#CIDADES#Este blog recicla


Já que falamos esta semana sobre modelos de cidades, me deu vontade de republicar este texto que escrevi originalmente para minha coluna na revista Vida Simples, em janeiro de 2008.

Viver na cidade
Estamos tão acostumados com a vida urbana que achamos que ela é normal. Mas não é.

Ao contrário das formigas e das abelhas, os seres humanos geralmente vivem em grupos pequenos, familiares, bem isolados uns dos outros. E aí você pergunta: como assim? E as cidades? E as metrópoles ao redor do mundo, uma mais imensa que a outra, aquelas enormes manchas de eletricidade visíveis do espaço onde milhões de pessoas se amontoam umas nas outras? Ora bolas, as cidades. Cidades são exceções na história humana. Desde que o primeiro humano pisou a Terra num canto esquecido da África, 100 mil anos atrás, a enorme maioria dos Homo sapiens viveu na roça, no mato, no campo. A enorme maioria das pessoas que já existiram teve uma existência rural ou selvagem e viveu a vida produzindo sua comida, dormindo e acordando ao sabor da luz do sol, convivendo com apenas um punhado de pessoas, sempre as mesmas, a vida inteira.

O ser humano é, como regra, uma espécie rural. Foi só nos últimos milênios que descobrimos o conforto de viver numa cidade. E, mesmo então, gente "da cidade", como eu e muito provavelmente você, sempre fomos uma exceção nesta nossa espécie rural. Sempre fomos minoria. Na verdade, ao longo de dezenas de milhares de anos, a população urbana nunca passou de um terço do total de pessoas. Em 1950, ela era de 30%. Mas, de lá para cá, ela não parou de aumentar. A ONU calcula que, depois de 100 mil anos de maioria rural, a população urbana chegou a 50% em maio de 2007. E agora, pela primeira vez desde o Big Bang, somos maioria. Há mais gente vivendo em cidades que no campo neste mundão. Mas isso não apaga o fato de que somos uma espécie mais dada à vida rural que à urbana.

A evolução nos construiu para plantar, capinar, colher, caçar, fofocar, coçar o dedão. Não para googlar, dirigir e falar no celular – isso aí ainda estamos aprendendo. Nossa vida tecnológica e urbana é uma raridade na história da humanidade. Mesmo assim, é nas cidades que os lances mais emocionantes da história humana acontecem. É que cidades são lugares incríveis. Nelas, as coisas ficam perto umas das outras. As pessoas ficam perto umas das outras. Isso permite que tenhamos vidas riquíssimas, que seriam impossíveis num meio de mato.

Podemos aprender com milhares de pessoas diferentes, circular entre culturas, trocar idéias. Podemos mudar de interesses um trilhão de vezes, em vez de passar décadas submetidos ao mesmo monótono calendário ditado pelas estações do ano, que determinam o plantio e a colheita. Tudo isso é fascinante.

Mas não faz sentido viver numa cidade se não formos aproveitar o que ela tem de bom. Se formos nos trancar em nossas casas, e não andarmos nas ruas, não vamos encontrar os outros, aprender com eles. Se nos dispersarmos com a quantidade de informação, não vamos nos concentrar em nada, e o que a cidade tem de fantástico vira ruído. Se formos nos domesticar por um empreguinho e nos acomodarmos com o fato de que precisamos do salário, toda essa riqueza desaparece de nossas vidas. Se entupirmos as ruas com carros e lixo, com câmeras de segurança e muros, aí ninguém se encontra, ninguém troca. E a cidade não serve para nada.

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15 comentários
  1. Paulo disse:

    As vezes sinto saudade de coisas que não fazem parte da minha vida, mais ligadas a natureza e a vida rural. Lembranças do que não vivi.Belo texto!

  2. Denis RB disse:

    Oi Fábio, a Super marcou minha juventude também. Com rugas. 😉 abs a todos, valeu!

  3. Diêgo Cesar disse:

    É isso mesmo: somos bichos do mato, por natureza, ainda aprendendo sobre toda essa modernidade que vem nos cercando – mas acho que a mairoria de nós já se acostumou ao caos… Gostei do texto. Belo blog.

  4. juliana disse:

    o último parágrafo resume-se em: saber viver, ter liberdade!de fato, o ser humano deixa de lado suas origens, negando-as isso com certeza é devido a globalização que vem, justamente, para deletar isso da mente humando, substituindo por ilusões.

  5. Fábio disse:

    Incrível, Denis. Parabéns pelo texto, reflexivo e inteligente. Acompanhei o seu trabalho na época em que assinava a Super, uma daquelas revistas que marcaram minha juventude e estilo textual — já que hoje sou jornalista — e é muito bom saber que você está com um blog que traz como proposta a importante tarefa de repensar nossas vidas e o mundo. Vou acessar sempre que puder.Abraço,Fábio

  6. Zanine Tomé disse:

    Muito bom.Por isso que muitos países investem na construção de praças, parques; ambientes de socialização, já que na cidade moderna tudo parece convergir para o “desencontro”.

  7. Mauricio D R Paniza disse:

    Infelizmente poucas pessoas têm essa visão… E assim se passam os anos: doenças, stress, falta de qualidade de vida. E nunca ninguém admite sua própria culpa. Estilo de vida é individual mas responsabilidade ambiental e social, não!

  8. Laertes Rebelo disse:

    Esta visão urbana é um reflexo de nossa formação social, influencia-da pelo modelo político que seduz o ser humano como uma lâmpada atrai os insetos. Este é um fenômeno flagrado até literatura, onde os grandes clássicos são geralmente ambientados no espaço urbano. Não é por acaso que Machado de Assis sempre foi mais lido que Guimarães Rosa ou Euclides da Cunha. A vida na cidade é muito mais espetacular que no meio rural. No entanto, isso não quer dizer que este seja um processo irreversível.

  9. Denis RB disse:

    Letícia, temos tão pouca coleta seletiva porque pouca gente dá importância para isso no Brasil. Para comparar: morei em San Francisco, nos EUA, ano passado. Além de coleta de lixo reciclável, havia lá coleta de lixo orgânico para compostagem. E eles estão implantando uma multa para quem não separa. Lixo, lixo mesmo, produzia-se quase nenhum.

  10. Letícia disse:

    Denis, vc conseguiria tirar uma dúvida minha? Porque será que ainda não temos (ou temos poucos) caminhões de lixo que passam para buscar na porta de casa, o lixo reciclável?! Eu preciso ir até o Pão de Açucar com aquele monte de garrafa, latinha, caixa de sucrilhos, leite e suco… para poder fazer a minha parte. Por mim tudo bem! Quem não tem muita paciência é meu namorado… rsPorque será que ainda não tiveram essa iniciativa?! E quem não tem um posto por perto… como faz?Bjos

  11. anonimo disse:

    Concordo com o texto. Mas para tornar isso uma realidade temos uma preocupação até maior que o lixo que produzimos aqui em Sampa: Segurança.

  12. Euzivan lemos disse:

    Caro Denis Russo, muito imaginativo o seu comentário, legal para uma aula de geografia urbana conteporânea. O geógrafo Milton Santos in memorian iria gostar da sua análise. Recomendo a leitura de um dos seus livros “Metamorfose do Espaço Habitado”. Saudações.

  13. izabel disse:

    Imagine o que é convencer um condominio a reciclar o lixo e quando todos resolvem colaborar vem a notícia de que os caminhões da ECoUrbis que faziam a coleta não mais passarão. Não é de chorar uma noticia dessas? Explicação: a crise!!!

  14. J.Vital disse:

    “Ao contrário das formigas e das abelhas, os seres humanos geralmente vivem em grupos pequenos, familiares, bem isolados uns dos outros”. Prezado Denis: mesmo vivendo em cidades “megalopolitanas” os seres humanos continuam vivendo em pequenos grupos. Isolados uns dos outros e que só se juntam aparentemente. Até mesmo num desfile de Carnaval onde milhões podem ser observados “juntos” pode ser visto essa divisão. O fato de não viver mais em áreas agrícolas pode ser explicado pela produtividade atual onde apenas entre quatro e seis por cento de pessoas podem produzir todo o alimento e matéria prima que o restante necessita para viver confortavelmente, “coçando” as partes intimas, diante da TV ou coisa semelhante. Mas esse assunto merece ser aprofundado. Diz respeito ao “novo” modo de organização que está para pintar no Planeta. Quem sobreviver verá.

  15. Rambo disse:

    Excelente sintese… estou virando teu fã!

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