Não paramos o trânsito: somos trânsito

Quando vim morar na Baía de San Francisco, não demorei para conhecer uma tradição da cidade: a Critical Mass, ou “massa crítica”, a mais anárquica manifestação de que já participei. Minha primeira foi em setembro de 2007, quando o “evento” completava 15 anos. Pegamos nossas bikes e fomos participar (você pode ver algumas das fotos no blog que eu tinha na época. Cuidado! Há cenas de nudez!!!!).

Funciona assim: toda última sexta-feira de cada mês, às 6 da tarde, ciclistas da cidade inteira se encontram em uma pracinha (em frente ao Ferry Building). Eles se concentram lá, vão se acumulando, até que alguém começa a buzinar. As buzinas vão se espalhando, a praça vira uma barulheira e aí, de repente, alguém começa a pedalar e os outros vão atrás.A massa crítica foi atingida. Não há roteiro definido. Quem estiver na frente decide onde virar, quem vier atrás segue. O prefeito não gosta (tive a chance de participar de uma entrevista com ele, e ele suspirou desanimado quando eu disse que costumava participar). A polícia não gosta. A maioria dos motoristas não gosta. O trânsito fica uma loucura. Mas é uma das muitas tradições esquisitas desta cidade esquisita e ninguém consegue acabar com ela. Acusam os ciclistas de parar o trânsito. Os ciclistas respondem que não param o trânsito: eles são o trânsito.

Para nós, ciclistas, é uma delícia. Uma vez por mês, pelo menos por alguma horas, a cidade é nossa. As ruas são tomadas por gente fantasiada em bicicletas estranhas. Muita gente carrega caixas de som e a música toma as ruas. O Critical Mass é tão legal que, ao longo dos últimos 17 anos, foi lentamente se espalhando pelo mundo. Hoje acontece em bem mais do que 300 cidades, incluindo quase todas as maiores cidades brasileiras (aí ele chama “bicicletada”).

familia

Mas, afinal, o que é o Critical Mass? É uma manifestação, uma passeata, um protesto, uma festa, uma invasão? Morria de curiosidade e não encontrava resposta para essas perguntas. A imprensa mal tratava do assunto. Aí encontrei um livrinho, e o organizador era o Chris Carlsson, parte do grupo que começou a história, em 1992. Acabamos conhecendo o Chris por acaso, e ele nos contou todas as histórias.

Da direita para a esquerda, minha mulher Joana, Chris e a mulher dele, a mexicana Adriana

A partir da dir., minha mulher Joana, Chris e sua mulher, a mexicana Adriana

O Chris é uma enciclopédia de contracultura e de conhecimento da história desta cidade. Editor e escritor, ele tem uma porção de livros sobre ecologia urbana, história dos movimentos sociais, mudança na relação com as cidades. Esta semana aparecemos na casa dele com uma garrafa de cachaça (ele é apreciador) e em troca ganhamos um belo jantar mexicano e uma caminhada guiada pela cidade. Não foi um tour comum: em vez de cartões postais vimos jardins comunitários, ruínas, espaços públicos tomados a força e outras relíquias da história da resistência dos moradores de San Francisco contra a morte da alma da cidade. O Chris contou que em meados do século 20 houve um projeto para aterrar toda a baía de San Francisco. A cidade viraria uma planície suburbana, sem fog nem ventania, com casas grandes e quintais: igual a qualquer cidade americana. Os moradores se organizaram e mataram a ideia. Para manter San Francisco estranha.

Hoje há gente pedalando em todos os cantos de San Francisco, a qualquer hora do dia ou da noite. As ciclovias e faixas compartilhadas estão por toda parte. Motoristas respeitam os ciclistas e reconhecem que eles ajudam a reduzir o trânsito. Todas essas conquistas devem um pouquinho à Critical Mass, que 17 anos atrás começou a colocar essas questões em discussão.

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11 comentários
  1. Rogério O. Soares disse:

    Wooo achei tão gut gut aquele cachorro no carrinho com as crianças! 😛

  2. Elisa disse:

    Que legal esse rolê pela cidade. Depois conta mais!

  3. Rogério O. Soares disse:

    O Denis fez a barba pra tirar a foto com as crianças

  4. Deny disse:

    Cara, você tem uma vida e tanto.

  5. Maurício Bittencourt disse:

    Aterrar a baía de São Francisco? Perto dessa idéia, aquele prédio agrícola para Manhattan é brincadeirinha (rs). Estamos aproveitando a tua viagem, Denis. Tomara os leitores nos inspiremos pelas idéias q vc tem divulgado. Os gringos tem mais know-how sobre articulação social. E se perdem muito menos em polêmicas e inúteis questões políticas.

  6. berlatto disse:

    Denis, faça uma campanha para a cidade de Brasília e seus bicicleteiros irem em massa à frente do congresso nacional e unidos por um Brasil mais ético e decente protestar contra essa canalha de políticos safados, e com suas buzinas e vaias demonstrarem indignação. Abraços.

  7. Lucio Flausino disse:

    Muito bom ver por aí falarem da Critical Mass/Bicicletada.
    Em Recife ela ainda é jovenzinha, mas tem muito potencial.

    Que esses depoimentos sirvam como estímulo para a formação de mais Bicicletadas e para trazer mais pessoas para as que já existem.

    Caramba, mó vontade de conhecer San Francisco! Chris Carlsson saca muito!

    Ah! Pra não perder o espaço:
    http://bicicletadape.entodaspartes.net/

    []s.

  8. Felipe Maddu disse:

    Sampa está criando essa consciência, embora o governo vá na contramão-como por exemplo proibir os fretados no centro, é uma cagada que eles vão se arrepender de ter feito-. Me espanta a quantidade de comentários nesse post e no posterior, é um exemplo de como ainda não deu um clique na cabeça do povo e das classes altas. A mídia está olhando mais pra isso, como na matéria da UOL notícias-especial de trânsito sobre a decadente ciclovia da Sumaré. Não sou arquiteto, mas sei que ela foi mal planejada e se reformada corretamente pode ser uma das melhores da cidade. Parabéns pelo blog e espero continuar a ler por muito tempo. Abraço

  9. Bruno Giorgi disse:

    Viva a Bicicletada/Critical Mass!

    Bicicleta = meio de transporte para seres humanos inteligentes.

  10. Ronaldo Assim disse:

    Viva a Bicicletada!

    Cada dia mais, maior é a Massa Crítica nas cidades do Brasil. São Paulo está cada dia maior.

    Em algum momento os governantes vão ter que olhar pra isso e ver que está na hora que por atenção na situação da cidade.

    Ronaldo Assim
    http://www.buildingart.com.br/

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