#BICICLETA#Brinquedo ou transporte?


Ganhei minha primeira bicicleta, uma berlineta vermelha com rodinhas
laterais, de presente de Natal dos meus pais. Não lembro quantos anos
eu tinha, mas não deviam ser muitos, porque lembro bem que meu forévis
não alcançava o selim da dita cuja. (Lembro também das palmas das mãos
raladas três dias depois, quando meu pai me convenceu a tirar as
rodinhas e tomei meu primeiro tombo – primeiro de muitos, diga-se.)

Na época, bicicleta, para mim, era um brinquedo. Brinquedo, como bola,
videogame, playmobil, quebra-cabeças, uma daquelas coisas que se ganha
de Natal ou aniversário e que ficam guardadas em casa a espera de um
fim de semana ou das férias. Foi só muitos anos depois que vi um amigo
meu, o Joaquim, usar a bicicleta dele para ir à escola. Já estávamos lá
pela 8a série ou algo assim. Invejoso, imitei o Joaquim e
comecei a ir pedalando para a aula (uma pesadíssima cruiser já tinha
substituído a berlineta). No primeiro dia em que fiz isso, cheguei cedo
demais. Ao contrário do que eu imaginava, ir de bicicleta para a escola
levava menos tempo do que ir de carro (11 contra 7 minutos, para você
ver o tipo de informação inútil que nossa memória é capaz de guardar).

Bicicleta, para mim, passou a ser meio de transporte, e continuou sendo
ao longo dos anos seguintes. Eu ia pedalando à universidade. Eu ia
pedalando à Editora Abril, que 10 anos atrás não tinha nem um rack para
eu prender a bichinha (hoje tem vaga para umas 30 bicicletas, e vive
cheio). Naquela época, bicicleta era, para mim, um meio de trasnporte
apenas para distâncias curtas – 1, 2, 5, 10 quilômetros, não mais do
que isso.

Aí arrumei uma namorada que não sabia andar de bicicleta. Fui ensinar.
Pedalamos um pouquinho no bairro, ela adorou. Pedalamos um pouquinho na
estrada, ela curtiu mais ainda. E, no afã de impressionar uma mulher
(que é a força que faz o mundo girar), quando vi, estávamos fazendo
viagens de 800 quilômetros juntos. Bicicleta é meio de transporte.

É um meio de transporte bem bom. É pior que carro em alguns aspectos.
Por exemplo: quando chove você se molha. Mas é muito melhor em outros.
Para citar alguns: vento na cara, contato mais íntimo com a cidade, não
gasta gasolina, exercita as pernas, não agrava o aquecimento global, é
mais fácil de estacionar, navega melhor no trânsito, não transforma
cidadãos normais em psicopatas etc.

Tem muita gente que diz que a hipótese de trocar carros por bicicletas
é irreal, é doideira. Com esse trânsito? Moro longe! Não tem ciclovia!
Vou chegar suado! Tudo desculpa. Ao longo dos anos, tenho orgulho de
ter influenciado dezenas de pessoas a trocarem seus carros por
bicicletas. No começo, todos costumam resistir e usar essas
desculpinhas. Até que entram em forma e descobrem o prazer de pedalar
pela cidade. Ou melhor, redescobrem esse prazer, já que a maioria de
nós já é ciclista. Só que a gente acreditou na balela preguiçosa de que
bicicleta é brinquedo e não transporte, e largou as magrelas quando
cresceu.

Foto: eu posando minha esposa na Patagônia, Chile – uso livre com crédito (CC) para Joana Amador 

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18 comentários
  1. Denis RB disse:

    Eloise, você tem razão. Muito do que chamei de “desculpinhas” são problemas reais. Desculpe, às vezes me empolgo. Mas não quer dizer que não tenham solução. Com criatividade, é possível achar um chuveiro, como fez a Danielle. E a história de coisas a fazer pelo caminho fica até mais fácil com bicicleta. Verdade que levar o filho na escola é mais complicado. Mas, quando eu morava na Califórnia, via muita gente rebocando trailers com crianças. Quem pedala sozinho tem muito mais flexibilidade para parar pelo caminho na farmácia, mercado, padaria, sem se preocupar em estacionar. Basta instalar um rack traseiro e usar alforges para transportar as compras.

  2. Juju disse:

    Dênis! Falou e disse! Bicicleta é diversão e meio de transporte.Se nossa prefeitura finalmente inaugurasse a ciclovia da marginal, da guarapiranga e tantas outras que estão no papel aconteceria um milagre, o fim do trânsito em São Paulo.Vejo cada vez mais bicicletas na rua e acho que este processo será inevitável.Imagine que delícia morar em uma cidade cheia de bicicletas ao invés de cheia de carros e caminhões…o silêncio…o ar puro…Chegaremos lá!Parabén pelo blog!beijuju

  3. Rafael Reinehr disse:

    Denis, estou andando de bicicleta (depois de vários anos só utilizando carro) há pouco mais de um mês (aqui um relato parcial da experiência: http://reinehr.org/ecologia/bicicletas-ciclismo-e-aventura/18-dias-de-pedalada), vou ao trabalho com ela nas segundas, quartas e sextas e no fim-de-semana dou uma pedalada com minha esposa ou amigos. Te digo: já não consigo mais voltar atrás. Durante muito tempo precisei do carro (precisava fazer cerca de 3000km/mês pois trabalhava em várias cidades). Hoje, vida melhor organizada, aderimos ao ovolactovegetarianismo, deixamos o carro em casa com frequência e valorizamos a agricultura orgânica e local além de uma série de outras medidas “sustentáveis”. E o melhor disso tudo: me sinto cada vez melhor e sei que meus filhos vão crescer em um ambiente familiar bem mais saudável. Abraço fraterno.

  4. Marcio disse:

    Excelente artigo. Não sou ciclista, mas a idéia de trocar o carro pela bicicleta me agrade muito, principalmente para trabalhar. No rol dessas ‘desculpinhas’, tenho uma que me deixa mais cabreiro: preciso trabalhar de roupa social. no prédio onde trabalho não há sequer um banheiro onde tomar banho. como vou pedalar cerca de 7km no sol escaldante de brasilia ou sob chuva e trabalhar bem vestido?

  5. Biba disse:

    Dê, voce tinha 3 anos quando nós te demos a berlineta vermelha, que horror! Vc era totalmente irresponsável, saia pedalando, achando lindo, e a gente que saísse da frente! Espero sinceramente que agora vc pedale com mais cuidado!

  6. Clecyo Alberto disse:

    Excelente este seu relato. Efetivamente, precisamos promover mais mudanças para ampliar a presença da bicicleta nas ruas como uma alternativa inteligente de transporte.

  7. Eloise disse:

    Mas como chegar suada ao trabalho e passar o dia sem poder tomar um banho? Como evitar os atropelamentos no trânsito maluco de São Paulo? Onde carregar a bolsa e a mochila da academia? E a roupa social de trabalho acompanhada, em geral, do salto alto? E, para as super-mulheres, como conciliar a bicicleta com tudo o que aproveitamos para fazer no caminho do trabalho como levar o filho para o inglês e colégio, fazer compras de mercado, padaria, farmácia? Adoraria trocar o carro pela bicicleta, mas os motivos acima são reais e não saberia como contorná-los.

  8. Denis RB disse:

    Marcio, Sei bem do que você está falando. A Abril mesmo nunca teve espaço para tomar banho, o que me obrigou a negociar um “plano-chuveiro” com uma academia de ginástica. Aí os ciclistas da empresa se juntaram para pedir melhores condições. E eles toparam na hora! Claro que a Abril é uma empresa grande, com muitos ciclistas… Mas quem sabe você não arruma uma solução conversando com a empresa? abs!

  9. Tiago disse:

    Sem dúvida a bicicleta é uma ótima opção para curtas distâncias e desde que possua vias exclusivas para circular.Mas nas longas distâncias deve-se oferecer opções de transporte automatizado: metrôs, ônibus, trens, veículos elétricos inteligentes públicos, etc.O que acho importante é tirar do ser humano a decisão de colocar o carro nas ruas, deixar que um computador faça isto, baseando-se em critérios de disponibilidade de espaço, prováveis congestionamentos, etc.

  10. Danielle disse:

    Ao Marcio e aos demais que gostariam de ir de bicicleta para o trabalho: em 2007, antes de vir para os EUA, eu trabalhava no Unibanco AIG, e morava perto do OBA, na Corifeu. Passei a ir de bicicleta para a AIG. Foi uma tremenda negociacao, porque eles nao tinham (nao sei se tem agora) lugar para bicicleta, depois de muita conversa me deixaram usar a parte da frente da vaga de deficientes fisicos, porque tinha uns canos que eu poderia colocar o cadeado na bicicleta, sem atrapalhar o carro.Quanto ao banho: eu tambem trabalhava de roupa social, e olha que mulher eh mais fresca com esse negocio de suor que homem. Eu usava o banheiro dos funcionarios, e tomava um “banho de gato”, com toalhinha e agua… Funciona! Meu marido, que eh do sul do Chile, disse na epoca que em epocas de muito frio era como as pessoas por la tomavam seu banho, e realmente nao tenho nada a reclamar.Agora, a unica coisa que tenho a reclamar era a falta de respeito dos motoristas de onibus com ciclista. Tanto na Corifeu quanto na Vital Brasil, era de se ficar com o coracao na mao, tamanha as fechadas que eles davam em mim. Tinha que usar a calcada algumas vezes, o que nao eh legal com os pedestres, mas poupava a minha vida.A questao eh que minha chefe curtia horrores, morria de rir com essa historia de ir de bicicleta. E perdi uns quilinhos nessa.Abs, Danielle

  11. giovanni disse:

    há muitos anos parei de fumar e duas amigas apareceram em meu apto, para bater papo. tinha parado de fumar fazia 3 dias no aeroanta. bom, conversa vai e vem as duas antes de irem embora perguntaram o que iria fazer no dia seguinte, sabado, disse qualquer coisa e perguntei o que elas iriam fazer e disseram, passear de bike por sampa. não deu outra fui ao mappin e comprei uma caloi cruiser amarela e comecei, nunca mais parei, andei muito à noite , de madrugada, viajei, participei de campeonato de mountain bike e por ai fui. ganhei saúde, muita saúde. quem puder faça que é uma boa .

  12. Marcio disse:

    Denis, Danielle, obrigado pelas dicas. Felizmente aqui em Brasília, no trajeto que devo percorrer de casa ao trabalho, há muita área verde (quando não estamos na seca, claro) e calçadas sem movimento de pedestre, o que me permite guiar fora das vias do trânsito. Uma vantagem! Quanto ao banho, ainda é uma coisa para me preocupar. De qualquer maneira, as idéias são ótimas! Um abraço a todos.

  13. Stefano disse:

    Eu vou trabalhar de bicicleta.Agora, essas viagens mais longas devem ser demais. É alto o custo?Valeu!

  14. Gaúcho disse:

    Infelismente meu texto saiu todo errado, você pode por gentileza exclui-lo para que eu possa envia-lo novamente? Grato Gaúcho

  15. Lucinei (Gaúcho) disse:

    Moro em Brasília há 12 anos e meu meio de transporte, lazer, terapia etc.. é a bicicleta, rodo em média 500 km por semana, e afirmo para que é perfeitamente possível conviver com os carros. Mas é essencial conhecer as regras de trânsito, bicicleta é um veículo e como tal deve parar no sinal vermelho, para na faixa do pedestre, nuuuunccca andar na contra-mão, jamais andar em cima de calçadas, se queremos o respeito dos motoristas precisamos respeitar os pedestres.Convém lembrar que bicicleta não tem sinalizadores de direção, então nossos braços viram setas, vou para a esquerda sinalizo com a mão esquerda, vou para a direita sinalizo com a mão direita e por ai vai, algum sedentário pode dizer “ os motoristas não sabem o que significa o movimento de braço”, até concordo masssssssss eles vão ficar atentos pois sabe que o ciclista vai fazer alguma coisa e de maneira instintiva o motorista vai ficar com o pé mais próximo do freio.E por último convém lembrar que nunca devemos andar sem os equipamentos básicos de segurança, capacete, luvas, roupa colorida (sim colorida mesmo) para facilitar a visualização, bicicleta com lanterna dianteira e traseira. Tudo que escrevi é o que faço todo santo dia nas ruas e trilhas de Brasília, uma cidade grande com todos os problemas de trânsito das outras cidades grande, nunca sofri acidente, já tomei alguns sustos mas acidente grave nenhum.Faço parte de dois grupos de ciclistas que somam mais de 4000 bicicletas, quem quiser conhece-los entre nestes sites http://www.pedalnoturnodf.com.br e http://www.rebasdocerrado.com.br, são dois grupos cujo a principal finalidade é colocar sedentário para rodar e descobrir o verdadeiro significada da palavra “VIDA” E Denis parabéns, finalmente descobri alguém no meio jornalístico que fala sobre bicicleta e demonstra conhecimento de causa. E Marcio deixa as calçadas para os pedestres merrrrrmãoGaúcho

  16. Denis RB disse:

    Oi Gaúcho, desculpe, essa ferramenta de blog é cheia de bugs (paciência, vamos trocar pelo WordPress no final do mês). Me manda por email e substituo o texto, ok? abraço!

  17. anonimo disse:

    Trabalhei e estudei em NY e Kyoto e a bicicleta era o meu meio de transporte. Porém, em ambas as cidades eu tinha poucas ladeiras para vencer e motoristas mais conscientes.

  18. roberto luis stulp disse:

    Sou eletrecista de carros, mas defendo uma bicicleta como nunca. Sou ciclista a mais de 20 anos, e defendo a ideia das pessoas irem ao trabalho de bicicleta.

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