#TRANSPARÊNCIA#Privacidade é para pessoas, não para empresas

Na segunda-feira, eu escrevi aqui sobre transparência. Mais especificamente, sobre um plano para reconstruir a economia do mundo: instituir a transparência total e radical na economia. Cada centavo gasto ou recebido por uma empresa se tornaria automaticamente conhecido pelo público internet afora.

Um dos comentários que o post recebeu ficou na minha cabeça durante a semana. Era do Fernando e dizia: "É ousado, instigante e inexequível. Haveria colisão com fundamentos sólidos dos regimes democráticos, principalmente o da privacidade". Verdade. O Fernando tem razão.

Mas não devia ter.

Não deveria ser assim.

Privacidade é para pessoas, não para corporações (ou deveria ser).

Pessoas são diferentes de corporações. Pessoas são criminalmente responsáveis pelo que fazem. Corporações, em linhas gerais, não. Se eu mato alguém, sou preso e minha vida vira um inferno por 30 anos. Se uma empresa toma uma decisão que implica na morte de alguém, é possível que ela tenha que pagar uma multa, o que vai diminuir sua rentabilidade. É como se a pena por homicídio fosse um desconto de 3% no salário. Talvez algum funcionário seja preso e a empresa vai ter que contratar outro.

Pegue por exemplo o escândalo recente envolvendo altos executivos de empresas financeiras nos EUA. As empresas quebraram. Por causa disso, o mundo inteiro quebrou. Para salvá-las e salvar o mundo, o governo americano teve que empilhar notas de 100 dólares até um quarto da distância para a Lua – tudo com a grana do contribuinte. Aí chega a hora de pagar o bônus dos executivos. O que acontece? Os caras que tomaram as decisões que começaram a crise embolsam uma bolada. Quer exemplo mais eloquente da desconexão entre causa e consequência?

Empresas não são iguais a pessoas diante da lei.

Elas tem privilégios.

É natural então que sejam vigiadas mais de perto, tal a dificuldade de puni-las.

O mesmo raciocínio vale para os governos – e quero falar mais disso na semana que vem.

Sou a favor da privacidade. Odeio câmeras de vigilância e tenho a fantasia secreta de estilhaçar com um estilingue aquelas luzes que acendem na nossa cara quando a gente passa em frente a um prédio.

Mas acho que empresas e governos deveriam ter paredes de vidro e câmeras de big brother. Acho que é direito das pessoas saber o que acontece dentro desses lugares, mesmo nas salas de reunião mais bem decoradas dos andares de cima.

E acho também que essa ideia é menos inexequível do que parece assim à primeira vista.

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16 comentários
  1. Laércio disse:

    O documentário “A Corporação” (http://is.gd/qBUx) expõe esta questão também. Corporações visam o lucro, não importa a que custo.

  2. Lucas disse:

    Certíssimo. Corporações devem ser transparentes, esse é o caminho, é para onde o desenvolvimento dos tipos societários levam. Uma maneira de impulsionar a transparência é garantir mais crédito a empresas transparentes. Na Suécia, por exemplo, a transparência chega ao nível em que nem mesmo pessoas físicas tem seus impostos de renda obnubilados.

  3. Jay Jay disse:

    MUNDO DO AVESSO. Você está cheio de razão, vamos estelingar essas câmaras absurdas. Isto é como se fosse um mundo do avesso: os delinquentes nos vigiando e não o contrário. Na verdade, como eles bem sabem o que fizeram para chegarem aonde chegaram, vigiam-nos para que não possamos fazer o mesmo que eles fizeram. Alguém já viu gari virar banqueiro usando somente o seu salário ? Alguém já viu doméstica virar marca ? Motorista virar mega empresário dos transportes ? Pois é, aqueles que conseguiram, sabem bem como chegaram lá e agora espalham câmaras que de tantas quase tropeçamos nelas. Aos mega executivos, ainda lhes damos prêmios por terem deixado o mundo de tanga. É mesmo um mundo ao avesso.

  4. Reginaldo disse:

    Olá Denis,parabéns pelo artigo,te acompanho desde a SUPER!Concordo plenamente e sou a favor da transparência entres as grandes corporações,principalmente os Bancos,mas acredito que na prática isso será difícil acontecer!Por vários motivos,fatores. Expor seus balanços também implicaria e influênciaria creio eu,na perda de clientes e prejuízos, numa dificuldade enfrentada pelo banco!Isto eles não querem expor publicamente!O primeiro passo é esta atitude em todos orgãos públicos que diretamente utilizam o nosso dinheiro!

  5. Fernando disse:

    Uma provocação, Denis: a transparência imposta não é exatamente uma imposição típica de regimes autoritários? Se eu tenho um grande negócio, privado, não tenho o direito de guardar os meus segredos?

  6. eva wilma silva disse:

    Achei fantástico, principalmente a parte de atirar com o estilingue; quem sabe se os governantes fossem vigiados como no programa de tv um pouco de vergonha na cara e moral passasse a fazer parte deles.

  7. denis rb disse:

    Fernando, um regime mais transparente pode ser uma contrapartida a um Estado menos presente. Se todo mundo ve como uma empresa trabalha, ha menos necessidade de regulamentacao – empresas com praticas ruins seriam punidas pelos seus clientes, ou por seus acionistas. Enfim, do jeito que estou enxergando isso, eh o contrario: mais transparencia para que o Estado tenha menos poder. Alias: agradeco as boas provocacoes.

  8. Seu Ze disse:

    Claro que isso iria beneficiar a sociedade como um todo, mas isso não acontece. A privacidade e os segredos industriais fazem parte do jogo competitivo das empresas, e eles permitem ganhos maiores de dinheiro.Eu entendo que você prega aqui no seu blog é um novo homem, uma nova sociedade, que pense por uma outra lógica, menos predatória e individualista, mas eu tenho uma certa desesperança quanto a isso. Em última análise, o agente economico é racional, e ele vai investir seu dinheiro aonde o retorno for maior. Isso é correto moralmente? Talvez possa não ser, mas é a realidade que vivemos.

  9. Igor Moura disse:

    Seu Zé, concordo com grande parte dos seus argumentos, mas acho que você está tendo uma visão muito pessimista da situação. Se decidimos no passado que a democracia é o modelo como queremos moldar nossa realidade, temos todo o direito de mudar as coisas caso elas desrespeitem o modo coletivo de vida. Exemplo: há 8 anos atrás tinhamos Al Gore sendo esculaxado por rebublicanos por pregar que o meio ambiente deve vir em primeiro lugar em nossas tomadas de decisao. Hoje o mundo é regido por um “colored man” com uma cabeça mais aberta tentando consertar a crise climática que os mesmos republicanos promoveram. Mudanças podem até ser difíceis de serem implementadas, mas não são nunca impossíveis. Já temos consciência e todas as ferramentas necessárias. Só nos resta vontade.

  10. o liberal disse:

    meu caro, faz sentido quando as empresas são públicas. você já deve saber que as empresas listadas em bolsa são auditadas, não? inclusive há empresas públicas listadas na bolsa. um acionista, se desejar saber quanto a empresa gasta em papel higiênico, entra em contato com o diretor de relações com investidores, que é obrigado a mostrar os números. isso tudo já existe. é só ter interesse de fuçar os relatórios e números. abs

  11. denis rb disse:

    Caro o liberal, sim, sim. Existem ja mecanismos para garantir a transparencia da economia, e devemos muitos deles ao Roosevelt. Mas o que a revista Wired propoe eh um passo alem: eh transparencia radical, para todos, informacao organizada, acessivel, padronizada e com o minimo possivel de assimetrias. Exemplo: a revista conta sobre alguns dos investimentos que envolviam derivativos e que estao no crise global. A informacao era toda transparente. Havia um relatorio de mais de 400 paginas sobre ele. Mas o relatorio era incompreensivel. Vc podia le-lo e rele-lo que nao entenderia o que diabos sao os derivativos.

  12. Wagner disse:

    Concordo plenamente que deva existir uma vigilância principalmente sobre nossos senadores, que legislam em causa própria,esquecendo-se do “povinho” que os elegeu, gastando mundos e fundos (principalmente públicos) em castelos e bacanais dos quais somente eles participam.

  13. Marcos Rocha disse:

    Eu concordo com a ideia da transparencia. E penso que devemos cobrar transparencia financeira e transparencia de procedimentos, nao segredos industriais como alguem jah citou. A sociedade civil precisa ter um maior controle acerca de tudo o que ocorre, nao soh no Brasil, mas tambem no mundo, porque somos diretamente afetados por toda essa bandalheira que ai estah.

  14. Aparecido f. disse:

    só quem nunca fez um negócio na vida pode imaginar que uma empresa sobreviva sem segredos. Segredos são vitais para a lucratividade de uma empresa. Os concorrentes gastam os tubos com espiões para conhecer o faturamento, os clientes, os planos para o futuro, os produtos ainda não lançados e outras tantas informações de outra empresa. Só um neófito em negócios pode imaginar que tudo possa funcionar sem segredos. Nos negócios e no amor, o segredo é a alma do negócio. Ou você vai sair por ai dizendo o que fez com a namorada no Motel ????

  15. Willian Paulino disse:

    Realmente, só quem nunca fez um negócio na vida pode propor uma situação dessas.Já pensou no impacto que isso causaria em empresas de menor porte?Experimenta andar na rua com uma placa pendurada no pescoço com o escrito:-Tenho 500 reais na minha carteira!_________________________________É ridículo essa idéia de que quem tem dinheiro precisa ser culpado por isso. O que você está fazendo é concordar com Lula: a culpa é dos loirinhos de olhos azuis…

  16. Celso disse:

    Sou contra. O pensamento é simplista. Empresa não mata. Pessoas através de sua conduta matam. Sejam culposa ou dolosamente. O máximo que empresas fazem é serem responsáveis pelo dano provocado na natureza e pagam penalmente por isso. Sobre transparência, só quem nunca precisou de refinanciar um carro ou “rolar” uma dívida em virtude de sérios problemas de caixa atrelam a essa idéia barata. Ademais, enquanto o mundo crescia (inchava é termo mais correto) em parte graças a esses bancos, não lembro de ninguém criticá-los. Agora que eles estão quebrando começa a gritaria de cadê meu dinheiro!!! Ou “o governo deveria ter feito alguma coisa”. O nosso (Lula) fez! Mandou o povo gastar a vontade. Se hoje temos desempregado Não é culpa do Lula, mas da crise econômica, mas se esse desem

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