O filme de R$ 7.500

httpv://www.youtube.com/watch?v=BL1k0TNSGMs

Deixa eu começar com uma confissão: eu admito que já tinha decidido que ia gostar do filme “Apenas o Fim” antes de assisti-lo. Decidi que ia gostar em dezembro do ano passado, quando entrevistei no Rio o diretor do filme, Matheus Souza, de 20 anos de idade, estudante do terceiro ano de cinema.

Semana passada finalmente assisti ao filme, numa pré-estreia. E – surpresa – adorei. “Apenas o Fim” é de uma despretensão encantadora.

Como não havia dinheiro – o filme custou R$ 7.500, parcialmente bancados pela rifa de uma garrafa de uísque – não há cenários elaborados, nem efeitos especiais nem quase nenhuma produção. São só dois bons atores jovens recitando diálogos inteligentes e cheios de referências nerds. É uma comédia romântica doce e boboca. E irresistível.

Matheus nunca tinha feito um curta metragem na vida. Por algum motivo louco, decidiu que a inexperiência não impediria que ele fizesse um longa logo de cara. Resolveu filmar durante as férias de verão. Juntou umas 20 pessoas que acreditaram no projeto e pediu uma câmera emprestada na universidade. Foi avisado que não era permitido sair com a câmera do campus. Para contornar esse inconveniente, escreveu um roteiro inteiramente passado dentro da PUC do Rio.

Fez o filme, sem patrocínio, nem lei de incentivo, nem apoio do estado de nenhum tipo. Conseguiu inscrevê-lo na mostra competitiva do Festival do Rio. Ganhou. Melhor filme da mostra segundo o público. Conseguiu inscrevê-lo no Festival Internacional de Cinema de São Paulo. Ganhou o prêmio do público de novo.

Semana passada, na pré-estreia, o Matheus respondeu perguntas da plateia. Uma menina, mais ou menos da idade dele, levantou a mão. Ela estava emocionada, quase não conseguia segurar as lágrimas. Disse a ele que “nunca antes no Brasil alguém tinha feito um filme para mim”.

Ao contrário da imagem clássica do cineasta, Matheus não é arrogante, longe disso. Ele não fala mal de ninguém, gosta de quase tudo. “Tenho carinho por todos os filmes que já assisti.” Perguntamos a ele qual é o filme brasileiro favorito da sua vida. “’Terra em Transe’ e ‘Uma Escola Atrapalhada’”, respondeu, cometendo a heresia de colocar Glauber Rocha e Didi Mocó no mesmo patamar.

Quando perguntam para ele se ele quer revolucionar o cinema brasileiro – pergunta bem frequente, aliás –, ele acha uma bobagem e diz que não. Que só quer fazer filmes. Só quer fazer aquilo em que acredita e ver para onde isso vai levá-lo. Acho que essa atitude revolucionária o suficiente.

“Apenas o Fim” estreia nos cinemas na sexta-feira.

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19 comentários
  1. Stefano disse:

    Maravilha, será que lançam em DVD?
    Abraços!

    [WORDPRESS HASHCASH] The poster sent us ‘0 which is not a hashcash value.

  2. Marcelo disse:

    A primeira impressão foi ótima, mas me diga uma coisa… em que cinemas ele estréia?

  3. Rogério de Oliveira disse:

    Parabens ao promissor cineasta. Mas aconselho que se afaste do convívio da maioria esmagadora de cineastas brasileiros que romantizam menores estupradores e vitimizam presos maníacos em detrimento da polícia. A Mulher Invisível, Se eu Fosse Voce e mesmo Tropa de Elite embora sejam roteiros 100% hollywoodyanos, é pura diversão que servem de exemplo para quem faz cinema que justifica investimento + retorno. Deixem estas inquestionáveis obras literárias brasileiras serem recitadas num SESC da vida. QUEM QUER VER O SACI PERERE NO CINEMA? Ora vamos zzzzzzz
    Abraço aos leitores.
    Marcelo Adnet está no filme em questão!!!!!!! hehe

  4. Luiz Carlos Pôrto disse:

    Belo exemplo. Precisamos mais das coisas simples.

  5. denis rb disse:

    Marcelo,
    Ainda não dá para saber exatamente em que cinemas o filme vai passar. É um filme pequeno, sem grandes investimentos em distribuição. Mas tenho a sensação de que ele vai passar em mais cinemas do que se espera – o público gosta, e os cinemas gostam de filmes dos quais o público gosta.

  6. denis rb disse:

    Sem dúvida, Stefano.

    E, segundo o Matheus, quando lançar, vai ser com um monte de extras bacanas.

  7. Felipe Maddu disse:

    Ao contrário do que dizem por aí (no caso um comentário desse blog), cinema não tem barreiras, é arte! Tem que falar bem da polícia? menores estrupadores?? No sense total!
    O pequeno cineasta em questão é retrato do Brasil, a gente faz mesmo que os cegos, Cinema=comércio – arte, pensem o oposto. Mesmo no States, além de Hollywood existe investimento pra bons filmes. Aqui depende-se da Petrobrás??? E sempre foi assim, os mesmos com os mesmos recursos. E a tão gloriosa iniciativa privada?? Cadê???

  8. Rogério de Oliveira disse:

    Foi fraco Felipe.
    Cinema brasileiro predomina vulgaridade e depreciação da imagem do país Ok? zzzzzzzzz

  9. denis rb disse:

    Rogério,
    O Matheus discordaria de você. Ele é dessas pessoas que preferem ver coisas boas do que coisas ruins nos filmes que assiste.

  10. Dimitry K. Jr. disse:

    Um exemplo a ser seguido!

    Sem um centavo do governo, patrocinado por uma rifa de uma garrafa de wiski, ganha dois prêmios de cara!

    O que diriam os Losers CinePetelhos Sanguesugas de verbas oficiais, filme sem petêtrocínio da petrobrás ou banco do brasil é uma ode ao capitalismo neo-liberal… Melhor fazer filme ruim a se render a opinião pública!

  11. Biba. disse:

    Dê, fomos assistir e amamos! Se um filme feito por um cara tão jovem, feito para jovens, agradou tanto os velhinhos, é porque é muito bom!

  12. Rafaela disse:

    Fiquei curiosa para assistir o filme, aposto que não vai passar em São Luís.
    Ps: Achei um máximo ele gostar do filme “Uma Escola Atrapalhada”, sempre achei um clássico do cinema brasileiro.

  13. Cris Ventura disse:

    Oi Denis! Eu já tinha visto o trailer do filme e agora com o seu post tá decidido: quero ver logo esse filme! Sensacional o post! Beijos!

  14. Márcio Leijoto disse:

    Não vi o filme ainda, mas pelo trailer parece aqueles filmes da Julie Delpy (antes do por do sol, antes do amanhecer, dois dias em paris, etc). Mas vou ver o filme e comentar depois.

  15. Márcio Leijoto disse:

    A caracterização dos atores, por sinal, parece ser bem parecida com a dos protagonistas de 2 dias em Paris, da Julie Delpy. Até os diálogos.

  16. denis rb disse:

    Márcio Leijoto, “Antes do Por do Sol” e “Antes do Amanhecer” são sim duas referências bem fortes para “Apenas o Fim”. Perguntaram ao Matheus se ele também quer fazer um filme anos depois com os mesmos personagens retomando a história e ele disse que com certeza sim.

  17. Simone disse:

    “Você não vai insistir?”
    Só por essa frase eu já assistiria o filme mil vezes.
    Obrigada por mais essa.

  18. Yuri disse:

    Olá, Gostaria que retirassem meu comentário do dia 18/06/2009.
    Grato

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