O fim de uma história de amor

Anteontem o Luiz Carlos Pôrto se perguntou o quanto da decadência da GM tem a ver com consciência ecológica e o quanto deveria ser debitado à alta do preço da gasolina. Não tenho dúvidas de que os dois fatores influíram. Mas não me iludo: o petróleo caro foi o decisivo.

Americanos amam carrões.

O New York Times pediu aos leitores mandarem fotos que contam a importância da GM em suas vidas. Esta é uma delas. Bela síntese de um tempo que passou

O New York Times pediu aos leitores mandarem fotos que contam a importância da GM em suas vidas. Esta é uma delas. Bela síntese de um tempo que passou

Americanos amam carrões.

Tente entendê-los. Muitos deles foram concebidos num banco de trás de um deles. Ele foram criados a uma dieta constante de cinema, engenharia, publicidade e planejamento urbano que reforçaram pouquinho a pouquinho essa paixão por carros. Cresceram cercados de Cadilacs, picapes e conversíveis. Têm, cada um deles, milhões e milhões e milhões de memórias agradáveis de bons momentos passados sobre quatro rodas.

Não tem como um brasileiro entender o que isso significa. Carro, para nós, é um negócio pequeno, enferrujado e instável pipocando numa rua esburacada. Muitos de nós perdemos a virgindade tentando achar um espaço entre o câmbio e o volante de um fusca. Não tem como ser feliz num carro no Brasil.

Para nós, virar as costas para a cultura do carro é moleza, por mais que frustre um monte de gente que sempre quis um carro e nunca pode. Para eles, é virar a cara para o passado, para a identidade deles, para a família, para a cultura nacional.
Hoje tem um monte de americanos reclamando que essa cultura foi longe demais. Principalmente nas costas leste e oeste, nas regiões urbanas que têm como capitais Nova York e LA, lá onde a cultura urbana é mais forte e onde as pessoas são mais “liberais” (esquerdistas, em americanês). Eles querem deixar para trás a cultura do carro. Mas mesmo esses foram criados dentro dela. Não é fácil para eles.

Os americanos não teriam abandonado a GM aos abutres se a gasolina não estivesse tão cara.

Dica: quer ler um texto lindo em inglês sobre esse assunto? É uma ode de amor ao carro do escritor P.J. O’Rourke, publicada esta semana no Wall Street Journal. O’Rourke recorre à sabedoria ancestral asiática para lembrar que “há quatro coisas maiores que todas as outras coisas: Mulheres e Cavalos e Poder e Guerra.” Junte a segunda com a terceira e você tem o carro (cuja potência, não por acaso, é medida em “cavalos de força”). No final, O’Rourke escreve: “Há quatro coisas maiores que todas as outras, e tenho certeza de que a bicicleta não é uma delas.” Discordo. Eu amo bicicletas. Mas amo textos bem escritos também. (Dica do Desculpe a Poeira).

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28 comentários
  1. Márcio disse:

    A GM vai tarde…e espero que todas as outras não demorem pra ir pro espaço. Entendo essa dimensão cultural do carro nos EUA. Aliás, carro lá é visto até como uma forma de arte. Ok, é coisa deles. Mas ser cultural não significa que é bom ou virtuoso. Se nunca tiveram uma perspectiva crítica da coisa, terão que aprender a tê-la a contragosto. A desigualdade e a confusão entre público e privado no Brasil faz parte da essência da nossa cultura…e são coisas péssimas. Teremos que perder esse hábito à contragosto também?!

  2. Rogério de Oliveira disse:

    Márcio mandou bem

  3. denis rb disse:

    Exato, Márcio.
    Mas isso reforça a tese de que a retórica de dividir o mundo em heróis e vilões é pobre, é burra, é ineficaz. Não somos superiores aos americanos por não amarmos carros. E, se nos comportarmos como se fôssemos, só o que conseguiremos é torná-los mais sectários. Assim como a guerra contra o terrorismo só serviu para aumentar o número de pessoas dispostas a se explodir e a guerra contra as drogas não fez nada mais do que armar os traficantes. Não precisamos de uma “guerra contra os carros”. Precisamos de diálogo, de compreensão, de alternativas.

  4. Márcio disse:

    Claro, claro…de acordo!

  5. denis rb disse:

    (O que não quer dizer que eu sempre consiga controlar meu ódio contra os carros que me atropelam – já me aconteceu duas vezes. Aliás, melhoras ao Vitor Leal, colega blogueiro do Quintal – nossoquintal.org, a última vítima da nossa guerra contra os ônibus, na qual temos em geral levado desvantagem)

  6. Seu Zé disse:

    É, se for parar pra pensar, não tinha e não tem como ser feliz com carros aqui no Brasil. Lá nos EUA, desde os anos 50 eles tiveram a possibilidade de ter belos carrões, com gasolina ridiculamente barata (até a crise do petróleo na década de 70), longas auto-estradas bem conservadas recortando o país todo e toda uma malha urbana pensada e dedicada aos carros.

    Não tem nada a ver com Brasil, onde os carros são horríveis e caríssimos, as ruas e estradas são deprimentes e a gasolina é uma das mais caras do mundo.

  7. Gabriel disse:

    Desde a década de 1950, durante o governo de JK, o Brasil foi “invadido” por montadoras. Nós temos a VW, a Ford, as 3 francesas (Renault, Citroën e Peugeot), temos (ou tínhamos) a GM, etc. etc. As ferrovias – uma alternativa bastante interessante para um país de proporções continentais como o nosso – foram completamente inutilizadas de lá pra cá, as melhorias nas opções de financiamento para a compra do automóvel se propagaram pelo Brasil. Junte-se a isso a total falta de preocupação das cidades médias com transportes públicos (ou de massas, no caso dos grandes centros) e a conclusão que eu chego é que virar as costas para a cultura do carro NÃO é moleza no Brasil.

  8. Claudia Chow disse:

    Será que a quebra da GM vai fazer essa cultura mudar? Espero q sim…

  9. Gabriel disse:

    Quantos cidadãos de classe média se atrevem a andar de bicicleta, ônibus ou metrô num dos países mais injustos e desiguais do mundo?
    Tudo bem que os carros, estradas e o preço da gasolina estão longe de serem os ideais, mas a condição socio-econômica do Brasil faz com que a engenharia e o planejamento urbano se assemelhem cada vez mais com o padrão norte-americano, o que torna a cultura do automóvel cada vez mais intensa.
    “Apaixonado por carro como todo brasileiro”, Formula 1, programas de TV especializados no assunto e revistas de automóveis… Eu cresci vendo essas coisas.
    Acho que vocês estão enganados quando dizem que é facil se desvencilhar do carro no Brasil.

  10. jorji disse:

    Carro ainda é a extensão do pênis, ter um com 600 hp equivale a dizer a uma mulher o quanto de atributos o macho proprietário do carrão tem, que ele é o melhor provedor, é uma questão de competição, a GM entrou em decadência pelo erro da estratégia, sindicato e outros fatores de gerenciamento, o capitalismo difundido pelos americanos e que levou a América a ser a maior potência do mundo, alavancado pelo setor industrial, hoje são lembranças do passado, a força dos EUA hoje no setor econômico é o de serviços.

  11. Polyana disse:

    Extensão do pênis?!! Kkkkkkkkk… Acho que as mulheres (inteligentes) não caem nessa não. Esse tipo que se mostra em seu carrão acreditando ser este um atributo pessoal, é como aqueles outros, “chapeludos” de calça apertadinha e bota de saltinho. a Proporção é a seguinte: quanto maior o chapéu, menor a fazenda, e quanto maior o carrão, menor todo o resto…

  12. indianajones disse:

    Acho que esta reportagem esta equivocada.

    No Brasil sim as pessoas amam os automoveis, lavam, cuidam, etc… ate por que sao carissimos.

    Aqui na America do Norte (US & Canada) o u eu vejo eh que ninguem cuida dos carros, lavagens sao porcas e ninguem esta nem ai.

    Agora, o que afundou a GM foi a pessima qualidade mesmo associada um pouco com o preco da gasolina. Ha anos Toyota e Honda tem tomado a lideranca das vendas pelo simples motivo que os carros sao otimos, economicos e super confiaveis alem de terem um valor residual muito maior.

    Nao esquecam que visitas a mecanicos por aqui sao caras… as pecas sao baratas, mas a mao de obra eh em torno de US$ 100.00 por hora.

  13. Denisson disse:

    Eu adoro andar de bicicleta, mas de jeito nenhum é meu meio de transporte. Simplesmente porque o brasil é cheio de ladrão. A pessoa anda com medo de ser roubado. E não só isso, eu ando com medo de ser atropelado por um ônibus, um carro. Pense na maioria das cidades brasileiras, os substitutos para os carros são (pelo menos em Aracaju, São José dos Campos e Recife, onde já morei):
    Ônibus: Desvantagem de geralmente serem mal conservados, barulhentos e lotados.
    Bicicleta: Ciclovias insuficientes. Não somos nem pedestres pra andar na calçada, nem carro pra andar no meio da faixa daí o eterno medo de ou atropelar um pedestre ou ser atropelado
    Metrô: Inexiste. Como viver sem carro?

  14. Denisson disse:

    É mais ou menos assim. Você vende seu carro. Decide andar de bicicleta e de ônibus. Daí na bicicleta vc vive marginalizado na beira de uma avenida, com dezenas de carros e onibus tirando fino por minuto em você. Lá na frente vc pára sua bicicleta, estaciona no supermercado EXTRA (com cadeado do bom) e prossegue de ônibus (LOTADO POR SINAL!) e dependendo da linha demora um século pra passar o onibus. Na volta vc passa pelo mesmo problema com a diferença que no lugar onde deixei a bicicleta ela já não estava lá. Isso aconteceu comigo em São José dos campos. Que vontade dá de viver sem carro no brasil? 😛

  15. denis rb disse:

    hahaha

    E Gabriel, você tem razão. É fácil para mim dar as costas à cultura do carro. Mas para o país todo é bem difícil. A redução do imposto quando a crise apertou é prova suficiente.

  16. Douglas disse:

    Denis, ótimo texto! Mas, junto com muito leitores eu também concordo que o brasileiro é sim apaixonado por carros, todos querem um carro, embora a paixão brasileira não seja tão grande quanto a dos americanos (nós preferimos mulheres, e cerveja com um churrasquinho para acompanhar). Eu não moro numa cidade grande (moro em taubaté/sp 230.000 hab), e o nosso transito já está um caos, acabei d voltar d um congestionamento (microscópico para os paulistanos, mas mesmo assim um congestionamento) de mais de 500 m, coisa impensável para nós ha alguns anos, mas mesmo assim eu não vejo a hora de tirar a habilitação, como muitos da minha idade…

  17. samuel disse:

    O blogueiro está completamente equivocado, aliás, a cultura do carro tende a se propagar ainda mais aqui no Brasil, devido à melhora das condições econômicas da população e à expansão do crédito, algo que nos EUA já existe há muito tempo e que aqui é novidade. E, como disseram os amigos ai, quem vai deixar seu carro na garagem pra andar de ônibus lotado ou bicicleta para ser assaltado? Não é à toa que o Brasil hoje é um dos únicos mercados onde a GM, falida no mundo desenvolvido, tem lucros bem expressivos. Não há condições para que as pessoas abandonem os carros no Brasil, e, pelo que vemos, não haverá tão cedo.

  18. Daniel disse:

    A falencia da GM nao tem nada haver com petroleo,e sim com a cultura consumista americana.Status para o Americano e ter na garagem um carro de marca japonesa.Essa guerra os americanos perderam.Produtos de alta tecnologia para o gosto do maior mercado consumidor.Esse foi o principal motivo da falencia da GM.Alta do combustivel foi para esquentar um problema ja agravado com a concorrencia.

  19. Marcelo disse:

    O Brasil não é apaixonado por carros???

    Aqui é o único lugar do mundo onde se compra carro 4 portas pra andar sozinho, se paga 3 vezes o valor real e ainda sai sorrindo da concessionária achando que se fez um ótimo negócio ganhando tapetes e um tanque cheio.

    A era do automóvel está longe de terminar. Brasil é 6° maior mercado de automóveis do mundo. Em termos de crescimento, o Brasil junto com a Rússia tiveram os maiores percentuais em 2008… e isso, num ano de crise, ou seja, a tendência é de crescimento, assim como nossa economia. Junte-se a isso uma classe média cada vez maior e rica e um sistema bancário que facilita cada vez mais o acesso ao crédito.

  20. Tici disse:

    Não acho que o Brasil não tenha cultura de carro. Aqui também é sinal de status, até porque aqui se pensa que quem usa transporte público é só o pobre. Enfim…
    Um ótimo filme que tem essa história americana como pano de fundo é Gran Torino, do Clint Eastwood. Vale a pena.
    Beijos!

  21. jean disse:

    o cara mencionou CARRO, não fiatinho 1.0 ou coisa parecida!!! a cultura americana diz respeito a carrões V8 e assim por diante… acordem!! voces querem comparar o incomparavel.. é como comparar as nossas mulheres brasileiras gostosonas com americanas(que não teem bunda)…

  22. Daniel disse:

    Se realmente foi problema de motorizacao,a GM entao estava parada no tempo.Ela nao faliu,se suicidou.Se nao teve competencia para ver as tendencias do mercado,este nao foi o motivo.O que dizer entao dos carroes Alemaes,e outros concorrentes.Estao todos fadados a falir.Quanto ao problema ecologico,nao e so os Americanos e os paises industrializados que sao os viloes.Essa questao e para quem desenvolver produtos eficientes e competitivos em todas areas no que diz a questao. O mercado desses paises estarao abertos para esses produtos,sejam tecnologicos ou nao.Vejam os carros hibridos japoneses,e um sucesso no mundo.

  23. Daniel disse:

    SE vc tiver uma ideia eles compraram,e vc numca mais vai criticar ou ofender qualquer nacao.Agora dizer que o problema do nosso pais sao culpa deles meu amigo,vcs estao completemente enganados.E so ter uma visao do mundo…..

  24. Marcelo disse:

    Daniel, desde quando os carros híbridos japoneses são um sucesso?

    A falência da GM não está apenas ligada a sua insistência e incompetência em criar carros beberrões, mas sim com mudanças de metalidade de seus consumidores e mais ainda pelo descaso e exploração com seus funcionários.

    Junte-se a isso a competência das concorrentes e está aí uma possível resposta.

    Enfim, qualquer empresa, mesmo que não seja do meio automobilístico,

  25. Marcelo disse:

    que desrrespeite cliente e, mais ainda, seus funcionários, estará fadada ao fracasso.

    Tomara que o sirva de lição.

  26. Daniel disse:

    Se nao esta sendo um sucesso no que diz respeito a emissao de poluentes derivado da queima de combustivel fossil.Entao nao sei o que motivo que esta levando as montadoras a investir nesse segmento.Agora vamos esquecer a GM,isso e um assunto deles.Num pais preocupado com um problema de outras dimensoes,icones que representam o capitalismo Americano ja nao tem mas valor num mercado que tem sede por concorrencia na area militar.A Russia foi uma GM.Vamos continuar pensando que a gripe suina nao e produto de um grande laboratorio farmaceutico.Nasceu no chiqueiro com um suino com as iniciais H1N1. Esse e o mundo capitalista.

  27. Felipe Maddu disse:

    Já foi tarde!!!

  28. Felipe Maddu disse:

    O problema da cultura motorizada é que o carro ocupa um espaço absurdo. Não para de crescer. É tão brutal como assistir o programa de Caco Barcellos e presenciar a extinção da Amazônia e um maldito fazendeiro dizer que não podia devastar um pouco por causa de um índio. É lamentável. O exército devia fazer algo que preste e tentar salvar as matas brasileiras. Com tudo o que possuem em suas mãos. E ainda querem anistiar os devastadores.
    E pra ser mais incisivo: BICICLETAS. Ciclo-faixas. Conexão maior com outros meios de transporte e aperfeiçoar e muitooo estes.
    Obs: Quero ver se os goverernantes fazem algo agora, 2014 não está tão distante né?? Valeu !
    http://femaddu.blogspot.com/ comenta lá!

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