Petróleo: o cocô do diabo

Vira e mexe alguém passa aqui para comentar sobre o pré-sal e o futuro do Brasil como exportador de petróleo. Há um ano, escrevi esta matéria para a revista Superinteressante dizendo que petróleo quase sempre é má notícia para o país que o encontra, a não ser quando ele se prepara muito bem para explorá-lo. E não me parece que o Brasil esteja se preparando muito bem…

Por isso, achei que valia retomar o assunto:

A maldição do petróleo

Está todo mundo feliz com a descoberta de imensas reservas de petróleo no Brasil. Acontece que, quase sempre, achar petróleo no seu país é uma péssima notícia

Por Denis Russo Burgierman – Superinteressante – julho/2008

O presidente Lula comemorou a imensa descoberta de petróleo ano passado dizendo que “Deus é brasileiro”. Antes de celebrar, talvez ele devesse ouvir a opinião do venezuelano Juan Pablo Pérez Alfonso (1903-1979), fundador da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep). Para ele, petróleo não é indício da mão de Deus, mas sim do intestino do demo. Juan Pablo costumava dizer que petróleo é o “excremento do diabo”.

Ele sabia do que estava falando, já que viu sua Venezuela erodir suas instituições democráticas e se perder em corrupção. É assim na maioria dos grandes exportadores de petróleo. Quase todos são ditaduras intermináveis, como o Iraque de Saddam e a monarquia saudita. Eles crescem menos que seus vizinhos sem petróleo e seus problemas sociais levam mais tempo para ser resolvidos. Vários são países devastados por guerras civis. Mesmo as democracias do óleo tendem a ser pouco democráticas. Veja o México, onde um mesmo partido, o PRI, ficou no poder por mais de 70 anos. Dos 20 maiores exportadores de petróleo do mundo, 16 são ditaduras. E outros dois – México e Venezuela – são democracias com instituições fracas. A maioria está nos últimos lugares do mundo em desenvolvimento humano, e entre os primeiros em desigualdade e endividamento. É nesse clube que o Brasil está prestes a entrar. Será que devíamos mesmo estar comemorando? E será que tem algum jeito de escapar da “maldição do petróleo”?

Por que petróleo faz tão mal? Como é que uma das mercadorias mais valorizadas do mundo pode gerar pobreza, guerra e autoritarismo? Nos últimos anos, economistas e cientistas políticos encontraram uma série de explicações.

A primeira: petróleo enfraquece a economia. Ele custa tão caro que uma cachoeira de dólares entra no país. Com muitos dólares em caixa, a moeda nacional se valoriza. Resultado, fica barato importar produtos estrangeiros e caro produzir – aí a indústria nacional definha. Só que o preço do petróleo é uma montanha-russa. Em 1990, o barril custava mais de US$ 40. Meses depois, caiu para menos de US$ 20. Enquanto este texto era escrito, um barril custava US$ 135. Essas altas e baixas destroem qualquer um. O preço sobe, o país se alaga de dólares e as indústrias fecham. O preço cai, secam os dólares, o país se endivida e não tem indústria para ajudar.

A segunda: petróleo distancia os políticos do povo. A maioria dos grandes exportadores de petróleo nem cobra impostos da população. Não precisam. Têm dólar sobrando. Os governos não prestam contas a ninguém, roubam descaradamente, torram dinheiro público e a sociedade civil é fraca, desestruturada.

A terceira: petróleo torna a política mais burra. A maioria dos países exportadores não tem um projeto de desenvolvimento, apenas grupos rivais brigando pelo poder – e pelo acesso ao poço de dinheiro. Quando chegam lá, gastam que nem loucos, sem planejamento, para não deixar nada para os rivais.

Quer dizer então que nos ferramos? Não. Num certo sentido, o Brasil deu sorte de virar exportador justo agora, quando estudiosos estão desvendando os mecanismos da maldição e inventando antídotos. Outra sorte é que o nosso petróleo está enterrado bem fundo, e vai demorar para começar a jorrar. Ou seja, dá tempo de nos prepararmos. Só que devemos trabalhar já, antes de o petróleo começar a ser vendido. Veja o que precisamos fazer:

1. Ter um projeto de país. Está na hora de governo, oposição e sociedade civil discutirem que tipo de país nós queremos. Claro que não vamos concordar em tudo, mas dá para alcançar alguns consensos. Por exemplo: o de que precisamos de educação básica decente, de infra-estrutura, de um sistema de saúde, de pesquisa científica, de proteção ao ambiente. O papel da imprensa é discutir essas questões e informar a sociedade, para que todo mundo possa participar. Com todo mundo de acordo com esse projeto, podemos planejar a longo prazo o uso do dinheiro do óleo – e cada governo novo tem a obrigação de continuar o que o anterior começou.

2. Proteger a economia. Quando o dinheiro vier, nos encheremos de dólares. Precisamos evitar que essa dinheirama inunde a economia e supervalorize o real. O ideal é colocar tudo numa conta separada, que precisa ser vigiada de perto pela oposição e pela sociedade civil, para que ninguém tire dela mais do que o permitido. O governo só pode sacar até um certo limite, e deixar o resto guardadinho para os nossos netos. Se o preço do petróleo cair, pode sacar um pouquinho mais para evitar depressão na economia. Se subir, é hora de guardar para tempos bicudos. E tudo o que o governo sacar tem que ser usado para colocar em prática o projeto de país descrito no item 1. Nada de aumentar a gastança do governo.

3. Transparência. O único jeito de evitarmos que surrupiem a grana é abrirmos todas as janelas. Precisamos que cada funcionário do governo tenha obrigação de prestar contas do que faz. Precisamos de organizações independentes destinadas a investigar gastos públicos. Precisamos de uma imprensa menos gritona e mais vigilante e racional. Precisamos que cada órgão do governo tenha como uma de suas funções fiscalizar um outro órgão do governo. Precisamos que o orçamento seja claro, transparente e público. O saldo da conta do dinheiro do petróleo, por exemplo, tem que poder ser acessado online por qualquer brasileiro. Se fizermos tudo isso, o petróleo não só deixará de ser uma maldição como resolverá a maioria dos problemas do Brasil. Está aí a Noruega, 3a exportadora de petróleo e 2o maior índice de desenvolvimento humano do mundo, para provar que é possível. Mas, se não fizermos a lição de casa… Hmm, a coisa vai feder.

petroleo1

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21 comentários
  1. Elisa disse:

    No começo do ano assisti a uma palestra de André Vieira, um fotógrafo que vem documentando Angola há 10 anos. Fiquei impressionada ao saber que Luanda é uma das cidades mais caras do mundo e também onde a pobreza extrema não deixa dúvida sobre como a existência de reservas petróleo não colabora muito para distribuição de riqueza no país…

    Ele também está trabalhando num livro que documenta a destruição da Amazonia. Vale a pena dar uma olhada:
    http://www.andrevieira.com/

  2. Italo disse:

    Prezado Denis,
    De qualquer modo o governo é o maior interessado na comercialiação de petróleo e o automóvel e o melhor modo de arrecadar impostos, seja no IPI, IPVA, seguros obrigatório e “semi obrigatório” e depois pagamos 52% de impostos sobre o combustível para mestre Lula comprar popularidade.
    E você é uma ovelha negra neste mundo e nesta revista (que adoro) que precisa de fazer publicidade de carros.

  3. denis rb disse:

    Incríveis as fotos, Elisa. E essa combinação: preços altíssimos e miséria total é bem comum em países com alta dependência do petróleo. Verdade que o Brasil não terá dependência tão grande, porque tem economia muito mais diversificada. Mas o alerta vale.

  4. Jay Jay, Nigeria disse:

    Oi Denis,
    A economia do Brasil é super diversificada como você disse, mas a título de exemplo, nos finais dos anos 60 a Nigéria estava entre os maiores produtores e exportadores mundiais de: amendoim, cacau, dendê, borracha além de produzir alimentos suficientes para o consumo interno, uma fábrica da Volks em Lagos e uma fábrica Peugeot em Kaduna e outras multinacionais e também indústrias nacionais como cimento, texteis, calçados, aço para construçao. 1 Naira = 1 libra esterlina.
    Após os finais dos anos 70 e um boom do petróleo depois a mesma Nigéria é obrigada a importar: amendoim, cacau, dendê, borracha, arroz, trigo, sal, açucar, calçados, texteis, cimento, aço para construçao, carros novos e (super) usados e imagine: diesel, gasolina e querosene !!! Os parques industriais de Lagos, Kaduna e Port Harcourt estao completamente abandonados. Das quatro refinarias, só uma funciona com 20% da capacidade. 165 naira = 1 dólar.
    Isto é para mostrar a capacidade destruidora que o excesso de produçao de petróleo faz a uma economia promissora.
    Para pensar.
    Abraços a todos.

  5. denis rb disse:

    Uau…
    Está aí demonstrado o que eu estava querendo dizer.
    Impressionante

  6. Rogério O. Soares disse:

    Jay Jay

    Eu ia contrariar a tese do Denis mas vc. destruiu qualquer possibilidade!
    😥

  7. Jay Jay, Nigeria disse:

    Oi Rogerio,
    Tem a Noruega para contrariar. Parece que o governo brasileiro está em contato com o governo norueguês para que se possa criar um sistema parecido no Brasil. Nao sei se a informaçao é correta.
    Abraços.

    [WORDPRESS HASHCASH] The poster sent us ‘0 which is not a hashcash value.

  8. Greice disse:

    Simplesmente adorei a explicação.
    Sem mais palavras.

  9. Ricardo disse:

    Ola Denis
    Em primeiro lugar gostaria de parabenizá-lo pela ótima matéria, gostaria de ter esperança, mas é triste a realidade de que quando o Petróleo começar a jorrar será uma maldição mesmo porque se os políticos aqui neste país já fazem tantas coisas às escondidas e quando se descobre tudo acaba em pizza o que dirá com essa dinheirama toda que poderá vir com o petróleo. Nos o povo brasileiro aceitamos tudo vamos e a não ser que acontece uma mudança radical (o que acho difícil) aceitaremos que os políticos gastem todo o dinheiro do petróleo tomara que demore mesmo por que não quero ver isto.

  10. denis rb disse:

    Jay Jay,
    Verdade, há interlocução com a Noruega, e isso pode ser positivo. Mas acredito que o sucesso da Noruega se deve mais à solidez das instituições democráticas de lá e à transparência do governo do que a qualquer outra coisa. Em outras palavras: não adianta muito o Brasil copiar o modelo de administração de recursos de lá se não copiar o fundamental, que é a transparência. E isso não é fácil de copiar… E, como se vê pelo que está acontecendo no Senado, temos ainda um longo caminho a percorrer.

  11. Jay Jay, Nigeria disse:

    A propósito do Senado e a falta de transparência e abrindo um caminho paralelo à discussão deste post: o nosso problema não é só o (des)governo, é o azar de não ter uma oposição que mereça esse nome. Temos um bando de políticos eleitos que andam com o preço de venda pendurado no pescoço. Só fingem brigar para poderem ter acesso ao tacho. Como diz o Ricardo, imagina só essa gangue com um tacho cheio de petróleo. Isso é sustentável só para eles.

  12. Gerson B disse:

    Acho que é necessário que essas questões rompam a barreira dos blogs e cheguem ao grande público. Pelos meios de comunicação em massa. Mas como começar?

  13. denis rb disse:

    Gerson B, acho que os blogs são um bom lugar para começar as coisas.

  14. Teófilo disse:

    Concordo plenamente com o título do petróleo» O excremento
    diabo. Só que vejo todo o mundo preocupado com as economias
    dos países e não vejo ninguém preocupado com a morte lenta do
    nosso Planeta. Vejo, isso sim, muito boa gente tentar tapar o sol
    com uma peneira e ninguém vê a sugeira ambiental que deriva do
    cocô do diabo. Tentar que taxistas parem um dia por semana para
    minimizar a poluição e baterem palmas por exemplo a um Rali Dakar
    que para limpar a poluição feita por eles era preciso plantar milhões
    de hectares de floresta é de loucos…
    Ó Senhores deste mundo, que este mundo comandais, dizei-me lá
    para que bandas, o nosso mundo guiais…
    O MUNDO ESTÁ LOUCO!!!

  15. Helder disse:

    A melhor coisa que o Brasil deve fazer é pegar todo esse dinheiro e investir em educação básica e pesquisa.

  16. carol disse:

    Eu acho o petrólio interessante,e estou fazendo um trabalho e estou achando coisas muito importantes para meu trabalho.
    continue assim vc vai ganhar muitos elogios!

  17. edilton assuncao disse:

    o petroleo e nosso frases pedida no tempo a transparencia ficou para com as crianças em um pais que desreipeita a sua constituicao e nao sabe canta o hino nacional.vejo nossas reservas se acabando ate a nossa paciencias, homens comprometidos com o desenvolvimento trabalhadores desta grande empresa e aves de rapina ja brigam pela fatia do bolo. sinceramente tenho vergonha de ser brasileiro roubam os nossos sonhos,manipulam e vende nossa educaçao sao incesivel a causa justa; pedidos em suas proprias mentiras faz o pais fica violentos. e em brasilia nimguem tem compromisso, nimguem protege as instituiçoes e nao respeitam mais nem o supremo tribunal acho que a ditadura ja chegou.

  18. Estou fazendo uma viagem pelos antigos posts, já que conheci o Blog recentemente. Esse aqui é demais e mais incrível ainda são os comentários e o relato do Jay Jay da Nigéria. Mostra como informação e história são importantes para qualquer um. Lembro das minhas aulas de história que apenas contavam as balelas de sempre e pouco acrescentava a minha formação. Lendo o livro “Diários de Bicicleta” do David Byrne (foi o que me trouxe ao blog), percebi que muitas das idéias e projetos da cidade de São Paulo, são na verdade tentativas frustradas e já testadas sem sucesso em outros lugares, como o aumento das vias (Marginal Tiete), pontes estaiadas e rodoanel, nada conteve o excesso de carros.

  19. isa disse:

    bolada cara muito irado pô!

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