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Arquivo mensal: maio 2009

Blog de jornalista geralmente é um palavrório só – textos longuíssimos, que dão uma preguiiiiiça. (Que foi? Por que você está olhando para mim com essa cara?)

Uma exceção é o Desculpe a Poeira, direto ao ponto, muita imagem, pouca opinião, muita coisa para te mostrar. Sempre tem uma provocação lá. Por exemplo, o post sobre anúncios antigos que hoje parecem nojentamente machistas. Tipo este:

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É uma propaganda de calça, A mensagem básica: use esta calça que você vai ficar tão irresistível que vai abater – sem espingarda – até uma tigresa gostosa como esta.

Fiquei pensando. Quais propagandas que hoje achamos normais serão vistas como absurdamente sem noção no futuro?

Alguma indicação, gentil leitor?

Semana passada chegou a nova Vida Simples, revista da qual, além de fã, sou colunista. Adorei a edição, cheia de provocações e sacadas. Vai aí para vocês meu texto deste mês:

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Viva a crise!
Saber ganhar grana não é pecado. Tampouco é virtude

A lógica é simples, não precisa ser muito inteligente para entender. O nome do jogo é “ganhar dinheiro”. E não é só “ganhar dinheiro”, é ganhar mais dinheiro este ano do que se ganhou no ano passado, e mais no ano que vem do que este ano, e no outro mais ainda. É preciso crescer. E é preciso que o ritmo de crescimento cresça também. E até o ritmo do crescimento tem que crescer mais este ano do que cresceu ano passado. E assim se movimenta a economia, e assim se constrói o país, e é por isso que, nas raras ocasiões em que é possível ir a um bar encontrar os amigos, os amigos estão cansados, e perdidos, e esgotados, e trabalhando todo dia até tarde. E você pergunta a eles “como vai a vida?” e eles dizem “está boa, estamos crescendo”, e suspiram desanimados.

É preciso uma crise para nos darmos conta de que isso tudo é insustentável. De que estamos perdendo contato com a vida. De que não lemos mais poesia, e não reencontramos mais os velhos amigos, e não fazemos mais novos amigos, e não pensamos mais na vida enquanto balançamos na rede para lá e para cá. E aí nos damos conta de que deixamos de valorizar o talento, a inovação, a originalidade, a alegria, a novidade, a tradição, a descoberta, a qualidade. Só damos valor para o número frio da linha de baixo da equação. Quanto? Quanto vou ganhar com isso?

Viva a crise econômica mundial! Viva a queda das bolsas! Viva a depressão financeira! Viva o sumiço da grana! Viva a vida pobre e digna, viva as coisas que acontecem por amor, por fé, por esforço irracional, e não por dinheiro.

Sei bem que é absurdo eu dar vivas a uma crise terrível, que certamente vai matar gente de fome e fazer inocentes sofrerem. É terrível que isso seja necessário para chacoalhar a humanidade e mostrar às pessoas que elas estão equivocadas. Mas assim é a vida. Assim somos nós. Às vezes precisamos de um tranco para perceber o quanto somos babacas. Às vezes precisamos de um tapa na cara para entender que uma lágrima, no final das contas, importa mais que 1 milhão de dólares.

Aprecio o valor do trabalho duro. Talvez eu tenha passado tantas madrugadas festejando quanto passei trabalhando, e tive prazer fazendo as duas coisas. Mas o que estava acontecendo até o ano passado não tinha nada a ver com valorizar o trabalho. Valorizava-se a grana. O lucro. A capacidade de saber “monetizar” cada segundo da sua vida. Não acho que saber ganhar dinheiro seja pecado, mas tampouco acho que seja virtude.

Enquanto isso, todas os outras qualidades eram menosprezadas. Esse cara é genial? Aquela menina é talentosíssima? Aquele senhor já viu de tudo? Legal, mas o quanto eles são “eficientes”? Quanta grana eles dão?

Não sou contra a eficiência. A bem da verdade, acho que ela ainda precisa crescer muito, tanto no setor público quanto no privado. Mas aquela empolgação financeira que durou até o ano passado deu a sensação de que ela é a coisa mais importante que existe. Tem outras coisas que importam na vida. A crise é uma boa oportunidade para pensarmos nelas.

Você já deve ter ouvido a história: energia solar é abundante e inesgotável, suficiente para suprir com folga todas as necessidades do Planeta Terra. Mas é cara. E é difícil de armazenar ou transmitir a longas distâncias, o que a torna uma opção ruim para terras pouco ensolaradas. Um dia essas questões técnicas serão resolvidas e não precisaremos mais queimar carvão para prover aquilo que o Sol nos dá de graça.

Se é assim, é de se esperar que o mundo esteja investindo loucamente em pesquisa com energia solar, certo?

Errado.

Ó:

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Estes são os investimentos de todos os países membros da Agência Internacional de Energia em pesquisa. Investe-se uma merrequinha no mundo para se desenvolver tecnologia para geração, armazenamento e distribuição de energia solar. Sabe por quê? Porque a gente continua preso na crença de que energia solar é cara e pouco prática. E energia solar coninua cara e pouco prática porque não desenvolvemos novas tecnologias. Como sair dessa dízima periódica?

Pensando diferente.

(O gráfico encontrei no blog Dot Earth, do New York Times.)

Adorei a discussão sobre o prédio Libélula, vou tentar postar mais coisas do tipo. O legal de discutir conceitos radicais, transformadores, é que a discussão muda de patamar. Em vez de ficarmos presos às picuinhas superficiais e transitórias – o PT, o PSDB, o socialismo, o capitalismo, o mercado, o governo –, falamos do que importa: das pessoas, das cidades, dos bairros, da vida.

Teve o Jay Jay, engenheiro civil responsável por construir infraestrutura na Nigéria, lembrando que prédios não são grátis, não brotam do chão. Eles consomem recursos que precisam ser extraídos do chão. Portanto, consomem a Terra.

Teve o email que recebi do Sten Johnsson, arquiteto do Rio, propondo uma solução radical para isso: uma casa-organismo. Ou, nas palavras dele, “uma simples semente (como de uma árvore ou um pólipo de coral), porém com um DNA projetado para crescer e gerar algo similar a uma árvore ou uma estrutura de corais, configurada com espaços habitáveis, circulações e tudo que uma edificação tem em conformidade com um programa arquitetônico pré-concebido”.

Teve uma discussão sobre prédios simbólicos, sobre a necessidade de ideias loucas e sobre pena de morte para arquitetos
🙂

Teve uma outra mensagem que recebi, de um leitor chamado Reynaldo, que nunca comenta um post, apenas escreve emails (ele diz que, por razões ideológicas, não quer se vincular de maneira nenhuma à Veja). Reynaldo disse que imagina este prédio frequentado por engravatados. E que prefere fazendas de roça, de campo, com mato, com bichos, com cachoeiras.

Da minha parte, acho que talvez soluções radicais como o Libélula sejam um jeito de permitir que a natureza possa continuar natureza. Sou ciclista. Já pedalei em cidades, já pedalei em bosques e já pedalei entre plantações industriais. Posso dizer: bosques são os lugares mais agradáveis que existem para se pedalar. Cidades chegam em segundo. Plantações industriais estão em último.

Olhe para a foto aérea de uma cidade. Você vai ver prédios de bancos, de companhias aéreas, de agências de publicidade, de governos. Mas não vai ver nenhum prédio que produza comida (apenas os que processam comida). Será que é justo que as cidades continuem “terceirizando” a indústria para o campo, via agroindústria? Ou será que cada cidade deveria cuidar de sua própria comida, deixando ao campo a liberdade de ser campo (e produzir, quando muito, produtos de baixo impacto e alto valor).

Olhe para uma foto de satélite. Procure por uma cidade grande. É uma mancha preta, morta, mais ou menos como um fungo numa fruta ou um câncer num animal. Será que não é hora de esverdearmos essa mancha preta, antes que o resto do globo fique amarelo?

O prédio-libélula, uma ideia para Nova York

O prédio-libélula, uma ideia para Nova York

O arquiteto franco-belga Vincent Callebaut divulgou sua visão conceitual do prédio Libélula, planejado para o coração de Nova York. É um jardim vertical, uma estufa arranha-céu, uma estrutura de tubos de 128 andares que aproveita a água da chuva e a luz do sol para abastecer de comida a cidade. A estrutura se inspirou nas asas de uma libélula. Isso garante que ela seja eficiente em suportar peso e em distribuir água pelos andares. Se não fosse eficiente, a evolução não teria feito assim.

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A ideia de reaproveitar água de chuva e luz do sol parece um detalhe. Mas não é. Pense bem. Hoje estamos preocupadíssimos com um possível colapso de energia ou com um esgotamento da água no mundo. Mas quase ninguém usa as fontes mais abundantes e inesgotáveis de energia e água: o sol e a chuva. Eles estão lá, oferecidinhos para a gente. E eles dão conta com sobra das nossas necessidades, sem impedir o progresso. É só alguém pensar num jeito legal de aproveitá-los. O prédio de Callebaut gasta zero de eletricidade e zero de água: capta tudo que usa. Não se esqueça de que agricultura e pecuária atualmente consomem 70% a 80% do total de água gasto pela humanidade. Ou seja, um sistema como esse resolve de vez a falta d’água. Exemplo de que olhar para os problemas de um jeito diferente pode ser o jeito de resolvê-los. Todo mundo acha que falta água e energia. Não falta. Nós é que não sabemos usar.

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Outra coisa que parece detalhe: o fato de o prédio ficar no meio de uma cidade densa como Nova York. Isso significa um passo para livrar o mundo de caminhões. Sem caminhões, talvez o transporte público consiga se mover. E talvez possamos aposentar os carros – todos eles! E talvez dê para encontrarmos espaço para patinetes, patins, bicicletas, skates, pula-pulas e gente andando a pé.

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Tenho 36 anos. Isso quer dizer que cresci lendo sobre carros voadores e outras previsões maravilhosas para o futuro, que jamais se realizaram. Fico pensando. Será que um dia eu vou poder ver um prédio desses, andar por ele, passar horas nele? Ou vamos continuar nos maravilhando com as coisas, sem ter coragem de concretizá-las?

Há dois jeitos de melhorar o mundo.

Um é criar regras melhores. Regulamente os mercados, bradam os especialistas! Leis mais duras! Há que se proibir que deputados roubem dinheiro!

Outro é criar incentivos melhores. Molde o mercado para ele te ajudar! Repense as políticas de bônus! Remunere quem economiza energia! Torne a política mais atraente para gente bem intencionada!

Ontem vi este vídeo espetacular do psicólogo americano Barry Schwartz (com legendas em português). É uma palestra de 20 minutos, mas cada segundo deles vale a pena, garanto. A tese básica de Barry é a seguinte: regras e incentivos são importantes, claro, mas estamos exagerando a importância deles. E é justamente por isso que o mundo está tão ruim.

Regras demais impedem que a gente pense – que a gente converse com outras pessoas e decida por nós mesmos o que é certo e o que é errado. Incentivos demais têm mais ou menos o mesmo efeito – em vez de nos preocuparmos em fazer o que é certo, nos sentimos trouxas se não fazemos o que nos traz mais vantagem.

O que precisamos não é de mais regras ou de mais incentivos. Precisamos de mais sabedoria prática. Um bom começo é procurarmos exemplos de gente sábia, gente que teve que enfrentar um problema sem saber como resolvê-lo e que conseguiu agir certo nessa hora. Precisamos divulgarmos esses exemplos, para que eles inspirem os outros. Precisamos reaprender a ter heróis.

PS: Obrigado ao Vitor Leal, do blog Quintal (ideias para um mundo melhor), por sugerir este vídeo, num post sobre meu post de ontem.

PS2: Este vídeo é uma das palestras do TED (ideias que merecem ser espalhadas), que estão todas online, às vezes com legendas em português. O TED é hoje meu lugar preferido na internet. Vale muito a pena passar tempo navegando lá em busca de inspiração. Acho sinceramente que pode mudar sua vida.

PS3: Uma fofoca: o TED, que além de ser um site é um evento (onde as palestras acontecem), está chegando ao Brasil. Aguarde notícias.