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Arquivo mensal: julho 2010

Cena da cidade de Palmares, mais de um mês depois da tragédia

Foto: Cia de Foto

Na última quinta-feira, aluguei um carro no aeroporto do Recife e dirigi para o oeste, serra acima, na companhia do hidrólogo Abelardo Montenegro e do fotógrafo Pio Figueiroa. Fomos até a nascente do Rio Una, na boca do sertão. O Rio Una é um dos dois que transbordou no mês passado, entre Pernambuco e Alagoas, deixando um rastro de destruição e arrancando da Terra mais de meia centena de vidas humanas. Entre quinta e sexta, percorremos de carro todo o curso do rio, da nascente à foz.

O que eu vi não tenho palavras adequadas para contar. No começo, perto da nascente, o rio é um fiapo d’água, e a destruição que ele causou é proporcional. Móveis estragados, eletrodomésticos perdidos, histórias apagadas, muita sujeira. Mas, à medida em que fomos descendo a serra, a coisa foi ficando pior. Visitei uma senhora cuja casa caiu em mais ou menos uma hora. Gente que perdeu tudo. Quarteirões inteiros demolidos pela água. E aí, já na sexta-feira, cheguei à cidade de Palmares.

Não vou nunca esquecer o que vi lá. A cidade foi praticamente inteira destruída. Da escola, em meio aos escombros e ao barro, sobrou um amontoado de cadeiras retorcidas. Meninos reviravam os montes de entulho que ficaram no lugar das casas em busca de algo que pudesse ser salvo. O hospital, abandonado, estava todo coberto de uma camada grossa de barro preto e fedido. Parecia que ele estava fechado fazia 100 anos, e não um mês. O barro, aliás, estava pela cidade toda, mesmo 40 dias depois da enchente. A água atingiu casas a 5 quarteirões do rio e foi bater no alto do segundo andar das casas. Na praça central, abriu-se uma cratera, entre a igreja e a prefeitura, por causa do chão que cedeu – uns 3 metros de profundidade, mais de 30 de comprimento.

Palmares se acabou.

Talvez você imagine que Palmares fosse um vilarejo de casebres frágeis de madeira. Não era. Era uma cidade de classe média, desses que se aproveitaram da recente prosperidade brasileira para subir segundos andares, comprar carros, tvs de lcd, computadores, eletrodomésticos. O prejuízo em bens materiais me pareceu incalculável. Pior ainda se for somar a ele os prejuízos indiretos mais subjetivos: as famílias rompidas, as doenças contraídas e agravadas, as sogras forçadas a irem morar com noras mal-humoradas, os empregos perdidos, as saúdes irreversivelmente abaladas, as amizades desfeitas, as sanidades mentais arruinadas etc etc etc. A impressão que me deu é que Palmares vai levar anos para se recuperar. E muita gente, claro, não vai se recuperar.

Depoimento unânime: ninguém com quem falei, nem os mais velhos, jamais viu algo parecido. Ninguém conseguia acreditar na força destrutiva da água. Uns aventavam a hipótese de que a responsabilidade fosse de diques estourados rios acima – só isso poderia explicar tanta violência. Mas, até onde pude investigar, não foi isso não. Ninguém soube dizer que diques eram esses. Os especialistas, inclusive Montenegro, desconfiam que a história dos diques seja só um boato que se espalhou empurrado pela sensação de que a natureza sozinha não seria capaz disso, e acabou chegando à imprensa. Ao que tudo indica, o que demoliu Palmares e tantas outras cidades foi mesmo a chuva.

Assim como o que está demolindo as casas na beira da praia que visitamos hoje de manhã perto de Olinda, em Paulista, foi mesmo o mar. Assim como o que está desertificando o sertão, para onde voo amanhã, é mesmo o sol. Difícil de acreditar, não é?

Nem tanto, se você tem acompanhado os relatórios do IPCC na última meia década. Todas essas tragédias estão de pleno acordo com as previsões de mais eventos extremos, mais chuvas concentradas, mais calor, mais mar se empilhando na costa. Tudo isso é exatamente o que se esperava de acordo com quem estuda as mudanças climáticas.

O Nordeste, de onde escrevo, é a região mais vulnerável do Brasil, por conta da precariedade da ocupação, o que é um exemplo da cruel ironia das mudanças climáticas: quase sempre, quem menos emite carbono é quem mais sofre com ele.

E aí? E agora? Pânico? Apocalipse? Ferrou? Dançamos?

Na verdade não.

Não tem como parar a chuva, o mar ou o sol – tudo isso tem mais energia do que a humanidade é capaz de contrapor. Mas tem como sair da frente de sua força destrutiva.

Tem como mover as pessoas que moram na beira dos rios morro acima, e encher as margens de mata reflorestada, que frea o avanço da água e ainda torna as cidades mais agradáveis. Tem como reflorestar o sertão e fazer com que as raízes da caatinga segurem os nutrientes no lugar. Tem como afastar as cidades da orla. Tem como se adaptar – se preparar. E assim prevenir mortes, destruição, prejuízos.

Custa caro e dá trabalho.

Mas, se você não quer ter trabalho e nem gastar dinheiro, é melhor nem ver o que vai acontecer se não fizermos nada.

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O mundo está cheio de fronteiras.

Por exemplo: fala-se muito sobre a fronteira agrícola, que está em expansão – hoje, no Brasil, ela está localizada no sul da Amazônia, avançando rapidamente sobre a floresta ao norte. A fronteira agrícola é a linha imaginária que separa a mata da área sob ocupação humana.

A segunda fronteira, que sempre vem atrás da agrícola e se move com igual avidez, é a urbana. A fronteira urbana separa as cidades do mundo rural, impermeabilizando o solo no caminho. Essa fronteira avança tão rápido que, hoje, metade da população do mundo já está dentro dela (eram 30% em 1950 e serão 70% em 2050, segundo dados da ONU).

Mas pouquíssima gente fala da terceira fronteira, que sempre avança atrás das outras duas: a fronteira do lixo. A fronteira do lixo delimita imensos territórios inutilizados para a ocupação humana. São áreas que já foram cobertas de detritos, e que estão condenadas para quase qualquer tipo de uso. São pedaços do planeta que jogamos fora.

Falamos pouco dessa fronteira porque não gostamos do assunto. Lixo é um tema incômodo.  Lixo a gente põe num saco plástico, leva até a calçada e esquece. Não é mais problema nosso. Só o que queremos é que alguém leve embora.

Geralmente, alguém leva. Um caminhão carrega tudo para uma área bem longe de casa. Como a produção de lixo não para, essa área não para de crescer. É essa a fronteira do lixo.

Um detalhe do Aterro Bandeirantes, em São Paulo, um mundo de lixo dentro da cidade.

Só em São Paulo, os dois grandes aterros sanitários da cidade já ocupam uma área de mais de 2 milhões de metros quadrados, o equivalente a 270 Estádios do Maracanã. São duas cordilheiras de lixo, com 150 metros de altura, o equivalente a um prédio de 50 andares. Terra em São Paulo custa caro, você sabe. Imagina quanto vale essa área. E a situação em São Paulo ainda é melhorzinha que a média brasileira. Na maior parte do Brasil, a situação é bem pior: 64% dos municípios brasileiros nem aterro tem. Joga tudo num lixão, sem cuidado ambiental nenhum.

O Brasil produz 135.000 toneladas de lixo todo santo dia. Pense um pouco nesse número: imagine o trabalho de acondicionar uma montanha desse tamanho a cada dia do ano. Isso significa que algumas centenas de hectares do Brasil são perdidas para a fronteira do lixo todos os anos. Espaço na Terra é um recurso finito. Um dia vai acabar. Um dia a fronteira do lixo vai começar a invadir a fronteira agrícola e a fronteira urbana.

Na semana passada, o Senado Brasileiro aprovou uma boa Política Nacional de Resíduos Sólidos, criando regras para o lixo brasileiro, no intuito de reduzir o avanço da terceira fronteira. Que o Brasil, uma das 10 maiores economias do mundo, a superpotência do momento, tenha chegado à segunda década do século 21 sem uma lei para regular o lixo é motivo para morrer de vergonha. Mas pelo menos agora há uma lei. Pelo menos agora as cidades vão ter que se preocupar em eliminar os lixões e criar formas de diminuir a produção de lixo: estimulando reciclagem e compostagem (que é a produção de fertilizantes com lixo orgânico).

Estamos bem atrasados. Nossos sistemas de coleta são tosquíssimos. Mesmo São Paulo, a cidade mais rica do Brasil, não recicla nem perto de 1% do seu lixo. No país todo, os sacos de lixo ficam largados na calçada e saem navegando a cada chuva até entupirem um bueiro e causarem uma enchente.

É hora de tirar o atraso. E tirar o atraso implica em prestarmos atenção no lixo. É fato que os governos têm feito um trabalho porco até hoje, mas não é justo jogar toda a responsabilidade nos políticos. Parte dela é nossa, do cidadão, do produtor, do comerciante. Quem entre nós faz um esforço para reduzir o consumo? Quem escolhe o que comprar privilegiando produtos com menos embalagem? Quem composta lixo orgânico no quintal? Quem reaproveita? Bem poucos, certamente.

Nos países desenvolvidos, há políticas bem claras para incentivar mudanças de atitude. Lembro que, em San Francisco, se eu não separasse direitinho meu lixo em três latas (recicláveis, compostáveis e lixo mesmo), receberia multa. Em Nova York, ouvi que havia até “investigadores de lixo”: gente que abria sacos de lixo em lixeiras públicas em busca de irregularidades. Zurique, na Suíça, vende caro sacos oficiais de lixo, que são obrigatórios: uma forma de desincentivar a produção de lixo.

Vamos precisar urgentemente de políticas desse tipo. Antes que a terceira fronteira chegue.

Foto: Bruno Fernandes (C) para o !sso Não É Normal

Em 1962, Copenhague, a capital dinamarquesa, foi tomada por uma polêmica. Estava nos jornais:

“Nós não somos italianos”, dizia uma manchete.

“Usar espaços públicos é contrário à mentalidade escandinava”, explicava outra.

O motivo da polêmica:

Um jovem arquiteto chamado Jan Gehl, que tinha conseguido um emprego na prefeitura meses antes, estava colocando suas manguinhas de fora. Gehl, que tinha 26 anos e era recém casado com uma psicóloga, vivia ouvindo dela a seguinte pergunta: “por que vocês arquitetos não se preocupam com as pessoas?”. Gehl resolveu preocupar-se. E teve uma ideia.

Havia em Copenhague uma rua central, no meio da cidade, cheia de casas imponentes e de comércios importantes. Era uma rua que tinha sido o centro da vida na cidade desde que Copenhague surgiu, no século 11 – a rua viva, onde as pessoas se encontravam, onde conversavam, onde os negócios começavam, os casais se conheciam, as crianças brincavam, a vida pública acontecia. Nos anos 1950, os carros chegaram e aos poucos essa rua foi virando um lugar barulhento, fumacento e perigoso. As pessoas já não iam mais lá. Trechos inteiros tinham sido convertidos em lúgrubes estacionamentos.

Pois bem. Aquele jovem arquiteto tinha um plano: fechar a rua para carros.

Copenhague não aceitou facilmente a novidade. Os comerciantes se revoltaram, alegaram que os clientes não conseguiriam chegar. São dessa época as manchetes de jornal citadas no começo do texto. O que os jornais diziam fazia algum sentido: Copenhague não é no Mediterrâneo. Lá faz frio de congelar – o mês de dezembro inteiro oferece um total de 42 horas de luz solar. Ninguém quer andar de bicicleta, ninguém quer caminhar. Deixe meu carro em paz.

Mas o jovem arquiteto ganhou a disputa. Nascia o Strøget, o calçadão de pedestres no meio da cidade que hoje é a maior atração turística de Copenhague. As pessoas adoraram a rua para pedestres desde que ela foi fundada. Na verdade, o comércio da região acabou lucrando muitíssimo mais, porque a área ganhou vida e gente passou a caminhar por lá a todo momento. É até lotado demais hoje em dia.

O arquiteto Gehl caiu nas graças da cidade e continuou colaborando com a prefeitura. Suas ideias foram se aprimorando. Ele descobriu que o ideal não é segregar pedestres de ciclistas de motoristas: é melhor misturá-los. Alguns de seus projetos mais interessantes são ruas mistas, nas quais os motoristas sentem-se vigiados e dirigem com um cuidado monstro. Outra sacada: que essa história de construir ruas para diminuir o trânsito é balela. Quanto mais rua se constrói, mais trânsito aparece. Quanto mais ciclovia, mais gente abandona o carro.

Em grande medida graças às ideias de Gehl, Copenhague é a grande cidade europeia com menos congestionamentos. 36% dos deslocamentos são feitos de bicicleta, mesmo com o clima horrível de lá, e a população tem baixos índices de obesidade e doença cardíaca.

httpv://www.youtube.com/watch?v=7gjqgt7qkQw

“Copenhaguizar” virou um verbo: significa tornar uma cidade mais agradável à maneira de Copenhague. Jan Gehl abriu um escritório de arquitetura cuja filosofia é “primeiro vem a vida, depois vêm os espaços, depois vêm os prédios”. Ele passou a ser contratado por várias cidades australianas interessadas em “copenhaguização”. Seus projetos revolucionaram Sidney, Perth e Melbourne, tornando seus centros mais divertidos, cheios de cafés, arte e vida, reduzindo carros, atraindo gente para fora de casa. De uns tempos para cá, Gehl, que hoje tem 74 anos, passou a ser procurado pela “big league” das cidades: Londres e Nova York o contrataram como consultor para transformar seus espaços urbanos. Ambas têm feito muito desde então.

Enquanto isso, aqui na minha cidade, se alguém fala em melhorar o espaço público, logo ouve:

“Nós não somos dinamarqueses. Usar espaços públicos é contrário à mentalidade brasileira.”

50 anos atrasado.

Outra frase que se ouve muito aqui:

“Brasileiro adora carro.”

Adora nada, meu filho, presta atenção. Isso é propaganda de posto de gasolina!

Copas do Mundo são rituais contemporâneos de simulação de guerra. Por um mês, a nação e boa parte do mundo reduzem o foco em seus afazeres habituais e se concentram em acompanhar pela televisão o espetáculo dos países medindo forças uns com os outros. (Por esse prisma, não é difícil entender porque os EUA não se interessam: para que os americanos iriam perder tempo com simulações de guerra?) Dessa forma, as copas saciam nossa necessidade evolutivamente construída de fazer parte de um bando, de sermos movidos por algo maior que nós (a pátria), de competir.

Por um mês, boa parte de nós deixa um pouquinho de lado os problemas cotidianos do trabalho e da família e coloca a atenção em 23 atletas e um técnico. Para ficarmos a par do que eles fazem nossa sociedade mobiliza todo o seu sistema de produção de informação. Milhares de repórteres, fotógrafos, cinegrafistas, blogueiros, comentaristas, escritores, narradores, cronistas, chargistas, artistas, radialistas são enviados para a sede da copa para conectar-nos a ela e saciar nosso desejo de sentirmos que fazemos parte desse momento épico. Tradicionalmente, é a indústria da mídia que comanda esse esforço, financiada por centenas de grandes patrocinadores, cujas empresas somadas respondem pela quase totalidade do PIB brasileiro.

Por conta de tanta gente mobilizada, Copas do Mundo costumam gerar toneladas de conteúdo e, de tempos em tempos, nos deixam de herança algum produto cultural inesquecível. Um exemplo que me vem à memória é a série de charges de página inteira que o cartunista Henfil fez sobre cada jogo brasileiro da Copa de 1970 para a revista Placar [alguém tem um link disso para me passar?]. Outro é a capa poética e triste que o Jornal da Tarde paulistano publicou logo após a derrota em 1982. Ou, ainda, os divertidos esquetes humorísticos estrelando Araquém, o Gol Man, que a TV Globo criou em 1986, anunciando tempos menos chatos no Brasil.

Na minha opinião, a copa de 2010 também deixou um desses produtos culturais memoráveis. Mas, diferentemente dos outros três exemplos que citei, não foi uma grande empresa de mídia a responsável por ele. Foi um publicitário e roteirista de Juiz de Fora chamado Pablo Peixoto, autor solitário da série Dunga em Um Dia de Fúria, que teve quatro episódios disponibilizados de graça no Youtube e assistidos por milhões de pessoas.

O que Pablo fez foi simplesmente pegar cenas do filme Um Dia de Fúria, o clássico policial de 1993 com Michael Douglas, e dublar os personagens, transformando-os nos personagens da Copa – Dunga, Robinho, o holandês Sneijder, Fátima Bernardes, Tadeu Schmidt, Alex Escobar, Valdívia do Chile e Crstiano Rnaldo, sem falar nas participações especiais do Capitão Nascimento, Mick Jagger e Fernando Vanucci, inteiramente bêbado. É engraçadíssimo e muito politicamente incorreto.

Mas atenção, se você se incomoda com palavrões, POR FAVOR NÃO ASSISTA.

httpv://www.youtube.com/watch?v=NKMbpLzldws

Este primeiro episódio foi ao ar logo após a polêmica do técnico Dunga com a Rede Globo a respeito do acesso exclusivo que a emissora tradicionalmente tem à Seleção. Dunga desajeitadamente se rebelou contra esse privilégio, gerando um bate-boca que começou na TV e se estendeu Twitter afora pela internet.

Ao final do imbroglio, a impressão era de que todo mundo saiu perdendo. A Globo tomou um “cala-boca” do público e percebeu que os tempos mudaram. A CBF saiu mal na foto, por desrespeitar a autoridade do técnico. E Dunga se revelou desequilibrado e ressentido, o que acirrou sua agressividade. Na minha opinião, essa irritação se espalhou pelo time e está intimamente ligada ao clima tenso que resultou na derrota para a Holanda. Perdemos todos.

Depois vieram mais três episódios do filme de Pablo Peixoto: a piada de português após o empate chocho com Portugal, a catarse violenta após a quase goleada sobre o Chile e o duelo trágico no confronto final contra a Holanda. Mantiveram o mesmo espírito anárquico, a linguagem chocantemente obscena e o humor que não faz nenhuma concessão ao politicamente correto. (DE NOVO: POR FAVOR NÃO ASSISTA se você se incomoda com palavrões.)

Hoje, após os três dias de luto desde a derrota brasileira, a lembrança da Copa já começa a se cristalizar na memória do país e entrar para a história. Algumas coisas vão ficando claras:

1. Dunga, pelo jeito, não ficou para a história como vilão. Ele é um herói trágico, um anti-herói, da mesma estirpe de William Foster, que Michael Douglas interpretou em Um Dia de Fúria. Um homem obediente, na essência bom, mas desajustado, furioso, deslocado no mundo. Uma pessoa que teve mais azar do que sorte, mas que talvez deva muito de seu azar à raiva que carrega.

2. Em Um Dia de Fúria, William Foster é um ex-engenheiro de defesa do complexo industrial-militar americano que, depois de dedicar décadas a construir o sistema de matar de seu país, é descartado, demitido. Os ex-empregadores de Foster não aparecem no filme. Da mesma maneira, a CBF não aparece no filminho de Pablo Peixoto no Youtube. Mas acho que há um paralelo entre os dois personagens.

3. A Globo, as outras grande empresas de mídia e seus patrocinadores, que há décadas decidem o que o Brasil pensa sobre as coisas, precisam se acostumar com um papel novo, em que não há mais privilégios e um roteirista de Juiz de Fora é capaz de criar uma versão mais completa e interessante da história do que um editorial com tom embargado em horário nobre.

Eu preferia ganhar a Copa, claro. Mas derrotas são mais reveladoras.