#RELIGIÃO#Teomarketing


Ontem a Veja publicou uma entrevista com nosso amigo José Cardoso Sobrinho, arcebispo da Igreja Católica, excomungado pela Igreja Mussumista e pivô da polêmica envolvendo uma menina de 9 anos que abortou gêmeos no Recife. A uma certa altura, a repórter Juliana Linhares, que aliás mandou muito bem, perguntou o nome da menina. O arcebispo não sabia responder.

Na mesma entrevista, Cardoso Sobrinho comentou, saudoso: "seria tão bom se as criancinhas fossem como antigamente, quando nem tinham uso da razão mas já sabiam rezar o Pai-Nosso e a Ave-Maria". Quando a repórter perguntou se a Igreja tinha oferecido algum tipo de ajuda material para que a menina criasse os filhos, mais uma vez o arcebispo se enrolou todo. Faltou só dizer que tal bobagem não é problema dele, é problema lá do bispo de Pesqueira, a cidadezinha onde a menina mora. Ao arcebispo cabem apenas questões importantes, como a posição política da Igreja contra o aborto. Cuidar das almas dos fiéis é para níveis hierárquicos mais baixos.

Ouvi dizerem por aí que Cardoso Sobrinho fez tudo certo, de acordo com as regras da Igreja, que seu único pecado foi que lhe faltou senso de marketing para colocar melhor as palavras. Discordo. Senso de marketing o arcebispo tem de sobra. Assessor de imprensa nenhum superaria o timing do sujeito, que convocou a Globo antes mesmo de os pontos cicatrizarem na menina, garantindo o estardalhaço. Enfim, o problema do arcebispo não é falta de conhecimento de marketing: é se importar demais com o marketing e de menos com a menina.

A proibição ao aborto é uma bandeira política da Igreja, assim como, por exemplo, a condenação do uso de preservativos. Não tenho nada contra a Igreja ter bandeiras políticas. Só acho que um momento de tragédia pessoal como esse não era hora de fazer política. Era hora de ficar calado, de lamentar pela maldade humana e de fazer o possível para confortar uma menina que já tinha sofrido o suficiente. Privadamente.

Já antecipando os comentários que este post vai receber: minha crítica não é à fé católica. Acho difícil de entender por que há católicos que se sentem ofendidos por essas minhas opiniões. A eles eu gostaria de dizer uma coisa: você não tem a obrigação de defender esse arcebispo. A não ser que 1) você concorde com ele ou 2) você ache que a obrigação do católico é ser obediente à Igreja. É isso? Se é, fico confuso. Não sou um especialista no Novo Testamento, mas tenho a sensação de que a mensagem de Jesus Cristo não tinha muito a ver com obediência. Tinha?

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24 comentários
  1. silvia dias disse:

    Denis, dá uma olhada no debate entre uma antropóloga e um prof. da PUC/SP sobre o direito ao aborto, publicada no caderno ALIAS do Estadao de ontem. A antropóloga dá de 10 ao expor com grande lucidez a questão do direito ao aborto e também ao lembrar que vivemos em um Estado laico…

  2. Douglas disse:

    Nem o Vaticano apoiou sua postura neste caso: saiu anteontem no “Osservatore Romano” (que é da propria igreja para quem não sabe) um artigo do Arcebispo Rino Fisichella, que preside a Pontíficia Academia para a Vida, no qual ele diz que os médicos e a mãe da menina não mereciam a excomunhão. “Há outros que merecem a excomunhão e o perdão, não aqueles que salvaram a sua vida e a ajudarão a recuperar a esperança e a fé”, disse como se dirigisse à garota.”Antes de pensar em excomunhão, era necessário e urgente salvar aquela vida inocente e trazer de volta a sua dignidade, algo que, nós da igreja, deveriámos ser experts e mestres em proclamar”, disse também.Palmas para esse arcebispo que não segue apenas as regras, mas principalmente a moral, e a ética!”Matéria publicada na Folha de S. Paulo, 16/03/09 pag. C3″

  3. Denis RB disse:

    jorji, agradeço. Mas acho que achar que os problemas não tem solucao eh o caminho para nem tentar resolve-los. Cada problema tem solucao. Dificil eh encontrar suficiente gente talentosa, confiavel, honesta e dedicada para resolve-los. Mas elas existem: e precisam que acreditemos nelas.

  4. Bruno H. disse:

    Há algumas centenas de anos, meia dúzia de anciãos que moravam no deserto criaram leis para organizar a sociedade daquela época.O que as pessoas como José Cardoso fazem é, levar aquela história tão a sério a ponto de não se importar com as pessoas, que até onde me consta, são mais importantes que historinhas.Portanto, concordo com o Denis. Se eles querem ter opiniões sobre tudo isso, OK. Mas, com respeito, com ética, com alguma sensibilidade. Não houve.

  5. jorji disse:

    Sob ponto de vista do intelecto, todas as religiões são absurdas, é óbvio que a vida é um evento extraordinário, mas os princípios que regem as sociedades humana na maioria são absurdas, irreais, porém para compreendermos a razão da existência das religiões e seus dogmas, é necessário muito embasamento científico, nas áreas como antropologia, psicologia, sociologia, biologia, história, etc,e já cheguei a uma conclusão, o mundo não tem solução.

  6. Tales disse:

    Adorei a atitude desse bispozinho excomungado. Expôs a face taliban da igreja católica (minúsculas mesmo!) em relação ao aborto, que, afinal não deveria ser problema dela. Eles devem ter uma saudade da inquisição! Além disso são contra o aborto de anencéfalos pelo bom motivo de que se isso fosse permitido há tempos, certos bispos nem teriam nascido…

  7. Alan disse:

    Não concordo com duas coisas no texto. Primeiro, desde quando é papel da Igreja dar ajuda material aos outros? Eu tb não concordo com a abordagem do bispo, mas não é a sua obrigação dar dinheiro a ninguém. Por que a repórter, tão afetada com a falta de “generosidade” do bispo, não ofereceu alguma coisa? Ou a ONG, tão interessada em abortar as crianças? O Autor do texto mesmo disse: cuidar de “almas”, não de “finanças”. Segundo, a proibição do aborto não é uma simples “bandeira política”, mas uma posição moral deles, por isso mesmo eles não abrem mão disso. Agente não pode confundir moral com política, muito menos com marketing.Junto com o autor eu lamento o sofrimento desnecessário à qual aquela criança foi submetida. E a morte daqueles bebês.(Veja bem, nem sou católico, mas ando vendo tanta perseguição aos católicos e tanta falta de compreensão da sua doutrina que estou começando a achar que esta coisa é proposital… estou pensando em começar a defendê-los)

  8. Danielle disse:

    Em relacao aos argumentos do Alan: discordo em relacao aa opiniao sobre a ajuda. Qualquer Igreja, pela raiz grega da palavra, significa Eclesias, ou seja congregacao de pessoas. Sendo uma comunidade unida para um unico fim, a ajuda mutua eh quase uma decorrencia. Em todas as paroquias que frequentei, seja no Brasil ou nos EUA, sei de casos de ajuda a familias em necessidade, e isso parte das paroquias, nao de instancias superiores da Igreja. Portanto, mesmo nao sendo obrigacao da Igreja ajudar a menina, a ajuda eh um comportamento habitual da mesma Igreja.Agora, concordo com o Alan em relacao a perseguicao que os catolicos vem sofrendo, e isso eh no mundo todo. Os “hiperrelativistas cools” elegeram a Igreja para ser o diabo deles, mas sao lenientes, em sua grande maioria, com ditadores como Castro e Chavez, com outras religioes que cerceiam o direito das mulheres, entre outros. Acham legitimo defender os ovos de tartaruga (tb acho legitimo, quero deixar claro), mas nao tratam os “ovos” de seres humanos (os embrioes) com o mesmo julgamento. Dois pesos e duas medidas, pra variar. Abs, Danielle.

  9. Daniel disse:

    Mais uma matéria encomendada…

  10. Danielle disse:

    Denis, esse bispo foi criticado ate mesmo pelo Vaticano. A atitude dele foi muito calcada na interpretacao direta do Direito Canonico, sem espaco para a caridade e a compaixao. Concordo com os que dizem que ele nao seguiu os ensinamentos de Jesus Cristo, que nos ensina a amar os outros como a si mesmo.Por outro lado, como sempre no Brasil, houve os que aproveitaram o caso para defender o aborto livre, como uma bandeira “feminista”. Como se nos, mulheres que tem familia, trabalho, vida social, tivessemos que OBRIGATORIAMENTE aderir a esse “feminismo conveniente”,”hiperrelativista cool”, para poder nos auto-intitular “modernas”. Houveram dois lados politizando o assunto: esse bispo insensivel, e os abortistas talibans. E ninguem esta falando disso, por medo de ser chamado de “reacionario”. Ja falei numa mensagem num post anterior: tenho duas filhas, 14 e 11 anos, e sem nem piscar, optaria por fazer exercer a lei (e eu sou catolica praticante). Depois eu me entendo com minha religiao: o bem estar das minhas filhas vem primeiro. E aqui nos EUA, onde o caso repercutiu dentro da Igreja, ouvi a mesma posicao dos paroquianos da Igreja que frequento. Primeiro defender o que resta de dignidade da crianca afetada, depois voce se reconcilia com sua religiao. Abs, Danielle

  11. antonio disse:

    Acabei de receber um boleto com promocao para assinar veja,por isso entrei no site, li sobre esta reportagem e ja rasguei o boleto, quem escreveu nao faz ideia do que fala, recomendo a leitura do livro de Gloria Polo, tenho certeza que vao mudar de opiniao.

  12. Alan disse:

    Sei lá, se vocês estivessem no lugar dele (bispo) o que teriam dito? Eu teria dito que lamento muito, vamos ajudar a menina a recuperar-se desse drama daqui em diente… MAS, os pais, o médico e as moças da ONG se excomungaram da fé cristã…Acho que ele fez mal em dar mais importância à punição prevista do que ao sofrimento da menina. Certamente ele não foi estuprado quando criança. Mas isso não invalida a convicção de que um mal (a saúde comprometida da criança) não pode ser substituído por um mal ainda maior (morte dos bebês). Ainda bem que a Moral está acima dos nossos atos, senão eu poderia condenar toda a Igreja pela falta de amor de um único bispo…

  13. Leonardo Nunes disse:

    Prezado Denis, não sou católico, mas fiz críticas ao seu post anterior sobre o assunto da excomunhão. Vou resumir minha crítica com análise feita por seu colega Reinaldo Azevedo: não ache estranho que um líder católico aja como um líder católico! Faz parte da doutrina dele, há uma tradição de a Igreja Católica agir pensando mais em política do que nas pessoas, e é isso q vc deve criticar – se tiver coragem e competência para isso. Faço-me entender?

  14. Polyana disse:

    Sim, as pessoas tem direito a opinião, e direito de defender suas crenças, ainda que essas não façam o menor sentido para alguns. Mas veja Leonardo, o direito de proferir opiniões e de defender sua bandeira, não legitima a crueldade, certo? O Reinaldo Azevedo pode ser um excelente, escritor, crítico, jornalista, o escambau, mas dizer que a critíca ao bispo foi por ele ter agido como bispo, foi também um erro. Age como bispo, ou melhor, como um religioso quem usa da compaixão, que é uma das premissas das religiões cristãs.

  15. gustavo santos ribeiro disse:

    prezado amigo;Suas matérias são no mínimo ótimas.mas só para lembrar:Jesus veio sim para obedecer e foi fiel até a morte, a questão é que Jesus sempre foi correto e sábio, ele era obediente naquilo que era correto e sensato,mesmo que isso fosse contra o que a maioria pensava.No caso do nosso “amigo ” citado na materia, concordo plenamente com vc , apenas gostaria de dizer que na minha opinião vc deveria tomar mais cuidado quando coloca o nome de Jesus em suas matérias, é preciso saber o que realmente vc quer dizer quando usa o nome de Jesus.Não leve isso como uma ofensa,pq entendi claramente o que vc quis dizer quando falou de Jesus e a questão de obedecer, apenas gostaria de dizer que muitas vezes corremos o risco de usar o nome de Jesus de maneira irrefletida, e isso traz desonra e tristeza para todo o céu.O que não foi o seu caso:um grande abraço:gust

  16. Denis RB disse:

    Oi gustavo, entendo sua preocupacao, por favor nao pense que eu tenha tido qualquer intencao de ofender a fe de ninguem. Eu so quis dizer que um homem que derruba as bancas de camelô do templo de Jerusalem para protestar contra o establishment religioso da epoca mostra que sabe brigar, sabe enfrentar. Nao eh a toa que ele morreu como morreu.

  17. Denis RB disse:

    Caro Leonardo Nunes, acho que você tocou num ponto central. “O bispo agiu como um bispo”. É como dizer que as ações não precisam ter justificativa ética, não precisam estar certas, não precisam ser boas. Só o que importa é cada um fazer o que se espera dele. Foi essa atitude que trouxe a gente para esse beco sem saída. Chegou a hora de nos rebelarmos contra aquilo que todo mundo acha “normal”.

  18. Denis RB disse:

    Leonardo Nunes, garanto a você que não funciona assim – pelo menos para mim nunca funcionou. Trabalho há 10 anos na Abril e nunca sofri pressões ideológicas por reclamações de anunciantes. Já tive sim discordâncias ideológicas com meu chefe direto, que resolvi conversando. Mas, pelo menos na minha experiência profissional, a captação de publicidade nunca ameaçou a independência editorial.

  19. Leonardo Nunes disse:

    Prezado Burgierman, concordamos enfim! Digo, em meu último comentário, q vc devemos criticar o fato de a Igreja Católica agir mais por política do q pelo bem-estar das pessoas. Mas como se trata de uma instituição como o Catolicismo, isso deve ser feito seriamente, com coragem e competência. Sim, porque o poder católico é grande, e na hora em q os anunciantes católicos da Abril torcerem o nariz para tuas idéias, creia: receberás ordens para mudar o tom.

  20. Leonardo Nunes disse:

    Hahaha, a sua ingenuidade me diverte, Burgierman… Quero ver vc criticar o papa, quando declara na África que a distribuição de preservativos não ajuda a reduzir o número de pessoas contaminadas pela Aids. Vamos, há “gancho” para o seu blog, pois sabemos q a miséria, a ignorância e a superpopulação da Terra são fatores importantíssimos para falar de sustentabilidade. Tente entrar nesses assuntos para testar a “isenção” dos Civita… (rsrsrs)

  21. Denis RB disse:

    A pedido do Leonardo Nunes, eu gostaria de criticar o papa por declarar na África que a distribuição de preservativos não ajuda a reduzir o número de pessoas contaminadas pela aids. Ao fazer isso, o papa está mentindo. Aproveito para criticar seu antecessor, Karol Wojtila, por ter se aliado às ditaduras islâmicas na articulação política contra qualquer tentativa da ONU de recomendar internacionalmente o uso de preservativos. João Paulo II era um bom homem. Mas não era infalível, como demonstra essa prova.

  22. Denis RB disse:

    São dois sobrenomes, Antonio González.Russo: católico do sul da ItáliaBurgierman: judeu polonêsNão sigo religião alguma, mas trato todas com respeito. Jamais ofendi a fé católica em meus comentários.

  23. Antonio González disse:

    A julgar pelo seu sobrenome você entende (se é que entende) mais a Torá que o novo testamento. Quando o nobre rabino Sobel foi pego em NY furtando gravatas de uma loja conhecida a comunidade judaica de SPaulo ficou de cabelos em pé e sumiu com o coitado. Não me lembro de ver tanta indignação por parte de jornalistas da comunidade. Aliás os judeus são especialistas em propaganda, quando lhes convem. Quanto ao bispo católico eu não o defendo pois ele não precisa disso. Respeite a religião e os preceitos da religião dos outros. Quando não se tem o que falar a gente se cala ! Estude um pouco mais ou se consulte com o Reinaldo que ele poderá te esclarecer um pouco mais sobre a religião de Jesus Cristo (um judeu ).

  24. Antonio Carlos da Fonseca Barbosa disse:

    Denis, como pode uma pessoa comparar um estupro a uma criança, seguido de uma gravidez que poderia matá-la a um roubo de uma gravata.

    E como é triste ver que ainda existem pessoas que defender uma instituição e convicções que soma mil historias atrozes e bizarras. Essas pessoas não estão nem um pouco sensibilizada pela situação de uma criança largada à própria sorte pela Igreja e pelo Estado.

    Um dia Deus morre, e esses cretinos inescrupulosos não terão mais onde se esconder. E Você, Denis, tem Paciência de Jô.

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