#INOVAÇÃO#O hippie e o carrão


Em 1985, um bando de hippies, baladeiros e loucos programaram um festival livre de música em terras invadidas perto das ruínas pré-históricas de Stonehenge, na Inglaterra. Viajaram em comboio, a maioria em caminhões e ônibus que tinham sido transformados em casas, centenas de pessoas. Uma noite, no meio do caminho, enquanto dormiam nos carros, foram cercados pela polícia.

Os soldados chegaram rasgando: quebrando vidros, destruindo os carros-casas com martelos, chutando, batendo e empurrando como se fossem da PM. Vários carros tentaram escapar acelerando para dentro da plantação de feijão que cercava a área, mas ninguém conseguiu fugir. A força policial, formada por gente dos três municípios da região, era grandes demais. Esse episódio ficou registrado na história da contracultura britânica como The Battle of the Beanfield – A batalha do campo de feijão.
    
O motorista de um dos ônibus-acampamento era um hippie chamado Dale Vince. Ele sobreviveu à batalha e criou a Ecotricity, que se tornaria a maior produtora independente de energia eólica da Inglaterra. Hoje, com 50 anos, Dale é um empresário respeitado, com assento no Conselho Consultivo de Energia Renovável do governo britânico. E é o responsável por um dos projetos mais empolgantes do mundo: um carro-esporte elétrico independente, que pode ser 100% movido a energia eólica.
   
Dale, que é tão apaixonado por velocidade quanto pelo meio ambiente, começou o projeto juntando um dream team de engenheiros: meia dúzia de homens de meia idade, todos comprovadamente geniais, nenhum com qualquer experiência em motores elétricos. Se você adora carros, talvez já tenha ouvido falar das criações da galera que compõe o dream team de Dale: o McLaren F1, o Lotus Elan, o Corvette 2R1, o Jaguar XJR15, o De Lorean.
   
Esse pequeno time então encontrou um Lotus Exige usado para vender e começou a comprar peças na internet. Todas as tecnologias que eles estão usando são conhecidas, todas as peças estão disponíveis no mercado, eles não tiveram nenhum apoio de uma grande indústria automobilística, estão trabalhando há apenas sete meses e gastaram apenas 200 000 libras.
   
"Se isso aqui fosse a Ford, levaria anos e milhões de libras para desenvolver. Grandes companhias de automóvel são muito convencionais. Nós mantemos as coisas pequenas e temos agilidade para tomar decisões. Eles ficam atolados nos sistemas de gerenciamento corporativo e não conseguem inovar", disse Ian Doble, o líder do time ao jornal inglês The Guardian. O ótimo repórter John Vidal, do Guardian, teve acesso à oficina-laboratório e, embora o projeto ainda esteja longe de ficar pronto, ficou impressionado com o carro que está nascendo. Veja a matéria dele em inglês. Quando estiver pronto, o carro irá de 0 a 100 em 4 segundos, ultrapassará os 220 km/h, será totalmente silencioso e recarregará a bateria enquanto você almoça.
   
O único concorrente sério de Dale na busca pelo carro elétrico é uma empresa da Califórnia chamada Tesla Motors. A Tesla começou diferente de Dale: primeiro arranjou um monte de dinheiro, montou a fábrica, começou as vendas, só aí desenvolveu seu carro. Já Dale primeiro juntou gente talentosa e inovadora. Ele só quer ir ao mercado depois que a parte técnica estiver resolvida. Não tem ainda nem nome para o seu carro.

Eu acho que a estratégia de Dale é melhor que a da Tesla, mas não tenho certeza. O que eu tenho certeza sim é o seguinte: nossa salvação não está nas mãos dos governos morosos ou das grandes corporações enferrujadas que gastam mais com bônus de executivos do que com criar coisas novas. Está nas mãos de gente motivada, talentosa e independente como o pessoal da Ecotricity. Ah, se esse pessoal tivesse alguma chance de competir no mar de burocracia e corporativismo que é o Brasil…

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9 comentários
  1. Douglas disse:

    No Brasil, gente assim só vai triunfar quando “a revolução estourar e os corruptos serem os primeiros a ir pro paredão”.

  2. Denis RB disse:

    Valeu, Thiago, abraço! Mas já peço desculpas: a assinatura de RSS não está funcionando. Fim do mês migro pro WordPress e tudo vai melhorar…

  3. thiago lotufo disse:

    denis, caí por acaso no seu blog. muito bacana. parabéns. já assinei. um abraço. thiago

  4. jorji disse:

    Interessante, havia um tempo diziam que era a iniciativa privada que era a solução, através de grandes corporações, será que o problema é a motivação?

  5. Denis RB disse:

    Sensacional, Gerd.

  6. nadabe petersen disse:

    É de se louvar o ponto de vista aqui exposto, o mundo globalizado(isso inclui as terras de Vera Cruz), se deixa levar pelo conformismo e estagnação causados pelos velhos métodos e conhecimentos criádos á séculos, ao invéz de conceber formas diferentes para resolver os seus próprios problemas.A velha deixa de: “vamos pelo lado mais fácil” ou “isso funciona porque já foi feito” deixa o ser humano como um asno, sem iniciativa, sem capacidade de exercitar o seu pensamento cognitivo.Triste, mas, a filosofia de “siga o líder” impera quando as pessoas se acham impotentes pra combater o sistema.Parabéns Denis!

  7. Denis RB disse:

    Ih, Douglas. Não acho que gente assim tenha chance num país onde houve uma revolução. Era capaz de terem metralhado aqueles ônibus.

  8. Fernando Sonegheti disse:

    Denis, concordo com o ponto de vista corporativo do Dale Vince e, particularmente, adoraria ver o dia de trabalho desses engenheiros. Mas assim como o Tesla, essa abordagem de carro elétrico parece ter sido sepultada pela Honda (e ninguém percebeu), quando criou o FCX Clarity, que funciona assim: abastece os tanques com hidrogênio, que se combina com oxigênio e, da energia gerada, libera energia que é armazenada para o motor elétrico. Simples. Quer dizer, vai ser simples, no dia em que conseguirem criar uma rede de postos de hidrogênio (atualmente, parece que só se vende esse bicho na califórnia, onde existem alguns postos). Ah, e tem mais, diferente dos carros elétricos convencionais, o carrão está longe do estilo franciscano-high-tech: ele parece carro, tem equipamentos de carro e até anda que nem um carro…

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