#POLÍTICA#O voto e o supermercado


Eleição tem só de vez em quando – a cada ano, a cada dois anos. Quando tem eleição, a mídia fica cheia de propaganda para convencer você de que votar é importante. Mas não é. Votar não é muito importante. Afinal, boa parte da baixaria da política já está combinada antes da eleição, você não tem nenhuma voz nessa decisão. Para votar num cara em quem você gosta, você precisa levar junto na baciada uma porção de PFLs e PMDBs e coronéis regionais e donos de retransmissoras de TV e gente que troca água por voto e gente que pendura a família e os amigos no emprego. E seu voto, além de ser raro – os caras só vem perguntar sua opinião uma vez a cada ano, no máximo –, é diluído. Um votinho em milhões, que diferença faz?

Mas supermercado você faz toda semana. O tempo todo você está comprando coisas. E, se os políticos e empresários não dão a mínima para seu votinho, tenha certeza de que seus 10 reais são muito importantes para eles. A hora de escolher um produto para comprar é mais importante do que a hora de escolher um candidato. Assim como em época de eleição, você precisa fazer pesquisa. Como é que cada empresa trata seus funcionários, como é que elas tratam as pessoas que vivem perto de sua sede, como elas investem o dinheiro de marketing, quem é amigo delas, como elas participam do jogo de poder de Brasília?

Como regra, as empresas brasileiras não tem respostas muito boas para essas perguntas. Afinal, este aqui é um país onde ninguém presta satisfação para ninguém. Ninguém aqui quer ser responsável por nada. Mas isso está mudando devagar. Começam a existir marcas que procuram agir direito, até em nome de continuarem existindo no futuro – a tal sustentabilidade. Acontece que, se você não prestar atenção nas marcas que consome, esse esforço dessas poucas empresas legais vai ser inútil. Ninguém vai perceber que elas estão fazendo direito. Tem gente que acha super cool ser cínico. Dizer "ah, ninguém presta, no final vão derrubar a floresta mesmo, quero que se dane". Pois eu tenho uma novidade para essas pessoas: ser cínico é ser cúmplice de quem tem interesse em que as coisas não mudem.

Foto: whorange (CC) – obra de Banksy

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16 comentários
  1. Elisa disse:

    Denis, é isso aí…. mas por onde começar? Existe algum órgão/ONG/site, que ajude a gente a saber um pouco mais sobre as empresas e os produtos no mercado brasileiro?

  2. silvia dias disse:

    Se encararmos o consumo como ato político, pelo qual expressamos nossas crenças e valores, será possível talvez minimizar a esquizofrenia corporativa que leva as empresas a investirem em açoes de responsabilidade social totalmente desalinhadas com sua estratégia de negócio. O exemplo mais gritante é a indústria de alimentos, que produz produtos de baixa qualidade nutricional (como é que a sociedade permite isso??), direciona seu marketing ao mais indefeso dos consumidores (a criança – mais uma vez, como permitimos isso??), e promove campanhas de educação alimentar (!!!), divulgadas em seus sites de Responsabilidade Social (!!!). Se essas empresas fossem pessoas, seriam diagnosticadas como esquizofrênicas! Socorro!!!

  3. Denis RB disse:

    Galera, obrigado pelos otimos comentarios a este post. Este blog ainda esta experimentando Рtentando descobrir o que ele deve ser. O que eu queria era um espaco de debate, de ideias, no qual as pessoas Рeu inclusive Рaprendessem jeitos de levar uma vida mais sustentavel. Os bons comentarios de voces aqui neste post me levam a crer que o caminho eh por aqui. Fora que ganhei uns imerecidos elogios, pelos quais agrade̤o envergonhado.

  4. Denis RB disse:

    Carolina, parece haver algum problema com o link. Como eh o nome da reportagem para eu procurar na Busca?

  5. Pedro disse:

    Ue, e como e que nos vamos saber quem e “direito” e quem nao e? Tem algum site com estas informacoes pra facilitar a nossa vida?

  6. Denis RB disse:

    Elisa, Pedro, o Instituto Ikatu eh talvez a grande referencia no Brasil sobre consumo consciente. O site deles, alem de muita informacao, tem uma ferramenta legal na qual voce pode comparar a postura social/ambiental/cultural/trabalhista/etc de varias empresas. Voce vai notar que a maior parte das empresas nao esta la. Isso porque elas nao se cadastraram (o que eh uma pena, mas da uma medida do quao pouco elas estao preocupadas com isso. Exemplo: quase nao ha empresas de telefonia no site.)

  7. Henrique disse:

    Eu sou fanático por selos de qualidade. Se tem, compro. Se não, não. Faço alguma diferença?

  8. Carolina disse:

    Oi Denis! Imagino que você vai concordar que esse argumento é tão batido quanto o “você está matando planeta!” que você criticou alguns posts atrás.Faz todo sentido, mas… o que falta saber é como fazer. Você, Denis, fiscaliza as empresas responsáveis pelos produtos que você compra? Como você faz? Pode dar alguma dica?Uma vez uma leitora comentou no meu blog: “tem alguma lista de empresas que agridem o meio ambiente para eu poder consultar?” Acho que essa é uma aflição das pessoas. é um trabalho de detetive que ninguém sabe ao certo como fazer.E se ninguém sabe como fazer, é justo cobrar dos outros? Não sei… De todo modo, adorei a comparação com o voto. Tem toda razão.

  9. Denis RB disse:

    Henrique, selos costumam mesmo ser boa noticia. Mas eh importante saber o que cada um deles significa. Alguns nao passam de marketing: atestam apenas que a empresa pagou em dia o dinheiro pedido para poder estampa-lo no rotulo. Alguns sao atestados de que a empresa eh seria. Exemplo: o FSC, que atesta a origem da madeira, eh seriissimo e indica que voce nao esta machucando a floresta. Nao compre madeira sem FSC. Po, tai, bela ideia para um post: explicar o que cada selo quer dizer. Prometo para breve.

  10. Carolina disse:

    Só agora vi os outros comentários. Já que você vai falar de selos no próximo post, posso sugerir aqui o “meu peixe” como consulta? Espero que você não se importe… É que escrevi uma matéria enorme sobre isso há um ano, e acho que pode ajudar: http://www.pagina22.com.br/index.cfm?fuseaction=reportagem

  11. Polyana disse:

    Um votinho a mais ou a menos faz diferença no resultado sim, mas o cara que não se vende ao sistema não chance nenhuma de chegar la, ate porque a maioreia dos votos nao eh dada e sim negociada. Agora esse negocio de reparar pra quem a gente ta dando municao, ta correto, mas da trabalho. Nao estamos acostumados a fazer esse tipo de questionamento, estamos acomodados demais… Tambem sao bem poucos os que tem preparo pra esse tipo de critica. Precisamos de grupos independentes, formados por pessoas sem interesses politicos ou financeiros (se eh que isso existe) dispostas a despirem empresas, politicos, enfim, o sistema. A midia anda em descredito total, teremos que tomar as redeas…

  12. Adélia disse:

    Belíssimo o seu artigo.Parbéns! Você conduz as palavras de maneira sutil e firme ao mesmo tempo. Adoro seus textos. Inclusive os que você escrevia na revista “vida simples”.Eu sempre defendi o voto em branco como forma de protesto. Muita gente ainda acredita que se votar em branco acaba por beneficiar o vencedor. Erro que já foi corrigido pela Lei eleitoral. Mas enfim, de toda maneira, escolhemos o tempo todo e o que nos faz ter a “impressão” de que nossas escolhas são melhores ou mais acertadas é justamente a capacidade de processá-las antes de simplesmente avançar numa imposição disfarçada de “liberdade de escolha”.Xiiii! escrevi demais! era só para dizer que adoro esse colunista! Excelente texto! Obrigada!att. Adélia

  13. Joabe S. Arruda disse:

    Não vejo muita vantagem em escolher um produto ou uma marca pela forma como trata seus funcionários e as pessoas que vivem perto de sua sede, investe o dinheiro de marketing, quem é amigo dela e, muito menos, como ela participa do jogo de poder de Brasília. Avalio a qualidade, o preço, ou seja, coisas importantes.

  14. Denis RB disse:

    Joabe, lendo sua opiniao quase da para ouvir os banqueiros de investimentos do ano passado sussurrando: “nao me interessa o que sao derivativos, interessa o quanto levo no investimento”.

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