Prisão domiciliar

Comprei uma geladeira no Ponto Frio. Eles pediram um prazo de 10 dias para entregar. Era para chegar hoje.

Que horas?

Entre 8 da manhã e 9 da noite.

Mas, mas, mas, mas…

Moramos sozinhos (eu e minha esposa, que está viajando). Passei o dia em casa, esperando o maldito caminhão do Ponto Frio. Agora são 7:47 da noite e nada dele ainda. Estou em prisão domiciliar.

Para mim essa história ilustra bem o jeito de tratar consumidores neste nosso mundo. O Ponto Frio criou uma belíssima rede de distribuição, com uma logística bem pensada, provavelmente toda coordenada por computador. O caminhão sai de manhã com um roteiro racional organizado de forma a maximizar a eficiência, percorrer o mínimo de distância, arriscar ao mínimo danificar os produtos. Mas e o consumidor? Ora bolas, cada um com seus problemas. O Ponto Frio investe dinheiro para melhorar a logística desde que isso aumente sua receita ou diminua seus custos. Mas, se o objetivo for melhorar a minha vida, eu é que me vire.

O pior é pensar que as soluções eram tão simples… Dar um celular ao entregador. Criar um site que torne a operação logística visível para mim também, não só para o motorista, para que eu possa me programar. Manter o serviço de atendimento em contato com o entregador, para que eles possam me dizer algo mais do que “não sabemos o roteiro dele” quando eu ligo lá. E eu estaria livre. Mas nada disso aumentaria o lucro do Ponto Frio.

Agora estou aqui decidindo se cancelo a compra ou se me preparo para passar mais um dia preso.

São 8:03 da noite. Nada até agora.

Update: 8:14 PM – nada ainda. Liguei para o serviço de atendimento. Fui informado que o horário deles é só até as 7 horas. Eu tenho que esperar. Eles não.

Update 2: 8:27 PM – tô com fome. Não tem nada na geladeira (que aliás não funciona). Pedi uma pizza. Agora estou esperando dois entregadores. Tenho mais fé na pizzaria.

Update 3: 8:50 PM – chegou! A pizza, claro. A geladeira não.

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17 comentários
  1. Leonardo Nunes disse:

    Não resisti de comentar sobre este post, para provocar, é claro… rs… Meu caro Burgierman, quero saber por que tu compraste uma geladeira nova em vez de consertar a antiga, tendo em vista aquele seu post “fix it”. Obviamente, vc sabe que incentivar a produção de mais uma geladeira custa mais ambientalmente do que consertar a antiga. Vamos, conte…

  2. denis rb disse:

    Por outro lado, Leonardo, geladeiras se tornaram muitíssimo mais eficientes nos últimos 10 anos, que é a idade da minha antiga. Isso quer dizer que a nova, se chegar um dia, vai consumir muito menos energia. Ou seja, a médio prazo vou compensar a energia gasta na produção dela. Além de poupar dinheiro. Além do que minha geladeira velha provavelmente só se consertava trocando o motor, o que de cara contrariaria o manifesto.

  3. Jay Jay, Nigeria disse:

    Denis, que tal mudar para a Antártida? Lá nao é preciso geladeira e tem a vantagem de já ser um “ponto frio” 🙂

    O pior vai ser passar o final de semana sem cerveja gelada. Lembrarei de você quando estiver saboreando a minha.

    Good luck and sorry.

  4. denis rb disse:

    Jay Jay, quando fui pra Antártica levei uma caixa de 24 cervejas. Como passei 7 semanas lá, tive que economizar, claro. Era só para ocasiões especiais. Aí no dia em que o capitão anunciou que estávamos voltando para casa, chamei meu amigo Ignácio, fotógrafo que me acompanhava, e fomos ao convés tomar nossa última cerveja, que estava na geladeira do navio. Abrimos as latinhas, demos um golinho e… decepção. Elas estavam quentes. Fiquei muito frustrado, era uma ocasião especial. Mas aí dei o segundo gole, e a cerveja estava melhor. Quando demos o último gole, elas estavam geladinhas. Está aí a vantagem de tomar cerveja na Antártica. (A vantagem de tomar uísque é poder colocar pedaços de iceberg no copo, o que torna a bebida muito mais interessante.)

  5. Helton disse:

    Olá Denis,
    Muito bom seu post. Por coincidência, no mesmo dia, minha mãe viveu o mesmo martírio, porém sua nova máquina de lavar chegou as 16h30.
    Se pensarmos bem, este tipo de “descaso” tem muito a ver com as externalidades geradas pelas atividades empresariais. Se formos colocar no papel quanto vale o tempo que você perdeu para esperar, talvez eternamente, pela famigerada geladeira, poderíamos pensar que ela custou muito mais caro do que seu preço de etiqueta. Isso só pensando nas externalidades do processo de entrega do produto.
    Pensemos nisso.
    Um abraço
    Helton

  6. denis rb disse:

    Helton,
    Boa análise. Talvez todos os problemas que discutimos aqui tenham de alguma maneira relação com externalidades não consideradas…

  7. Leonardo Nunes disse:

    Burgierman, furada a sua explicação. O motor da geladeira é a principal peça. Se trocá-lo por um novo, tem o rendimento de uma geladeira nova. Vc chegou pelo menos a fazer esse estudo, se valeria a pena, quanto ficaria e em termos de custos financeiros e ambientais?? Sempre conserto meu carro de 11 anos de idade e por isso desconfiei daquele seu post. Poucas pessoas têm a coragem de gastar com coisa velha em nome do Meio Ambiente. E parece q vc é mais um que prega uma coisa e faz outra.

  8. Uai, sera que a moral deste post e p/ falar mal do Ponto Frio? Se for, valeu p/ mim pq se jamais fiz compras la agora tb serei menos propenso a fazer no futuro! Essa galera tem de aprender os novos tempos, pq c/a internet td mundo acaba ficando sabendo quando algo sai errado, hehehe…

  9. Se minha geladeira pifar vou comprar uma nova tb mas c/ certeza nao sera no Ponto Frio p/ ser entregue em casa afinal, ficar preso em casa sem comida e principalmente cerveja gelada tb puxa, e uma fria, kkkkkk…

  10. Jay Jay, Nigeria disse:

    Bom pessoal, essa história da geladeira do Denis está dando o que falar, isso é bom, diálogo com prós e contras é a base de uma democracia saudável e do progresso sustentado.

    Então vamos lá:

    Nem sempre consertar o velho em vez de substituir pelo novo é um bom negócio, isso aplica-se a vários items, aos eletrodomésticos a substituição é mais aconselhável (conforme o caso logicamente), isso porque a tecnologia felizmente está permitindo que os eletrodomésticos sejam mais eficientes do ponto de vista ecológico e também na eficiência.

    Trocar o motor de uma geladeira velha por um motor mais novo é arriscado, isso porque a tecnologia aplicada nesse caso faz parte de um conjunto extremamente integrado. Não é só o compressor que conta, mas o tipo de gaz, material usado para as varetas, isolamento térmico, etc…, é a mesma coisa que simplesmente colocar o motor de uma Ferrari num Fusquinha ou o motor de um Fusquinha numa Ferrari, o negócio é complexo.

    Portanto, não vamos adicionar mais stress no embróglio da geladeira, deixa esse stress para o Ponto Frio que pelo jeito é especialista em estressar os clientes e que revelou-se ser uma grande “fria”.

    Já agora: a geladeira chegou ou não ? 🙂

  11. denis rb disse:

    A geladeira chegou sim, no dia seguinte às 3 da tarde. Já tenho cerveja gelada. Obrigado por perguntar, Jay Jay.
    Joe, verdade, não tenho vontade de comprar mais no Ponto Frio. Por outro lado, não sei se eu teria muito mais sorte comprando em outra loja. Infelizmente, esse descaso é a regra por aqui.

  12. jorji disse:

    Já tive dificuldades até de pagar as contas, eu louco para pagar em dia, e a loja se recusando de aceitar o meu dinheiro por uma compra que eu tinha realizado, a prazo, já morei em outros países, aqui é ótimo, mas paa passar raiva…………………

  13. Cláudia Oliveira disse:

    Já que o papo é sobre geladeira, tenho dúvidas sobre o que fazer com a minha. Ela deve ter uns quinze anos, e está em péssimas condições (a borracha está gasta, a pintura arranhada…). Mas continua funcionando. Devo dar para alguém, jogar no lixo ou mandar reformar? Se bem que… a grana está curta. Não tenho conseguido nem mandar arrumar, quanto mais comprar uma nova. Desse jeito não dá para ser ecologicamente correta!
    Valeu!
    Um abraço

  14. denis rb disse:

    Difícil mesmo, Cláudia. Algum leitor tem uma sugestão? Eu doei a minha para as Casas André Luiz (www.andreluiz.org.br), que reforma e revende baratinho. Eles vão buscar em casa. Jogar no lixo não é boa ideia, porque a geladeira está cheia de CFC, que esburaca a camada de ozônio. De repente vc pode esperar mais uns 3 meses: o governo anunciou um programa de recolhimento de geladeiras antigas, com tratamento adequado do CFC e pagamento aos proprietários na compra de uma nova.

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