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Arquivo mensal: janeiro 2010

Num 25 de janeiro como hoje, numa capelinha de roça poeirenta com paredes de barro, a quilômetros e quilômetros de qualquer lugar civilizado, longe do mar, longe de tudo, no meio do mato, nos confins do sertão, celebrou-se uma missa. Anos depois, a história escolheu essa missa como o marco da fundação de São Paulo. Mas, naquele 25 de janeiro de 1554, não se deu nenhum ato solene, nenhuma inauguração, nenhum festejo oficial. Apenas uma missa inconsequente, reunindo uma dúzia de jesuítas e sabe-se lá quantos índios curiosos.

A cidade de São Paulo não surgiu em 1554. O que havia, então, era apenas um colégio no qual padres, desiludidos de levar seus corrompidos conterrâneos brancos ao caminho de Deus, tentavam converter as almas mais puras dos índios. Os índios se deixaram converter, mas pouco depois foram perdendo o interesse naquela chatice de Deus e pecados e começaram a abandonar o colégio para voltar para o mato. São Paulo quase desapareceu, quase acabou.

Mas aí surgiu por aqui a primeira atividade econômica da terra, a primeira de muitas tentações atraindo forasteiros em busca de dinheiro: caçar índios para fazer escravos. Foi assim que São Paulo nasceu de verdade: como o foco de onde partiam os caçadores de escravos.

Por muitos e muitos séculos, São Paulo não era um lugar para construir a vida – era só uma passagem. Por aqui se passava a caminho da caça aos índios no interior, no Paraná. Depois, por aqui se passava a caminho das minas de prata e ouro de Minas, do Mato Grosso, de Goiás. Depois, por aqui se passava carregando o café, plantado no oeste do estado, a caminho do porto de Santos. Passagem. Sempre passagem.

São Paulo só foi virar um lugar mais definitivo, um destino, onde se constrói coisas para durar, no final do século 19, com a industrialização e a multidão de imigrantes que lhe forneceu mão-de-obra. Mas, ainda assim, permaneceu entranhada a sensação de um lugar temporário, de uma passagem. Tanto é assim que, numa pesquisa do Ibope divulgada recentemente, 57% dos 11 milhões de paulistanos declararam que mudariam daqui se tivessem condições.

São Paulo é tão passagem que, há anos, os prefeitos daqui dedicam a maior parte de sua energia e dos seus recursos construindo novas vias para os carros passarem. O atual prefeito, por exemplo, está alargando as avenidas marginais, que correm ao lado do decrépito Rio Tietê. Agora o asfalto vai até a beiradinha do rio, deixando espaço para um carro a mais passar.

Mais carros significa mais monóxido de carbono, o que aumenta a possibilidade de tempestades. Mais asfalto significa mais chuva, e menos capacidade de absorver a água em excesso. O prefeito, inocente, alega que as enchentes que estão submergindo a metrópole no último mês são culpa da chuva em excesso. Verdade. Mas ele parece não ver o óbvio: que as chuvas em excesso são consequência direta da nossa relação com a cidade, que vemos como apenas um lugar de passagem. Ninguém faz planos de longo prazo para São Paulo. Ninguém sonha com o futuro da cidade. Ninguém planeja a metrópole de 2030, de 2050, de 2080: um lugar de convívio, um lugar para viver. Apenas alargamos as avenidas para que São Paulo continue sendo um lugar para passar.

São Paulo é rica, é dinâmica, é uma força que vai mover um pedaço grande da economia mundial no século 21. Mas seu modelo urbano é caquético. Administrações visionárias têm proposto um novo modelo urbano em metrópoles latino-americanas como Bogotá e Cidade do México. Enquanto isso, nossos prefeitos continuam firmemente atolados no século 20.

Dois carros a menos em São Paulo

Dois carros a menos passando em São Paulo

Foto: Nathalie Gutierrez (CC)

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No convés do Farley Mowat, há uma "parede de troféus": cada bandeira representa um baleeiro cuja carreira a Sea Shepherd encerrou. A foto é do grande Ignacio Aronovich.

No convés do Farley Mowat, há uma "parede de troféus": cada bandeira representa um baleeiro cuja carreira a Sea Shepherd encerrou. A foto é do Ignacio Aronovich – clique nela para ver uma outras.

Faz pelo menos 5.000 anos que o homem caça baleias. No início, era uma atividade alucinantemente perigosa. Os homens numa canoa precária, a lança na mão, o gigante surpreendido em meio à sua migração anual. Era uma luta entre homem e baleia – às vezes um ganhava, às vezes ganhava o outro. Não por acaso, era cercada de rituais de agradecimento aos deuses, de respeito e de mitos.

Há registros ancestrais dessa luta em vários cantos do mundo: entre os inuits, os patagônicos, os chineses, japoneses, noruegueses, russos, portugueses, bascos. Geralmente caçava-se baleia franca.

Em inglês, baleia franca chama right whale, ou “baleia certa”. Baleia certa para matar. Certa porque tinha o imprudente hábito de viajar perto da costa, portanto ao alcance dos precários botes humanos. Certa porque era gigante – os adultos têm entre 11 e 18 metros, e já se registrou indivíduos de 100 toneladas –, e portanto uma luta rendia carne para um vilarejo inteiro. Certa porque, quando morre, flutua. Outras espécies gigantes, como as baleias-azuis, as cinzentas e as jubartes, afundam. Imagine a frustração dos primeiros humanos que mataram uma baleia-azul, o maior ser vivo que já existiu sobre a Terra, com até 170 toneladas, para depois descobrir que jamais seriam capazes de mantê-la na superfície.

No século 19, a caça à baleia virou empreendimento gigante, industrial. Barcos e mais barcos foram lançados à água, primeiro para varrer as baleias francas de perto de seus vilarejos, depois, quando elas começaram a desaparecer dessas águas, para vasculhar os oceanos mais remotos do mundo, em busca de francas e cachalotes, outra espécie que não afunda.

Acontece que baleias têm um baixíssimo potencial reprodutivo. Em outras palavras: elas têm poucos filhos. Na média, uma fêmea tem menos do que um filhote por ano. Se houver um monte de pigmeuzinhos pendurados em barcos matando baleias, essa taxa de natalidade é insuficiente para repor a população. Resultado: francas e cachalotes começaram a desaparecer. A indústria baleeira começou a quebrar, a pesca rareou, a tradição milenar começou a se extinguir.

Foi aí, lá por 1860, que surgiu um dos grandes heróis da indústria pesqueira e da era industrial: Svend Foyn, um capitão baleeiro norueguês. Foyn foi o inventor do arpão explosivo. Funcionava assim: um canhão disparava um arpão acoplado a uma granada. O arpão perfurava a cabeça da baleia, a granada explodia por dentro. A baleia era imediatamente puxada para perto do barco, onde um marinheiro aguardava com uma mangueira de ar comprimido. O ar era injetado na baleia. De repente, as baleias azuis, cinzentas, jubartes (e as pequenas minkes, que os japoneses caçam hoje na Antártica) não afundavam mais.

A moribunda indústria baleeira milagrosamente renasceu. Milhares de pessoas fizeram a vida e acumularam fortunas matando baleias. O homem desbravou o mundo, descobriu a Antártica, navegou cada metro quadrado do oceano, em busca de baleias. Até que, pouco depois da metade do século 20, baleias azuis, cinzentas e jubartes começaram a acabar também, e mais uma vez a indústria despencou.

Conto esta história porque, desde a semana passada, não consigo tirar as baleias da cabeça (em parte porque li o lindíssimo livrinho Pawana, do Nobel de Literatura Le Clézio, o relato de uma “lenda verdadeira” sobre baleias, que você deveria ler também). Conto essa história também porque ela me faz pensar no momento atual. Tem gente hoje que afirma que não deveríamos nos preocupar com as mudanças climáticas, porque o homem sempre foi capaz de encontrar soluções tecnológicas para seus problemas, e continuará sendo.

Soluções tecnológicas são ótimas para aumentar a eficácia e a eficiência das nossas operações – o arpão explosivo de Foyn, por exemplo, multiplicou em várias vezes o “estoque” de baleias no oceano, fazendo com que uma indústria decadente prosperasse por mais um século. Mas arpão nenhum fez efeito nos anos 1960, 1970 e 1980, quando a caça de baleias despencou de novo. É que, dessa vez, não havia mais espécies intocadas para descobrir: todas as espécies grandes estavam ameaçadas. Nem o mais poderoso arpão explosivo do mundo será capaz de matar baleias se não houver mais baleias no mar.

O livro de Le Clézio, lindo.

O livro de Le Clézio, lindo.

Nesta época do ano, é inevitável para mim lembrar do reveillon de 2003, o mais incrível da minha vida, que eu passei no lugar mais remoto e selvagem do mundo, os mares da Antártica, a uma semana de viagem da cidade mais próxima. Eu estava num velho navio pesqueiro, sujo e enferrujado, cercado de icebergs esculturais, visitado todos os dias por pinguins, focas, orcas e baleias – várias espécies de baleias, inclusive uma das 10 000 baleias-azuis que sobraram nos oceanos do mundo. Vendo auroras austrais, mergulhando na água gelada, convivendo com gente incrível, cercado de beleza e paixão. Foi incrível, épico, lindo. E assustador.

A foto é do grande Ignacio Aronovich, fotógrafo que viajou comigo. Dê uma olhada no site dele e da Louise, mulher dele: é um dos melhores sites de fotografia que eu conheço.

A foto é do grande Ignacio Aronovich, fotógrafo que viajou comigo. Dê uma olhada no site dele e da Louise, mulher dele: é um dos melhores sites de fotografia que eu conheço.

Fui para a Antártica como repórter, a convite de uma organização eco-radical chamada Sea Shepherd. Um ano antes, eu tinha entrevistado o fundador da organização e capitão do navio deles, Paul Watson. Ele me contou que sempre sonhara em ir para a Antártica, um dos únicos lugares do mundo onde ainda se mata baleias em larga escala. Paul Watson e sua Sea Shepherd tinham no currículo o afundamento de 10 baleeiros, desde 1979, quando eles trombaram propositalmente com o baleeiro pirata Sierra na costa de Portugal. Durante a entrevista, eu tive certeza de que havia uma grande história aí, e fiquei no pé de Watson até ser convidado para a primeira campanha antártica da Sea Shepherd. Consegui.

Passamos seis semanas no mar. A campanha foi um fracasso. Não encontramos os baleeiros, que se moviam rápido demais para o nosso navio, o Farley Mowat, um calhambeque marinho construído em 1958 e comprado usado por algumas dezenas de milhares de dólares.

Semana passada, Watson e a Sea Shepherd apareceram nas notícias de novo – como aliás sempre acontece nesta época do ano, que é quando os japoneses caçam baleias. Mais uma vez, como acontece todos os anos desde 2003, eles foram para a Antártica incomodar os baleeiros. Só que, desta vez, em vez de pilotar uma lata velha, eles tinham três barcos, sendo que um deles era um ultra-moderno trimarã movido a diesel que vale 1,5 milhão de dólares e mais se parece o batmóvel – chamado Ady Gil, em homenagem ao milionário de Hollywood que doou a maior parte do dinheiro. Você deve ter visto as notícias. O Ady Gil trombou com um dos baleeiros japoneses e afundou. Desta vez os baleeiros ganharam.

httpv://www.youtube.com/watch?v=pBKYjHUUN4Q

[No vídeo, a imagem da esquerda foi feita por ambientalistas em outro barco. A da direita, que dá a sensação de que a culpa foi dos próprios ambientalistas, foi tomada pelos próprios baleeiros japoneses.]

Watson afunda baleeiros porque diz que eles agem ilegalmente. Realmente, há, desde 1987, um tratado internacional que proíbe a caça a baleias no mundo inteiro. Mas há uma exceção: é permitido matar baleias para pesquisa científica. E, uma vez mortas, é permitido vender a carne das baleias, para não desperdiçar. Os japoneses criaram seu “programa de pesquisas” em 1987, mesmo ano em que a moratória começou. Como é essa “pesquisa”? Mata-se o bicho, estuda-se seu ouvido e o conteúdo do estômago e intestino, empacota-se a carne e vende-se em peixarias. Trata-se de um estudo de seus “hábitos alimentares”. Para fazer isso, mata-se 900 baleias por ano.

Enfim, o tal “programa de pesquisa” não passa de um pretexto. E ninguém faz nada, porque a Antártica fica em águas internacionais e não existe polícia lá. Ninguém é responsável pelo planeta: os governos só têm jurisdição sobre seus próprios países.

Watson tem todos os defeitos que dizem que ele tem. Ele mente com alguma frequência, é meio arrogante, é difícil de lidar, não é nada diplomático, é marketeiro até a medula. Ele me odeia – ficou bravo com alguns trechos do livro que escrevi sobre a expedição. E ele arrisca: um sujeito que já afundou dez baleeiros não tem muito o que dizer quando finalmente é um barco dele que vai parar no fundo.

Mas tenho que admitir que, no fundo do coração, tenho uma baita admiração pela sua coragem sem limites. E uma baita saudades da Antártida, o último lugar do mundo que ainda não foi inteiramente transformado em “estoque” de algum produto.

Na primeira vez que viemos ao Chile foi porque tínhamos umas milhas acumuladas e escolhemos o país sul-americano mais distante disponível, para fazer as milhas valerem. Não tínhamos nenhuma ligação especial com o lugar, nenhuma curiosidade específica. Mas, depois de um mês aqui, algo nos encantou, difícil saber o quê.

Na segunda vez, trouxemos nossas bicicletas e passamos o ano novo cruzando a Carretera Austral, uma espécie de Transamazonica chilena, que liga nada a lugar nenhum, construída por Pinochet mais para ocupar território do que para transportar gente. Pinochet é um herói naqueles ermos da Patagonia, e passamos uma noite numa casa que tinha o retrato dele na parede. Lá fora chovia pedra e o frio era de matar. O dono da casa colocou nossas botas encharcadas no forno a lenha e fomos gratos a ele. Posição política é uma bobagem quando a vida está em jogo.

No dia 31 colocamos as bicicletas num ônibus e fomos até uma cidade tentar virar o ano sem chuva e cercados de gente. Cada pessoa que subia no ônibus carregava um cordeiro inteiro morto. Nossas bicicletas viajaram com meia dúzia de cordeiros. É isso que se come na ceia de ano novo no Chile.

Este é um país orgulhoso, de hábitos simples. Da Patagonia ao Atacama come-se as mesmas comidas, segue-se as mesmas tradições, cultua-se ou odeia-se os mesmos heróis/vilões.

Estamos no Chile, eu e a Joaninha, minha esposa, é nossa terceira vez. Passamos a última semana pedalando no deserto. Dia 31, fomos convidados por uns chilenos para uma ceia.

Tinha cordeiro, claro. Metade de um animal, cortada ao meio e colocada sobre a brasa num imenso forno de barro. Foi o primeiro cordeiro que o Miguel, nosso novo amigo chileno, assou na vida. Mas ele sabia exatamente como preparar, depois de passar a vida olhando os outros assarem o bicho todo réveillon. Perguntei se eles já tinham tentado fazer pizza naquele forno. Eles torceram o nariz. Pizza é gringa. Empanadas, aí sim, e todos se derreteram em “hmmmmm”s imaginando o pastelzinho latino.

Antes de beber vinho, o Miguel derramou um gole no chão. Para Pachamama, a Terra, de onde o vinho veio.

Chegamos ao hotel caminhando cambaleantes pelas ruas de terra, só sob a luz da absurda lua cheia do Atacama, encantados com a simplicidade daqui.

Estou escrevendo do meu celular, conectado a um wi fi precário. Amanhã subimos a cordilheira, rumo à Bolívia, e a uma semana desconectados (por isso antecipo o post da segunda. Por isso, também, peço desculpas pelos erros de digitação e pela falta de imagens).

Na minha casa em São Paulo, sou vizinho de uma brasserie francesa, tem um restaurante baiano e uma pizzaria do outro lado da rua e, na esquina, um restaurante por quilo vende sushi, pastel e macarrão. Sei fazer alguns pratos vietnamitas. Sou um cidadão do mundo, urbano, desenraizado, meio cínico. Demorei para entender a gente daqui, firme, séria, digna, tradicional. Uma gente que come cordeiro todo dia 31 de dezembro.

Lá onde eu moro, o colapso ambiental é só mais um assunto para se discutir no bar, assim como política, futebol, filosofia. Aqui é o rio secando, a geleira derretendo, a lavoura escasseando.

Fiquei sabendo que o deserto do Chile supre o mundo de lítio. Lítio é um mineral bem século 21 – com ele se faz remédios contra depressão e baterias de celular. O Miguel está preocupado porque a chegada dos carros elétricos, com bateria de lítio, pode ser uma ameaça para o deserto. Mais uma. Para você ver como esse mundo é complicado.

Mas este texto aqui não é para lamentar as mudanças climáticas nem para polemizar com os fãs de Pinochet. Daqui, do meio de um deserto de milhões de anos, esses assuntos parecem pequenos, passageiros. Escrevo para contar da grandiosidade da paisagem que me cerca, da sombra monumental do vulcão Licancabur, da lua cheia nascendo quase ao mesmo tempo em que o sol se pôs.

Escrevo porque já é 2010, um número que nem parece um ano de verdade, mas uma daquelas datas inventadas dos filmes de ficção cientifica.

Escrevo para desejar, de verdade, um feliz ano novo para você.

E para o o Planeta Terra.