Gigante de joelhos

Hoje, a General Motors entrou com um pedido de concordata. É tentador enxergar na queda da GM — ex-maior empresa do mundo, líder do mercado automobilístico por 77 anos consecutivos, um gigante de 101 anos que parecia eterno — o começo do fim da cultura do automóvel.

Mas é óbvio que não é tão simples assim.

Na verdade, as vendas de carros estão subindo sem parar no mundo emergente. E, se elas despencaram nos países submergentes (que é como vou chamar os ricos enquanto essa crise durar), o mais provável é que seja um tropeço temporário, causado por consumidores preocupados com a crise, à espera de dias mais ensolarados para comprar carro novo.

Se é verdade que, com a concordata, carros grandalhões e bebedores de gasolina, como o monstrengo Hummer, provavelmente jamais voltarão a ser produzidos, também é possível que a pressão por rentabilidade mate ou atrase projetos inovadores de veículos verdes, como o Volt, o elétrico da GM.

Se é verdade que o mercado de automóveis está sendo agitado todo dia com novidades sustentáveis – carros híbridos, elétricos, de hidrogênio –, também é verdade que essas opções ainda são caras e ocupam um espaço ínfimo num mercado absolutamente dominado por soltadores de fumaça.

Não há dúvidas de que o mundo está mudando, e muito. A concordata da GM é menor do que a do banco Lehman Brothers, mas é sem dúvida um símbolo mais eloquente do quanto a velha ordem mundial está sendo destruída.

Mas, por mais que seja um símbolo, na prática ainda é difícil saber o que ele significa. Por enquanto, o que a crise fez foi demolir. Logo logo vai chegar a hora de construir algo no lugar. Só aí vai dar para saber se teremos a grandeza de aproveitar a crise para mudar o mundo para melhor.

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6 comentários
  1. jorji disse:

    Há cerca de vinte anos atrás, li uma reportagem de que os funcionários da GM(sindicato) levaria a GM à falência, há cerca de vinte anos atrás ouvi falar que os países da Europa desenvolvida e o Japão iriam pouco a pouco entrar em decadência, em função do envelhecimento da população(baixa natalidade e longevidade), assim caminha a humanidade, o ser humano que é o problema. Ao lado da Coca-Cola, a GM é o símbolo maior do capitalismo ocidental, o que está havendo é que o setor industrial está mudando para o Oriente.

  2. s. oliveira disse:

    Não se preocupe amigo, com certeza você verá a civilização do automóvel perdurar por um bom tempo, ainda mais agora que chineses e indianos estão entrando nesse mercado. Pode esperar mais algumas centenas de milhões de carros nas ruas nos próximos anos, e, embora de modelos menos poluentes que Hummers e SUVs, acho que a quantidade desses carrinhos asiáticos irá fazer com que, no final, o saldo em poluição seja o mesmo, sem contar o fato de que a legislação ambiental nesses países simplesmente inexiste. Sem falar que a indústria automobilística é um dos pilares fundamentais do sistema capitalista, e, sem ela, é provável que esse modelo econômico se torne insustentável praticamente.

  3. Marcelo disse:

    É uma pena ver uma gigante como essa cair assim.
    A concordata da GM só mostra uma coisa: não há mais espaço para carros grandes e beberrões… palmas para os carinhas de olhos pequenos!

  4. Luiz Carlos Pôrto disse:

    Uma boa discussão é procurar determinar o quanto de questão ambiental contribuiu para a estratégia equivocada da GM. O consumidor não quer carros beberrões somente pelo preço da gasolina ou há uma decisão ambiental aí? E por que a Ford, que avançou muito em meio ambiente nos últimos anos, está escapando até agora da crise? Coincidência?

    Mas trazendo a questão automóvel e meio ambiente para o Brasil. O Inmetro iniciou a etiquetagem dos veículos nacionais quanto à eficiência energética. Veja no link http://tinyurl.com/qlgrms

    Por que o Governo não usa a classificação do Inmetro para definir o IPI dos veículos após esse período de redução. Veículos mais eficientes pagariam menos imposto.

  5. Marcelo disse:

    Já é um grande progresso hein, esse selo do Inmetro… mas daí já querer que influencie no valor do IPI… seria sonhar demais ou não?

    Em termos de agenda e consciência ambiental no Brasil, é sonhar demais, pelo menos agora. Penso que mais cedo ou mais tarde não haverá escapatória… ou se mudará todo esse modelo “CO2zístico” como é hoje ou nossos dias serão derradeiros!

    GM já sente o drama e sai aleijada nessa luta… qual será a próxima?

  6. denis rb disse:

    Marcelo,
    Não acho que seja sonhar demais não. Acho sim que, se nos guiarmos pelo pensamento vigente, essa ideia está absurdamente distante da realidade. Mas trata-se de um mecanismo simples de implantar, provavelmente sem impacto fiscal negativo e que ataca um problema que mais cedo ou mais tarde teremos que enfrentar. Claro que hoje não há clima político para propor algo assim. Mas os ventos estão mudando, a sensação de urgência está crescendo. Precisamos mesmo de novas ideias. E acho prudente começar por aquelas que parecem sonho.

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