma tonelada para transportar nossos esbeltos corpinhos de 70 quilos. Ainda mais se considerarmos que o tal monstrengo de metal passa 90% de seu tempo, em média, estacionado. Nossas cidades são todas construídas para acomodar carros, mas carros são uma tecnologia ridiculamente ineficiente e burra.

Um dos sujeitos mais interessantes se dedicando a resolver esse problema é um arquiteto visionário de dread locks na cabeça chamado Mitchell Joachim, que mencionei num post anterior. Joachim é pesquisador da novaiorquina Universidade Columbia e sócio de um escritório de design ecológico chamado Terreform 1. Basicamente ele se dedica a reinventar as cidades com um monte de idéias interessantes. A mais legal delas é inverter essa lógica: em vez de construir as cidades em função dos carros, vamos inventar um novo carro em função das cidades.

Foi partindo daí que ele chegou ao City Car, um carrinho de neoprene e outros materiais moles que se encaixa no da frente como carrinho de supermercado e que usa um sistema de navegação que parece mais com a internet do que com as avenidas de hoje. O motorista do City Car tem uma tela onde vê a posição exata dos City Cars de seus amigos, e pode se comunicar com eles como se fosse por um Messenger móvel. A tela informa também onde há lugares disponíveis para estacionar e permite que você reserve uma vaga online.

Além disso, o carrinho navega pelo trânsito de um jeito muito mais eficiente do que nossos arcaicos gigantes de aço. Se as cidades tivessem só carros assim, ninguém teria que parar no sinal vermelho, por exemplo. Num cruzamento, o trânsito das vias iria apenas se misturar em baixa velocidade, e seguir em frente, já que o sistema de navegação impediria batidas.

A idéia de trocar nossas frotas de dinossauros por esses carrinhos fofos pode soar um imenso absurdo. Afinal, nossa economia depende em grande medida das indústrias de metais, de automóveis, do petróleo. Mas, se você pensar bem, lances visionários como esse podem ser o melhor jeito de nos tirar do buraco. Se as nações decidissem proibir os velhos carros e dar um prazo para substituir suas frotas inteiras, surgiria uma nova economia de uma hora para outra, baseada em inovação e em sustentabilidade. Verdade que as indústrias que não se adaptassem provavelmente quebrariam, e elas já vão tarde. No lugar delas, um monte de outras surgiriam para suprir a demanda imensa da substituição compulsória da frota. E nasceriam cidades muito mais seguras, menos poluídas e, não menos importante, mais divertidas. Um ótimo exemplo de como podemos aproveitar as crises que nos sufocam para mudar o mundo.

Foto: divulgação

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9 comentários
  1. anonimo disse:

    Mais do que se preocupar em encontrar soluções para deslocar as pessoas nessas megalópolis, o mais eficiente é buscar soluções para as pessoas não precisarem se deslocar tanto. Descentralizar os centros e incentivar os chamados “centrinhos” espalhados pelas cidades (incentivos, infraestrutura, segurança, …). Incentivar os home offices (fibras óticas, bandas largas com custo menor, WiMAX, video conferências, …). Grandes centros de lazer (Cinemas Digitais, Imax, Teatros, Casas de show, Game Centers, Bares, Choperias, …) nos “centrinhos” espalhados. Em vez de poucos hipermercados, vários “médiomercados”. Em vez de megastores, “lojas mostruários” para o cliente testar e escolher, e a loja entrega o produto em 24 horas ou com hora marcada. Mais parques com estrutura (wc’s, restaurantes, lanchonete, ciclovias, lagos, …).

  2. Pedro disse:

    Adorei a ideia. Na verdade, vc encontra um monte de carros “pititicos” em Roma e Napoli. E um grande engano achar que o ser humano va trocar, sem qq incentivo, o conforto do transporte individual pelo transporte coletivo. E, pelo que tenho lido, este carrinho nem precisa ser sua propriedade. Vc pode pagar uma taxinha e pegar qq um e sair por ai.Excelente ideia.

  3. Rômulo disse:

    Difícil dizer UMA solução. O problema de urbanismos exige uma abordagem multifacetada onde, sem dúvida, o uso de veículos como estes poderia ajudar. Mas achar que só isso basta é ignorar a complexidade das cidades.

  4. anonimo disse:

    Esses carrinhos me lembram os que eu vi no desenho WALL-E (Pixar/Disney) e que transportavam aqueles passageiros obesos com pernas atrofiadas.

  5. Tiago disse:

    A alternativa viável para o transporte individual é o transporte coletivo, não um carrinho ecologicamente correto que ocupa pouco espaço. Se cada cidadão tiver acesso a um carrinho destes, os congestionamentos vão existir do mesmo jeito.As soluções para o transporte de massa são inúmeras, basta encontrar o melhor sistema que seja adequado a cada cidade.

  6. Denis RB disse:

    Pois é, Luis Marcelo. Os carros parecem modernos, mas são uma tecnologia arcaica. É como se, em vez de ipods, usássemos hoje gramofones com visor de plasma movidos por uma manivela de fibra de carbono.

  7. Luis Marcelo disse:

    É interessante observar que a evolução dos carros se dá principalmente no seu exterior. Pegue somente o chassis, motor e suspensão de vários carros, desde o começo de sua produção até hoje e a gente percebe que muito pouco mudou. O que entrou em cena foram os acessórios. A tecnologia envolvida na criação dos carros é realmente ultrapassada, sendo apenas requentada e maquiada a cada lançamento, mas nada muda no conceito em si. Acho muito válida a idéia dos carros pequenos e compartilhados, seria uma forma mais madura de utilizarmos este “objeto”, do que da forma glorificada e egocêntrica que vemos hoje.

  8. Bóris Korlosviski disse:

    Tunny,acho que a vida seria bem melhor. Bóris

  9. Willber disse:

    Por que alguém trocaria seu SUV por uma coisa como essa aí?

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