Justa causa

Vocês me perdoem a insistência, mas eu gostaria de continuar com o assunto de ontem. É que não consegui tirar da cabeça o tal deputado gaúcho Sérgio Moraes, aquele que está se lixando para a opinião pública.

É que fiquei pensando no significado do que ele disse. Opinião pública = opinião do povo. Estou me lixando para o que o povo pensa. Deputado – substantivo masculino, do latim deputatu, indicado, escolhido para representar. Enfim, o representante do povo está se lixando para a opinião do povo.

O deputado fez, nas entrevistas que deu, críticas pesadas à imprensa. Eu sou da imprensa. Não sou corporativista, como o deputado é. Concordo com ele em alguns pontos: alguns dos meus colegas de profissão são picaretas. Alguns são irresponsáveis. Alguns são incompetentes.

Mas jornalistas (a não ser os muitos que trabalham para o governo) são funcionários de empresa privada. Se eles dão mancada, vão para a rua. Eu, por exemplo, tenho um crachá verde e branco da Editora Abril S.A.. O que vocês acham que aconteceria se eu escrevesse que estou me lixando para a opinião do dono da minha empresa? Imagino que eu seria sumariamente demitido, por justa causa.

Pois então: por que é que um representante do povo que afirma na imprensa que está se lixando para a opinião do povo não perde o emprego?

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22 comentários
  1. Vai ver que é por falta de uma lei que criminalize esse ato, ou pior, do jeito que a constituição do Brasil é vasta, deve ter uma lei que contradiz com outra permitindo assim que o cara saia ileso, depende muito da interpretação que se faz das leis. Com uma grande constituição, podemos fazer muitas interpretações, muitas injustiças, muitas falcatruas…

  2. f tavares disse:

    caso não tenha percebido a diferença, meu caro jornalista, o deputado não foi contratado pelo congresso, mas eleito por sei-lá-quantos votos, escolhido por eleitores para representá-los como deputado federal. não é uma relação de emprego. ele foi um idiota inoportuno, arrogante na afirmação, mas também o foi a jornalista que o entrevistava apresentando a pressão popular como instrumento de coação – isso mesmo, c o a ç ã o – para pautar o deputado, fazer com que procedesse como, ou afirmasse o que, ela e quem ela representava naquele encontro, o desejavam. ademais, o deputado tem razão quando afirma que eleitor nenhum, entre os seus, é claro, deixará de consignar seu voto pelo que tenha dito ou, o que é muito pior, pelo que tenha feito ou deixado de fazer. não custa caro a vocês, formadores de opinião, cair na real…

  3. Márcio disse:

    Como o post trata de jornalismo também, permito-me fazer comentário sobre o tema. Até porque quanto à atitude do nobre deputado não se tem muito o que falar…se dissesse isso no século XIII, talvez não soaria tão patético (talvez!).

    O que queria dizer é que fiquei um pouco em dúvida (ou seria incomodado?), com essa questão que o Denis colocou no penúltimo parágrafo. O ponto é que, apesar de um jornalista trabalhar para um órgão privado, ele cumpre uma função pública, de modo que desejaria entender melhor como funciona a ética profissional nesse caso.

    Aliás, como sabemnos, a crise pela qual atravessa a grande mídia está ligada não apenas à questão do financimanto, mas, sobretudo, éuma crise de legitimidade. Imagino eu que, uma das razões disso, é justamente a tensao que se cria entre os interesses privados de um grupo e a ética própria da profissão do jornalismo.

    Sou professor universitário de uma instituição privada e, pelo menos até o momento, não sofri nenhum tipo de constrangimento sobre algo que disse dentro de sala…e não foi apenas uma vez em que critiquei a própria instituição que me paga. Mas creio que na grande mídia essa tensão se dê de forma mais firme.

    Por fim, creio ser umponto importante a ser debatido, até porque são vocês da mídia que têm o dever e o direito de nos informar sobre o descaso que os representantes do povo tem para com aética da coisa pública, mas para tal devem estar fundamentados por uma ética profissional transparente e livre de pressões que, em algum momento, possam anulá-la.

    Desculpe o tamanho do comentário.

  4. denis rb disse:

    Olha só, f tavares, você tem razão. Um cargo eletivo obviamente é diferente de um emprego. E obviamente não seria desejável que deputados começassem a perder mandatos pelo que falam, porque esse mecanismo, por mais bem intencionado que fosse, acabaria servindo como instrumento político. Meu post era uma provocação. Mas deixa eu chamar atenção de novo para o tamanho do absurdo proferido pelo sujeito: ele está se lixando para a opinião de quem o escolheu como representante! Obviamente ele não é talhado para esse trabalho que exige espírito público. Vejo parlamentares sofrendo processos por quebra de decoro por ofender tradições da casa, por insinuar coisas contra colegas, por ferir o espírito de corpo. Mas por que não é indecoroso ofender ou menosprezar quem os elege? Eu respondo: porque alguns deles (muitos deles, eu diria) se consideram uma elite de escolhidos, acima do povo. Ah, e reforço: não estou fazendo uma defesa da imprensa ou de nenhum jornalista específico. A propósito: acho que tem muitos jornalistas que também se consideram parte de uma elite de escolhidos.

  5. denis rb disse:

    Márcio, o New York Times, quando teve parte da empresa comprada pelo milionário mexicano Carlos Slim, fez uma bela matéria contando quem era Carlos Slim, afirmando que aquilo não era apenas um negócio para ele, mas uma forma de ser aceito na alta sociedade americana, e afirmando que Slim declinou dar entrevista para aquela matéria. Achei aquilo um exemplo de jornalismo isento, que não se furta a falar de si mesmo quando é relevante. E acho que jornalismo tem que ser assim: ferozmente independente. O que não quer dizer que eu possa afirmar algo gratuito e agressivo do tipo “estou me lixando para a opinião do do no da minha empresa” sem sofrer as consequências.

  6. f tavares disse:

    Denis RB, fui meio ríspido, não entendi a provocação – um professor de português dizia que a ironia escrita tem que ser combinada… – e peço desculpas por um momento de mau humor, aliás raríssimo atualmente em minha vida. mas a verdade é que, tal qual meu meu deslize, nem sempre as mensagens são bem assimiladas, fazendo com que grandes oportunidades, como a de descer a borduna nesse deputado cretino, percam consistência, porque a argumentação passa a ser discutível, o motivo da crítica vai pro segundo plano e a retórica toma conta do ambiente, questionando-se o dono da razão. pra ficar claro, acho o deputado um medíocre, se fosse meu o país jamais seria um congressista, mas ele é o espelho de seus eleitores, muitos dos quais, seguramente, nem sabem ler… e minha geração aprendeu que a democracia é como o rio de janeiro do tom jobim: uma merda, mas é ótima.

  7. Mauricio Veríssimo disse:

    Cada um tem sua própria opinão sobre o mesmo asunto e a do ”nobe plamentar” não me pareceu diferente: ele se indignou com a imprensa e tascou a sua, diria que sincera direta e objetiva. Porém um ‘ser’ desta espécie (que espécie é esta???) asim como muitos, causa nojo e descrença ao ”parlamento Brasileiro” ou seria melhor dizer ”sala de reuniões de canalhas e marginais”? Cada dia que me aprofundo aos assuntos da política nacional sinto mais NOJO e REPUGNÂNCIA de gente que te estende as mãos e abre um sorriso falso e amarelo em épocas de eleições. Nem por isto devemos deixrr de fazer a nossa parte ensinando aos nossos filhos que ética não deve ser apenas representada (como um ator representa) em épocas de horário político.

  8. Luan Oliveira disse:

    Acho, Denis, que esta diuturna repetição de desdém para com o que o povo, não se dá tanto pelo lado cultural. Até porque, quem realmente é brasileiro sabe o quanto, mesmo o mais simples cidadão, se revolta com essa vergonha que é o parlamento brasileiro. Acho, e me permitam aqui somente expressar a minha humilde opinião, que o Brasil tem excesso de representantes de forma que o cidadão brasileiro não consegue indentificá-los pelo próprio excesso destes. São cerca de 370 mil pessoas para um deputado federal(arredondando generosamente para cima), e considerando um parlamentar uma pessoa que tem a grandiosa (e única) missão de representar o povo, é inconcebível que ele represente tão poucos cidadãos. É um deputado para cada cidade média, mas eles não são vereadores nem prefeitos, são deputados FEDERAIS. Para mim, o brasileiro não conhece quem o representa e nem poderia. Note que quando há algum desvio ético ou qualquer outra coisa, nós sempre dizemos que “eles” encerraram uma CPI que acabou em pizza, “eles” utilizaram o dinheiro público para fins privados, “eles” votarm pelo aumento do próprio salário. E mesmo quando um caso (como este) chame a atenção para um nome, este é rapidamente esquecido pelo mesmo motivo. Vejamos por quanto tempo nos lembramos quem é Sérgio Moraes…

  9. Lilian disse:

    Pelo que entendi o principal alvo dos ataques é a imprensa, aqueles que informam /formam a opinião pública. E o ataque maior foi dizer “vocês escrevem, mas o povo não acredita no que vocês escrevem, continuam nos elegendo”.

    Aliás, nós já sabemos que ele(s) não se importa(m)com nada nem com ninguém. Só não precisava dizer.
    Mas há ainda os que se importam um pouco.

  10. Lilian disse:

    ou melhor, continuemos em busca dos que se importam um pouco com o povo.

  11. Escrevi no meu blog sobre esse cara e sobre a necessidade de reforma política. Uma ideia minha é de acabar com os mandatos sucessívos dos parlamentares, sem reeleição, nada de senador ficar, incríveis, 8 anos lá em Brasi.

  12. Rogério disse:

    “Eu, por exemplo, tenho um crachá verde e branco da Editora Abril S.A.. O que vocês acham que aconteceria se eu escrevesse que estou me lixando para a opinião do dono da minha empresa? Imagino que eu seria sumariamente demitido, por justa causa.”

    NÃO, VOCÊ NÃO SERIA DEMITIDO POIS IRIA AMEAÇAR SEU CHEFE DE TER SUA LIBERDADE DE OPINIÃO FERIDA E QUE IRIA ENTRAR NA JUSTIÇA QUE PROVALMENTE SENDO POLITICAMENTE CORRETA TE DARIA UM INDENIZAÇÃO E TANTO.PORTANTO, VOCÊ SABE QUE NÃO IMPORTA O QUE SEU CHEFE PENSA VOCÊ SEMPRE TERÁ RAZÃO POIS TEM UM INSTRUMENTO PODEROSO EM SUAS MÃOS.NO QUE DIFERE A QUESTÃO DO DEPUTADO?

  13. REINALDO CHAVES DA SILVA disse:

    TAMBEM ESTOU INDIGNADO COM QUE ESTE TAL DE SERGIO MORAIS DISSE, AQUI NO MARANHÃO, QUANDO UM SUJEITO DESRESPEITA OS OUTROS, PRINCIPALMENTES AQUELES QUE PAGAM SEU GORDO SALÁRIO, MERECE NO MINIMO LEVAR UNS “SOPAPOS” NA CARA. MARANHENSE INDIGNADO.

  14. Rômulo disse:

    Ele não vai para a rua e nem é surrado em praça pública por que somos uns bananas. Se fôssemos mais sérios, mais responsáveis, menos alheios ao que nos cerca, nada dessa bandalheira aconteceria sem um quebra-quebra generalizado e surra em picaretas.
    Acho que tem que ter uma reação popular, no sentido de cobrar uma postura mais digna desse bando de salafrários.

  15. Vinhal disse:

    Acho a fala do deputado ridícula.

    Mas o problema é que opinião pública não quer dizer opinião do povo, Denis.

    Abraço

  16. Fábio disse:

    Olá… comentários como o do Deputado, ou então, de políticos pegos em fraudes e outras picaretagens explícitas como é praxe no Brasil, deveriam implicar em expulsão direta e imediata do meio político e público, sem direito a reeleição… e sem direito a trabalhar em qualquer meio do funcionalismo público, inclusive concursos… Tem que acabar com esse pessoal administrando setores do Brasil em causa própria…

  17. denis rb disse:

    Uai, Vinhal, quer sim. Povo e público têm a mesma raiz, o significado literal de “público” é “do povo”. Dê uma olhada no Houaiss: Acepções
    ■ adjetivo
    1 relativo ou pertencente a um povo, a uma coletividade
    2 relativo ou pertencente ao governo de um país, estado, cidade etc.
    Ex.:
    3 que pertence a todos; comum
    Obs.: p.opos. a privado
    Ex.: lugar p.
    4 que é aberto a quaisquer pessoas
    Ex.:
    5 sem caráter secreto; manifesto, transparente
    Ex.: debate p.
    6 universalmente conhecido

  18. Fernando Augusto Rodrigues da Costa disse:

    O brasileiro tem que acabar com essa mania de acreditar que é obrigado a votar e supor que, votando nesses políticos safados, está cumprindo com seu dever cívico. Na verdade, está prestando um desserviço à nação, pois esses crápulas, não merecem o voto de ninguém, nem da própria mãe. As campanhas do TSE, também, são passíveis de críticas, pois não ilustram bem qual atitude o eleitor deve tomar ao não encontrar quem lhe seja confiável, para receber seu voto. Por último, os verdadeiros culpados por toda essa bandidagem que se instalou no congresso nacional, são os partidos políticos, verdadeiros criadores desse cancro social, que se diz político. O Brasil, necessita de uma reforma política urgente e, de preferência, feita por pessoas de fora desses partidos. Não podemos conviver com o que está acontecendo, por mais tempo, basta.

  19. julio batista disse:

    Meu caro,

    ” alguns dos meus colegas de profissão são picaretas. Alguns são irresponsáveis. Alguns são incompetentes”. Não seja modesto, olhe a sua volta aí na revista. Vocês são piores que os politícos, visto que são vocês que os forjam e os perpetuam.

  20. Vanderlei disse:

    JUlio Batista, dia 14, é de gente que pensa como você que o deputado adora.
    Questionar a revista pelas suas posições? Veja é uma das poucas que têm um time de jornalistas independentes. Daqueles que não comem na mão do governo de plantão. Reinaldo, Diogo, Augusto, Lauro, Denis e outros tantos, não podem ser confundidos com as ratazanas que mamam, direta ou indiretamente, nas generosas tetas do governo, e lógico, às custas do contribuinte que é quem mantém essa estrutura toda.
    Procure pelos asseclas de Franklim Martins e diga o que voce disse nesta coluna. Aí sim, no centro do alvo.
    Se apesar de tudo, voce realmente acredita que na Veja as coisas funcionam como voce disse, lamento.Vá

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