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Arquivo mensal: setembro 2009

Wálter Maierovitch foi Secretário Nacional Antidrogas no segundo governo FHC, entre 1999 e 2000. Dois anos depois, entrevistei-o sobre a política brasileira para drogas, para um livro que eu estava escrevendo sobre maconha.

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Ele me contou que, durante seu período na secretaria, ele juntou esforços ao governo português para buscar para os dois países uma política de drogas mais liberal, que não criminalize o usuário, principalmente para drogas leves. O esforço foi em frente em Portugal, mas foi abruptamente interrompido aqui no Brasil. Por quê? Aparentemente porque, a uma determinada altura, o chefe de Maierovitch, FHC, barrou a mudança da lei. E por que FHC, que escolheu Maierovitch e parecia apoiar uma lei mais racional, mudou de ideia? Maierovitch não me respondeu diretamente, mas deu a entender que tinha certeza de que o presidente brasileiro tinha sofrido pressão do grandão do norte. Na opinião dele, o Brasil não descriminalizou o uso de drogas porque os Estados Unidos de Clinton não quiseram.

Não seria surpresa, claro. Faz quase 80 anos que a proibição internacional das drogas é uma bandeira dos Estados Unidos. No começo do século 20, surgiu nos EUA um forte movimento de inspiração religiosa puritana – as ligas de temperança –, que conseguiu proibir primeiro o álcool. Depois, quando o fracasso da proibição ao álcool ficou óbvio (custou uma fortuna e só serviu para enriquecer traficantes de bebidas e financiar o crime organizado), o movimento mudou seu alvo para as drogas hoje ilícitas, principalmente a maconha. De lá para cá, foram os EUA que carregaram a bandeira proibicionista na ONU e em todos os fóruns internacionais. Não sossegaram até que as drogas – que até os anos 1920 não eram ilegais em lugar nenhum do planeta – fossem proibidas em todos os países do mundo.

Mas parece que algo está mudando ao norte, embora seja uma mudança sutil. Sabe-se que Obama é contrário à criminalização do usuário, embora ele não fale muito sobre isso (veja este vídeo de 2004 no qual ele reconhece que a guerra contra as drogas foi um fracasso e afirma que precisamos repensar nossas leis e descriminalizar o uso). Até aí, nada de novo: Jimmy Carter, nos anos 70, já tinha dito praticamente o mesmo, mas só o que conseguiu quando foi presidente dos Estados Unidos foi mobilizar o país inteiro contra leis liberais e abrir caminho para que seu sucessor, Ronald Reagan, endurecesse ainda mais a repressão (o que só levou a gastos astronômicos e, veja você, um grande aumento no consumo de drogas pesadas e da violência associada a elas).

Este ano, dois países latino-americanos importantes – Argentina e México – descriminalizaram o uso de drogas, com leis ainda mais liberais do que a que o Brasil tentou instituir em 2000. Obama não se opôs. Não houve nenhuma gritaria americana. Pelo contrário. O que se vê, na imprensa americana, são elogios à coragem mexicana de finalmente enfrentar o problema que eles têm varrido para baixo do tapete há anos.

Na Califórnia, em 2010, haverá um plebiscito para legalizar a maconha – não apenas descriminalizar o uso, mas regulamentar a venda e cobrar impostos. O deputado Tom Ammiano, proponente da lei, disse que, “com o estado no meio de uma crise econômica histórica, regular e taxar a maconha é simplesmente bom senso.” Ele calcula que a Califórnia vai lucrar cerca de 1,4 bilhão de dólares em impostos. Esse argumento – de que proibir algo por questões morais, a custos elevadíssimos, é um desperdício em tempos de crise – é o mesmo que derrubou a proibição ao álcool após a Crise de 29.

A Organização Nacional para a Reforma das Leis de Maconha (Norml), uma associação americana que há 30 anos milita no tema, tem dito que nunca estivemos tão perto de uma legalização – nem mesmo nos anos 70 de Carter.

No fim de semana passado, FHC deu entrevista à Veja defendendo novas leis para drogas, em especial a descriminalização do uso de maconha. Desde o começo do ano, FHC tem falado abertamente sobre o assunto, o que está repercutindo bastante na imprensa americana e europeia. Dias depois da entrevista na Veja, Wálter Maierovitch escreveu em seu blog que Obama está prestes a descriminalizar o uso de maconha nos Estados Unidos (e aproveitou para dar uma espetada no ex-chefe FHC, que chamou de “oportunista” e “arrivista”, por abraçar hoje a causa que atrapalhou ontem).

Maierovitch não cita a fonte que lhe disse que Obama está prestes a agir (e não respondeu aos emails que mandei a ele). Mas ele é um sujeito bem informado. Há alguns anos, ele tinha certeza de que os Estados Unidos eram a força evitando que as leis antidrogas mudassem no mundo inteiro. Hoje, pelo jeito, ele pensa diferente. Se ele está certo, aguarde mais mudanças no horizonte.

Dois comentários divertidos sobre o Brasil na internet americana:

  1. Está no ar o site Chicagoans for Rio 2016, uma campanha da população de Chicago pelas Olimpíadas no Rio. Chicago é uma das favoritas a receber os Jogos de 2016, mas a ideia é bastante impopular por lá, vista como dispendiosa e inútil. O legado dos jogos à cidade será mínimo (assim como no Rio, aliás). O site compara as duas cidades para convencer o Comitê Olímpico Internacional de que o Rio é muito mais legal. No Rio tem um Cristo em pé, em Chicago, um Lincoln sentado. No Rio tem gente pelada dançando, em Chicago tem gente rechonchuda comendo.
  2. O ótimo blog ambiental Treehugger está achando graça no desafio intermodal de São Paulo, que mais uma vez constatou que bicicleta é o jeito mais rápido de se locomover em SP na hora do rush. Que é mais rápido que um carro, é óbvio. Mas o fato de a bike ter vencido o helicóptero surpreendeu os gringos.

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Imagine se o mercado de energia funcionasse assim:

Você vai às Casas Bahia e compra um kit de energia solar ou eólica. Instala o dito cujo no telhado, seguindo o manual de instruções, pluga na tomada e, com o celular ou o computador, controla a produção de energia em casa. Quando seu gasto de energia for maior do que a produção, você recebe uma conta em casa. Mas, quando a produção superar o consumo, algo incrível acontece: chega um cheque pelo correio.

Não seria sensacional?

Seria, claro. Mas o jeito como os Estados Unidos estão incorporando energias limpas ao seu sistema é bem diferente disso. Por lá, eles estão substituindo carvão queimado por energia eólica e solar, o que é bom, mas de uma maneira que não muda a relação entre os produtores e os consumidores de energia. Você conhece o modelo: usinas gigantescas produzindo energia, postes monumentais transportando essa energia por milhares e milhares de quilômetros. Quem quiser pode instalar seu painel solar no telhado, mas o sonho de mandar essa energia para a rede e faturar uns trocadinhos com isso continua bem longe da realidade.

Uma reportagem bem interessante que a revista Fast Company publicou na sua edição de julho/agosto tenta entender por que é tão difícil mudar o jeito de pensar. A resposta a essa pergunta pode ser resumida numa palavra só: grana. Há muitos interesses milionários para evitar que o poder de produzir energia seja descentralizado. As empresas de energia, obviamente, não estão interessadas em ver seu mercado evaporar. E estão lobiando desesperadamente para evitar a mudança.

A revista chama o novo sistema de “microgrid”, em oposição ao tradicional “macrogrid”. A diferença entre os dois parece com a diferença entre a televisão (uma enorme infraestrutura de mão única levando informação do centro para as bordas) e a internet (uma teia gigantesca que não tem centro – todo mundo produz e consome ao mesmo tempo).

Produção centralizada de energia: essa não é a solução

Produção centralizada de energia: essa não é a solução. Melhor seria um desses em cada telhado.

Assim como a internet deu origem a uma avalanche de empreendedorismo pelo mundo, a ponto de algumas das maiores empresas do planeta hoje terem nascido lá dentro, essa mudança poderia iniciar uma nova era de dinamismo no setor de energia. Qualquer um de nós poderia ajudar a resolver a crise de energia – e ganhar dinheiro com isso. Haveria um surto de inovação, com gente mundo afora tentando desenvolver cataventos e placas solares mais eficientes, novas fontes de energia e de transmissão. Hoje não há incentivo para inovações nesse sentido: numa indústria em que, quanto mais energia for desperdiçada, mais cara é sua conta, para que eles vão querer que você economize?

Mas, se há fortíssimos interesses contrários ao microgrid, começa a haver também interesses a favor. Duas empresas poderosas estão apostando na ideia: a GE e a IBM. A primeira quer fabricar kits de produção de energia, a segunda quer virar referência em sistemas digitais para gerenciar a compra e venda de energia. Isso é bom sinal. Nenhuma boa causa tem chance de virar realidade sem um aliado rico apostando nela.

O meu post desta semana falava de dar espaço nas cidades às bicicletas, mencionando a ciclofaixa dominical de São Paulo, que na minha opinião tem uma porção de equívocos. Os comentários me fizeram ver que esse assunto precisa ser aprofundado. Resolvi voltar a postar hoje sobre como uma cidade pode convidar as bicicletas para ajudar a melhorar o trânsito. Um bom jeito de abordar o tema é dando uma olhada em exemplos internacionais. Vejamos por exemplo San Francisco, nos Estados Unidos. Abaixo, um pedacinho do mapa ciclístico da cidade:

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As linhas verdes são ciclovias (ruas apenas para bicicleta, onde carros não entram) e as cor de laranja são ciclofaixas (faixas demarcadas no chão, exclusivas para ciclistas). Repare como não são muitas. Mas nem só de ciclovias e ciclofaixas se faz um paraíso ciclístico. As linhas azuis são ruas largas onde carros e bicicletas compartilham o mesmo espaço. Não há lá separação física entre carros e bicicletas, apenas uma sinalização ostensiva para que os motoristas saibam que aquele lugar é também para se pedalar. As linhas azuis pontilhadas são ruas estreitas compartilhadas entre carros e bicicletas. Motorista que entra lá sabe que, se houver uma bike na frente dele, ele tem que manter distância e não pode ultrapassar.

Repare como a combinação dessas cores todas forma um grid – um quadriculado. Com isso, dá para uma pessoa sair de qualquer lugar da cidade e chegar em qualquer outro lugar – não tem a única opção de seguir o traçado decidido pela prefeitura. É isso que eu chamo de infraestrutura ciclística. É isso que São Paulo poderia começar a construir – inaugurando algumas raras ciclofaixas em ruas movimentadas, mas principalmente sinalizando o compartilhamento em ruas tranquilas, sem trânsito. San Francisco está também cheia de placas como essas, para que os ciclistas se orientem no grid (cada via é numerada):

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Se você sair de San Francisco e cruzar a ponte, vai parar em Berkeley, do outro lado da baía. Berkeley vai ainda mais longe na sofisticação de sua rede. Veja um trechinho do mapa:

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De novo há raras ciclovias (azul), mais frequentes ciclofaixas (violeta) e muitas vias tranquilas compartilhadas (marrom). A diferença é que lá também há os chamados “bike boulevards”, que são os pontilhados. Os boulevards são vias interrompidas por canteiros de plantas. Os carros não podem passar de um quarteirão para o outro – apenas o trânsito local entra. Ou seja, essas vias são preferenciais para bicicletas, carros só entram tomando muito cuidado e na hora de estacionar.

Mas estamos falando da Califórnia, terra que inventou a mountain bike e que fez do bicho grilismo um estilo de vida. Certamente Nova York, com seu trânsito horroroso, não é tão amigável. Veja só:

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Verde é ciclovia, azul é ciclofaixa, violeta é via compartilhada. Realmente há menos do que em San Francisco, mas há também um grid, uma infraestrutura – incompleta, é verdade, mas um bom começo.

Que tal Paris?

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Mesma lógica. Uma coisa interessante, em Paris, é que onde não há ciclovias ou ciclofaixas, a faixa de ônibus é compartilhada com as bicicletas. E os ônibus respeitam. Mantêm distância das bicicletas e não ultrapassam, mesmo que seja um velhinho pedalando devagar com uma baguete debaixo do braço.

Mas a Europa é covardia. Cidades como Barcelona, e principalmente Amsterdam, são o sonho dos ciclistas do mundo. Que tal então buscar exemplos mais perto de nós, na América do Sul. Veja Bogotá:

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A infraestrutura é bem menor que a de Paris, ou mesmo a de Nova York. Mas há também um grid quadriculadinho que chega em toda parte da cidade.

É isso que São Paulo podia estar começando a fazer. Em vez de investir apenas em obras de grande visibilidade (votos!), realmente planejar uma infraestrutura recheada de soluções discretas. Desenhar pela cidade um grid bem aberto, com quadrados bem grandes – poucas vias onde muitas bicicletas se concentrariam (por definição, mais bicicletas significa mais segurança para os ciclistas). E aí ir aos poucos fazendo mais linhas e deixando os quadrados menores.

E as vias são só um pedacinho da história, tem muito mais a fazer: bicicletários nas calçadas em vias movimentadas, vagões de metrô adaptados para bikes (um por trem), racks de bicicleta nos ônibus e, fundamental, uma imensa campanha de conscientização. Menos marketing, mais educação.

Se eu fosse o Bradesco Seguros, o patrocinador da ciclofaixa, estaria agora mesmo telefonando para a prefeitura para discutir como transformar essa tímida boa intenção em um avanço real e permanente. Bom marketing é mais que investir em imagem – é efetivamente melhorar a vida das pessoas. Isso gera uma gratidão que não tem preço.

Bicicleta é meu meio de transporte preferencial desde os 13, 14 anos. Eu ia pedalando para a escola, para a faculdade, pro trabalho quando eu era um foca numa redação. E hoje deixo no estacionamento o carrão da empresa a que eu tenho direito por ser um executivo e vou de bike trabalhar.

Sejamos honestos: não comecei a pedalar por consciência ambiental. Nem existiam essas coisas, acho (eu, assim como todo mundo que eu conhecia, jogava lixo no chão sem nenhuma cerimônia). Comecei a pedalar porque era mais divertido. Porque queria evitar o vexame de ser visto pelas menininhas saindo do carro do meu pai. Porque meu melhor amigo era quase vizinho e adorava bicicleta. Mas o fato é que comecei, e não larguei nunca mais, a não ser em determinados períodos em que deixei a preguiça me dominar.

Mais de 20 anos pedalando em São Paulo fizeram de mim um ciclista agressivo. Aprendi a enfiar a bicicleta nas brechinhas entre os carros, a olhar os motoristas desafiadoramente, a espatifar eventuais retrovisores, a levantar o dedo médio com alguma frequência. A odiar quem sentasse atrás do guidão.

Aí, na semana passada, tive uma epifania.

De repente, enquanto pedalava, me dei conta de que essa minha atitude não está ajudando nada a melhorar a vida no trânsito. Este sábado, resolvi testar uma atitude diferente. Uma moça passou raspando no meu guidão, a toda velocidade. Ela parou lá na frente, no sinal vermelho. Parei ao lado dela tranquilo, como quem vai pedir uma informação, coloquei um sorriso na cara, olhei no olho dela, dei oi, esperei ela responder, e disse:

– Dá uma distância maior quando for passar ao lado de uma bicicleta, por favor.

Como cheguei sorrindo, ela sorriu também. Não ficou constrangida, porque fiz de tudo para não constrangê-la. Se ela, a partir de hoje, vai tomar mais cuidado, não tenho como saber. Mas acho que funcionou melhor do que xingá-la de doida.

Trânsito não é uma coisa que a prefeitura colocou no caminho entre nossa casa e o trabalho. Trânsito é formado por mim, por você, pelos nossos carros, nossas bicicletas. Cabe a nós melhorá-lo. E o melhor jeito de melhorar as coisas é conversando. Sem deixar passar quando vê algo errado. Sem deixar a raiva esgotar a razão.

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Dia seguinte, domingo, fui experimentar a ciclofaixa que a prefeitura de São Paulo inaugurou aos domingos de manhã, perto do Ibirapuera. Dia de sol, muita gente, clima de festa, pais ensinando filhinhos a pedalar. Dava para ver que tinha muita gente lá que nunca tinha pedalado em São Paulo.

Estava tudo tão bonito que fiz força para gostar. Mas o fato é que a ciclofaixa tem tantos equívocos que fica difícil não notar. Essa história de confinar as bicicletas aos domingos das 7 ao meio-dia é mais para controlar os ciclistas do que para dar espaço a eles. Parece que a iniciativa foi mais para tirar bicicletas da frente dos carros do que para estimular gente a pedalar.

O mais triste é que essa iniciativa vai na contramão de estimular a convivência entre carros e bikes. Separados por uma fileira de cones, ciclistas e motoristas nem se olhavam na cara.

Pelo menos, ao criar a ciclofaixa, a prefeitura começou um debate. Vamos torcer para que ela esteja disposta a ouvir ideias e melhorar o projeto. Do jeito que é hoje, com semáforos adaptados, chão pintado e dezenas de funcionários/fiscais/guardas trabalhando, a ciclofaixa é sem dúvida um projeto caro. Tenho certeza de que, pela mesma grana, dava para fazer algo que tenha consequências reais na vida da cidade.

Eu, da minha parte, estou disposto a discutir ideias. E prometo que vai ser sem levantar o dedo médio.

O gov2.0 Summit terminou. Foram três dias intensos, cheios de palestras, encontros, conversas. A ideia básica era Washington encontrar o Vale do Silício – políticos engravatados perguntando a nerds esquisitos como tornar o governo mais transparente. Nerds esquisitos pedindo a políticos engravatados mais acesso a dados do governo para que eles possam inovar por cima deles. E a surpresa: alguns nerds esquisitos compraram gravatas e estão trabalhando no governo.

Do lado do Vale do Silício, vieram executivos importantes do Google, Amazon, Microsoft, Twitter, Facebook, pensadores de tecnologia e um monte de empreendedores que estão começando novas empresas com objetivos cívicos. Do lado de Washington, gente graúda da inteligência, saúde, educação e uma porção de funcionários da Casa Branca.

Obama inventou um novo cargo no seu governo: ele tem um “CTO”. CTO – Chief Technical Oficer – é um cargo que existe em empresas. É o sujeito responsável pela tencnologia corporativa, pela compra de equipamentos, pelo desenvolvimento de softwares. O CTO da Casa Branca é algo diferente disso. Aneesh Chopra, o escolhido para o cargo, é mais do que o responsável pelos computadores da Casa Branca – ele é o sujeito que faz as recomendações de como o país vai lidar com os sistemas de informação nos próximos anos. De como usar novas tecnologias para estimular inovação, gerar novas empresas, e também para aumentar a transparência do governo, dar acesso para a população mandar sugestões, ideias, críticas, usar a internet para que o pool de talentos do país inteiro ajude o governo a governar. Chopra estava no evento, e insistiu na ideia de que o que o chefe dele quer é inventar um novo tipo de democracia, mais direta, mais aberta, mais inclusiva. Meio assim como a internet.

Acho que o Brasil precisa de um CTO também.

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Dê uma olhadinha na história da tecnologia nas últimas décadas e você vai perceber que as invenções que mudaram a sociedade e a cultura mais profundamente não eram simples produtos: eram plataformas.

O computador pessoal é uma plataforma. Sozinho ele não faz nada. Mas seu poder de processamento pode ser usado por uma infinidade de softwares. A invenção do computador gerou um surto de inovação que mudou o mundo.

A internet é outra plataforma. Ela não passa de uma rede de conexões. Mas como é uma rede aberta, qualquer um pode utilizá-la para inovar, para criar sites, para divulgar conteúdo, para trocar ideias, para inventar ferramentas.

O google, a mais bem sucedida empresa da internet, é outra plataforma – uma plataforma de busca que fez nascer uma economia na internet. Utilizando essa plataforma aberta qualquer site pode achar um público e gerar receita divulgando anúncios.

E o iPhone é outra plataforma. Na origem, ele era só um telefone mais legal e bonitão. Mas, como é relativamente aberto, gerou outro surto de inovação. Dezenas de milhares de pessoas e empresas criaram aplicativos para o iPhone, aplicativos que a Apple sozinha jamais seria capaz de inventar.

Plataformas são democratizantes, inclusivas. Cada nova plataforma convida uma multidão cada vez maior de pessoas a participar do trabalho de criar coisas novas. E quanto mais gente criando, maior a chance de coisas transformadoras surgirem.

E se transformássemos o governo em uma plataforma aberta?

É essa a ideia de Tim O’Really. O’Reilly é um visionário profissional. Sua sacada mais famosa foi ter criado a expressão “web 2.0”, mas faz mais de 20 anos que ele se dedica a apontar a próxima grande onda – e quase sempre acerta. O’Really é o organizador do gov2.0 Summit, que começa amanhã em Washington. Escrevo do avião, a caminho de lá.

Na analogia de O’Reilly, governos hoje se parecem com uma “vending machine”, aquelas máquinas de vender refrigerantes ou salgadinhos. Você coloca o dinheiro (os impostos), a máquina solta um pacotinho de amendoim (o serviço público). Se o amendoim não vier, o máximo que você pode fazer é chacoalhar a máquina (protestar, fazer passeatas, gritar “fora Sarney”).

Na visão de O’Reilly, devíamos substituir o governo-vending-machine por um governo que funcione mais como um computador, a internet, o google, o iPhone. Uma plataforma aberta, a partir da qual todo mundo pode inovar, criar, colaborar. Se o serviço é ruim, você melhora. Um governo de código aberto.

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Funcionaria assim: o governo disponibilizaria toda informação disponível sobre a sociedade – todos os dados, todos os números, todo os fatos (o governo Obama está tentando começar a fazer isso com o site data.gov). Aí, qualquer pessoa que quiser inventar um “aplicativo” para a plataforma-governo teria direito de fazer isso. O governo deixa de ser o agente da administração – passa a ser apenas a plataforma sobre a qual qualquer cidadão pode se governar.

Aplicativo de governo? Como assim? Não sei bem ainda. Tudo isso ainda parece bem vago, embora promissor. Assim como seria impossível prever quais softwares surgiriam antes da invenção do computador, também não dá para prever como o governo mudará quando virar uma plataforma. Mas o Summit em Washington será uma primeira reunião entre gente do país inteiro envolvida em projetos de transparência, democracia, cidadania, participação, colaboração, para começar a formular essa ideia. Toda a cúpula de tecnologia de informação da Casa Branca vai estar lá, além de gente ligada aos projetos mais inovadores de estados e cidades, comandantes militares, inovadores da saúde e educação, autores como o ótimo Clay Shirky e empresas como a Google e a Microsoft.

O Brasil não poderia estar mais longe dessa realidade. Aí na terrinha o governo não apenas não é uma plataforma aberta como nem sequer a vending machine funciona direito. Colocamos um monte de dinheiro e o amendoim vem murcho. E, por mais que chacoalhemos a máquina, o Sarney não cai.

Mas às vezes tenho a esperança de que essa nossa desvantagem vire uma vantagem. Sabe a história do atraso que acaba ajudando novas tecnologias a se espalharem? (Exemplo: no Brasil faltavam linhas fixas de telefone e isso acelerou a adoção do celular.) Quem sabe nossa vending machine quebrada acabe sendo um incentivo para as pessoas adotarem de uma vez o governo-internet. Mesmo que os Sarneys e os Azeredos da vida não queiram. Isso sim seria uma “nova independência” – independência dos políticos.