#DROGAS#Quanto tempo mais?

Cem anos atrás, em 26 de fevereiro de 1909, um grupo de diplomatas de 34 países se reuniu na China para a Comissão Internacional do Ópio e decidiu que essa droga tão nociva tinha que ser proibida no mundo inteiro. Começava ali a era da proibição das drogas. Até aquele dia, não existiam "drogas ilegais". Maconha se comprava em armazéns na África, na Índia e no Rio de Janeiro. Cocaína era produzida pela Bayer e, assim como aspirina, vendida na farmácia.

Oitenta anos depois, em janeiro de 1989, a revista conservadora The Economist surpreendeu seus admiradores com uma reportagem pedindo a legalização das drogas. O argumento da revista era difícil de contestar: depois de oito décadas de proibição e uma fortuna torrada, a utilização de drogas tinha aumentado no mundo inteiro. Nenhum país da Terra chegou sequer perto da meta da ONU de banir as drogas da sociedade. E um monte de problemas que não existiam antes surgiu com a proibição. O maior deles é que ela deixou as drogas mais caras, o que atraiu criminosos e deu origem a uma rede mundial de crime organizado, que troca drogas por armas e abastece guerrilhas e gangues urbanas em todo o planeta.

Passaram-se mais 20 anos depois dessa reportagem histórica. Agora, a Economist desta semana resolveu voltar ao assunto polêmico. Num dossiê muito bem feito, eles tentaram analisar todos os dados que surgiram entre 1989 e 2009. Um deles é a comparação entre o combate à cocaína e ao tabaco. A Economist mostrou que a combinação de regulamentação com educação está funcionando melhor que a proibição para convencer as pessoas a não fumar cigarros (o gráfico acima mostra que, hoje, um adolescente americano acha que fumar um ou dois maços de cigarro por dia é mais perigoso que cheirar pó ocasionalmente). A conclusão da revista, 20 anos depois, permanece a mesma: precisamos legalizar as drogas. "É uma solução difícil, mas um século de fracasso incontestável nos leva a concluir que vale a pena tentar".

A chamada "guerra contra as drogas" é provavelmente a mais insustentável de todas as políticas públicas do mundo. Uma política é sustentável quando ela se alimenta de si mesma – o governo investe dinheiro e, à medida que o tempo passa, menos dinheiro é necessário. A guerra contra as drogas é o contrário disso: os Estados Unidos gastaram nela 220 milhões de dólares entre 1937 e 1947, 1,5 bilhão entre 1948 e 1963, 9 bilhões entre 1964 e 1969, 76 bilhões entre 1970 e 1979, 215 bilhões entre 1980 e 1998. Quanto mais se gasta mais caro fica. É como o médico que, ao ver que o paciente não responde ao tratamento, receita uma dose maior do mesmo remédio. Enquanto isso, a coisa só piora.

O mais injusto dessa guerra é que ela pega um problema individual (os riscos ligados ao uso das drogas) e o socializa. Todos nós temos que pagar, em dinheiro ou em segurança, o altíssimo custo de manter alguns longe das drogas. Acontece que nenhum país do mundo pode simplesmente legalizar as drogas, porque há um tratado internacional da ONU impedindo isso. Por décadas, ninguém cogitou mudar esse tratado, porque era óbvio que os Estados Unidos, maiores consumidores mundiais de drogas, iriam barrar uma iniciativa assim. A chegada de Obama ao poder americano, com o discurso de que ele vai governar mais por resultados do que por ideologia, dá esperança de que esse cenário vá começar a mudar. Talvez a declaração recente de ex-presidentes latino-americanos, incluindo Fernando Henrique Cardoso, em defesa da descriminalização da maconha, seja um indício dos novos tempos.

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21 comentários
  1. Denis RB disse:

    Flavio, a Holanda tem uma política bem liberal em relação à maconha e mais dura com outras drogas. A avaliação geral é de que o modelo é muito bem sucedido. A Holanda tem um dos índices mais baixos entre países desenvolvidos de “usuários-problema”. Lá, apenas 1% dos jovens adultos cheiraram cocaína nos últimos 12 meses. A média européia é de 2,3%, enquanto na Inglaterra e nos Estados Unidos o índice é de 5,4%. Imagino que você esteja se referindo à experiência da Suíça, onde se tentou reservar uma área para usuários de drogas. Foi uma ideia muito mal sucedida, realmente. Mas não é disso que a Economist está falando. A revista não está propondo uma legalização sem restrições, mas acompanhada de muito controle, muita educação, muita regulamentação, como se dá hoje com o cigarro, com bons resultados. Trata-se de usar a inteligência contra as drogas, não a repressão.

  2. Flavio disse:

    A mais devastadora de todas as drogas, para a sociedade é o alcool, que continua liberado em todos os paises. Nem por isso seus malefícios foram minorados, apenas aprendemos (não temos outra alternativa, temos) a conviver com eles. Em Amsterdan, a lei que permitia o uso livre de drogas dentro de uma certa área da cidade, já mostrou que o efeito desse tipo de liberalização é um equivoco devastador e foi revogada.Quem é que precisa de mais drogas liberadas?

  3. Denis RB disse:

    Sisa, desculpe desapontá-la, mas a intenção é mesmo essa: mostrar que todos os assuntos são relacionados, que sustentabilidade não é apenas salvar as baleias ou as florestas. Sustentabilidade, aqui neste blog, é mais um viés para olhar para os assuntos do mundo do que um tema. É o que eu procurei dizer no ´post de estréia, e é o motivo pelo qual batizei o blog de “Sustentável é pouco”. É minha intenção ter uma grande variedade de temas aqui neste espaço, até para diferenciar de outros (ótimos) blogs ambientais. Quer algumas dicas? Olha só: http://planetasustentavel.abril.com.br/blog/

  4. Stefano disse:

    Ao contrário da Sisa, eu acho legal e mais interessante veicular outros assuntos à sustentabilidade, se ater apenas a parte ecológica já está meio batido, há vários outros blogs do tipo.Abraços!

  5. Paulo disse:

    Ah, tudo isso foi só uma forma metidinha a cool de defender o baseadinho sagrado de todo dia né. Só pra arejar a cabecinha progressista e dizer que a culpa do tráfico não é do usuário, é dos americanos, das grandes corporações, da sociedade capitalista…

  6. João disse:

    Parabéns pelo corajoso texto. Análise racional e sem paixão. Os dados mostram que a proibição não deu certo.Contra fatos não há argumentos! Cem anos errando. Insistir é burrice. PS.: a lei na Holanda não foi revogada.

  7. Leticia disse:

    Denis, parabéns pelos ótimos textos! Tenho acompanhado seus posts e concordo que o que precisa mudar no mundo é a forma como as pessoas pensam. A maior parte das pessoas não sabe como formular um pensamento próprio a partir de várias informações que recebem, e assim discernir o certo do errado. Tudo é informação! Não interessa se o assunto é o Afeganistão, o Sertão ou o que acontece no próprio Lar – é esse conjunto de idéias e vivências que forma o pensamento de cada um de nós. As pessoas precisam mudar e agir de forma consciente, responsável pela conseqüência de cada ato individual, e não se esconder atrás de instâncias superiores como regras, normas, religiões… Sobre a questão das drogas, muita gente lucra com elas, muitos governos e gente poderosa. Numa visão simplista, acho que o comércio deveria ser abolido e que cada usuário pudesse produzir em sua casa a droga para consumo próprio. Assim, não haveria lucro para outros fins e as conseqüências seriam apenas para a saúde do usuário.

  8. Darthwehmann disse:

    Não substime a voracidade e o cinismo de um burocrata! Ele quer comprar outra Reeleição?

  9. Chico Piancó Neto disse:

    Seu artigo aponta um caminho a se seguir. Também foi dito que a descriminalização deveria vir seguida de uma campanha de educação, conscientização das pessoas em relação aos riscos e malefícios das drogas consumidas. Só tenho dizer que sua iniciativa é louvável, assim como é louvável o segundo estudo da revista The Economist. Espero somente que nosso novo mandatário planetário realmente mude, faça as devidas ” changes”.

  10. Sisa disse:

    Denis, quando seu blog estreou, eu fiquei toda animadinha. Não sou tipo eco-chata que atormenta todo mundo, mas acho legal levar bolsa pro mercado, tentar usar combustíveis menos poluente, reciclar lixo, essas coisas. Só que aí você começou a misturar um monte de assunto. Pode me dizer que religião implica em sustentabilidade, pode dizer que discussão sobre drogas implica em sustentabilidade, mas se você for ver, tudo implica em tudo. Por isso que espera-se que um blog que tem um tema específico se atenha às coisas mais diretamente ligadas ao tema. Sinceramente? A gente entra no seu blog e já não tem certeza se vai ler sobre ecologia, sustentabilidade e alternativas pra preservação do planeta. Se você continua usando tudo de gancho pra “influencia”, “tem a ver” e falar dos assuntos do seu interesse, desvirtua o assunto e aí espanta quem realmente está interessado nele. Que tal manter um blog paralelo pra assuntos em geral?PS: Espero que entenda que pretendi fazer uma crítica construtiva.

  11. Leonardo Nunes disse:

    Burgierman, concordo com a Sisa. Vc está usando de simplismo e relativismo exagerado, no melhor estilo “tudo é tudo e nada é nada”. Volto a dizer, meu amigo: não pense q vai ser útil para a questão ambiental com textinhos “alto astral” e decorativos. É preciso tocar nas feridas, a coisa ambiental é política e econômica; muita gente vai perder grana se os governos passarem a respeitar o meio ambiente. Mas eu compreendo: vc trabalha numa empresa q vende revista impressa no melhor papel, um local que se identifica com o neoliberalismo. Daí vc usar tantos exemplos da Economist, a bíblia dos neoliberais. Uma pena…

  12. Jé Nogueira disse:

    Adoro o blog!

  13. Rômulo disse:

    Se a educação funcionou contra o cigarro, torna mais evidente que o caminho da simples repressão é errado.

  14. Seu Zé disse:

    PAULO, a questão não é ser cool ou progressista, a questão é que os fatos comprovam que essa política repressiva é um fracasso retumbante. É fácil desqualificar uma opinião depreciando ela. Deve haver sim um debate mais amplo e sério sobre a questão das drogas e como combatê-la com novas alternativas, já que esta que está ai não está funcionando.

  15. Leonardo Nunes disse:

    Esse “Seu Zé” está me cheirando a Burgierman… rsrs…

  16. Andrey Rodrigues disse:

    A droga foi liberada num logradouro da Holanda. O resultado foi um desastre, com um monte de viciados zumbis apodrecendo em praça pública. Libera geral, pra mim não rola. Eu não discrimino um pescador que usa a maconha pra resistir ao frio do mar. Mas sou contra a liberação para a playboyzada, para mim, principal responsável pelo tráfico e violência, pois sustenta com o dinheirinho dos pais, o ciclo vicioso.

  17. Débora disse:

    A liberação das drogas não é um assunto fácil, ainda mais para pais de adolescentes que, em sua ânsia de provar o mundo, acham que macoha não vicia e que todo mundo usa ou usou. Ora, eu nunca usei e nunca quis usar! Acredito que só há diversão de verdade quando estamos com plena consciência de nossos atos. Por isso também abomino o uso do álcool. O que deve ser combatido é esta visão do mundo atual, na qual se precisa estar entorpecido para ser legal e aceito no grupo. É cada vez mais difícil incutir bons valores nos filhos, pois a concorrência com os “amigos” é desigual.

  18. DarthWehmann disse:

    Como vivemos no mundo pós Cristão vamos enumerar as vantagens:1 – O dinheiro dos impostos;2 – Drogas são altamente nocivas, diminui a espectativa de vida e o buraco na previdência!

  19. Igor Moura disse:

    Em relação à discussão iniciada pela Sisa, gostaria de lembrar que a divisão do conhecimento em disciplinas (como várias gavetas que a gente abre e fecha de acordo com o momento) é uma estratégia puramente didática para permitir que nossas limitadas mentes consigam absorver informações. É algo muito novo, tanto que muitos dos grandes cientistas que tivemos (como Da Vinci e Darwin) não pensavam assim e não se restringiam a uma única área do conhecimento. Entretanto, como muitos têm observado, essa segregação do conhecimento não nos permite resolver os problemas que enfrentamos do nível individual (separando a igreja do bar, por exemplo) ao de humanidade (como as mudanças climáticas, desigualdade social, perda de biodiversidade), etc. Muitos já preceberam isso e uma das coisas que mais se fala nas universidades hoje é aumentar o nível de interdisciplinaridade. Assim como Denis, defendo, portanto, a expansão dos horizontes individuais para conseguirmos identificar relações lógicas entre as diversas disciplinas e resolver nossos problemas (abordagem holística) – e acho o blog muito bom justamente por causa disso. Separar políticas públicas de meio ambiente, ciência de consumo de drogas, desenvolvimento de sustentabilidade são coisas que fazemos a muito tempo… e que acho que vocês concordam que não têm dado certo.

  20. Humberto Cosentine disse:

    O meu texto sobre esse tema intitula-se “A inteligência contra as drogas”. Leiam, por favor.

    A solução está em eliminar o atrativo de ser proibida, liberando seu uso,e proibir qualquer divulgação/propaganda do uso de qualquer droga (bebida e cigarros, inclusive). Dessa forma, o dinheiro gerado pelo comércio de drogas será muito pequeno, e não haverá mais violência nem a escravidão econômica do viciado.

    A INTELIGÊNCIA CONTRA AS DROGAS

    Muitas pessoas não se conformam com o fato de que a repressão ao tráfico não consegue ser vitoriosa. A explicação é que essa vitória é impossível.

    Na história da humanidade não existe um registro sequer de que um tipo de comércio foi completamente extinto pela repressão ao mesmo. Onde tem alguém querendo comprar, aparece alguém querendo vender e alguém produzindo. E sabem por que esse esquema é indestrutível? Porque ele está embasado em um conceito fundamental, o de sobrevivência, no caso, das pessoas que vendem, produzem e também dos dependentes. E sobrevivência é impulsionada por instinto natural, o instinto de sobrevivência, que é a força mais irreprimível em qualquer ser vivo.

    Matem todos os traficantes, acabem com todas as plantações, destruam todos os grandes tubarões e eliminem todos os consumidores. Em três semanas, surgirão novas plantações, novos traficantes, novos consumidores e novos tubarões. Simplesmente não é por aí. O que fazer?

    – Objetivos a serem atingidos e sua ordem de importância:

    As drogas são usadas, com riscos sérios à saúde, por uma parcela ínfima da população, 0,5 por cento, se tanto. Já a criminalidade associada ao tráfico e ao consumo, atinge virtualmente 99 por cento da sociedade. O que atinge a maioria deve ser combatido primeiro. Portanto os objetivos a serem atingidos no combate às drogas, devem ser considerados na ordem seguinte:

    1- fazer desaparecer a extensa rede de pequenos crimes e a desestruturação pessoal dos consumidores e pequenos traficantes, em suas lutas para sustentarem seus vícios, que é no fundo a causa dos pequenos crimes.

    2- desbaratar a alta criminalidade/violência, localizada, (chacinas por disputas de pontos, assassinatos de moradores, etc.) associada ao tráfico de drogas.

    3- diminuir o consumo de drogas ao mínimo possível.

    Para atingir os objetivos 1 e 2, o fundamental é: diminuir o preço da droga, a ponto de a lucratividade desse comércio descer a níveis menos perigosos para a integridade psíquica daquele que o alfere. Uma lucratividade extrema, digamos, 2.000 por cento sobre o custo, pode levar uma pessoa a achar que já não precisa mais dos outros seres humanos para nada (vide texto 20). É o sonho da independência absoluta. Daí para achar que precisa eliminar algumas pessoas que não estão fazendo ?certo? é um passo. A pressão nesse sentido é muito forte e é por isso que a alta criminalidade associada ao comércio ilegal de drogas é tão violenta. O lucro é estonteante. A violência também tem a função de manter baixo o número de pessoas dentro desse negócio, para não diminuir o lucro.

    Se o lucro descer a níveis normais, a violência tende a desaparecer e o combate às grandes quadrilhas fica extremamente facilitado devido à drástica diminuição do poder econômico das mesmas.

    Para atingir o objetivo 1, a diminuição do preço da droga é fundamental, mas aqui, além da busca de um nível de lucratividade baixo, é preciso que o preço da droga caiba no orçamento de pessoas até mesmo humildes, que ganham pouco. Isso impede que o viciado, para poder manter o seu vício, já que a droga é extremamente cara, comece roubando objetos ou outros valores em sua própria casa, depois passe aos pequenos roubos fora de casa (por exemplo, de toca-fitas), depois largue seu trabalho honesto para praticar pequeno tráfico, depois rompa vínculos com sua família, depois aceite missões mais pesadas, como eliminação de pessoas, transportes de grandes quantidades de droga, enfrentamento direto da polícia e assim por diante.

    Ou seja, se o gasto com drogas estiver mais ou menos no nível do que se gasta para manter o vício do cigarro ou do álcool, a pessoa viciada consegue ao menos manter intactos, em sua vida, os dois pilares da recuperação futura: o trabalho honesto e o vínculo com a família.

    Para ilustrar essa tese, comparemos a situação de um viciado grave em cocaína e o de um viciado grave em xarope ou barbitúricos. Os segundos vão para a clínica de recuperação tendo mais preservados seus vínculos familiares e profissionais.

    O crack, com seu preço mais baixo do que a cocaína, embora também muito alto, não seria resultado de uma busca desesperada, inconsciente, de uma saída para a ?ciranda financeira? que tanto destrói a estrutura de vida da pessoa viciada? (Quem tenta vender crack no Rio de Janeiro é fuzilado). Se as drogas, em geral, custassem mais ou menos o que custa o cigarro, talvez um pouco mais, será que o viciado não daria preferência à cocaína e não ao crack, ou seja, preferiria a droga de menor poder destrutivo (se a opção fosse apenas entre essas duas , entenda-se)?

    Mas o fato indiscutível é que com o preço baixo, dentro dos critérios propostos aqui, toda a criminalidade associada à produção, à distribuição, à venda e ao consumo das drogas, tenderia a desaparecer (calma, já falo do resto).

    Sim, mas como atingir também o objetivo 3? Com a droga a preço de cigarro ou um pouco mais, o consumo não explodiria? Não, se ocorrer uma mudança radical e precisa na ótica do combate às drogas.

    .o.o.o.o.o.o.o.

    – Estratégia para o atingimento dos três objetivos do combate às drogas e na ordem proposta.

    Consideremos algumas afirmações:

    1- O consumo de álcool nos Estados Unidos diminuiu com o fim da Lei Seca. Durante a vigência dessa lei, além do consumo maior, tivemos a formação de uma extensa e poderosa rede de criminalidade associada à distribuição das bebidas alcoólicas.

    2- O fato de algo ser proibido atrai grupos específicos, tais como adolescentes rebeldes, pessoas que procuram excitação no perigo, pessoas autodestrutivas, etc. E usar algo proibido favorece a formação de agrupamentos com regras rígidas, códigos, ritualizações, enfim, permite a vivência intensa de um certo caráter tribal, o que também atrai grupos específicos.

    3- Reprimir faz o preço da droga subir muito. Com isso, como vimos, o viciado é levado a praticar uma série de pequenos crimes em casa e fora dela e, eventualmente, crimes mais violentos, para poder manter o vício. Isso destrói a estrutura de sua vida, o que significa a perda da chance de retornar à vida normal, além de cada vez mais representar uma ameaça à sociedade.

    4- A esmagadora maioria das pessoas não se vicia em droga alguma.

    5- A propaganda de algo que tem um atrativo qualquer para boa parte dos seres humanos, faz aumentar o consumo desse algo.

    Quem contesta essas afirmações?

    Pois vamos partir delas para chegar à proposta completa de enfrentamento do problema das drogas.

    Se reprimir cria preço alto e preço alto cria criminosos poderosos e prática de crimes pelos viciados, se reprimir cria também atração pelo proibido, o que só reforça a cadeia acima referida; e se ainda considerarmos que a esmagadora maioria das pessoas não se vicia em droga alguma, só podemos concluir inicialmente que: devemos cessar imediatamente a repressão ao comércio das drogas. Com isso teremos certamente o final da atração pelo proibido, baixo preço, enfraquecimento das quadrilhas distribuidoras, diminuição drástica do cometimento de pequenos crimes pelos viciados e preservação de parte da estrutura sadia da vida dos viciados, além de maior visibilidade e controle desse comércio.

    Como disse, …concluir inicialmente. Porque há detalhes relevantes a serem considerados. Liberação total levaria a que cenário? Pessoas se drogando nas ruas, livremente. Distribuidores comercializando seus ?produtos? em carros com alto-falantes. Aliciadores agindo livremente na porta de escolas primárias, distribuindo amostras grátis de drogas variadas, propaganda pelo rádio, televisão (se cigarro, álcool e fármacos podem, porque não cocaína, heroína, crack, maconha, etc.?)

    É isso que queremos? Claro que não. Os nossos objetivos são em primeiro e segundo lugar desbaratar a criminalidade associada ao comércio e consumo da droga, e impedir a desestruturação dos viciados. E em terceiro lugar, manter bem baixo esse consumo. No cenário descrito, a primeira parte de nossos propósitos (1 e 2) foi atingida, mas a segunda (3), não. A chave para essa questão é combater o único elemento presente tanto no cenário atual de repressão ao mundo das drogas quanto no cenário fantasioso que desenhamos de liberação total das drogas. Em uma expressão: a indução ao uso.

    Vejamos: no sistema de repressão, o fato de ser algo proibido é um poderoso indutor ao consumo de drogas, para grupos específicos, os quais foram rapidamente esboçados. O alto preço também é, de certa forma, indutor, na medida em que desestrutura a vida do viciado e contribui assim para fazer de seu vício uma viagem sem volta. Já no sistema de liberação total, a indução não ocorreria evidentemente com base na atração pelo proibido, nem pelo alto preço, mas, pela forma convencional de indução, ou seja, pelas mais variadas maneiras de divulgar, propagandear, aliciar, enfim, exatamente como o álcool e o fumo atraem tantos usuários.

    Portanto, para que o cenário fantasioso da liberação total se transforme no cenário que todos almejamos, há que se combater duramente, concentradamente, via repressão policial severa, apenas um elemento: a indução ao uso de drogas.

    Da propaganda mais maciça ao convite insistente para que alguém experimente droga, passando pelo trabalho de aliciamento, ou até mesmo a exposição pública da prática do uso de drogas, ou ainda declarações públicas a favor do uso de determinada droga, e outros modos que surgirem, tudo isso seria considerado indução ao uso de drogas e seria crime grave punido com penas pesadíssimas.

    Produzir seria tolerado, distribuir também, desde que sem formação de quadrilhas para manter controle de determinadas áreas (aqui também a polícia entraria pesado); vender no varejo também, desde que para maiores de 21 anos e sem indução de nenhuma espécie (lembrar que por essa proposta, consumir publicamente será considerado indução). Para quem discorda dessa última modalidade de indução, tente explicar por que a maior parte da publicidade para TV mostra o produto sendo utilizado. Não é porque induz ao uso?

    É isso, tolerar as drogas e condenar total e pesadamente qualquer tipo de indução ao seu uso. A coerência indica o mesmo tratamento para álcool, cigarros e fármacos. Um detalhe importante: deve-se abandonar a expressão ?liberação das drogas?, pois tem uma conotação de ?legal?, ?bacana?, ôba-ôba?. Deve-se usar as expressões ?regulamentação e controle rigoroso da venda e uso de drogas?.

    Quanto à política para baixar o preço das drogas, existe uma opção mais pragmática: ao invés de permitir a produção e a grande distribuição, poder-se-ia distribuir as drogas apreendidas pela polícia, gratuitamente, aos viciados que se cadastrassem em um serviço público de apoio a dependentes, via receita médica. Esse caminho poderia levar a resultados razoáveis na baixa do preço, na libertação do viciado em relação ao traficante e na diminuição da rede de pequenos crimes para manter o vício. Seria um bom começo. Aqui caberia um apelo, pois. Parem de queimar a droga achada nos esconderijos e comecem a utilizá-la contra o mundo do tráfico. Parem de ?queimar o excedente?e passem a utilizá-lo para fazer o preço e a violência baixarem.

    Completando esse amplo e inteligente conjunto de medidas contra as drogas, é preciso dizer que as famílias dos viciados e os viciados, receberiam apoio de alto nível da parte do governo, a fim de que tivessem como aceitar essa estratégia bastante complexa e ousada de combate ao consumo de drogas. Haveria também um amplo e eficaz programa educativo para desestimular os jovens em relação às drogas. Propostas no sentido de melhor aparelhar os jovens para suportarem melhor frustrações ou protelação na satisfação de desejos seriam bem vindas (vide texto 15). Dever-se-á manter e intensificar campanhas publicitárias inteligentes e eficazes contra o uso das drogas, dirigidas aos jovens. Haverá também que propor satisfação substitutiva do ?prazer? proporcionado pelas drogas. Jovens querem sensações fortes. Um dos caminhos para isso é criar parques em que seja possível experimentar emoções fortes com muita adrenalina envolvida (vide texto 33).

    O sistema proposto de regulamentação e controle rigoroso da venda e uso das drogas, com assistência às necessidades primárias envolvidas, poderá levar à diminuição quase completa do uso e dos malefícios das drogas.

  21. Cccius disse:

    Sou dependente quimico e sei o quanto é dificil viver com isso.Fico triste e muito quando vejo um desperdício tão grande de tempo para que possa ser legalizado algo que faz tão mau e destroi tantas vidas.Acho que o caminho do Estado é tentar promover a instalação de clínicas para tratamento de pessoas dependentes.Isso sim deveria ser discutido e legalizado.

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