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Arquivo mensal: junho 2010

Escrevo este post no começo da tarde de segunda-feira. Daqui a pouco, 11 homens de amarelo vão se alinhar solenes em Johannesburgo enquanto aguardam os triunfais acordes iniciais do Hino Nacional Brasileiro, o popular “Ovirudum”. Todos eles acompanharão com os lábios os versos iniciais. E, depois, provavelmente, irão parar de cantar, por desconhecerem a letra.

Um hino nacional é um símbolo da pátria. Fico me perguntando o que o Hino Nacional Brasileiro simboliza então. Para mim, simboliza a falta de vontade do estado de se fazer entender pelo povão.

Como se sabe, a sentença inicial do hino, se fosse ordenada de maneira direta, seria “As margens plácidas do Ipiranga ouviram o brado retumbante de um povo heróico”. Simples assim. Aí, num esforço para complicar as coisas, a frase foi picotada em pedacinhos e remontada toda ao contrário. “A pátria não é para você entender”, é o que este hino me diz. Típico de um país inventado por uma elite que estava preocupadíssima em não se misturar com o populacho.

Vejo em todas as partes esse descompromisso do Brasil com facilitar as coisas para a população.

Por exemplo, acabei de pagar uma conta, pela internet. O site do banco me pediu para digitar a série de números acima do código de barras. Cada um dos dígitos mede pouco menos de dois milímetros de altura. A série de números começa assim: 85800000016-0. São seis zeros seguidos, um coladinho no outro, quase indistinguíveis. E depois vêm mais três outras séries de números como essa. Um total de 48 algarismos. Por sorte, aos 37 anos, minha vista ainda não está cansada. Mas enxergar esses números seria impossível para o meu pai, por exemplo. Lembro de como era pagar contas nos Estados Unidos: era digitar meu número de segurança social (algo como o cic de lá) e pronto.

Outro exemplo. Ontem à noite, peguei um ônibus. Reparei no “painel de informações” do ponto de ônibus. Era assim:

Absolutamente incompreensível. Olhando este mapa, não dava para saber como se conectar aos outros corredores de ônibus, não dá para ter ideia de que ônibus leva para que lugar, não dá para colocar a avenida onde eu estava no contexto da cidade. Claro, era minha obrigação saber qual ônibus pegar – assim como cabe a mim descobrir qual é o sujeito e qual é o predicado do hino nacional.

Exemplo ainda mais assustador dá para encontrar na linguagem jurídica brasileira, cheia de jargões, de referências cifradas, de palavras pouco usuais. Há um tempo atrás, editei uma revista chamada Gotas e um advogado divertido chamado André Salomé escreveu para nós uma matéria sobre o juridiquês. O exemplo dele: “pelo princípio da insignificância, a caracterização da conduta como furto famélico elimina a tipicidade material, excluindo-se, dessa forma, a tipicidade conglobante e, por conseguinte, a tipicidade penal. Dessa forma, sendo atípica a conduta, não há crime.”. Ou, em português: “roubar para comer não é crime”. Advogados, juízes e legisladores falam uma outra língua, incompreensível para o cidadão médio. Truque básico para deixar a lei inalcançável.

Eu mesmo, como jornalista, sinto a pressão por escrever difícil. A cada vez que uso um texto um pouquinho mais coloquial, recebo alguma reclamação afirmando que estou “baixando o nível”. Baixar o nível, no caso, é se fazer entender. E assim vamos perpetuando essa bobagem fundadora do Brasil: a de querer falar difícil para provar que não somos “qualquer um”.

Portanto, se eu estivesse alinhado, de amarelo, no campo de futebol, enquanto soa o belo Hino Nacional, manteria meus lábios cerrados. Que “fúlgidos” o quê? Que “penhor”, que “garrida”, que “fulguras”? O que importa é fazer gol. Isso eu sei o que é.

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Falei na segunda-feira sobre o site que lançamos discutindo São Paulo e como adaptá-la às inevitáveis mudanças climáticas. Deixa eu aproveitar para mostrar para vocês um videozinho que fizemos, obra do pessoal talentoso da Cia de Foto.

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Acredite: aqui já houve um rio e uma floresta

No mês passado, fui assistir a uma palestra da americana Janine Benyus, presidente do Instituto de Biomímica. Biomímica é uma ideia bem interessante. Trata-se de uma área multidisciplinar que mistura arquitetura, engenharia de materiais, design, biologia – a ideia central é buscar inspiração em sistemas naturais para criar materiais ou processos artificiais mais eficazes e sustentáveis. Por exemplo: estudar a química de vegetais ou animais para desenvolver formas de produzir materiais tão eficientes, silenciosas e sem resíduos quanto a produção de proteínas dentro das células.

O evento foi na Marginal do Rio Pinheiros, em São Paulo, lugar poeirento, quente e sobrenaturalmente fedido. Perguntei a Janine se a biomímica tem alguma ideia para melhorar São Paulo.

– A primeira coisa que você precisa fazer é olhar para a natureza. No caso de São Paulo, qual é a paisagem natural que havia aqui antes de construírem uma cidade? – perguntou ela.

Respondi que era Mata Atlântica. Ela pareceu chocada com a resposta.

– Mata Atlântica? Tem certeza? Isso não parece nada com a Mata Atlântica… Bom, o passo seguinte é entender como a Mata Atlântica funciona, como ela atua no ambiente, e projetar uma cidade que tente cumprir essas mesmas funções ambientais.

Pegue por exemplo as chuvas.

São Paulo fica bem na cabeceira de uma bacia hidrográfica. Explico o que isso quer dizer. Bacia você sabe o que é (deve haver uma de plástico na sua lavanderia). Para resumir, uma bacia é um objeto côncavo. Jogue água na bacia – em qualquer lugar da bacia – e ela irá fatalmente correr até o centro. Jogue água fora da bacia (e por favor me poupe de duplos-sentidos eróticos) e não há chance de essa água entrar. É que a água (como aliás todo líquido e sólido que existem) tem o hábito de ser atraída para baixo pela gravidade. Assim é uma bacia hidrográfica: uma área côncava da superfície que apanha toda a água que cai nela e a empurra para o mesmo lado, morro abaixo.

A cabeceira da bacia – onde São Paulo fica – é a beiradinha dela. É a parede da bacia. É o pedaço mais alto, onde a água começa a rolar. Acrescente a isso o fato de a Serra do Mar ser também o paredão de pedra que breca as nuvens carregadas de água que vêm do Oceano Atlântico. Portanto, a Serra do Mar faz chover muitíssimo. E essa chuva toda despenca no alto da Serra, cai em São Paulo e escorre com uma baita violência, dada a inclinação do terreno. Agora, com as mudanças climáticas, essas chuvas intensas estão aumentando ainda mais.

Quando havia Mata Atlântica aqui, a floresta densa ia lentamente freando essa enxurrada. A água ia espirrando aqui, desviando ali, até chegar lá embaixo tranquila. Mas, como tiramos a mata e no lugar asfaltamos tudo, a água hoje passa que nem esguicho: à toda velocidade. No caminho, vai arrancando casas e esmagando gente e arrancando terra que causa assoreamento lá embaixo. Nos lugares onde há assoreamento, tem enchente.

E como São Paulo lida com as enchentes? Constrói “piscinões”, que são imensas “catedrais subterrâneas”, que acumulam a água e depois vão soltando devagar. Os piscinões também acumulam lixo, terra, ratos, baratas, doenças. São ótimos negócios para as grandes empreiteiras, que além de lucrarem na hora de construí-los, garantem um contrato eterno com a prefeitura, para realizar as limpezas. Sem limpeza, a capacidade do piscinão diminui e as enchentes voltam.
Enfim, piscinão, além de sair caríssimo, causa alívio apenas temporário.

Se a cidade resolvesse usar a biomímica para lidar com seu excesso de águas, faria diferente. Mudaria o solo da cidade para deixá-lo mais parecido com o da Mata Atlântica. O piso e os telhados precisariam ser mais rugosos e irregulares, para reduzir a velocidade da água. Precisaríamos de mais trechos de terra exposta, que é permeável. Precisaríamos de uma cidade que fizesse o trabalho da floresta que existia antes dela.

Esse jeito de pensar está ganhando espaço em São Paulo. Em breve um grupo de pesquisadores ligados à USP vai divulgar seu projeto de “renaturalização do Rio Anhangabaú”: uma tentativa de evitar a construção de um piscinão bem no centro da cidade dando vida a um rio que hoje está coberto de asfalto. “Vai ser mais barato e mais eficiente que o piscinão”, adianta o engenheiro Sadalla Domingo, idealizador do projeto. O melhor remédio para as enchentes paulistanas pode ser “reconstruir” seus velhos rios

*

Pausa para os nossos comerciais: participei da elaboração de um site chamado !sso Não É Normal, que foi lançado na semana passada. O site discute São Paulo e as mudanças que a cidade precisa fazer para resistir às mudanças climáticas (como a renaturalização dos rios). Fizemos força para criar um conteúdo que fosse ao mesmo tempo divertido, acessível e aprofundado. Passa lá se der tempo!

Foto: Cia de Foto para o !sso Não É Normal.

Erramos.

Eu disse outro dia que nenhuma cidade brasileira tem um sistema decente de aluguel de bicicletas.

Não conhecia a Mobilicidade, que opera o sistema Samba no Rio de Janeiro, Blumenau e João Pessoa. Passei o último feriado no Rio, usando o Samba. Tem estações de bicicleta em vários pontos da Zona Sul (infelizmente não tem no centro), o sistema é todo automático, operado por celular, as bicicletas são robustas, resistentes, e até que boas. Paguei só R$ 20 pela mensalidade e usar a bicicleta é grátis desde que você devolva em 1 hora (mas pode alugar quantas vezes quiser, sempre grátis por 1 hora). Muito legal.

Incrível como o simples fato de usar aquelas bicicletas gera interações sociais, aproxima pessoas, inicia conversas.

Agora alguém precisa arrumar um jeito de tirar todos aqueles carros da rua. Carro atrapalha muito o trânsito.

A Crown Fountain, em Chicago, uma fonte lúdica-interativa-artística: exemplo de política pública que deixa as pessoas mais felizes. Foto: albany_tim (cc)

A ideia de que o papel do governo é deixar as pessoas felizes não é nova, claro. Qualquer um que seja versado em contos de fadas sabe que, desde o tempo do era uma vez, um bom rei é aquele cujo povo é feliz e próspero. Era assim na antiguidade, continuou a ser assim no estado moderno. A Declaração de Independência dos Estados Unidos, logo no seu preâmbulo, avisa num texto quase tão familiar quanto o hino americano que “todo Homem foi criado igual, e foi dotado pelo seu Criador com certos Direitos inalienáveis, entre eles a Vida, a Liberdade e a busca da Felicidade”.

Note que o texto não menciona Dinheiro. Também não há referências a iPad. Mas o fato é que, tanto nos Estados Unidos quanto em todo o mundo moderno, os estados ultimamente têm se esforçado muito mais para deixar o povo próspero do que feliz.

Talvez seja em parte porque riqueza é bem mais fácil de medir do que felicidade. Felicidade é fugidia, e absolutamente sujeita a ser frustrada pelos caprichos humanos.

Um exemplo disso é um estudo clássico feito por três psicólogos americanos em 1978. Eles compararam os “níveis de satisfação com a vida” de três grupos de pessoas: “ganhadores na loteria” (que receberam prêmios entre 50.000 e 1 milhão de dólares), “vítimas de acidentes devastadores” (alguns deles tornados paralíticos) e um grupo-controle de gente comum escolhida ao acaso. Resultado: os ganhadores da loteria não se consideravam mais felizes que o grupo-controle. Quando perguntados  se esperavam um futuro melhor, as vítimas de acidente levaram vantagem. Os ganhadores na loteria se declararam menos capazes de tirar prazer de tarefas cotidianas.

Realmente, se você olhar a correlação entre riqueza e felicidade, não vai encontrar um retrato fácil de interpretar. Pegue o caso americano. Por lá, todos os indicadores financeiros melhoraram imensamente nos últimos anos. Desde os anos 1970, a renda americana subiu mais de 60%, o tamanho médio das casas cresceu quase 50% e todos os índices de consumo aumentaram. Enquanto isso, os níveis de felicidade permaneceram teimosamente inalterados (eles tinham crescido constantemente até os anos 1950). Nos últimos 30 e tantos anos, o mundo desenvolvido acumulou um monte de dinheiro, mas não tanta felicidade.

O fato é que, embora a felicidade seja realmente fugidia e difícil de medir, a ciência já sabe razoavelmente bem como encontrá-la. Vidas com sentido são mais felizes. Vidas ativas também. Espaços agradáveis de convívio aumentam a felicidade, espaços ruidosos sem trocas humanas diminuem. Tempo livre aumenta a felicidade, mas só quando ele é preenchido de uma maneira que traga sentido à vida, se não mais atrapalha que ajuda. E por aí vai.

Nas últimas décadas, esse tema foi lentamente ocupando espaço no debate político mundial. Primeiro foi um rei no Butão que inventou a ideia de Felicidade Interna Bruta (FIB), que nortearia os objetivos de seu governo mais do que o tradicional PIB. Até aí, era só uma iniciativa exótica de um governo autocrático em um país remoto. Mas, em 2007, o primeiro-ministro do Reino Unido nomeou um “czar da felicidade”, focado em alegrar os súditos da rainha. No ano seguinte, o presidente da França montou uma comissão liderada por dois Nobel de Economia (Amartya Sen e Joseph Stiglitz) para orientar o governo sobre como governar de maneira a deixar os franceses mais felizes.

Agora, na semana passada, um think tank finlandês chamado Demos, em parceria com os ambientalistas da WWF, lançou um manifesto batizado de “A Política da Felicidade”, propondo que os governos coloquem a busca pela felicidade no centro de sua agenda, no lugar onde até outro dia ficava a economia. Para mim, é o mais interessante documento já escrito sobre o tema (esta é a versão em inglês).

O Brasil não é a Finlândia, óbvio. Em países pobres como o nosso, felicidade aumenta sim quando a renda aumenta (garanto que ninguém é feliz com diarreia, fome ou malária). Mas o manifesto é bem interessante, inclusive para dar algumas ideias para os dois principais candidatos à presidência brasileira (quando olho para a cara do Serra ou da Dilma, certamente o que me vem à cabeça não é “essa pessoa quer me fazer feliz!”)

O texto parte de constatações científicas muito bem fundamentadas sobre a natureza da felicidade para fazer recomendações concretas de política pública. Por exemplo:

– criar um “fundo nacional de tempo”, que daria feriados às pessoas que doassem trabalho cívico (tanto feriados quanto trabalho cívico tendem a aumentar a realização pessoal).

– criar uma cultura de “design criativo” de espaços públicos. Prédios públicos têm que ser engraçados, surpreendentes, estimulantes e abertos para o uso de toda a população.

– gradualmente extinguir os exércitos e, no lugar deles, criar uma espécie de “acampamento cívico” aberto a todos os cidadãos.

– priorizar o trabalho coletivo na educação. Hoje, todo o sistema de educação é baseado no indivíduo e não incentiva nem ensina o trabalho coletivo, que aumenta os níveis de felicidade.

– proibir carros onde há crianças.

– aumentar impostos sobre espaço não utilizado. Criar incentivos financeiros para quem compartilha espaço.

Não é legal?

Vivemos, você sabe, uma crise mundial de energia. Se o fim do petróleo parece ter sido adiado em alguns anos pelas novas descobertas, inclusive no pré-sal brasileiro, continua evidente que não vai dar mais para queimar tanto óleo. E a queima de óleo é o que move a maior parte dos sistemas elétricos e dos veículos motorizados do planeta. Com a constatação cada vez mais inegável de que as mudanças climáticas são assunto sério e muito provavelmente já estão interferindo violentamente nas nossas vidas, precisamos de outras soluções e, apesar dos avanços, nenhuma das alternativas – solar, eólica, atômica, hidrogênio – parece pronta para substituir o petróleo.

Quer dizer então que está faltando energia no mundo? Outro dia eu estava me perguntando isso enquanto via as pessoas passarem pela rua e notava o tamanho delas. Quanta gente imensa, meu deus… Há, efetivamente, uma epidemia mundial de obesidade. 1 bilhão de pessoas do planeta estão com sobrepeso, 300 milhões são obesas, números que vêm acompanhados do crescimento explosivo de doenças crônicas como câncer, doenças cardiovasculares, hipertensão, derrames e diabetes tipo 2. Obesidade suga de 2% a 7% dos gastos de saúde dos países desenvolvidos. Desde os anos 1980s, as taxas de obesidade mais do que triplicaram na América do Norte, Reino Unido, Europa Oriental, Oriente Médio, China, Austrália e ilhas do Pacífico.

Aí me ocorreu: a energia que está faltando para mover nossas máquinas e nossas economias parece estar se acumulando nas nossas cinturas.

Parece uma relação absurda, mas não é. A energia que move motores é da mesma natureza da que move nossos músculos e que, quando não utilizada (porque só andamos de carro), é armazenada na forma de gordura. Moléculas orgânicas (como as do petróleo ou as da comida) usam energia para manter seus átomos colados uns nos outros. Quando queimamos o petróleo ou quando as mitocôndrias das nossas células processam as gorduras e os carboidratos, essa energia é liberada para poder ser usada. Tanto é assim que o subproduto das células é o mesmo das chaminés e escapamentos: gás carbônico.

Outro dia topei na internet com esse divertido infográfico feito pela revista americana Good (clique nela para ampliar):

O info faz uma correlação entre a energia consumida por um humano médio e a consumida por um carro médio. As unidades são as americanas – 1 galão corresponde a 3,8 litros. Portanto, 1 litro de gasolina tem 8.200 calorias – o equivalente a 40 copões de Guinness, 25 filets, 20 big macs, 7 potes de sorvete ou quase 80 bananas.

Se levarmos em conta que, na média, um motorista consome algo como 5 litros de gasolina por dia, chegamos à conclusão de que um carro gasta mais de 40.000 calorias por dia. Um carro, na média, em São Paulo, carrega 1,5 pessoa. Ou seja: ao usarmos um carro, consumimos 27.000 calorias (40.000 dividido por 1,5) para transportar uma pessoa ao longo de um dia.

Ora, 27.000 calorias para mover um mísero ser humano me parece uma ineficiência capaz de fazer qualquer estatal parecer um case de sucesso de MBA. Afinal, se usarmos as pernas e os braços, o gasto energético médio de um humano é de 2.000 calorias por dia. Andar de carro torra energia – gastamos 13 vezes mais para transportar o mesmo corpo.

Ontem eu assisti a um desses comerciais absurdos de carro. Era a propaganda de um desses jipões gigantes (que, obviamente, se passava num campo aberto, e não no trânsito parado). Para mostrar que o carro tinha espaço de sobra, ele carregava um elefante na carroceria. O slogan era algo na linha “cabe tudo o que você quiser”. Bom, um jeito de entender esse comercial é o seguinte: você não precisa de um carro tão grande a não ser que tenha um circo ou um zoológico. Se o carro tem espaço para um elefante, logo ele provavelmente é grande demais para o seu carrinho de bebê. Em outras palavras: comprar um carro desses é desperdiçar energia. Mas é óbvio que não é assim que o comercial é visto por muita gente. O que ele diz é “nunca se sabe o que você vai precisar carregar. Melhor estar preparado para tudo, inclusive para um elefante.”

Realmente, num mundo tão orientado para o consumo quanto o nosso, não é impossível que as compras do shopping center de uma família tenham dimensões paquidérmicas. Mas, na média, no dia-a-dia, nossos carros gigantes carregam muito pouco. Gastamos tanta energia e ocupamos tanto espaço na rua apenas para dispormos de espaço de armazenamento para eventualidades. Quando o trânsito pára na hora do rush, o que se vê é uma longa fileira de caixas semi-vazias de metal, cada uma delas queimando mais energia que um lutador de sumô.

Fico pensando que a solução para o problema é termos veículos bem menores e mais leves, que não gastem muito mais energia do que uma pessoa e meia. E, quando precisássemos carregar um elefante, poderíamos alugar ou emprestar um compartimento maior. Esses compartimentos poderiam ser compartilhados – assim como as bicicletas em Paris (e no Rio de Janeiro).

Mas a fantasia que eu tive outro dia foi mais longe: instalar nas cidades usinas elétricas movidas a esteiras de caminhada. Seria um modo de resolver nossas duas crises energéticas ao mesmo tempo: transferindo diretamente a energia acumulada nas nossas panças para os nossos sistemas de eletricidade.