#IDEIAS#Sardinhas, banqueiros e a diferença entre os sexos CAPÍTULO 2


Segundo o IDH, Índice de Desenvolvimento Humano, que mede riqueza, alfabetização, educação, esperança de vida e outros indicadores econômicos e sociais, a Islândia, uma ilhotinha ao norte da Europa com população menor do que Jundiaí, é o país mais desenvolvido do mundo (os Estados Unidos são o 15o, o Brasil é o 70o, logo atrás da Albânia e à frente do Cazaquistão). Ou pelo menos era, até a explosão da crise mundial, em setembro do ano passado, quando a Islândia simplesmente quebrou. O país tinha três grandes bancos internacionais de investimentos. De repente, cada um dos três tinha dívidas maiores do que o PIB do país inteiro. Hoje calcula-se que cada homem, mulher ou criança islandês deva, per capita, 330 000 dólares. A Islândia, agora, é um dos países mais pobres do mundo. Segundo a The Economist, é, proporcionalmente ao tamanho do país, o maior colapso bancário de toda a história da economia humana.

Trata-se de uma história épica, dramática, uma das mais incríveis dos nossos tempos. Não é à toa que se tem escrito tantas reportagens excelentes sobre o país. Em janeiro, a revista piauí publicou um texto brilhante de João Moreira Salles, que foi até a ilha e contou como a tragédia aconteceu (aqui só para assinantes, aqui republicado em um blog). Agora, a Vanity Fair, na sua edição de abril, publicou o fantástico texto Wall Street on the Tundra, de Michael Lewis. Lewis diz que a Islândia virou o único país do mundo para a qual os americanos podem apontar e dizer "pelo menos não fizemos isso". Foi ele que fez o paralelo entre a cultura da pesca e a dos banqueiros, que eu mencionei no capítulo 1 dessa história.

A Islândia praticamente não tem recursos naturais, como dá a entender seu nome, que quer dizer "terra de gelo". Sempre viveu de pesca. Por isso, culturalmente, sempre esteve imersa naquela mesma cultura de pescadores que descrevi no capítulo 1: homens inconsequentes, mulheres cuidadosas. Não que seja um país machista, nada disso: como em outras terras nórdicas, as mulheres lá são independentes, tem direitos respeitados, não ficam tendo que aguentar excomunhões. Mas, por lá, homens e mulheres são bichos diferentes, quase rivais. Homens praticamente só andam com homens, e mulheres com mulheres. Tanto é assim que o Partido da Independência, que estava no poder quando a crise pegou, praticamente só tem homens. Já a oposição, o Movimento da Esquerda Verde, é quase que apenas de mulheres.

Por séculos e séculos o país foi um canto meio esquecido do mundo, pobre e com uma vida bem comunitária, onde todo mundo conhece todo mundo e o capitalismo não "pegava". Exemplo: li uma vez que, não faz muito tempo, o único canal de TV do país saía do ar por um mês para os funcionários tirarem férias. Aí, nos anos 1970, os peixes começaram a rarear. Era o primeiro sinal de uma crise igual à das sardinhas de Monterey: com os peixes diminuindo, os pescadores iriam investir dinheiro para comprar redes maiores e barcos mais rápidos, as populações de peixe iriam cair mais ainda até que o país inteiro quebraria. O governo então teve uma idéia que na época parecia brilhante: privatizar os peixes. É assim: se uma empresa pescava em média 2% dos peixes do país, ela receberia um papel dando a ela o direito a 2% dos peixes dali para a frente. Todo ano, o governo estabeleceria uma cota de peixes que poderiam ser pescados e cada empresa teria que se contentar com uma porcentagem fixa dessa cota. Assim se desestimularia a competição e os peixes não acabariam.

Os pescadores começaram então a comercializar esses papéis que davam direito aos peixes. Daí às empresas de pesca virarem bancos (que nada mais são do que empresas que vendem, compram e emprestam papéis) foi um pulo. Assim surgiram esses três bancos islandeses. Aí, em 2003, o governo masculino do Partido da Independência começou uma reforma liberalizante para finalmente abrir o país à globalização. E os bancos, cujos donos eram pescadores, de repente viraram globais. Viraram também os bancos globais mais agressivos do mundo: suas taxas de juro eram tão fantásticas que atraíram clientes de toda parte. Os bancos alemães puseram 21 bilhões de dólares em bancos islandeses, holandeses puseram 305 milhões lá, os suecos 400 milhões. Investidores britânicos enfiaram mais de 30 bilhões naquela máquina de fazer dinheiro. Os bancos islandeses, com tanta grana, cresceram pacas – a maior expansão do sistema bancário na história da humanidade. E contrataram um monte de gente para ser banqueiro de investimento. Muitos desses novos banqueiros eram ex-pescadores, amantes de riscos, inimigos da prudência, que ficaram satisfeitíssimos em trocar tempestades, ondas gigantes e água gelada por ternos bem cortados, salários mastodônticos e ações que pareciam fadadas a subir para sempre. Aí de repente o sistema quebrou, e a grana toda evaporou. E foi assim que a crise dos peixes dos anos 70 virou uma crise financeira em 2008. Quando as pessoas dizem que a crise pela qual estamos passando, no fundo, é uma crise ambiental, não é só modo de falar. Enquanto isso, ex-banqueiros islandeses pensam em arrumar emprego em barcos pesqueiros.

Semana que vem, quero voltar a falar da cultura de pescador.

foto: lydurs (CC)

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6 comentários
  1. silvia dias pereira disse:

    Que texto fantástico! Perfeito casamento entre tom e conteúdo! Daqueles que faz a expressão “prazer da leitura” fazer todo o sentido!abs

  2. Elisa disse:

    Denis, genial! O blog está sensacional. Tá mais que na hora desses homens ficarem um pouco mais femininos… esses pescadores e esses padres….

  3. Denis RB disse:

    Elisete, volta!

  4. carla g. disse:

    ler seu blog é realmente muito bom, você aborda temas com sofisticação e seriedade. Excelente

  5. Alexandre disse:

    Excelente texto, há muito tempo não leio algo tão bom. Este é prá guardar.

  6. Rômulo disse:

    Peralá… Quer dizer que o sistema financeiro da Islândia era tocado por pescadores?? Isso não está meio fantasioso, não?

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