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Arquivo mensal: outubro 2009

Já mencionei aqui o TED, a organização que promove palestras com “ideias que valem a pena ser espalhadas”. O TED é famoso pela conferência anual que ele promove na Califórnia para um público apenas de convidados, de líderes de vários setores do mundo. As palestras, feitas por gente de todo tipo falando dos temas mais diversos, de heroísmo a internet, de fotografia a felicidade, de design a extraterrestres, têm em comum um olhar único sobre as coisas, um desejo de difundir conhecimento e, quem sabe, mudar o mundo com ele. Mais que um evento, o TED é um movimento. As palestras são disponibilizadas de graça na internet, para que as ideias se espalhem, e há um esforço global para legendá-las em várias línguas, inclusive português. Sou fã.

Por isso para mim é um prazer dar uma mãozinha para os voluntários que estão organizando o TEDx São Paulo, que vai acontecer no dia 14 de novembro, na Mooca, em São Paulo. O TEDx é uma das sacadas do pessoal do TED: dentro do espírito de espalhar ideias, de multiplicar ações, eles tornaram possível que qualquer pessoa que conheça o TED organize um evento similar de maneira independente em qualquer lugar do mundo. O TEDx São Paulo, que não tem fins lucrativos, será o primeiro no Brasil. A entrada é grátis e qualquer pessoa pode se inscrever online, preenchendo um (longo) formulário. A organização vai analisar as inscrições e escolher quem vai poder assistir, dando preferência para pessoas criativas, realizadoras, com vontade de mudar o mundo e que tenham um bom papo.

Se interessa para você ir ao TEDx São Paulo, você precisa se inscrever já – as inscrições fecham no domingo.

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Numa clara sabotagem contra a audiência do meu próprio blog, resolvi dedicar o post desta semana a falar de… números! Calma lá, não vá embora ainda, eu sei que você não acabou de curar o trauma de matemática que lhe causaram na escola média. Prometo não exigir que você se lembre da fórmula da equação de segundo grau. Quero apenas mostrar alguns dados básicos, simples. Comecemos por este gráfico (que, como todos deste post, foi tirado da edição de setembro/outubro da revista canadense Adbusters).

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Aqui dá para ver que a população está crescendo. “Crescendo”, na verdade, não é palavra à altura do ritmo com que cresce, certo? Note como o gráfico vinha quase reto desde o cantinho. A população do mundo vinha preguiçosamente desencostando do eixo x, sem pressa. Aí de repente a linha empina, dá um cavalo de pau para cima e quase fica paralela ao eixo y (o que obviamente não poderia acontecer, porque significaria crescimento infinito). Trata-se de uma curva exponencial, que nada mais é do que um crescimento que fica proporcionalmente mais rápido enquanto o tempo passa. Fomos menos do que 1 bilhão de humanos desde a aurora da Terra até 1804, mas já dobramos para 2 bilhões em 1927, apenas 123 anos depois. Chegamos a 6 bilhões em 1999 e vamos ser 7 bilhões em 2012. Ou seja, a população vai aumentar em 1 bilhão de pessoas em apenas 13 anos.

Agora vamos dar uma olhada neste outro gráfico, que mede o PIB global – Produto Interno Bruto, a economia do mundo, a soma de todas as transações financeiras que acontecem no planeta.

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Crescendo também, né? É um crescimento reto, sem sobressaltos, praticamente constante, não exponencial. Mas é sinal de que, mesmo com o empinamento da curva populacional, que aconteceu lá pela metade do século 20, a economia do mundo não parou de crescer. Legal, né? Ponto para o sistema! Vivemos na prosperidade!

Só que o PIB não mede tudo. Suponha que, no processo de mover a economia, uma árvore seja derrubada. Essa árvore a menos não é descontada do PIB. Na verdade, se eu pegar todas as árvores do mundo e transformar em palitos de dente, estou apenas gerando PIB, sem perder um tostão. Bom para a economia! Se eu descobrir um jeito de engarrafar toda a água das geleiras da Antártica e vender em garrafinhas na entrada de  um show de rock, oba! Mais PIB! Se eu descobrir um jeito de arrancar as unhas de todas as crianças do mundo para fazer bijouteria e vender na feira hippie, parabéns para mim! Aumentei o PIB!

Legal, mas tem uma coisa: uma hora as árvores, as geleiras e as criancinhas acabam. Há um limite físico, concreto, que é a totalidade de recursos do mundo. Se você mora numa casa legal e começa a vender os móveis, as jóias, os eletrodomésticos para pagar as contas, isso não pode ser considerado parte do seu salário. Por um motivo simples: uma hora vai acabar tudo de valor na sua casa. Enfim, a lógica sobre a qual apoiamos nosso sistema econômico está furada. Estamos vendendo a prataria da vovó e dizendo para os outros que nossa renda está aumentando. Somos iguaizinhos ao viciado em crack que já vendeu tudo que tinha em casa para bancar o vício. E, como ele, estamos nos negando a admitir que batemos no fundo do poço.

Por muitos anos, isso não foi um grande problema. É que os recursos da Terra eram muito abundantes. Mas, com aquele crescimento populacional mostrado lá em cima, tudo começou a acabar – os peixes do mar, por exemplo, ou o espaço para o calor da Terra deixar a atmosfera. Quer um exemplo? Olha aí embaixo: enquanto o PIB cresceu, como mostra o segundo gráfico, veja o que aconteceu com o número de extinções de espécies.

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Reconheceu esse gráfico? Sim, meu caro, é ela mesma: a curva exponencial, igualzinha a da população humana. Só que ainda estamos no meio do cavalo de pau, momentos antes de a curva empinar verticalmente para cima. A coisa está só começando a feder.

A questão é: por que as espécies acabam enquanto a economia cresce? Resposta simples: porque as espécies não fazem parte do PIB. Não valorizamos aquilo que não tem preço. Nos últimos anos, o PIB cresceu, mas uma porção de coisas não computadas pelo PIB despencaram – índice de felicidade global, biodiversidade, disponibilidade de água, tempo livre, energia. Tudo o que podia ser trocado por dinheiro, foi. Vendemos tudo o que tínhamos, só sobrou superbonder na geladeira. Aliás, vendemos a geladeira também. Subiu o PIB, nossa vida ficou pior.

Aí uns economistas espertos de um grupo americano chamado Redefining Progress resolveram calcular essa diferença: enquanto nosso PIB cresce, o quanto o resto do nosso pratimônio diminui? Eles puseram um preço nas coisas que estamos perdendo – dano ambiental, custo de crime, desemprego, sub-emprego, poluição, infelicidade – e subtraíram do PIB. O resultado eles chamam de Índice de Progresso Genuíno (IPG). Veja o que eles descobriram:

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Que, em linhas gerais, estamos os EUA estão estagnados. A linha de cima é o PIB, a de baixo é o IPG (os dados são dos EUA porque não se mede IPG em muitos lugares do mundo). O espaço no meio, apelidado de “voodoo gap” – é a diferença entre a riqueza financeira do mundo e nosso patrimônio real. Progredimos efetivamente até os anos 1970, quando o PIB cresceu junto com o IPG. Daí para a frente, basicamente estamos vendendo as jóias da família. O carro do papai. Os livros de escola das crianças. Estamos trocando seis por meia dúzia.

E qual é a saída para isso? Não é fácil, mas tem um jeito: colocar preço em tudo. Precisamos quantificar o voodoo gap e incorporá-lo na economia. Um produto que causa danos ambientais tem que ser mais caro. Um produto cuja produção causa câncer, infelicidade ou sofrimento precisa de reajuste. Só assim aprenderemos a valorizar as coisas que hoje não têm preço. Só assim o IPG vai voltar a crescer. Só assim temos alguma chance de desviar da tragédia.

É por isso que números são importantes.

Nota: Depois de publicar este post, resolvi reformular a ideia do penúltimo parágrafo. Não estou mais sugerindo “colocar preço em tudo”, mas “remunerar todo tipo de serviço”. Explico porque no comentário das 10:35.

Na semana passada, argumentei que o Nobel da Paz de Obama sinaliza que o mundo mudou. Hoje quero falar de um assunto parecido, mas dessa vez tem a ver com o Nobel de Economia.

Você conhece o Nobel de Economia, não conhece? É aquele prêmio outorgado anualmente pela Academia de Ciências da Suécia a um homem de terno e gravata. Pois então. Vocês viram o que aconteceu com o Nobel de Economia na semana passada?

Clique logo aí embaixo no link para continuar lendo este texto. Mas, antes, quero fazer um aviso: dependendo do seu senso estético e do seu grau de rigidez ideológica, a imagem que você vai ver pode ser chocante. Clique apenas se você achar que está preparado.

Para o fim de semana, um videozinho da Olimpíada de Inverno de Vancouver, que acontecerá no começo do ano que vem. Gosto especialmente do slogan “assista, descubra, faça sua parte”. Cobrar do governo que faça um grande evento é importante. Mas mais importante ainda é pensar: como eu posso ajudar a melhorar a cidade? Se os cariocas pensarem assim, a cidade vai sair ganhando mesmo que o governo e o comitê organizador não fiquem à altura.

httpv://www.youtube.com/watch?v=kAMWcwY4_e0

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Você sabe que estamos vivendo um período excepcional da história quando o presidente em exercício dos Estados Unidos ganha o Prêmio Nobel da Paz.

Isso não é fato corriqueiro. A última vez que aconteceu foi em 1919, ao fim da Primeira Guerra Mundial. O vencedor foi Woodrow Wilson. Wilson já tinha então um belo currículo, digno de Nobel da Paz. Foi contra a guerra – não quis que seu país participasse quando ela estourou e só decidiu entrar quando ficou claro que a Alemanha não os deixaria em paz . Foi participante de destaque no Tratado de Versalhes, que pôs fim na guerra. Liderou a criação do primeiro organismo realmente transnacional do mundo, a Liga das Nações, avó da ONU. Um mundo terminava e outro começava e Wilson era um dos principais arquitetos do mundo novo. Quando foi escolhido pelo comitê norueguês, já era presidente americano fazia oito anos, e antes tinha sido governador de Nova Jersey por três e reitor da Universidade Princeton, uma das melhores do mundo, por nove.

Já Barack Obama…

Nove meses como presidente, depois de uma eleição ganha e outra perdida para o Congresso. Sua contribuição para a paz mundial foi… discursos? Por que não o Nobel de Literatura então? Um Grammy, talvez… Mas… o Nobel da Paz?

Claro que, mal Obama aceitou o prêmio com um discurso quase constrangido, comentaristas mundo afora se dedicaram a responder à mesma pergunta: foi merecido? Discussão bem pouco relevante, aliás, já que o vencedor do Nobel da Paz não é eleito pelos colunistas dos jornais, mas por um comitê de cinco noruegueses escolhidos pelo Parlamento de seu país. O comitê do Nobel, que tem a autoridade para conferir o prêmio, achou que Obama merecia. Logo, foi merecido.

Mais produtivo do que gastar saliva discutindo se Barack mereceu ou não é pensar numa outra pergunta, muito mais interessante:

O que isso significa?

Dá para responder de dois jeitos diferentes, e acho que as duas respostas são igualmente verdadeiras.

1. Não significa nada.

O Nobel é só um prêmio, só um símbolo, só um diploma e uma medalha, nem tão bonitos assim (acompanhados, é verdade, de um cheque de 1,4 milhão de dólares).

O Nobel não passa de uma boa ideia de marketing de um químico e industrial sueco chamado Alfred Nobel, o milionário inventor da dinamite. Numa bela manhã de 1888, Nobel acordou e leu no jornal seu próprio obituário. Era um erro do jornal. Quem tinha morrido foi Ludwig, irmão dele. Mas isso deu ao milionário, que nas horas vagas fabricava armamentos, um vislumbre de sua própria posteridade, e ele não gostou do que viu. O jornal o retratou como um mercador da morte, um gênio do mal, responsável por destruição e morte. Alfred, então, resolveu usar os poucos anos que lhe restavam para aplicar um botox em sua reputação. Surgiu assim o Prêmio Nobel.

Nobel era sueco, mas, por razões que ninguém sabe bem, resolveu incumbir o parlamento norueguês da tarefa de eleger os vencedores. Os deputados federais de lá recrutam cinco pessoas, que eles consideram capazes, para se reunirem todo ano e escolherem um vencedor entre os milhares e milhares de nomes que chegam de todas as partes do mundo. São apenas cinco pessoas, sujeitas aos equívocos, às paixões e às miopias de seu tempo e de seu país, uma desimportante monarquia nórdica. O fato de essas cinco pessoas terem se encontrado perto do círculo polar e escolhido o nome de Obama não significa nada. Não muda em nada os fatos da vida, as taxas de desemprego, os índices de crescimento, as balanças comerciais, as taxas de emissão de carbono, o resultado das guerras ou o das empresas. Eles poderiam ter escolhido Papai Noel ou o Biro-Biro que a diferença disso para o Universo seria mínima.

2. Significa tudo.

Obama, ao contrário de Wilson, não foi premiado por aquilo que ele fez. Ele foi premiado por aquilo que ele disse.

E o que ele disse? Muitas coisas, óbvio, sobre muitos assuntos. Mas, se eu for tentar resumir numa ideia, foi basicamente o seguinte: o problema – seja ele econômico, financeiro, comportamental, social, de saúde, ambiental, nuclear, religioso, cultural, tecnológico – é nosso. Cabe a nós assumir nossa responsabilidade e resolvê-lo (e ele disse isso tanto a americanos quanto a estrangeiros, como os muçulmanos do mundo).

Wilson criou uma obra e o Nobel coroou-a. Obama quer que nós ergamos a obra, e o Nobel lhe deu a coroa antes mesmo de haver um projeto pronto. Por quê?

Porque o mundo está em crise.

Não é uma crise econômica mundial, como dizem por aí. É muito mais do que isso. É uma crise de sistema. De modelo. O nosso parou de funcionar. Olhe para qualquer lado e isso fica óbvio. Nosso modelo de produção está esgotando recursos e superaquecendo o planeta, nosso modelo econômico privilegia fazer contas a produzir, nosso modelo financeiro é baseado em financiamentos de casas a quem não pode pagar, nosso modelo de gestão privilegia o ganho de curto prazo mesmo que inviabilize o negócio a médio prazo, nosso modelo de educação é excludente e ineficaz, nosso modelo de saúde fica cada vez mais proibitivamente caro, nosso modelo de cidade é agressivo e homicida, nosso modelo de vida torna a felicidade cada vez mais rara.

Ao premiar um presidente em começo de mandato, alguém cuja obra mal começou, os cinco noruegueses atestam que, em 2009, no meio dessa crise monumental, seria bobagem premiar alguém por seus feitos passados. Muito mais importante é o trabalho que está à nossa frente: o de construir um modelo novo, o de erguer um novo sistema.

É isso que o Nobel da Paz de 2009 significa: os noruegueses não elegeram Obama. Eles decidiram que, hoje, o futuro é mais importante do que o passado. Que, neste momento, mais do que em qualquer um desde que o Nobel foi criado, em 1901, é mais relevante apontar um caminho do que ter um currículo. E é mais relevante envolver as pessoas do que ter as respostas.