Viva a crise!

Semana passada chegou a nova Vida Simples, revista da qual, além de fã, sou colunista. Adorei a edição, cheia de provocações e sacadas. Vai aí para vocês meu texto deste mês:

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Viva a crise!
Saber ganhar grana não é pecado. Tampouco é virtude

A lógica é simples, não precisa ser muito inteligente para entender. O nome do jogo é “ganhar dinheiro”. E não é só “ganhar dinheiro”, é ganhar mais dinheiro este ano do que se ganhou no ano passado, e mais no ano que vem do que este ano, e no outro mais ainda. É preciso crescer. E é preciso que o ritmo de crescimento cresça também. E até o ritmo do crescimento tem que crescer mais este ano do que cresceu ano passado. E assim se movimenta a economia, e assim se constrói o país, e é por isso que, nas raras ocasiões em que é possível ir a um bar encontrar os amigos, os amigos estão cansados, e perdidos, e esgotados, e trabalhando todo dia até tarde. E você pergunta a eles “como vai a vida?” e eles dizem “está boa, estamos crescendo”, e suspiram desanimados.

É preciso uma crise para nos darmos conta de que isso tudo é insustentável. De que estamos perdendo contato com a vida. De que não lemos mais poesia, e não reencontramos mais os velhos amigos, e não fazemos mais novos amigos, e não pensamos mais na vida enquanto balançamos na rede para lá e para cá. E aí nos damos conta de que deixamos de valorizar o talento, a inovação, a originalidade, a alegria, a novidade, a tradição, a descoberta, a qualidade. Só damos valor para o número frio da linha de baixo da equação. Quanto? Quanto vou ganhar com isso?

Viva a crise econômica mundial! Viva a queda das bolsas! Viva a depressão financeira! Viva o sumiço da grana! Viva a vida pobre e digna, viva as coisas que acontecem por amor, por fé, por esforço irracional, e não por dinheiro.

Sei bem que é absurdo eu dar vivas a uma crise terrível, que certamente vai matar gente de fome e fazer inocentes sofrerem. É terrível que isso seja necessário para chacoalhar a humanidade e mostrar às pessoas que elas estão equivocadas. Mas assim é a vida. Assim somos nós. Às vezes precisamos de um tranco para perceber o quanto somos babacas. Às vezes precisamos de um tapa na cara para entender que uma lágrima, no final das contas, importa mais que 1 milhão de dólares.

Aprecio o valor do trabalho duro. Talvez eu tenha passado tantas madrugadas festejando quanto passei trabalhando, e tive prazer fazendo as duas coisas. Mas o que estava acontecendo até o ano passado não tinha nada a ver com valorizar o trabalho. Valorizava-se a grana. O lucro. A capacidade de saber “monetizar” cada segundo da sua vida. Não acho que saber ganhar dinheiro seja pecado, mas tampouco acho que seja virtude.

Enquanto isso, todas os outras qualidades eram menosprezadas. Esse cara é genial? Aquela menina é talentosíssima? Aquele senhor já viu de tudo? Legal, mas o quanto eles são “eficientes”? Quanta grana eles dão?

Não sou contra a eficiência. A bem da verdade, acho que ela ainda precisa crescer muito, tanto no setor público quanto no privado. Mas aquela empolgação financeira que durou até o ano passado deu a sensação de que ela é a coisa mais importante que existe. Tem outras coisas que importam na vida. A crise é uma boa oportunidade para pensarmos nelas.

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23 comentários
  1. Viver Sustentável disse:

    Viva! viva!

    adorei seu texto, é um resgate de valores.

    Viva quem ainda consegue dar vivas, como nós.

    abração

    [WORDPRESS HASHCASH] The poster sent us ‘0 which is not a hashcash value.

  2. alexandre disse:

    Rapaz, foi um dos piores artigos q você já publicou aqui, em primeiro lugar porque quando um pais cresce não é somente uns caras que ficam mais endinheirados e sim muitos desempregados que não têm trabalho passam a ter, muitos que não têm renda passam a ter, por isso a idéia do crescimento: mais crescimento, mais empregos , etc. Sem crescimento não há criação de novos postos por exemplo, daí muitos que estão acabando de chegar no mercado (recém-formados) não irão conseguir e com depressão muitos que já estão trabalhando perderão empregos. Daí haverá muito mais desempregados.

  3. leticia disse:

    Isso aí, Dênis – no começo desse ano eu estava tão cansada de trabalhar tanto e, consequetemente, ganhar mais dinheiro, que assim que o meu marido teve uma promoção avisei que tirar um descanso de 1 ano. Eu vinha numa loucura de trabalho por 10 horas por dia e mudei para 6 – vejo emus avós semanalmente, saio prum café com as amigas e colegas de trabalho quase todo dia e vejo mais meus amigos (tem uns que é só por telfone ou e-mail, já que eles não tem tempo!).
    Estou mais feliz e tranquila sim!

  4. Manu disse:

    Trabalhar demais não só estressa a gente, como afasta todos nós do verdadeiro significado de “vida”. Quem disse que só somos feitos de trabalho? Quem disse que o nosso valor está na quantidade de dinheiro que ganhamos? Nós somos muito maior que isso e acredito que devemos usar a nossa concentração em atitudes mais nobres, melhores e não pensar só em trabalho, dinheiro, rendimento, investimento…etc etc. Tudo tem o seu tempo e não é certo eleger esse tipo de comportamento como sendo o central de nossa existência.
    Adorei o texto, como sempre.
    Abraços!

  5. Anai disse:

    Ate que enfim alguem que me entende! Eu brasileira morando na Nova Zlandia ha mais de 3 anos , percebi que ate aqui esse papo de crise e tal esta por todos os lados…semana passada uma das maiores miltimilionarias obras que esta sendo construida por onde moro ( Queenstown-South Island) parou devido a falta de grana…e eu?! Achei otimo! obviamente nao para os trabalhadores, mas pelo fato de achar otimo que projetos multimilionarios sao auto insustentaveis e totalmente errados…Minha pergunta sempre foi : porque colocar tanta grana em apartamentos 5 estrelas e nao colcocar nao investir energia solsar por exemplo? simplesmente nao faz sentido…Acho que so assim nos humanos aprenderemos…

  6. Denisson disse:

    Alexandre, a crítica é justamente sobre essa lógica capitalista do quanto mais melhor. Tudo bem, pode ser que como grupo, crescimento implique mais trabalho. Mas quem disse que eu sou obrigado a seguir minha vida com base nessa lógica? Quem disse que eu preciso viver com pressa e ter tanto dinheiro mas não usufruir nada dele? Quem disse que é perdedor ou atrasado o cara que prefere trabalhar 5 ou 6 horas por dia, ganhar menos mas poder passear uma noite inteira de bicicleta, fazer trilhas no fim de semana ou ir comprar pão numa padaria bem mais longe só pra dar uma caminhada e apreciar o ambiente? Enfim, eu faço isso, ganharia 25% melhor se trabalhasse mais. No entanto estou feliz assim!!!

  7. Denisson disse:

    Olha uma crítica bem humorada 🙂

  8. denis rb disse:

    alexandre,
    É uma questão de perspectiva. Daqui de onde estou, vejo gente trabalhando demais. Aí onde você está, você vê gente perdendo o emprego. Mas será que não tem alguma coisa errada em essas duas coisas acontecerem ao mesmo tempo? Se tem tanto trabalho para uns, por que é que falta para os outros?
    Não discordo de nada do que você disse. Crescimento gera oportunidade, e ficar sem trabalho é a coisa mais triste do mundo.
    Mas a lógica do crescimento a qualquer custo está furada. É uma lógica insustentável. E, se não cuidarmos de combatê-la agora, ela vai roubar nossas almas e abandonar nossos corpos flácidos e sem vontade aos abutres. Se você me perdoa a imagem absurda.

  9. Márcio disse:

    É isso aí! A ideologia do trabalho impregnou tudo, e se analisarmos bem, os grandes problemas dessa nossa pós-modernidade estão ligado a seu “culto”: meio ambiente, individualismo e a degradação do tecido social, consumismo, desigualdade e tudo o que você colocou no texto.
    Para uma crítica contundente ao trabalho leiam o ótimo “Manifesto contra o Trabalho do Grupo Krisis”: http://www.4shared.com/file/17504815/e03a2ef7/Grupo_Krisis_-_Manifesto_Contra_o_Trabalho.html?s=1

    Mais sobre a crítica do trabalho em: http://ciscobh.blogspot.com/2009/04/o-trabalho-liberta-sera-mesmo-parte-01_30.html

  10. Gabriel disse:

    Denis,
    na revista do mês passado eu vi que aparecia um site (Projeto Secreto) no final do seu texto. Desde então eu tento entrar pelos dois navegadores que eu tenho, mas não consigo.
    O site está sempre carregando, mas nunca aparece nada. Qué pasa? 🙂
    Bom texto o deste mês. Parabéns.

  11. alexandre disse:

    Bem trabalhar demais é outra coisa, isso depende de nossas escolhas. Por exemplo se todo mundo de um setor se negar a fazer hora extra o patrão obviamente irá contratar outro funcionário. O trabalho em excesso deve ser mesmo combatido. Mas como ja disse muito do crescimento do país são novos empregos que são gerados e não horas extras de funcionários. Vamos botar um proporção de 70% de novos empregos diante de 30 % de horas extras. No mínimo. Se ninguém aceitar fazer hora extra ou então não tiver outro emprego daí o crescimento será de 100% de novos cargos.

  12. denis rb disse:

    Não discordo de você, alexandre. Crescimento é bom.
    O que é ruim é ganância. O que é ruim é achar que a busca do crescimento justifica esquecer valores éticos. O que é ruim é achar que crescimento resolve todos os problemas e serve para decidir o que é certo e o que é errado.
    E precisávamos de uma crise para perceber isso.

  13. denis rb disse:

    Gabriel,
    O projeto_secreto está meio parado, mil perdões. Muita coisa na cabeça, não está dando para tocar tudo ao mesmo tempo. Mas ele está no ar, com atualização quase tão frequentes quanto às de uma revista mensal… 🙂
    http://projetosecreto.wordpress.com/

  14. Rogério de Oliveira Soares disse:

    Advogar pela INEFICIÊNCIA energética me causa tanta perplexidade que sequer merece ser encara como algo relevante em uma discussão. O MUNDO precisa melhorar 1000% a eficiência da produção e consumo de energia. Um consórcio europeu está construindo se não me engano na França um enorme gerador de fusão que a partir da energia do plasma ou seja mini Sol permitirá geração de força 0% poluente. Estimasse que a máquina definitiva alimentará toda Europa com, pasmem, apenas 2 geradores de força “estelar”, com 2 outros equipamentos reservas tendo o antiquado sistema de fornecimento apenas como garantia. Enquanto isso no Brasil discutimos se usar carvão gera CO2. 😦 ABRAÇO AOS LEITORES!

  15. Pri disse:

    Rapaz, Foi um dos melhores artigos que publicou aqui.
    Adorei!!!

    Otimo Fim de semana para todos!!!

    Viva amanhã é sabádo! rs

  16. Rogério de Oliveira Soares disse:

    Ótimo final de semana Pri! 🙂

  17. José Miguel disse:

    Caríssimo Denis RB,
    Obrigado pelo texto perfeito!
    josé miguel

  18. Cris Ventura disse:

    Oi Denis! Incrível! Penso assim…a crise é uma oportunidade – forçada – de aprendermos a viver com menos, de colocar em prática os conceitos sustentáveis e de valorizar os bons e simples momentos da vida! Adorei o artigo! Beijos!

  19. Polyana disse:

    Nossa Dênis! Achei que o povo ia te malhar até por este texto, mas que legal, um monte de elogio! Simpatizo com esses pensamentos, é horrível ser refém dessa forma de vida equivocada, onde você vale o que ganha. Todo mundo vive extressado, desanimado e pensando que está feliz assim. Infelizmente hoje me vejo obrigada a trabalhar numa empresa privada para garantir meu sustento familiar, onde a corrida pelo lucro é a razão de ser da empresa, mas meu projeto é me libertar dessas correntes e trabalhar em algo meu, que me dê sentimentos de realização e prazer, mesmo que eu esteja ganhando menos. Abraços a todos e bem fds!

  20. Chris disse:

    Muito bom o texto!
    Algumas das idéias, como a busca sem fim por crescimento, vêm de encontro com oque penso a anos. Crescer, crescer, crescer…não é atoa que a palavra crise está acompanhada da palavra “bolha” hoje em dia. Nunca entendi também, porq a bolsa de valores não leva em consideração por exemplo “quantos empregados concluiram um curso superior com a ajuda da empresa ou quantos projetos socio-ambientais a empresa ajuda ou possui (que realmente funcionam)”. Talvez, não seria a hora da bolsa de valores, ou as pessoas que aplicam nela(nós-sociedade), mudarem seus “valores”…ai sim poderiamos querer crescer, crescer, crescer…:)
    Abraço

  21. hacs disse:

    Ok, vamos valorizar as coisas boas da vida, abaixo a usura e a ditadura da eficiencia, mas vamos valorizar a vida humana, algo em baixa tanto antes quanto agora, como na contemplacao do sacrificio em vidas humanas para satisfazer esse ou aquele objetivos coletivos ou universais. Nao somos insetos, sofremos, e temos consciencia sobre o sofrimento (o nosso e o dos outros), portanto, nao transportemos a lei da escasses ao avaliarmos os seres vivos, valorizando somente aquilo que esta quase extinto, quase desaparecendo, inclusive por que cada um de nos eh uma especie completa diferente dos demais, individuos, nao formigas.Quando um morre eh a extincao de um individuo, nao a morte de um especime.

  22. Carla Pianchão disse:

    Viva para quem consegue com as palavras, fazer a gente pensar.
    Viva para quem, apesar da crise, ainda consegue encontrar com amigos e sorrir.
    Viva para quem consegue ser feliz, se sentir feliz, apesar da crise.
    Parabéns pelo texto.
    Carla Pianchão

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