O kit cocô

Dois brasileiros e uma africana tentam sobreviver na neve

Dois brasileiros e uma africana tentam sobreviver na neve

Ano passado, me matriculei num curso de sobrevivência na neve. Foi uma experiência incrível. Durante a semana, tínhamos aulas teóricas super complexas: sobre formas de perder e de reter calor, doenças térmicas e de altitude, navegação, geologia, meteorologia, primeiros socorros, nutrição, liderança. Aí, no fim de semana, pegávamos um monte de equipamento, socávamos tudo dentro de uma mochila e viajávamos horas até as montanhas. Passávamos a noite acampando sobre a neve no pé da montanha e, de manhã, começávamos a escalar. Daí para frente, eram dois dias enfrentando tempestades de neve, tentando andar com esquis, cavando cavernas para passar a noite, tentando colocar em prática no meio das adversidades os conhecimentos aprendidos na teoria.

Mas o que eu quero contar para vocês não é sobre as paisagens incríveis ou o barulho dos animais ou o perigo de congelamento ou o prazer de desbravar. É sobre um detalhe menos glamouroso: o shit kit. Ou kit do cocô.

O shit kit era um saquinho plástico tipo zip cheio de areia. Acho que vou poupar você de uma descrição mais detalhada de como ele deve ser usado. Basta dizer que o objetivo é levar de volta para a civilização os traços da nossa presença no mundo selvagem. Sim, sim, você entendeu certo. Tínhamos que embalar nossos “detritos”, colocá-los na mochila junto com nossas roupas e com a comida e levá-los de volta para a civilização.

Que tal?

Há um século, aventureiros iam para o mato carregando facas, canivetes, armas. Naquele tempo, se esperava que um aventureiro caçasse para comer, que derrubasse árvores para obter lenha, que transformasse a natureza para sobreviver nela.

Hoje, pelo menos na Califórnia, onde fiz meu curso, pensa-se de um jeito oposto. A ideia é causar um impacto o mais próximo possível do zero. O objetivo é ser como um fantasma, que passa e não modifica nada. Não pode nem armar a barraca duas noites seguidas no mesmo lugar, porque isso pode danificar a vegetação. Carrega-se toda a comida de que se vai precisar, cuida-se para que nem migalhas fiquem no chão, porque migalhas alimentam aves que predam animais pequenos. Lava-se as panelas sujas com neve derretida e depois bebe-se aquela água nojenta para não deixar restos de comida. Não podemos trazer nada da montanha. E não podemos deixar nada lá. Nem cocô. (“Que exagero! Cocô é orgânico!”, você pode argumentar. Sim, é orgânico, mas carrega matéria estranha ao lugar. Pode desequilibrar o ecossistema ou contaminar os rios quando o inverno acabar.)

Eu jamais tive coragem de usar o shit kit. Voltei de todas as viagens suando frio, e sempre corri para o banheiro no minuto em que desci da montanha.

Mas a experiência radical serviu para eu começar a entender o princípio por trás da coisa: minimizar ao máximo o impacto. Hoje, quando vou ao supermercado, virou natural para mim me perguntar como eu faço para reduzir a quantidade de resíduos que eu deixo e de dano que eu causo. Isso não quer dizer que eu acerte sempre. Às vezes relaxo e aceito um saco plástico que eu não precisava, ou escolho um produto cuja embalagem não é reciclável, ou esqueço de procurar por selos verdes ou coisas do gênero. Evitar esse “relaxamento”, essa tentação de aceitar o jeito habitual de fazer as coisas, é um esforço constante, eterno.

Esse assunto de sustentabilidade é complicado pacas, cheio de incertezas, de dúvidas, de complicações técnicas. Mas, no fundo, a única coisa que importa de verdade é incorporar o princípio que eu aprendi na prática nas montanhas congeladas da Califórnia: “como eu faço para impactar o mundo o mínimo possível”. Às vezes, isso pode implicar em algum desconforto. Nessas horas, console-se: pelo menos você não tem que carregar cocô num saquinho.

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12 comentários
  1. Vitor disse:

    hahaha. Mto bom o post. O lance é que sustentabilidade é o caminho não o fim. Sempre dá pra fazer alguma coisa a mais (ou a menos). Então, quando a gente acostuma a não pegar sacolas, parte pra próxima. Engraçado que eu estou tão acostumado a recusar sacolas que digo não até quando não tenho onde guardar as coisas. Acaba que eu me encontro, algumas vezes, cheio de compras nas mãos – e precisando da tal da sacola…

  2. Cacto disse:

    Sustentabilidade… às vezes me pergunto quem é que é para ser sustentado: o planeta ou o indivíduo que já tem casa própria, um bom emprego, uma vida cheia de viagens, as comodidades do mundo moderno enfim; aquele que já está curtindo as suas conquistas… sim porque aquele que nem tem onde morar, está buscando de alguma forma usufruir o que o planeta lhe dá de graça e para isso ele não tem como pensar em sustentar o planeta; ele mesmo tenta sustentar-se. Veja o exemplo dos que moram perto da Amazônia ou em outras regiões que precisam ser preservadas e não tem ainda essa consciência, trabalham nas matas para tirar o alimento e o rpoduto para vender nas feiras. Se nos EUA há quase que uma “neurose” em se preservar o planeta e os países subdesenvolvidos e os que não são nem sub. Sei que de um lado há nós que nos preocupamos com a sustentabilidade da Terra(eu me incluo e ainda nem tenho casa própria e ralo pra danar pra ter meu ordenado no fim do mês, mas desejo um planeta habitável para todos) e do outro lado, aqueles nossos irmãos que ainda não tem nem noção do que seja essa tal sustentabilidade. Precisamos correr atrás de mais campanhas educativas sobretudo de governos mais responsáveis para aplicar o dinheiro dos impostos onde deve ser aplicado, principalmente na educação. Preservar é preciso senão não teremos sustentabilidade.

  3. Alexandre disse:

    Para os que curtiram a experiência de Russo, ele experienciou as diretirzes de um programa criado no exterior, muito conhecido e que atende pelo nome de “leave no trace” http://www.lnt.org. No Brasil temos a nossa versão do “não deixe rastro” através do “pega leve” http://www.pegaleve.org.br .
    Sou instrutor em uma instituição educacional – Outward Bound Brasil (www.obb.org.br) que utiliza os princípios do “leave no trace” em suas atividades. No início pode parecer estranho, mas faz todo o sentido quando estamos em áreas naturais pouco modificadas.

  4. denis rb disse:

    Exato, Alexandre.

  5. Denis
    Ao menos está protegido com pelo anonimato, agora imagina os astronautas americanos que tem que tirar um monte de fotos com aquele traje espacial onde o que mais se repara é naqueles tubos de coleta vaginais e bilais, aquilo sim é muito feio. Abraço aos leitores!

  6. Flávio disse:

    Há tempos eu penso em me matricular em um dos cursos da OBB, mas nunca encontro tempo. Legal encontrar um dos instrutores por aqui. Só não da pra dizer que é coincidência, afinal este blog é perfeitamente compatível com a filosofia da instituição. E você Denis, já participou de algum curso da OBB?

  7. denis rb disse:

    Nunca, Flávio…

  8. Samuel disse:

    Tudo tem limite Denis, o cocô é biodegradável.
    Tenha santa paciência.

  9. denis rb disse:

    “Biodesagradável”, como diria um amigo meu, Samuel. abs!

  10. Telmo Roque disse:

    O conceito geral de não deixar rasto até está interessante, mas no caso do shit kit, se se pensar que para produzir essa embalagem houve extracção e transformação de material, gastos energéticos, transportes e por aí adiante (sem falar na reciclagem, que irá gastar outro tanto de energia), rapidamente se percebe que estamos a dar um passo para a frente e muitos para trás. Tudo parece melhor quando se pinta de verde, mas muitas vezes pouco passa de eco-marketing. Poop in the woods 4 ever! :p

  11. Sheila Oliveira disse:

    Então, fiz um curso de aventura segura em Santarém – PA. Aprendi técnicas de mínimo impacto por lá também. Por sorte dá pra enterrarmos o cocô por lá , desde que estaja a no mínimo a 50m de distância de alguma fonte de água, lavamos a louça com terra e água e qualquer resto de comida volta conosco. Felizmente não é necessário beber a água suja da louça…acho que esse último procedimento é exagero!!!
    E o mínimo impacto com a própria saúde?!

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