Anos 2000: recapitulando

A gente vive tão preso no presente, com esse negócio de ver as notícias segundo a segundo e postar no twitter, que às vezes perde a perspectiva das coisas. De tempos em tempos é bom dar um passo para trás e olhar para essa meleca um pouco mais de longe, para entender o que é que está rolando.

Vejamos então o que dá para ver daqui.

Parece que tudo começou em 2000. Eleição para presidente lá na metrópole. Mal colocaram o último voto na urna e um dos candidatos saiu gritando, rugindo, nervoso, agressivo, estressadinho: ganhei, ganhei, ganhei! Bush é o nome do cara. Ganhou no grito. Foram contar os votos, parece que ele não tinha ganho não. Mas aí o sujeito já estava sentado na cadeira, rangendo os dentes, babando de raiva: ganhei, seu canalha, reconhece a derrota, quer causar uma crise institucional? O adversário, bonzinho, intimidado, cedeu.

A gente vive fazendo isso.

A humanidade tem essa fraqueza. A maioria de nós acha mais importante ser legal do que comprar uma briga. E, quando alguém se traveste de autoridade, nosso macaco ancestral dá o chamado evolutivo e nós já tratamos o desgraçado como se ele fosse o macho alfa. Obedecemos.

Isso não sou eu dando opinião não. É ciência. Tem um caso clássico da psicologia, o experimento de Milgram, de 1963, que mostra o quanto estamos sujeitos a arroubos de autoridade dos outros. No experimento, os cobaias têm que dar choques elétricos cada vez mais fortes em atores treinados para fingir dor e desespero (os cobaias não sabem que são atores, claro). A tendência é parar os choques quando os gritos ficam muito altos. Mas, se um sujeito vestido de cientista para ao lado do cobaia e dá uma bronca veemente, tipo “você concordou em participar do experimento, agora tem que ir até o fim!”, quase todos os cobaias fecham a cara e obedecem. Alguns ficam com expressão de raiva – raiva contra a vítima estrebuchando, como se eles fossem culpados pelo choque que levam. Essa é a nossa tendência, assim são os humanos. Resistir a ela exige esforço, exige lutar contra nossa natureza.

Bush liderou o mundo por 8 anos, com sua postura autoritária. E nós todos, gostando ou não, obedecemos. Para mim, ele é um sociopata (aquilo que se chamava de psicopata há até pouco tempo). Atenção: não sou psiquiatra e não tenho diploma para dar diagnósticos, isso é só uma opinião, mas acho que li o suficiente sobre sociopatia para identificar em Bush traços dessa distorção maligna de personalidade: carisma, inteligência estratégica calculismo, frieza, capacidade de mentir sem piscar e, acima de tudo, incapacidade de se colocar no lugar dos outros.

Tive aula nos EUA com um professor genial chamado Robert Sapolsky, que passou tanto tempo estudando babuínos na África que hoje parece um babuíno. Ele conta como o macho alfa do grupo de babuínos influencia o grupo inteiro. Quando é um sujeito cruel, sem caráter, o grupo se divide, os indivíduos se matam, faltam recursos, decisões suicidas são tomadas, às vezes o grupo é dizimado. Difícil não traçar um paralelo com o mundo dos últimos anos.

Os babuínos são seres hierárquicos. Nós também

Os babuínos são seres hierárquicos. Os humanos também

E aí o tempo foi passando. O cara que ganhou a eleição no grito continuou tentando ganhar todas no grito. Aquecimento global? Não está provado que tenha causas humanas, seu idiota! Economia injusta, desigual e insustentável? O que você quer, comunistazinho? Quem não andasse na linha, ouvia uns berros de alguma patrulha a serviço do macho alfa. E, como é da nossa natureza, obedecemos e ficamos quietinhos.

Agora Bush acabou. Talvez ainda o vejamos num tribunal internacional (todos os meus amigos americanos acham que essa é uma ideia ridícula, que nunca acontecerá. Veremos).

Acabou o pesadelo.

Agora, pelamordedeus, que tenhamos aprendido a lição. Na próxima vez que um mané aparecer gritando e dizendo que a bola é dele sem ser, nada de entregar com um sorriso só para ser legal. Provavelmente será um sociopata.

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15 comentários
  1. Pablito disse:

    Essa é a mais pura verdade. O ser humano, e eu me incluo nessa, quase sempre se acovarda diante de absurdos. E os que ousam reclamar muitas vezes são tachados de loucos, radicais etc.

  2. denis rb disse:

    Exato, Pablito, não é julgamento moral. É da nossa natureza se intimidar diante da otoridade. E é bom sabermos disso. Sabendo dessa fraqueza evolutiva, podemos nos policiar para nos forçar a agir diferente.

  3. Marina disse:

    Gosto muito do seu blog. Acredito que a vontade de mudar e a abertura ao novo são as principais qualidades, sendo o resto todo (conhecimento sobre o assunto) possível de se buscar, e isso vc também faz com muito empenho. Mas escrevo aqui para dizer que, dessa vez, você errou feio. Feio mesmo. Chamar o Bush de inteligente (pior, dono de uma “inteligência estratégica”), e carismático… não sei qual foi o pior. Ele foi, ao longo dos 8 anos, um fantoche de pessoas (esses sim, carismáticos e estratégicos) que comandaram e enriqueceram às custas do governo estado-unidense. Mas continue firme, você está indo muito bem.

  4. jorji disse:

    Denis, que somos uma espécie que evoluiu de macaco, que somos familia de macaco, é uma verdade absoluta, que seguimos um líder também, que no fundo a evolução apenas propiciou aos humanos o domínio de técnicas, o que lhe deu poder em relação a outros seres vivos, mas continuamos na excência o mesmo macaco que desceu das árvores para caminhar com as pernas apenas, onde o sexo é a razão de tudo, essa comparação antropológica tem sentido.

  5. Carolina disse:

    Denis, sou sua fã mas não concordo que Bush seja inteligente não! E concordo com a Mariana abaixo, quando ela diz que ele é um fantoche. Você poderia explicar porque acha que ele é inteligente e carismatico?! As vezes você enxerga coisas que eu não vejo…
    Mas enfim, sua coluna ainda é uma das distrações mais agradáveis dos meus dias! Abs,

  6. denis rb disse:

    Marina e Carolina,
    Realmente é fácil enxergar Bush como um paspalho – frequentemente ele se porta como um, com seus erros gramaticais e sua visão simplista do mundo. O que chamei de “inteligência estratégica” provavelmente seria melhor definido por “calculismo” – a frieza de escolher atitudes tendo em vista um objetivo inconfessado. Vou trocar lá, “inteligência estratégica” é mais que isso mesmo.
    Quanto ao seu carisma, confesso que ele também passa despercebido a mim – eu não o enxergo. Mas é inegável que ele o possui. De outra maneira, como explicar que um sujeito tão desprovido de outras qualidades tenha ganho uma eleição popular? Bush efetivamente sempre foi descrito como dotado de um “common touch”, uma habilidade de se relacionar com as pessoas, em especial com as mais simples. Muitos sociopatas são carismáticos, no sentido de ter talento para manipular massas. Hitler é só o exemplo mais extremo.

  7. Rogério de Oliveira Soares disse:

    Primeira de muitas mensagens que postarei neste excelente Blog:

    Caro Denis Russo

    Você fez a coisa certa ao riscar (inteligência estratégica) em seu maravilhoso texto. Nem vou tocar no assunto “Bush Burro Idiota Egocêntrico Fantoche” por que todos aqui já transcreveram quase todas as formas possíveis seu repúdio à essa Doutrina Bush que até agora Sarah Palin deve estar pescando com baba escorrendo de canto de boca, que diábo é esse de Doutrina??? O que Bush??? AAA ele é presidente de meu país. Só um complemento, antes de qualquer sacripanta achar “pelo em ovo” não esqueça a alternativa a esse austéro presidente são os republicanos e ñ os Mavericks. Então vomitem sua ideologia conservadora estupradora da verdade para quem tem em sua diéta apenas então somente um pedaço de rapadura ou fumo de mascar. Abraço aos leitores E SALVE OBAMA!

  8. Blanca Morales disse:

    Eu acho que o eleitor vota de preferência em quem já conhece, por isso as eleições e re-eleições dos Bush, o nome foi importante. O americano (me refiro ao povo) é muito preguiçoso e, em geral, desinformado sobre o que acontece além da sua comunidade. O Bush não tem carisma nenhum, é burro e idiota, com sensibilidade zero, mas não acho que foi ele que fêz todas as barbaridades apontadas como de sua autoria, foi um fantoche, sim. Uma minoria de líderes de opinião (como a tal Oprah) é quem fêz o Obama se eleger.Eu moro em Manhattan e acho que o povo mesmo só se importa com o Iraque se alguém da família morrer ou se ferir por lá; só quer preservar o planeta se houver inundação, terrremoto no quintal de sua casa ; crise financeira só se perder pessoalmente o emprego; acho um povo alienado, se comparado a nós brasileiros e europeus, o que você acha? Adoro sua coluna, tão bem pensada, criativa, um primor.

  9. Davi disse:

    Denis,
    Infelizmente voce faz o que critica e vai na onda, no que a massa mais desinformada acredita. Se esse seu post foi baseado no filme do Michael Moore, ja’ esta’ na hora de alguem te dizer que nem os Democratas aguentam mais esse cara. A eleicao do Bush em 2000, goste-se dele ou nao, foi limpa. Quem tentou levar no grito foi o Al Gore. Teve recount a dar com o pau. NYT, CNN, ABC, ninguem morria de amores pelo Bush e reconheceram, seis meses depois das eleicoes, que qualquer recount daria o mesmo resultado: Bush.

    Infelizmente essas “novidades” demoram a chegar no Brasil e ate’ gente inteligente como voce vai na onda do oba-oba anti-Bush. E se voce esta’ tao satisfeito com o Obama, por que nao deixar o diabo de plantao do Bush sossegado um pouco? Ele nem presidente e’ mais….

    Abraco,
    Davi

    PS- Se quiser, os fatos estao bem relatados aqui:
    http://en.wikipedia.org/wiki/U.S._presidential_election,_2000#Florida

  10. Rogério de Oliveira Soares disse:

    Acho cordial e respeitosa a colocação do leitor Davi mas a referência Wikipedia lamentavelmente serve de chacota para quem pesquisa informação tanto quando Bush e sua indiscutível e factível eleições roubada. Abraço aos leitores

  11. Davi disse:

    Rogerio,
    Vc tem toda razao. A wikipedia e’ mesmo motivo de chacota. Mas voce poderia me indicar alguma referencia que contradiz o que esta’ escrito ali? Eu tenho certeza que tanto voce quanto o Denis, por serem sujeitos muito mais espertos do que eu, poderiam fornecer aos leitores referencias mais confiaveis, especialmente quando se afirma algo como “Bush ganhou no grito” , ou “indiscutivel eleicao roubada”. Eu mesmo ajudei voces e dei uma dica: o filme do Michael Moore.

    So’ um cuidado: se essa e’ a unica referencia de voces, talvez nao seja eu o motivo de chacota por aqui.

    Abraco,
    Davi

  12. denis rb disse:

    Davi,
    Eu não chamaria de “eleição roubada” – tudo o que aconteceu naquela ocasião aconteceu dentro das instituições, de maneira, digamos, legítima. O que eu chamo de ganhar “no grito” tem a ver com a estratégia adotada pelo comando republicano: de lutar pela vitória estado por estado (o que é legítimo) sem necessariamente respeitar a vontade das pessoas (o que é discutível). Pegue por exemplo a suspeita bem sólida de que eleitores negros foram excluídos das listas de votação na Flórida (negros tradicionalmente votam democrata, graças à atuação dos dois partidos na época da lut contra o apartheid americano). Ou o uso de influencia política nos tribunais daquele estado, então governado por Jeb, irmão de Bush.
    Não estou me baseando no filme de Moore, ao qual assisti na época, mas do qual nem me lembro mais.

  13. Heloisa disse:

    Preste muita atencao nesse cara Michael Moore ele nao tao extraordinario qto parece , so da entrevista cobrando milhoes por elas nao aceita participar de nenhum debate onde sao questionados as fontes e seus documentarios ou seja recusa a falar com quem realmente sabe pensar e debater . Ele e um picareta sim deixo vcs assustados mas sei o que estou falando.Nao idolatre qualquer um e sempre lembre duvide de tudo e de todos.

  14. denis rb disse:

    Michael Moore é um picareta. E é também ótimo entretenimento.

    É mais catarse que jornalismo.

  15. Davi disse:

    Denis,
    Vc nem se lembra, mas ainda acredita no filme do Michael Moore. E’ o unico lugar onde se diz que o irmao do Bush ajudou na eleicao. O fato foi julgado pela Suprema Corte, E’ forcar muito a barra acreditar que um governador tem qualquer poder sobre os juizes. So’ o Michael Moore fez isso.

    Sobre o racismo dos republicanos na epoca do apartheid, o mundo seria realmente muito mais simples se fosse dividido entre republicanos malvados e racistas e democratas bonzinhos. Ninguem teria qualquer problema em escolher o lado. Infelizmente, os fatos contradizem o que vc quer acreditar. Quem viveu aquela epoca fala diferente. Veja por exemplo o que diz a Condollezza Rice e o motivo dela ter entrado para o Partido Republicano:

    http://www.washingtonpost.com/wp-srv/onpolitics/elections/ricetext080100.htm

    Quem nao registrou o pai dela, negro, para votar foram os democratas. Quem estava do lado do Martin Luther King para que os negros tambem tivessem armas e pudessem se defender foi o NRA, ligado ao Partido Republicano.

    Enfim, as coisas sao um pouquinhos mais complicadas do que voce parece acreditar.

    Abraco,
    Davi

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