#IDEIAS#Sardinhas, banqueiros e a diferença entre os sexos CAPÍTULO 3


Eu fico aqui falando sobre a cultura dos pescadores – masculina, imprudente, insustentável – e como ela é parecida com a dos banqueiros de investimentos. Aí você pergunta:

– E que caçambas esse urbanoidezinho da Vila Madalena sabe sobre a cultura dos pescadores?

E você tem razão, admito. Não sei muito. Mas, graças a um desses privilégios da profissão de jornalista, já experimentei no sangue a descarga de testosterona que o mar provoca. Foi cinco anos atrás. Entre novembro de 2003 e janeiro de 2004, passei quase dois meses num velho navio norueguês navegando entre icebergs e baleias pelos mares gelados da Antártica.

Não estávamos no mar para pescar. Era o contrário, na verdade: nosso objetivo era caçar. Caçar pescadores. Na condição de repórter, eu estava a bordo de uma expedição da organização ultra radical Sea Shepherd, famosa por afundar baleeiros. O objetivo era evitar que os japoneses matassem baleias. O capitão era Paul Watson, o lendário Paul Watson, que tem no currículo a destruição de 10 navios baleeiros. Paul Watson foi um dos fundadores do Greenpeace nos anos 70, mas abandonou a organização por achar que ela tinha ficado "mole". Agora passa meia vida no mar, aterrorizando baleeiros e pescadores predatórios.

Dia desses conto mais sobre Watson, sobre a Antártica e sobre a história do movimento ambientalista. O que eu queria contar aqui neste post é sobre o que o mar faz com você.

A vida a bordo é de um desconforto inimaginável. Depois que zarpamos, passamos oito dias sob tempestade, chacoalhando sem parar. Para mim, foram oito dias prostrado, vomitando tudo que comia, incapaz de pensar direito, gemendo, achando que ia morrer de tão mal que me sentia, e quase querendo morrer para que o sofrimento passasse. Lá a natureza manda em você. Se faz sol, a vida é boa e todo mundo se diverte. Se o tempo está horrível, tudo está horrível, a vida é horrível

Com o tempo, fomos nos acostumando à dureza do dia-a-dia. O cheiro eterno de diesel, inebriante e nojento. O balanço do barco derrubando tudo e todos no chão. A higiene da embarcação esquecida enquanto cada um está ocupado demais tentando se manter em pé. Ah, que bom seria se o papel higiênico áspero fosse o maior dos problemas. Passei 14 dias sem tomar banho, porque o dessalinizador do barco não funcionava – e, quando algo não funciona, não dá para chamar um técnico. Cada mínima ação – subir na cama, falar com alguém, lavar a louça – é um enorme esforço e um enorme risco. O tempo todo sabíamos que bastava um escorregão para cair no mar. E bastava cair no mar para estar condenado à morte, que naquela água gelada vem antes de o navio poder dar meia volta para te buscar.

Nesse clima, cuidados simples ficam parecendo frescuras. A comida caiu no chão sujo de graxa? Pega, põe de volta no prato e come, uai, se não mata engorda. As unhas do cozinheiro estão pretas de sujeira? O que importa é que o gosto seja bom. Não troco de cuecas há 14 dias? Tem gente a bordo que não troca há 18. A água para beber é bege? Pelo menos mata a sede. Acabou o uísque e a única bebida é uma aguardente caseira de pêra feita pelo cozinheiro de unhas pretas? Hmmm, posso pegar outro copo?

Quando a expedição acabou, o barco parou no porto de Auckland, na Nova Zelândia. A tripulação se espalhou pela cidade como uma matilha de cachorros. Naquela noite, vi meus companheiros de viagem aterrorizarem a pacata cidadezinha. Todos bêbados, um cantando em cima de uma árvore, um ajoelhado no bar declarando amor eterno a uma moça que nunca vira antes, um levado à delegacia por quebrar uma vidraça, um berrando ao telefone, uns pulando banhados em suor num show de rock e trombando sem medo nos grandalhões. Todos se sentindo eternos, épicos, ninguém preocupado com o amanhã. Eu incluído. Foi assim que eu tive, por um breve momento, uma idéia tênue de como deve se sentir alguém que vive parte de sua vida no mar. É bom.

Na quinta-feira, vou tentar concluir alguma coisa a partir das idéias desconexas desses 3 capítulos. Deseje-me boa sorte, vou precisar. Enquanto isso, lanço um desafio: o leitor que fizer nos comentários, a melhor reflexão sobre a série "Sardinhas, banqueiros e a diferença entre os sexos" ganha um exemplar do meu livro "Piratas no fim do mundo", sobre a expedição à Antártica. Se isso não é um presente de grego, deve ser de islandês.

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8 comentários
  1. Zanine Tomé disse:

    Sardinhas do pacífico, banqueiros e pescadores da Islândia e um jornalista brasileiro seguindo os passos de caçadores dos caçadores de baleias. Essa salada me lembrou automaticamente o biólogo austríaco Ludwig von Bertalanffy. A famosa Teoria Geral de Sistemas é idolatrada, com razão, pelas ciências humanas e biológicas. Mas eis aqui um bom exemplo de que a dinâmica da vida é ainda mais sistêmica – e interessante – do que a tênue linha do(s) mercado(s) financeiro(s) [pois ainda há mercados, ou já é tudo uma coisa só?] que provocam o sobe-desce-sobe-desce de infindáveis gráficos. O barulho dessa crise nos foca apenas no presente, quando muito antes já se prenunciava sobre, devido à relação mais que suspeita que os bancos tiveram com o mercado imobiliário (“o peixe vai acabar! a baleia vai sumir! Ora, mas não é agora. Pegue a sua peneira e se proteja do Sol homem”!). A mulher, ao longo da história posta do lado de fora da história, é aqui nessa metáfora como a voz da razão que prefere o cometimento que busca a sensatez ao cometimento dirigido ao vislumbre e torpor. Vejo apenas um prelúdio da crise global dos recursos ambientais. Se com todos os indicadores atuais do que está por vim pouco se faz (ainda se caçam baleias?! ainda se queima carvão?!), em poucos anos o epicentro da crise não será mais Manhattan, e sim toda a biosfera.

  2. Tchuca disse:

    A Serie Sardinhas, banqueiros e a diferença entre os sexos…consegui extrair de toda a historia relatada, que estamos no maior tsunami rs … e que erros cometidos no passado se repetem em maiores proporções pela falta de prudência onde ganhar dinheiro vale tudo… mesmo que o risco seja, ficar sem R$… abs

  3. Daniel disse:

    É curioso refletir que as 2 coisas que sempre foram muito criticadas no Brasil, são exatamente as mesmas 2 coisas que talvez minimizem o efeito avassalador da crise no nosso país. São elas:1) Bancos muito regulados, que sempre dificultaram ao máximo o crédito (são mulheres-esposas-precavidas, não pescadores-banqueiros-sanguinários); e2) Exportação de “comodities” que em tempos de crise são os itens menos afetados já que em situações difíceis (tipo muitos dias navegando em mares gelados, correndo risco de morte), o básico passa a ser vital e todo o resto… bem é resto…Abração e parabéns pelos textos.

  4. Isa disse:

    Feita a associação entre sustentabilidade e a crise econômica, resta saber como administrar o uso dos nossos recursos disponíveis. A Islândia privatizou o peixe. Não deu certo. O Brasil tenta controlar a exploração da Floresta Amazônica. Não consegue. O Fórum Mundial da Água levanta os problemas, mas não entra em um consenso. Isso tudo reforça o que já foi dito aqui: não dá para simplesmente jogar toda a culpa no governo. A crise, seja ela ambiental ou econômica , tem raízes dentro de cada um de nós, islandeses ou brasileiros – humanos, enfim. Afinal, de uma forma ou de outra, somos todos investidores.

  5. elisabetta disse:

    Denis, não vou fazer comentário ao sardinha, banqueiro etc pq para ser sincera não li…mas gostaria de fazer uma sugestão – que tal uma série de textos sobre a absurda pressão ambiental que esta forma de comer urbana causa?? Algo menos chato de ler do que o Michael Pollan (desculpe a heresia mas a idéia é ótima mas o texton dele …)

  6. marcos disse:

    As sardinhas escacearam, os homens continuam a vender e a “grande mãe” para consolar e não abandonar, continua a comprar sardinhas que não existem.Que bárbaro

  7. Denis RB disse:

    Boa ideia, elisabetta, mas adoro o Michael Pollan.

  8. Chico Piancó Neto disse:

    Denis, gostei muito do desafio. Sou escritor e também blogueiro há alguns anos, e confesso que fiquei entusiasmado com o primeiro artigo de “Sardinhas, banqueiros, e a diferença entre os sexos”. Fiz uma reflexão sobre o que li, em especial me chamou a atenção da situação de Monterrey. Desculpe-me por não ter colocado mensão a você em meu artigo, coisa que pode ser de pronto remediada, se assim preferir. De todo o caso, fica o endereço do blogue para particar do seu desafio. Obrigado por despertar a atenção para questões tão fundamentais para nosso viver.http://chicopianco.wordpress.com

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