#IDEIAS#Sardinhas, banqueiros e a diferença entre os sexos CAPÍTULO 1


Livro bom é Cannery Row, do John Steinbeck (que já foi lançado no Brasil com dois títulos: A Rua das Ilusões Perdidas e Caravana de Destinos). A próxima vez que te der uma vontade irresistível de assistir à novela ou de ver o BBB, em vez disso desligue a TV e pegue esse livro para ler. É sério. O livro tem um monte de personagens – pouco mais que o BBB, pouco menos que a novela –, mas ninguém lá é figurante. Todo mundo é complexo, assustadoramente verdadeiro, agressivo pacas, inconsequente e encantadoramente humano. Todo mundo dá medo. E quase todo mundo é homem. Steinbeck era machão. Este livro, como muito do que ele escreveu, glorifica a agressividade masculina e faz pouco da passividade cuidadosa das mulheres. Os homens se estrumbicam. Bebem, gastam mais do que tem, jogam, matam por impulso, fazem bosta o tempo todo. As mulheres tentam proteger, choram, sofrem, dão bronca, esperam os maridos voltarem para casa depois de dias aprontando.

Cannery Row quer dizer "rua das enlatadoras" em inglês – rua onde ficam as fábricas que enlatam sardinhas. É que o livro se passa em Monterey, Califórnia, a "Capital Mundial da Sardinha" até 1945, ano em que o livro foi publicado. Os personagens do livro são pescadores ou estão imersos na cultura dos pescadores. E a cultura dos pescadores é assim: homens ousados, apostadores, acostumados a enfrentar a morte. Mulheres  pacientes, sempre esperando, sempre se preocupando.

No ano da publicação do livro, 237 000 toneladas de sardinhas foram processadas em Monterey, um incrível recorde histórico do local, atingido depois de sucessivos aumentos anuais de produção. Foi o apogeu da cidade e da sua cultura pesqueira, retratada por Steinbeck. Mas, no ano seguinte, 1946, a produção despencou para 142 000 toneladas e, em 1947, era de apenas 31 000 toneladas, uma queda de 87% em dois anos. A indústria de sardinhas da Califórnia quebrou cataclismicamente.

Por que isso aconteceu? Basicamente porque se pescou mais e mais, e isso foi atraindo mais e mais pescadores, e as empresas foram comprando mais e mais barcos. Até que os homens começaram a pescar mais rápido do que as sardinhas eram capazes de se reproduzir e aí, de uma hora para outra, o mar ficou apinhado de barcos e deserto de sardinhas. Monterey entrou numa terrível depressão econômica da qual só se recuperou nos anos 80, com o turismo.

Agora esqueça Cannery Row e as sardinhas por um minutinho. Vamos mudar de assunto. Vamos falar da crise econômica mundial de 2008/2009 e sabe-se lá quantos anos mais. Pense em como foi que começou: investidores agressivos, quase todos homens, ignorando riscos, investindo fortunas cada vez maiores e ganhando cada vez mais dinheiro. A grana atrai mais homens agressivos até que há milhares deles pescando dinheiro, cada vez mais rápido, cada vez mais vorazmente. Um dia eles jogam as redes no mar e… elas voltam vazias. O mundo quebra.

Agora imagine o que acontece quando pescadores, com sua cultura macha de não se intimidar com riscos, viram banqueiros de investimento. Idéia absurda? Pois foi exatamente isso que aconteceu na Islândia, o país que mais vai sofrer com a crise no mundo.

Sexta-feira conto mais.

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9 comentários
  1. Stefania Fiore disse:

    Parabéns, seu blog é instigante, incentivador, de fácil entendimento e aborda um assunto de necessária atenção.

  2. alexandre monassa disse:

    Uma boa história de pescador, heim.

  3. Chico Piancó Neto disse:

    Boa analogia. Gostei da narrativa, por um instante até parecia estar no meio de um livro como o apanhador no campo de centeio, sei lá. Gostei.

  4. DarthWehmann disse:

    Fannie Mae e Freddie Mac, pesquise em sites americanos e você vai saber como a crise começou…Olhe também ACORN!

  5. Rômulo disse:

    Boa comparação. A regra ainda vale: se não for sustentável, vai dar merda.

  6. Denis RB disse:

    Papai Noel, que eu saiba, mora na Finlândia. Ou seja, ele está enfrentando um pouco melhor a crise. Já o aquecimento global…

  7. José Mario disse:

    HA HA, é verdade, nunca tinha pensado por este ponto de vista. Legal.

  8. jorji disse:

    Islândia não é a terra do papai noel? Não vamos ter um natal maravilhoso este ano com certeza, papai noel está falido.

  9. carla g. disse:

    Excelente comparação feita com o livro. Leio seu blog sempre que posso e o jeito que você escreve é ótimo, uma leitura clara que qualuqer pessoa pode ler. Parabéns

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