Dois sintomas de uma mesma doença

Quero comentar brevemente dois assuntos que estão na mídia esta semana. São dois temas imensamente diferentes, mas a forma como eles estão sendo conduzidos demonstram o mesmo descaso que o poder público brasileiro tende a ter com a opinião da sociedade. Nos dois casos, há a sensação de que o que está acontecendo são avanços – não são, ambos denunciam o mesmo tipo de atraso.

  1. Já escrevi aqui sobre o risco de a descoberta de petróleo no pré-sal ser uma maldição que vá trazer mais problemas do que vantagens ao Brasil. O presidente Lula andou mostrando em declarações que não ignora esses riscos. Usou a mesma expressão que eu tinha usado no texto (“a maldição do petróleo”), comentou o perigo da “doença holandesa” (o enfraquecimento da economia e o colapso da indústria causados pela inundação de dólares do petróleo), afirmou a importância de usar a grana para investimentos, e não para gastos (educação, infraestrutura, coisas que fiquem para os nossos netos). Só que ele fez tudo isso enquanto impunha uma solução costurada a portas fechadas dentro do palácio que agora precisa ser aprovada pelo Congresso em regime de urgência. Envolver a sociedade toda numa discussão que diz respeito a que país queremos para o futuro? Para quê? Bobagem. O governo sabe o que é melhor para você, meu filho.
  2. Na cidade de São Paulo, a imprensa e os publicitários fizeram um carnaval no domingo para celebrar a nova “ciclofaixa”, um trechinho de 5 quilômetros para os ciclistas poderem pedalar de um parque a outro da cidade nos domingos de manhã. Enquanto grandes cidades do mundo inteiro estão envolvendo suas populações na elaboração de redes imensas de vias adaptadas para ciclistas, a prefeitura de São Paulo continua tratando os ciclistas como crianças. Ao afirmar que bicicletas podem trafegar nesse pequeno trecho nos domingos de manhã, a prefeitura dá a entender que elas não são bem vindas no resto da cidade e da semana. Em vez de envolver a cidade numa discussão corajosa sobre um novo modelo urbano, Kassab fez um circo em torno de um evento insignificante, para alegria do patrocinador. Pura fumaça.

O governo serve à sociedade, não manda nela. Enquanto nossos políticos não entenderem isso, vão continuar nos tratando como idiotas que não têm capacidade de resolver seus próprios problemas. Precisamos de políticos que estejam dispostos a nos escutar.

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20 comentários
  1. Márcio disse:

    Outro assunto que entra nessa onda aí é o o processo de regulamentação da internet para as próximas eleições do ano que vem. A fina flor do conservadorismo, do autoritarismo e da perspectiva de que, quem manda na história toda, são eles. Querem engessar a rede e bloquear um debate livre, autônomo e muito promissor.

    Dêem uma olhada aqui: http://www.trezentos.blog.br/?p=2844

  2. Marina disse:

    Sua frase “Enquanto nossos políticos não entenderem isso, vão continuar nos tratando como idiotas que não têm capacidade de resolver seus próprios problemas. Precisamos de políticos que estejam dispostos a nos escutar.” não explicita o problema grave de que a maioria dos brasileiros votam com base em presentes, arranjos, empregos, bolsas-família… De que adianta um percentual mínimo de população ser instruída e com pensamento político articulado quando será a “massa” que fará a diferença nas urnas? Os políticos tanto sabem que é o povo quem os põe no poder como sabem também que povo pode tirá-los de lá. A questão é que o povo prefere assistir ao “big brother”, a “fazenda”, ir ao shopping comprar com cartão de crédito e fazer qualquer outra coisa a pensar na questão política e econômica do Brasil. E é por iso que a reforma política não sai, que o congresso aprovou a criação de novos cargos de vereadores, etc, etc, etc… Eu não costumava ser tão pessimista assim, mas é o que vemos e vivemos a cada dia em nosso país.

  3. denis rb disse:

    Exato, Márcio. É um exemplo talvez ainda mais gritante do quanto os políticos menosprezam a sociedade, do quanto eles se julgam nossos pais.

    Marina, implico muito com esse raciocínio: “o povo é burro, só quer assistir ao big brother, se depender dele não chegaremos a lugar nenhum”. O povo somos nós. Isso que você chama de “pessimismo” eu prefiro chamar de “cumplicidade”. Sair por aí afirmando que somos incapazes de cuidar de nós mesmos só interessa a quem quer tirar vantagem da situação. Claro que só uma minoria é consciente, informada e interessada – é assim mesmo que funciona, e não é muito diferente em qualquer lugar do mundo. Cabe a essa minoria mobilizar o resto, envolver os outros, aprofundar o debate, propor caminhos. Ficar num cantinho da sala resmungando “isso não vai dar certo” não ajuda nada. Mudanças sociais levam mesmo muito tempo para acontecer – é preciso se armar de paciência, aguentar frustrações, aprender com os erros. Mas ficar “pessimista” achando que nada vai dar certo, na minha opinião, é pior do que ir assistir ao big brother.
    Perdoe se minhas palavras soam duras. Não é minha intenção criticar você pessoalmente – claro que entendo sua frustração. Mas eu achei importante essa discussão.

  4. Marina disse:

    Mesmo pessimista, concordo contigo. Tanto que continuo me informando, compartilhando e conhecendo opiniões aqui, em outros sites, em outras revistas e tal.

    Mas fiquei com a pergunta: como estimular a participação de pessoas que na prática “não estão nem aí” em assuntos tão relevantes como os do artigo? Isso sem ser chata! ;0)

    O máximo que faço é reenviar os (raros) e-mails que recebo sobre a política nacional. E fico me perguntando se alguém os lê até o fim.

  5. PARAXABA disse:

    oi Denis
    o governo serve a sociedade,nao manda nela.acho que nao sao os politicos que ten de entender,e sinceramente isso é quase impossivel.SOMOS NÓS QUE TEMOS DE ENTENDER.
    IDIOTAS?nao,acho que nao.OMISSOS.MEDROSOS.PREGUIÇOSOS,PERMISSISTAS.é o pior de tudo
    nunca agimos de maneira coletiva,para o bem coletivo.em menor escala.o sindico.faz o mesmo.convive
    no apto ao lado.conta se nos dedos quen participa das reunioes do condominios.
    pra voce que virou americano.esperar pela CONCIENCIA DOS POLITICOS;é facil,ai foi o povo que moldou.

  6. Elisa disse:

    Bela costura Denis.

  7. denis rb disse:

    Não virei americano não, PARAXABA. Passei um ano na Califórnia e já voltei. Fiz algumas conexões lá, que de vez em quando me levam de volta aos Estados Unidos, mas minha vida é aqui no Brasil. Meu país é o Brasil. Claro que experimentar uma cidadania mais plena muda a gente – acho que fiquei mais exigente com os políticos depois deste ano. Mas também tenho muitas críticas aos Estados Unidos. País perfeito não existe não. Precisa é de humildade para melhorar o que não é bom, aprender com os outros, mudar, devagar e sempre.

  8. José disse:

    Caro Denis,

    Será que queremos ir de bicicleta para o trabalho e deixar nossas gaiolas de duas toneladas na garagem? Negativo. Que se dane minha pressão alta, minha barriga rotunda, minhas artérias entupidas, a ausência de outros seres humanos ao meu lado. Gostamos demais de nossos automóveis lustrosos e caros e que nos dão um poder que nossas humildes pernas jamais sonhariam em ter. Os pobres podem ir se virando por enquanto nos ônibus e no Metrô, e comprando nossos carros usados quando compramos um zero quilômetro. Ciclistas tomando nossos lugares sagrados nas avenidas? Era só o que faltava…

  9. jorji disse:

    Um dia os automóveis não mais existirão, segundo os ingleses e nipônicos, é impressionante a natureza humana a capacidade de criar a “necessidade”, quando jovem, não existia o celular, hoje não vivo sem ele, quando esqueço em casa, fico em pânico, sem o notebook, vichi maria, sem o carro, nem pensar, quanto mais criam a necessidade, mais queremos cada vez mais, o capitalismo é sensacional, até inventou o amor, hoje somos escravos desta fabulosa invenção, o amor, e a tv lcd hd, estou financiando dois, e o celular com imagem de tv, mas de todas as invenções, o viagra foi o mais espetacular nos últimos tempos, salvou muitos casamentos, e destruiu tantos outros. Viva o automóvel, tv hd e tantas outra bugigangas, que no fundo servem para preencher o imenso vazio que existe dentro de cada um.

  10. Lucio Flausino disse:

    Não acredito que estes dois útimos comentários são de gente de verdade. Dizem que há programas que usam de respostas programadas para responder tópicos em blogs e fóruns.

    A questão não é que a sociedade quer ou não andar de carro, mas que possa haver espaço pra quem deseja viver uma vida mais plena, comunitária e solidária do que quem usa o carro. Partindo de uma visão pesimista, a bicicleta deveria ser tão importante quanto o carro, pois ambos são meios de transporte.

    Mas a questão não é essa. Venho argumentar que falta mais do que simplesmente os políticos perceberem que nos prestam satisfações, mas sim, nós que devemos nos fazer ouvir. Como ocorre aqui em Recife. A prefeitura, que se gaba de ser “participativa”, nos fez engolir um parque cheio de concreto, achando que a população enguliria por ser concreto Niemeyer. Resultado, uma praça horrorosa, parecem dois parques de tancagem, cercados de uma vegetação pobre e xoxa, diferente do que a população gostaria [áreas verdes de verdade, com árvores nativas tropicais e por aí vai], a obra está paralisada, mas os protestos não acabaram. Diminuíram, mas não cessaram.

    Em algum momento, pode-se fazer a diferença quando se toma as rédeas da vida e mostra-se aos demais que é posível. É o que tento fazer. É o que todos nós deveríamos fazer.

  11. #42 disse:

    Os americanos tambem tem um histórico muito grande d omissão diante do seu governo! Governos ainda mais exigidos da população são os europeus. Se nós queremos um país decente devemos ir as ruas, protestar, juntar um povão mesmo! Não apenas comentar fazendo uma critica e depois ir dormir…
    O povo é covarde e preguiçoso, em sua maioria, prefere que os milagres caiam do céu em vez d lutar por eles. Nos raros momentos em que o povo lutou pelo seus direitos surgiram resultados… mas e aí, como a nossa geração quer ser lembrada? Uma geração que mudou o mundo ou uma geração que viu a corrupção e a indiferença pelo cidadão, pela moral, e pela ética em se governar, ganhar a luta?
    ps.: aposto que o cara q montou o discurs do lula leu a sua matéria! Do jeito que funcionario público tem uma “coragem”! Vc reclama d São Paulo… mas vc também tem q tomar conhecimento d outro evento q toma conta das cidades médias que estão em franca expansão:
    – Nenhuma delas tem um projeto d tranporte públicos bem estruturado.
    -Vem investido cada vez mais na ampliação da quantidade de ruas… sempre feitas d uma material vagabundo (daqueles que se não for recapeado todo mês deixa rua com a cara da transamazonica) e sempre superfaturado.
    – Certas cidades são governadas por gente que acha q eh coronel! Com direito a mudar sinalização d ruas só pq a esposa do prefeito quis! Sem o menor planejamento!
    Eu q tenho como meio d tranporte principal a bicicleta sofro com a ruas esburacadas… mando desempenar o aro vire e mexe. Eu sei q eu não sou o unico caso e q vcs ciclistas d São paulo também sofrem, mas a falta d planejamento público decente, respeito pelo cidadão e falta d visão já estão bem espalhados!

  12. Felipe Maddu disse:

    .O José deve ser mentira não é possível, nunca vi bobagem maior nos comentários e olha que já vi grandes absurdos.

    .A mentalidade egoísta dos paulistas-não todos, é claro-reflete nesse governo babaca do Kassab-e de Serra e Lula tb, que deveriam ajudar- e têm coisas no dia-a-dia que exemplificam esse retrocesso mental. Por exemplo, no Pão de açucar ha vagas pra bicicleta, num espaço que cabe um carro. Os motoristas nao satisfeitos por ocupar todas vagas destinadas a eles, ocupam não raras vezes essa vaga e nem se mancam. Meu pai mesmo que é todo cheio de ser político acha que SP não rola bike, algo pra lazer. Eu vou continuar com a “Gisele” por aí e ocupando as ruas. Resistência sempre!!

  13. Rodrigo Mira disse:

    Com relaçao ao que a Marina comentou gostaria de dizer que é por isso que sou a favor do voto não-obrigatorio, assim as pessoas que “preferem assistir reality shows e etc” não iriam votar, ou então… votariam, mas a recompensa oferecida pelos politicos seriam maiores (compra dos votos) hehe. O problema é que a corrupção é, foi e sempre será invencível. O que nós podemos sonhar é em diminui-la ao ponto de vislumbramos algum crescimento da ordem e do progresso na educacção, na saúde e por que não no lazer…. tendo mais do que 5 horas aos domingos para andar de bicicleta.

  14. Renata disse:

    Boa Noite
    Devemos cada um de nós fazer a nossa párte para a transformação de um mundo, principalmente o Brasil que é tão carente de educação, mais digno e que não envergonhe nós, seres humanos, que aqui habitamos. Sei que é um trabalho de formiga mas o sonho de um Brasil civilizado em que a grande maioria sejam de pessoas esclarecidas, trabalhadoras, fraternas nunca deve desaparecer porque infelizmente vai ser pelo sofrimento que vamos ver que o famoso “jeitinho brasileiro” é uma roubada. Abraços a todos.

  15. #42 disse:

    A corrupção é invencível! Mas os corruptos não… afinal eles ainda podem morrer… Se é que vocês me entendem… ; )

  16. berlatto disse:

    Pois é Denis! Concordo contigo, mas uma coisa você deixou de mencionar. Educação! Aí que tá o “probrema” meu caro jornalista. Enquanto tivermos milhões de semi-letrados elegendo está cambada que nos representa no congresso nacional, continuaremos sendo uma república de bananeiros. Quem elege e reelege figuras do naipe de Renan Calheiros, Collor, Sarnei, Ideli, Salgado, Barbalho, Mercadante, Severino e outros menos votados são eleitores que trocam seu voto por compra de remédios, sacolões, bolsa-isso, bolsa-aquilo, e também por dinheiro vivo. Pobre país!Enquanto isso os políticos vão nos tratando como idiotas mesmo. Sou paranaense e só vejo uma cidade planejar seu transito a longo prazo, Curitiba. O resto do Brasil priorisa o automóvel em detrimento ao transporte coletivo. Quanta incompetência. E agora vem o Lula com o tal do pré-sal. Até dois anos atrás a salvação do mundo não era o bio-combustivel? E o transporte alternativo como bicicleta, e o carro elétrico, o carro a hidrogênio como é que fica? Para eles o que vale mesmo é fazer política e tentar eleger a Dilmona em cima do petróleo, ou melhor em baixo do pré-sal. abraços.

  17. rinaldo disse:

    De fato os dois temas o petróleo, que pode ser mais riqueza ou mais problema de acordo com os encaminhamentos a serem propostos. Sua crítica parece não ser justa, pois o modelo a ser utilizado é o sistema nórdico e não o sistema de países árabes ou africanos que concentram o dinheiro e o utilizam sem critérios para um futuro sem petróleo. Neste aspecto, o país está tão preparado que investe fortemente no bio diesel e etanol. Em relação às ciclovias, é preciso ver a quais interesses o atual governo está ligado, é preciso lembrar do episódio dos fretados no qual o poder público local trabalhou contra as soluçoes ao tráfego caótico, claro que sem qualquer diálogo com a população.

  18. denis rb disse:

    Pois é, rinaldo,
    Mas não dá para dizer que o Brasil está adotando o “modelo nórdico”. Verdade que há sim no plano do governo muitas boas ideias trazidas da Noruega – investir em infraestrutura e educação, criar um fundo para não deixar o dinheiro inundar a economia (o ideal seria que esse fundo ficasse fora do país). Mas o sucesso norueguês não se deve só a isso. Deve-se também – e principalmente, eu diria – a um governo transparente, acessível, próximo da população, que ouve, dialoga, do qual ninguém desconfia. Uma vez pedi à Terry Karl, especialista em petrocracias na Universidade Stanford, que comparasse os sistemas brasileiro e norueguês. A resposta dela: “tentei encontrar um caso de corrupção na Noruega. O único que achei envolvia a compra sem nota de uma barra de chocolate”. Dá para comparar?

  19. Claudia Chow disse:

    Aaaahh, finalmente alguem falou alguma coisa q eu concordo da inútil ciclofaixa!

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