Guaraná tarja preta

Estou escrevendo uma matéria para a revista Superinteressante sobre coletivos. Legal voltar a escrever para a revista depois de alguns anos perdido entre a vida de executivo (reuniões para decidir as pautas das próximas reuniões) e o ritmo frenético de um blog (assunto novo todo dia que figurinha repetida não enche álbum).

Neste momento estou no meio do duro trabalho de escrever o texto (este post é parte da minha estratégia de procrastinação). Hoje de manhã fiz minha última entrevista, com um sujeito interessantíssimo, o Björn Bjørn Christiansen. Bjørn é parte do coletivo Superflex, formado por três artistas dinamarqueses. Ele casou com uma brasileira e hoje mora no Rio metade do ano. O trabalho do Superflex é o exemplo mais legal que encontrei do que um coletivo pode fazer.

Um dos projetos deles, por exemplo, é uma nova marca de guaraná. O Superflex foi para a Amazônia, fez contatos com agricultores de guaraná, bolou a logística de uma pequena fábrica de refrigerantes, fez contatos com comerciantes do mundo inteiro e criou uma cadeia de produção para vender um guaraná que não tem marca (na verdade, a marca é uma tarja preta). Os lucros vão integralmente para os agricultores. Ou seja, o trabalho deles é arte. Mas é muito mais que arte. É um jeito concreto de questionar o modelo econômico atual: guaraná é uma planta tradicional amazônica, mas só é explorada por um punhadinho de grandes corporações, quase sem benefício para os locais (porque, como trata-se de um oligopólio com baixa concorrência, os preços da fruta são baixíssimos).

Aí você torce o nariz e comenta: “mas que papinho de comunista tem esse dinamarquês”.

É que você não ouviu ele falando:

“É uma bobagem ser contra o capitalismo. É absurdo ser ‘contra o sistema’. O único jeito de mudar o sistema é entrar nele e trabalhar para que ele seja como você quer que ele seja.”

“Não tenho nada contra ganhar dinheiro. Os lucros vão integralmente para os produtores porque neste momento é importante que seja assim, para consolidar o esquema. Mas, se o negócio crescer, também vamos querer ser remunerados.”

“Culpar o capitalismo por tudo é muito fácil. Qualquer um pode ficar num canto apontando o dedo.”

“O problema no Brasil é a falta de uma cultura de empreendedorismo. Há muita burocracia e pouca motivação para fazer coisas novas.”

“O mais importante do nosso projeto é que ele muda a ideia que os agricultores têm do que eles próprios são capazes. Eles podem virar empreendedores.”

Com essa atitude o Superflex consegue ter um impacto real no mundo. Por exemplo: se uma grande corporação quiser vender guaraná na Dinamarca, possivelmente vai encontrar dificuldades para entrar no mercado de lá. Afinal, o guaraná sem marca já ocupou o mercado – é vendido em bares, cafés, restaurantes – e passou sua mensagem democratizante, que caiu bem com a população nórdica. Não que a Dinamarca seja o maior mercado do mundo. Não é, claro. Mas há que se começar de algum lugar.

O guaraná tarja preta, arte que muda o mundo

O guaraná tarja preta, arte que muda o mundo

O guaraná é só um dos muitos projetos do Superflex. Eles também fizeram uma cerveja grátis e uma usina de energia limpa na África. Desliguei o telefone empolgado com as possibilidades. E convencido de que o jeito de mudar o mundo é mudando o mundo. Simples assim. Ou, se fôssemos citar Gandhi:

“Seja a mudança que você quer ver no mundo.”

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12 comentários
  1. Luiz Quaglia disse:

    É isso ai Denis. Muito boa essa ideia do Superflex. Boa notícia. Excelente perspectiva de mudança no mundo real. Precisamos, e logo, sair desses discursos chatos e repetitivos do ecocatastrofismo para o mundo concreto, da sobrevivencia cotidiana. De catastrofes já estamos saturados (gripes, chuvas e financeira por exemplo). Resta-nos fazer a mudança do mundo que queremos viver. Abraços.

  2. Douglas disse:

    Será que tem pra vender aqui no brasil?

  3. marcelo vergara disse:

    Olá Denis, bela matéria, chego a pensar no Projeto G.E.R.A.L, sendo desenvolvido pela mesma filosofia mercadológica, quem sabe?
    Abçs.

  4. denis rb disse:

    Por enquanto não, Douglas.

  5. Olá Denis, acho que hoje não existem mais esquerda e direita formais. Tanto que o governo de Lula não é de esquerda, pois é composto de vários partidos distintos. A política econômica também, considero até ser de direita. Mas isso não importa. Acredito que se fossemos evoluídos nem precisariamos de governo, nem de direita e de esquerda. Nem capitalismo, nem socialismo e sim auto-gestão. Engraçado que uns me chamariam de liberal ou de um louco anarquista.
    Agora como estamos no capitalismo precisamos humanizá-lo, torná-lo moderno, sustentável e menos selvagem. Nosso País é um dos lugares onde o sistema é mais cruel e desigual, somos empreendedores e nossa cultura é maravilhosa, um povo rico e -apesar de tudo- feliz. o problema é a “burrocracia” e a falta de visão dos governantes.
    O Superflex é um exemplo a seguir, essa visão que falta e que poucas pessoas possuem aqui.
    Uma dica pra você que têm uma cabeça aberta é pesquisar sobre o cicloativismo, que tá crescendo e que é uma das maneiras de criar uma vida mais sustentável, saudável e futuramente é a única solução pro caos de São Paulo.
    Obrigado e se possível passe lá em meu blog

  6. Giqqs disse:

    Só uma perguntinha: Tem autorização do CGEN?

    Sinto muito, dênis, mas a parada é ilegal sem essa autorização aí de cima, viu?

  7. Leonardo disse:

    Apenas uma pequena correcão. Não existe trema na ortografia dinamarquesa, e sim na sueca. Provavelmente o nome do sujeito é Bjørn e não Björn.

  8. Nossa, adorei essa Superflex! Nao conhecia! Nao achei nada de comunista nesse papo dele, alias, super atual, real e verdadeiro! Eles tem site, né?

  9. walter disse:

    Denis,

    Bom dia,

    estamos no caminho do capitalismo natural, está na hora das grandes empresas e governos entenderem que o maior lucro é a felicidade da população. Esse é o grande lucro, todos mais felizes seria uma grande economia em guerras e armamentos.
    abs, Walter

  10. denis rb disse:

    Você tem razão, Leonardo, obrigado. O nome dele aparece com trema em sites internacionais, mas a grafia original, dinamarquesa, é com ø mesmo.

  11. Rogério de Oliveira Soares disse:

    Nooooooossa Denis! Acredito que a repercussão deste revolucionário sistema “link direto com a fonte” será pauta nos discursos presidenciais da ONU. Sinceramente achei notável esta idéia nada comunista por sinal. Só tenho medo que esse presidente bananeiro cabeça de cofre do Evo Morales mastigando cocaína atrás do púlpito presidencial, achando que está abafando diante dos colegas. Imaginem ele reivindicando direitos de comercialização da cocaína pelo mundo. Rss
    Respondendo ao Douglas:
    Acho que podemos começar, oferecendo álcool combustível para os EUA produzido da cana orgânica ”eficientícima” por esse maravilhoso sistema de agricultura familiar dos sem caráter ou melhor Sem Terra. hehe
    Abraço aos leitores
    P.S.: É uma honra saber que nosso Blogger escreve para revista tão maravilhosa. Por falar em bebida sugiro ao caro Denis pesquisar sobre as inesperadas nuvens cósmicas de álcool etílico que as vezes possuem 1000 a extenção de nosso sistema solar.

  12. Cleunice Rehem disse:

    Genial essa idéia do Superflex, Denis! Conheço algumas experiencias de economia solidária que atuam com base nesses mesmos principios, mas somente vi realizações em favelas ou comunidades excluídas economicamente ( o que é muito bom, claro, mas limitado). esses caras do Superflex estão atuando em redes mundiais, meu !!!
    Trabalho com educação e já vou incluir idéias como estas junto a outros educadores. Um dia ganha espaço nas mentes em formação e toma conta silenciosamente do mundo!!! Creio nisto, gente!
    Parabéns, Denis, por trazer este assunto para a midia!

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