A outra corrupção

Um tipo de corrupção na política você conhece bem: é a corrupção dos políticos. É aquela dos mensalões, dos mensalinhos, da compra de votos, do desvio de impostos, da apropriação de verbas públicas para tirar férias, do uso indevido de apartamentos funcionais, das comissões em obras públicas. É se aproveitar do acesso ao poder para tirar vantagens próprias, para enriquecer, para favorecer seu grupo. É uma doença, que no Brasil atinge níveis epidêmicos.

Mas tem um outro tipo de corrupção na política da qual nós nunca falamos: é a corrupção do sistema político. Não se trata de surrupiar o bem público. Trata-se de tomar decisões com base em influências questionáveis, e não com vista no que é melhor para resolver problemas e melhorar o país. Trata-se de um sistema que funciona melhor para uns do que para outros. De um sistema que deveria nos representar, mas não nos representa. Não se trata de fazer coisas ilegais – trata-se de fazer coisas ilógicas, estúpidas, contraproducentes. Trata-se de um sistema político que não nos representa, que não foi construído para funcionar. Essa doença não é uma epidemia só no Brasil: é uma pandemia, que existe em algum grau em todas as partes do mundo.

Quem formulou esse conceito (de corrupção do sistema político) foi o americano Lawrence Lessig, na época professor de direito de Stanford, hoje transferido para Harvard. Lessig começou a vida pública como um tipo de “militante digital”. Foi ele que comandou o movimento Creative Commons, que pregava um novo modelo de direito autoral, menos injusto e anti-democrático e mais libertário que o tradicional. Em 2007, Lessig anunciou que estava mudando de área: estava deixando a liderança do movimento CC para se dedicar a arrumar soluções para a tal corrupção do sistema político.

Lessig criou então, em 2008, o movimento Change Congress, uma espécie de “selo de qualidade” para políticos, que é dado, independentemente de partido político, para todo mundo que assuma o compromisso de apoiar uma série de medidas. Todas essas medidas têm a ver com aumentar a transparência, usando as novas tecnologias para que os eleitores saibam como as decisões são tomadas, abrindo o processo eleitoral, fazendo força para diminuir a influência dos grandes doadores, aumentando a conexão entre eleitor e político. Tentando fazer que política seja um grupo de representantes da sociedade discutindo ideias para melhorar as coisas, e não um bando de marketeiros que só pensam em votos e em agradar financiadores de campanha. O Change Congress está liderando agora uma “greve de doações” para políticos: eles propõem que ninguém dê dinheiro para candidatos que não façam a promessa de apoiar a mudança do sistema de financiamento de campanhas.

Lessig e seu movimento são vistos como utópicos, claro. São acusados de ignorar um fato básico da vida: cada político só quer saber de garantir o seu e é o dinheiro que move todos.

Pode ser.

Mas mudança tem que começar de algum jeito. E cinismo em relação às possibilidades de mudar só interessa a quem está chafurdando na lama e gostando.

Nosso sistema político, além de corrupto, ineficaz e às vezes surreal, é totalmente baseado num modelo do século 19. Vivemos numa sociedade tecnológica, temos conhecimento científico profundo sobre comportamento humano, sabemos muito mais sobre o mundo do que qualquer um poderia prever um século atrás. Sei que é urgente consertar os problemas do sistema político que temos. Mas será que não é hora de sermos muito mais ambiciosos? Será que não é hora de começar a pensar em criar um sistema político novo, um que não esteja corrompido logo de saída? Será que o problema são os políticos malandros? Ou será que é o sistema que é tão ruim que acaba atraindo apenas a pior laia de gente?

Lessig sorri para uma foto Creative Commons

Lessig sorri para uma foto Creative Commons

Foto: Flickr/Joi (CC)

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25 comentários
  1. julio batista disse:

    Meu caro,

    É imperioso sanear a imprensa, sem isso, tudo é conversa para truões.

  2. FAFC disse:

    Uma certificação da ISO para os políticos. Nada mal.

  3. Vitor Leal disse:

    Olá, Denis,
    Ia enviar uns links pra você relacionados a isso, mas resolvi fazer um post sobre o assunto. Dá uma passada lá no Quintal.

    http://nossoquintal.org

    Ab

  4. Giovanna disse:

    Acho que o sistema é mesmo falido. Entretanto, a concepção de um novo deve sempre partir de uma participação popular mais efetiva. Diante do comportamento político das pessoas, eu pergunto: quanto será que as elas estão dispostas a dedicar de sua rotina para o acompanhamento do funcionamento de um sistema político? Penso que cada vez mais há um distanciamento da população em relação à política e nada que não promova essa união tende a dar certo. O que o altivo Sérgio Moraes disse é uma afronta, mas deveria sacodir as pessoas. A imprensa atinge um contingente mínimo de interessado nos rumos do Brasil e do mundo. O restante das pessoas vive indiferente.

  5. cristina disse:

    Oh Denis,te acho lindinho,seus comentários são inteligentes,mas vc é muito prolíxo e se torna cansativo.Sempre tento ir até ofinal de suas postagens, mas acabo desistndo…cara vc fala demais…na net é melhor ser mais breve.

  6. Elisa disse:

    Oi Denis,
    seu feed mudou! O último post que eu tinha era o de 17 de abril. Felizmente, um amigo que também te lê compartilhou o seu post de 18 de maio, e foi graças a isso que descobri que você continuava sim postando.
    Talvez seja útil enviar um último post para o feed antigo contando aos assinantes que há um feed novo.
    By the way, adorei saber da propaganda de 50 carros = 1 ônibus. Tentei achar o “contador de carbono” e não consegui — será que saiu do ar?
    Abraços
    Elisa

  7. William disse:

    Quando se trata de altas quantias de dinheiro algo cheira mal?

  8. wiliam gomes disse:

    Algo sempre cheira mal quando rola altas quantias em dinheiro.
    Malditos porcos capitalistas!

  9. Márcio disse:

    Na verdade, creio que a discussão quanto à necessidade de reforma do sistema acaba caindo na velha questão da representação. Denis, de fato creio ser verdadeiro esse argumento de que nosso conhecimento sobre a natureza humana vem aumentando desde o XIX (aliás, justamente por isso faço esse comentário), os avanços tecnológicos possibilitam um contato mais íntimo entre a sociedade política, mídia e sociedade civil etc. Mas não creio ser muito proveitosa uma crença na salvação pela tecnologia…pois o ser humano vai continuar sempre sendo o ser humano, com tecnologias comunicacionais avançadíssimas ou não. Nesse caso, tudo que poderíamos fazer seria (…)

  10. Márcio disse:

    (…) aumentar o grau de controle sobre nossos políticos, mas ainda assim a relação com o poder permaneceria algo pouco palpável e distante. O desinteresse geral pela política mora aí: a distância (espacial e prática). Se é mudança o que queremos mesmo, devemos pensar em questionar a representação, descentralizar o exercício do poder, fortalecer desde as associações de bairro (atribuindo-lhes poderes deliberativos), politizar a rua,o bairro e o município. Obrigar a cada um assumir as suas responsabilidades, a exercer seu próprio mandato. Dessa forma a política é resignificada, a sociedade civil ganha novo fôlego e se interessa pela política…com pouco delegação de poderes e sem vigilantismo

  11. denis rb disse:

    Boa. Tô de acordo, Márcio.

  12. Rogério O. Soares disse:

    Para mim os políticos representam o caráter de um povo. Em algumas regiões do hemisfério sul do equador reina a preguiça alimentada pelo clientelismo de Bolsas Vida Boa. O que podemos fazer? Eu e vc. que vai atrás de informação sempre teremos nossa opinião suplantada por aquela maioria que limpa a Bund com o jornal ao invés de ler.
    Abraço aos leitore.

  13. Jefferson disse:

    O sistema, na teoria, funciona muito bem, e não deve ser alterado (Se bem que isso deve ser porque eu faço parte dele). O que precisa ser feito é realizar o que tá escrito na teoria. Como? Não se sabe. Se for decidido por uma pequena quantidade de pessoas, é ditadura. Se é decidido por toda a população, aparece quem tem melhor lábia.

    A grande vitória desses sistemas vai ser descobrir um jeito infalível de eleger quem merece, e como já disse Douglas Adams, quem quer ser eleito normalmente é a pior opção.

  14. Fabio Storino disse:

    Denis, a iniciativa de Lessig pode ser inédita nos EUA, mas há uma iniciativa anterior e muito interessante sendo desenvolvida por nossos hermanos argentinos.

    A RAP (Red de Acción Política) é uma organização plural e apartidária que tem vários princípios de transparência, boa gestão etc., e os políticos que aderem aos princípios ganham o selo de “políticos RAP”.

    http://www.movimientorap.org/

  15. Márcio disse:

    Rogério, povo não tem caráter, isso é coisa de indivíduos. Cuidado com esse tipo de argumento, ele nunca levou a bons lugares. Preguiça?! Você tem idéia do quanto o brasileiro médio trabalha? A própria lógica do trabalho é que deve ser revista, criticada, questionada. E outra coisa, podemos discutir a forma, mas políticas de compensação são indispensáveis de serem implantadas em países como o Brasil, que tem índices records de desigualdade social, politica etc. Jefferson, o problema não está em eleger quem merece, ninguém merece na verdade…pois ninguém lhe representa melhor do que si mesmo. Chega de delegar nossos problemas!!

  16. Rogério de Oliveira Soares disse:

    Márcio
    Em alguns países da África crianças são estupradas em saídas de escolas em plena praça pública até por policiais, qual é a visão que vc. tem disso? Lá não existe prisão para estuprador sabia? Respeito sua opinião mas ela demonstra a mesma segueira institucional que aquelas pessoas tem com essa atrocidade, todo dia vemos cada vez mais fraucatuas tratadas de forma indulgente pela nossa população (vide sindicado de canalhas fazendo protesto contra CPI e corrente de proteção no entorno da Petrobrás), quer dizer que o cara rouba vc. na cara dura e é poupado por que tem uma suposta política de inclusão social? Preguiça sim. Em outros lugares do mundo esses malandros teriam outro fim. EDUCA

  17. Márcio disse:

    Rogério, mas o que tem a ver uma coisa com outra? Por que o exemplo do estupro e da anuência em relação à práticas de corrupção? Em que momento defendi aqui algo do tipo? Você leu meu argumento como se eu defendesse atitudes criminosas! O ponto da minha crítica é que a forma como se enfrenta vários dos principais problemas desse país, e do mundo, são ineficientes e não geram liberdade ou igualdade. Ou seja, penso que a cegueira institucional seria a sua proposta. Ou seja, temos que ir além dessa política formal. Quer um exemplo a partir do caso da Petrobrás, que você citou? Tô me ferrando pra isso, os dois lados que se danem…o mundo acabando e gente querendo produzir mais combustível…

  18. Márcio disse:

    (…) e nós ficamos aqui, limitados dentro dessa discussão que a mídia e o governo nos impõe…como se o principal problema desse país fosse mesmo a corrupção. Pra mim é a desigualdade social, política, a destruição sistemática e ofiacial (via mercado e via estado),do meio ambiente e etc… Que se dane a Petrobrás e esse lógica desenvolvimentista – como diz o próprio blog: “Sustentável é pouco”, não concorda Denis? É a sociedade civil quem tem que tomar as rédeas dessa coisa toda. Por isso falei aqui da descentralização do poder, municipalismo etc. Até!

  19. denis rb disse:

    Opa, concordo sim. Não se trata de dizer que corrupção não seja importante. Claro que é. Mas ela é apenas um sintoma de uma doença muito mais generalizada, que tem a ver com a falta de uma visão de sociedade. Tem a ver com a falta de “sabedoria prática”, como explica o vídeo do post que fiz em seguida. Tem a ver com nossa dificuldade de tomarmos as rédeas da vida e do mundo e começarmos hoje a construir uma sociedade melhor, em vez de esperarmos que o Congresso melhore. O problema é nosso, não é deles (é deles também, mas eles não ligam).

  20. Rogério de Oliveira Soares disse:

    Marcio
    Sua maestria com as palavras por si só me tranquilizam, então só posso parabenizar por sua isenção.

    Abraço

  21. Jay Jay, Nigeria disse:

    Imagina só, “lá” estão querendo mudar o sistema de suporte politico e nós aqui ainda discutindo se o nosso modelo precisa ser atualizado ou não. O nosso modelo é arcaico e corrupto? É e muito. Mudar? Com a ajuda de quem? Do povo? Claro, mas e o povo, quer mudar? Apareceu algum líder pra dizer pro povo que o sistema precisa ser mudado? Hoje em dia o povo quer mais é se juntar a esse sistema, esse mesmo, arcaico e corrupto, assim sobra mais. Quer uma prova? Inventa um candidato que apareça com a proposta de eliminar a Bolsa Boa Vida como diz o Rogério e veja o que acontece, a candidatura morre no ninho.
    Sou pessimista? Sou e muito porque não vejo luz nenhuma no fim do túnel. Isto está parecendo uma bola de neve e enquanto isso a corrupção está descendo das altas esferas e contaminando o tecido social.
    O negócio é encarar a realidade, com luvas de pelica não se chega a lugar nenhum, ou alguém acorda o povo ou a bola de neve vai ficar de um tamanho que ficará impossível pará-la se é que já não atingimos esse ponto.
    Pode parecer um pouco fora do contexto, mas analizando vão ver que não é não, vejam este enfoque que a Aung San Suu Kyi (a coitadinha presa lá em Burma) faz sobre o que gera a corrupção:
    “It is not power that corrupts but fear. Fear of losing power corrupts those who wield it and fear of the scourge of power corrupts those who are subject to it.”
    A tradução fica por conta do leitor, porque traduzir isso pode dar vexame.
    Abraços.

  22. ANÔNIMO disse:

    Muito obrigado, vocês estão me ajudando em um trabalho muito importante da escola!!!!
    adorei sua reportagem, ela mostra um problema brasileiro muito grande de maneira fácil de se compreender.
    beijocas!!!!!

  23. ANÔNIMO disse:

    muito obrigado!!!!! vocês estão me ajudando em um trabalho muito importante da escola. você retrata um grande problema brasileiro de forma fácil de se entender, gostosa de ler.
    mais uma vez obrigado!!!!!!
    beijocas!!.

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