#ECONOMIA#A mágica da classe média


Eu passei o ano passado fora do Brasil, morando na Califórnia. Quando voltei, fiquei abismado com o tanto que o país mudou. Parecia para mim meio mágica, meio inexplicável. De uma hora para outra, dezenas de milhões de pessoas saíram da pobreza e o Brasil, que desde sempre foi dividido entre ricos e pobres (lembra da história do "país mais desigual do mundo"?) de repente virou um país de classe média. Como é que isso foi acontecer? Finalmente encontrei uma resposta, lendo a revista inglesa The Economist da semana passada, que trouxe um excelente dossiê sobre as novas classes médias dos países emergentes.

O que descobri é que esse "surto" de classe média não é mágico nem inexplicável. É pura estatística. E é comum na história. Algo parecido aconteceu no século 19 na Inglaterra e nos Estados Unidos. E de novo a partir dos anos 50 na Europa e América do Norte. E está acontecendo agora mesmo na China e na Índia. Em nenhum desses casos, o crescimento da classe média é lento e gradual. É sempre assim, de repente, de uma hora para outra, transformando a sociedade.

O gráfico acima, que é típico desses casos, ajuda a entender por quê. Ele retrata a distribuição de renda da China em 1980, 1995 e 2008. A linha vertical vermelha representa o limite a partir do qual se ingressa na classe média. Como o gráfico tem essa forma de sino de cabeça para baixo, fundo no meio e baixinho nas bordas, é de se esperar que haja um aumento súbito nos números quando o meio do sino passa a linha vermelha. No caso deste gráfico, por exemplo, note como a classe média chinesa (pintada de azul claro), que era algo como zero em 1980, de repente domina a maior parte da população (a classe média chinesa passou de 15% para 62% entre 1990 e 2005).

Graças a esse surto atual, a classe média pela primeira vez alcançou metade da população mundial. Isso é revolucionário – menos de 10% da população do mundo era classe média em 1900, e em 1980 era algo como um terço do mundo.

Classe média consome. E é em grande parte por causa do consumo da classe média – especialmente nos Estados Unidos e na Europa – que o mundo está nesse apuro de aquecimento global e tal e coisa. Se você pegar essa multidão de bilhões de pessoas nos países emergentes que agora estão ingressando na classe média e der a eles padrões americanos de consumo, baubau. A vaca, que já está pastando no brejo, vai atolar de vez.

Mas será que precisa ser assim? O dossiê da Economist menciona também o incrível potencial transformador da classe média. Justamente porque consome tanto, essas pessoas têm o poder de mudar a lógica de uma sociedade, usando seu dinheiro como incentivo. A história tem exemplos disso. O melhor deles é do século 19, quando ocorreu o primeiro grande surto de classe média do mundo e pela primeira vez países como Inglaterra e EUA tiveram algo que pode ser chamado de "classe média de massa". Esse movimento acabou pressionando quem mandava nesses países a criar uma sociedade mais justa, mais igualitária. Graças a ele, ganhamos a democracia moderna e consolidamos a idéia de direitos humanos. O que precisamos, agora, é que algo parecido ocorra. Que aproveitemos o impulso de consumo dessas novas classes médias para bancar a criação de uma sociedade sustentável. É nossa única chance.

Paro aqui antes que meu post vire um livro, mas quero voltar a discutir na semana que vem a importância das novas classes médias dos países emergentes para a sustentabilidade do planeta. Como sempre, sinta-se muito bem vindo para dar ideias que me ajudem a abordar o assunto.

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9 comentários
  1. George disse:

    Interessante…porém com alguns pontos de atenção. O primeiro é a “linha vermelha” do gráfico: ela é traçada com base no ganho anual per capita. Indica “quanto se ganha”, mas não “como se gasta”. O segundo ponto é a diferença entre a motivação das classes médias americana e britânica no século XIX e a motivação das classes médias atuais dos países emergentes. Creio que, principalmente por questões culturais ligadas à Educação, o potencial de impacto positivo das classes médias ainda está distante. Educação é o que fará a diferença e trata-se de um caso de urgência. Contem comigo para comentários futuros sobre Educação para o Desenvolvimento Sustentável.

  2. anonimo disse:

    Mas classe média em crescimento também pode ser um problema: aumento na produção de bens de consumo, do uso da gasolina, do consumo de carne, da necessidade de mais energia elétrica, etc.

  3. anonimo disse:

    A pobreza não salva o mundo do aquecimento global, basta ver as consequências: muitos filhos, carros velhos e poluidores, fogões a lenha ou carvão, eletrodomésticos ineficientes que desperdiçam a energia elétrica, geladeiras velhas com o isolamento térmico ruim, agricultura ineficiente com queimadas e desmatamentos desnecessários, esgoto sem tratamento, etc.

  4. Rômulo disse:

    Ou seja, mais do que nunca é necessário mudar hábitos e costumes. Sobretudo que no que tange ao ‘consumismo’.

  5. Helio R. Araújo disse:

    Se não trabalharmos bem a classe média, teremos um problema com a sustentabilidade do planeta. Cada vez mais as questões passam do individual para o coletivo. Educando a classe média, poderemos fazer com que ações simples do cotidiano, sejam sustentáveis do ponto de vista global.Hélio R. Araújo Imperatriz-MA

  6. Zem_Dhor disse:

    A curva mais importante não é a de renda. É a curva de discernimento. Pelo que é possível enxergar em meio ao denso fumeiro de mentiras, o sistema econômico vigente tem seu pilar mestre apoiado exatamente no consumo por emoção.

  7. Andrea Vasconcelos disse:

    Ótimo blog! Estamos curtindo e acompanhando novamente seus posts, parabéns pelo trabalho! Bjs Dea.

  8. daniel disse:

    percebo que a classe média pressiona mudanças sim, mas sempre em direção contrária à idéia de igualitarismo. a classe que consome prefere pagar por educação do que exigir ensino público de qualidade, por exemplo. o mesmo ocorre com o sistema de saúde.a classe média vira as costas para o Estado e para as discussões que envolvam aqueles que não eles.

  9. Luiz disse:

    Excelente post, mas a pergunta que me intriga é: como paises com estruturas, recursos naturais, recursos humanos e historicos de politicas macroeconomicas tao diferentes como Brasil, China e India chegam ao mesmo tempo no mesmo lugar? O que realmente faz com que o sino invertido se desloque para a direita?

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