#ÁGUA#Mercado: herói ou vilão?


Ontem falei da tendência do debate político de se reduzir às categorias esquerda X direita, e de como isso é empobrecedor. Hoje quero falar de um exemplo disso.

O mercado.

Sim, ele mesmo. O diabo encarnado, na visão de parte da esquerda. O Todo Poderoso, segundo um pedaço da direita.

O mercado não é uma coisa nem outra. Ontem, lendo a The Economist (revista absolutamente pró-mercado), vi uma definição cristalina e brilhante de para que serve o mercado: para "alocar recursos para o uso mais produtivo". Simples assim. É isso que os mercados fazem. Eles não servem para decidir que tipo de sociedade queremos. Servem apenas para que, uma vez tomada essa decisão, o dinheiro flua para quem merece mais, sem desperdício, sem favorecimentos pessoais (desde que haja transparência).

A matéria da Economist que eu li tentava discutir como lidar com um dos mais desesperadores problemas ambientais do mundo: a falta d’água que inevitavelmente teremos que enfrentar num futuro próximo, se não quisermos enfrentar "uma conversão forçada ao vegetarianismo" (já que produzir vegetais consome dezenas de vezes menos água do que produzir carne).

A questão é a seguinte: não falta água no mundo – ela literalmente cai do céu. Mas, como cai do céu, todo mundo desperdiça vergonhosamente. Água é grátis (o que pagamos todo mês não é pelo líquido, mas pelo tratamento dele e pela infra-estrutura de encanamentos). Ou seja, não há mercado de água. Quem quer, usa. E, óbvio, todo mundo usa. E abusa. Consequência: a água em condição de ser consumida, apesar de cair do céu, está acabando num ritmo apavorante.

A solução proposta pela Economist: criar um mercado para a água. Mas o governo vai cobrar por algo que cai do céu? Não, isso seria insustentável politicamente. A alternativa é a seguinte: considerar que cada pessoa e cada empresa tem o direito de usar uma certa quantidade de água. Se você usar essa quantidade, a água é grátis para você. Se usar menos, pode vender parte de seu direito à água a outra pessoa, que quer usar mais. Quanto mais gente querendo usar água, portanto, mais cara ela vai ficar para quem não souber economizar, e isso beneficiará quem souber.

A Austrália implantou um sistema desses, com enorme sucesso.

Moral da história: o mercado não substitui a inteligência. Também não substitui o governo. Cabe ao governo imaginar jeitos de fazer a sociedade funcionar de maneira justa. O mercado é uma ferramenta imensamente eficaz de fazer essas ideias funcionarem.

É essa a lógica do Obama para lidar com a necessidade de reduzir emissões de carbono – acreditar tanto na possibilidade de uma sociedade mais justa quanto no inegável poder do mercado. Nada da lógica simplista esquerda X direita, que acha que temos que escolher entre uma coisa e outra. Infelizmente, não é essa a lógica da Petrobras, que decidiu controlar os preços da gasolina no Brasil. O preço do petróleo pode variar que nem cardiograma de corintiano no mercado internacional, mas o preço da gasolina só muda com uma canetada de um burocrata.

Foto: MaximeF (CC)

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20 comentários
  1. Gian disse:

    Primeiro, você cometeu uma inversão na parte do vegetarianismo e carne consumindo mais água.Segundo, como você disse, água cai do céu, então não há e nem haverá escassez de H2O, porém pode haver falta de água potável. Basta não poluir o que temos, para evitar o pior.Um exemplo, negativo, é São Paulo. Há mananciais por toda a parte na região metropolitana, e, mesmo assim, convivemos com racionamentos eventuais e rios emporcalhados.Se não sujar, não vai faltar.

  2. Chico Piancó Neto disse:

    Caro Dênis, uma palavrinha apenas errada que faz toda a diferença: ” já que produzir vegetais consome dezenas de vezes mais(menos) água do que produzir carne.” Acredito que, assim como devemos consumir “menos” água, devemos, para nossa própria saúde e a de nossos semelhantes comer menos carne também.

  3. Pixotte disse:

    Denis, duas coisas:1 – Acho que tem um erro aí, no final do 5° parágrafo. O correto seria dizer que produzir vegetais consome MENOS água que produzir carne.2 – Sabe o verdadeiro motivo da Petrobrás não poder reduzir o preço da gasolina? É que o preço do álcool deixaria de ser competitivo, e pela lógica do mercado ( carros flex), deixaria de ser consumido.Pensando pela lógica do carbono, é melhor a gasolina no preço que está!

  4. Flávio disse:

    Há sim, a The Economist não é aquela conceituada revista, que propos que, economicamente, seria mais correto liberar as drogas, porque assim gastariamos menos dinheiro em seu combate?Agora querem mercado para a água?Logo vamos ter que pagar pelo ar que respiramos, imagino.Quando vc não pagar a conta, a empresa te manda um cara, pra te sufocar até que você pague? hehehe…

  5. denis rb disse:

    Obrigado, gente, e desculpas pelo erro. Tá corrigido. Flavio, nao se trata de pagar pela agua – trata-se de pagar se voce consome mais do que devia. No esquema proposto, usar agua dentro de uma quota justa seria gratis. Pixotte, a questao eh que a gasolina nao subiu no ano passado, quando o petroleo subiu. Mas meu ponto eh o seguinte: tentativas artificiais de controlar precos nao funcionam. Mercados fazem isso melhor. Eu, que fui fiscal do Sarney (!), sei bem disso!

  6. Daniel disse:

    Olá Denis,Como calcular o quanto de água é o justo para cada pessoa/casa?

  7. jorji disse:

    A solução é o uso da água do mar, já existe a tecnologia, os japoneses e judeus já fazem o uso da água do mar, mas ainda tem um custo elevado.

  8. Paulo disse:

    Denis, mercado não é uma invenção da direita neoliberal. Mercado são as pessoas agindo em liberdade. Somente isso. Por isso, quem preza a liberdade como valor, valoriza o mercado.

  9. denis rb disse:

    Daniel, otima pergunta. Faz-se o seguinte: pega-se a media historica de uso, desconta-se desperdicios obvios. Isso seria o justo na implantacao do programa. Depois se estabelece metas realistas de reducao ano a ano, para conseguir ganhos de eficiencia. Uma coisa importante: essa discussao vale muito mais para agricultores e pecuaristas do que para usuarios caseiros. A imensa maioria da agua utlizada e desperdicada esta no setor agropecuario.

  10. denis rb disse:

    Mas jorji, dessalinizar eh um processo industrial caro e que consome muita energia. Nao precisamos usar a agua do mar. Todo ano cai do ceu agua potavel suficiente para a humanidade toda. O problema nao eh de escassez, eh de desperdicio. Buscar uma solucao tecnologica, alem de ser caro e complicado e de provavelmente beneficiar mais os ricos que os pobres, nos desvia da nossa obrigacao de parar de desperdicar.

  11. denis rb disse:

    Perfeito, Paulo.

  12. Leonardo Nunes disse:

    Burgierman, vc está fazendo generalizações simplistas e omissas q implicam em erros brutais de avaliação, crendo ingenuamente na conservadora Economist, a qual omite, “sem querer”, a verdadeira crítica que se faz ao mercado: a imposição da lei da força, ou seja, “pode, quem paga mais”. A quem falta dinheiro, não há liberdade para comprar comida, diz o mercado. Mais triste ainda, será vê-lo, Denis, criticar meu comentário como “de esquerda”, e portanto descartável. Por ignorância, meu amigo, vc está acreditando nas estorinhas de gente muito habilidosa e inteligente e leva consigo os leitores de Veja. Você está muito longe de ajudar a questão ambiental reproduzindo esse simplismo cínico tão característico dos conservadores. “Simples assim”…

  13. denis rb disse:

    Leonardo Nunes, nao pretendo desqualificar sua opiniao por ser “de esquerda”. Tampouco acho que opinioes, quaisquer que sejam, sejam “descartaveis”. Concordo que nao vai ser mesmo o mercado que vai corrigir desigualdades sociais. Nao eh para isso que ele serve. O mercado serve, repito, “para alocar recursos para o uso mais produtivo”. Faz isso extraordinariamente bem. Mas isso nao quer dizer que ele faca magica. O mercado eh uma ferramenta, um instrumento, poderoso e, como qualquer ferramenta, limitado. Nao eh deus. Tampouco eh o culpado pelas desigualdades. Havia desigualdades no Brasil muito antes de vigorar aqui um simulacro de economia de mercado. O mercado nao eh a solucao para todos os problemas. Mas eh uma bela solucao para esse problema: o desperdicio de um recurso vital, a agua.

  14. Leonardo Nunes disse:

    Um mercado para a água? Contanto que não seja baseado puramente em dinheiro, concordo que possa ajudar. Mas já houve uma tentativa séria de um mercado não-baseado em grana? Keynes propôs em 1948 um comércio mundial com justiça e os governantes de seu país (EUA) gargalharam. Por quê? Eram os donos do mercado injusto e rentável q fez dos EUA a maior potência de todos os tempos. A esquerda não discute a existência do mercado em si, mas o seu funcionamento. Um mercado de água à moda neoliberal vai garantir a sobrevivência dos privilegiados do Primeiro Mundo e aumentar guerras e terrorismo, exatamente como sempre foi. Chega né? É preciso discutir justiça e compensações comerciais, e não simplesmente dinheiro.

  15. denis rb disse:

    O modelo proposto eh um mercado movido a dinheiro sim. Mas um mercado cuja premissa seja a de que cada um de nos tem um direito aa agua. Nao herdamos esse direito das nossas familias ricas, nao os importamos dos Estados Unidos – nascemos com ele, cada um de nos, basta ser humano. Enfim: um direito igualitariamente distribuido por cada membro da humanidade. A partir desse direito, as trocas financeiras acontecem. Eu desperdico agua para escovar o dente, voce fecha a torneira. Chega o final do mes, eu devo 2 reais para você. Quem “lucra” com esse mercado nao eh o Estado. Nao sao os grande empresarios. Nao sao os “donos dos meios de producao”. Eh quem mereceu. Por isso digo que esse modelo borra a divisao tradicional direita X esquerda. Os principios sao igualitarios, os metodos sao liberais. Mas so funciona se for transparente, e todo mundo puder vigiar.

  16. jorji disse:

    Denis, pela todas as informações que assimilei a respeito do uso racional de água potável, é quase certo que essa substância vital para os seres vivos virá a faltar no futuro, o uso racional será irreversível, da mesma forma que a dessanilização da água do mar também, já que estamos acabando com a fonte vital, que são as florestas.

  17. denis rb disse:

    jorji, voltarei ao assunto, mas, para resumir: isso nao eh verdade. Um estudo de 2007 mostra que, se excluirmos os paises do Golfo (onde o problema eh mais serio), a maior parte dos paises do mundo usa por ano menos do que 1 quinto da chuva que cai. Ha muita agua, desde que criemos um sistema eficaz de capta-la e poupa-la. O sertao nordestino provou isso, ao praticamente livrar-se do fantasma da seca simplesmente construindo cisternas em cada casa, o que faz com que a agua do periodo chuvoso dure ate o periodo seco.

  18. Anônimo disse:

    Dênis, me corrija se eu estiver errado, mas há uma regra da fisica que diz que matéria não pode ser destruída, apenas transformada, então com base nessa lógica é impossível a água acabar, mesmo a água que ingerimos todo o dia ela acaba sendo eliminada pelo corpo pela urina, transpiração, e etc. A água evapora e continua no seu ciclo, então a forma correta de se acabar com a escassez de água não é limitar o seu uso, mas sim preservar as partes atuantes no ciclo da água, como as matas ciliares das nascentes, não poluir os cursos d’água, e mares, que dessa forma a água vai continuar no seu curso natural e nunca poderá acabar.

  19. denis rb disse:

    Anonimo, voce esta certo sim. Evitar contaminacao de lencois freaticos, evitar desmatamento, contaminacao de rios, ocupacao das margens eh a parte mais importante da gestao da agua. E talvez a mais negligenciada no Brasil, que corre o risco de por a perder seus recursos vastissimos. Mas limitar o uso tambem tem importancia. Se usa-se em quantidades maiores do que o ciclo da agua consegue suprir, simplesmente esgota-se a capacidade do rio ou do lencol. A agua volta na forma de chuva, claro, mas isso nao resolve o problema se chover quantidades menores do que se usa.

  20. Felipe Rphael disse:

    Pessoal,
    creio que a grande questão não esclarecida seja do mercado “água”. Vejamos:
    o mercado água existe, e também existe o mercado que gira em torno da água.
    Com toda essa transformação que a água sofre desde sua captura até seu fornecimento, é invitável
    a busca por água de boa qualidade, daí o mercado água, onde as empresas buscam potalidade para ser vendida.Quem não quer água potável, não é?Não quer comprar água tratada?Ela está a disposição em outras qualidades por ai, em esgostos, rios poluídos e até mesmo da chuva que em muitos lugares do mundo são contaminadas pelo poluído ar da região.Agora o mercado que gira em torno da água: cada vez mais vem crescendo as tecnologias para tratamento de água do mundo.Nesse caso, você paga somente pelo tratamento da água e não somente por ela.
    Lógico, essa visão de se ter uma economia em torno da nossa fonte de vida é variável ao ponto de vista de cada um.
    Você não troca de celular ou viaja todos os dias, mas bebe água várias vezes ao dia!
    A lógica para se fazer um mercado é ter algo de grande consumo, natural ou artifícial.
    Pão, gasolina,…ÁGUA.

    Abraço a todos.
    Espero ter contribuído para a discução.

    F.R

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