Em meio à destruição

Cena da cidade de Palmares, mais de um mês depois da tragédia

Foto: Cia de Foto

Na última quinta-feira, aluguei um carro no aeroporto do Recife e dirigi para o oeste, serra acima, na companhia do hidrólogo Abelardo Montenegro e do fotógrafo Pio Figueiroa. Fomos até a nascente do Rio Una, na boca do sertão. O Rio Una é um dos dois que transbordou no mês passado, entre Pernambuco e Alagoas, deixando um rastro de destruição e arrancando da Terra mais de meia centena de vidas humanas. Entre quinta e sexta, percorremos de carro todo o curso do rio, da nascente à foz.

O que eu vi não tenho palavras adequadas para contar. No começo, perto da nascente, o rio é um fiapo d’água, e a destruição que ele causou é proporcional. Móveis estragados, eletrodomésticos perdidos, histórias apagadas, muita sujeira. Mas, à medida em que fomos descendo a serra, a coisa foi ficando pior. Visitei uma senhora cuja casa caiu em mais ou menos uma hora. Gente que perdeu tudo. Quarteirões inteiros demolidos pela água. E aí, já na sexta-feira, cheguei à cidade de Palmares.

Não vou nunca esquecer o que vi lá. A cidade foi praticamente inteira destruída. Da escola, em meio aos escombros e ao barro, sobrou um amontoado de cadeiras retorcidas. Meninos reviravam os montes de entulho que ficaram no lugar das casas em busca de algo que pudesse ser salvo. O hospital, abandonado, estava todo coberto de uma camada grossa de barro preto e fedido. Parecia que ele estava fechado fazia 100 anos, e não um mês. O barro, aliás, estava pela cidade toda, mesmo 40 dias depois da enchente. A água atingiu casas a 5 quarteirões do rio e foi bater no alto do segundo andar das casas. Na praça central, abriu-se uma cratera, entre a igreja e a prefeitura, por causa do chão que cedeu – uns 3 metros de profundidade, mais de 30 de comprimento.

Palmares se acabou.

Talvez você imagine que Palmares fosse um vilarejo de casebres frágeis de madeira. Não era. Era uma cidade de classe média, desses que se aproveitaram da recente prosperidade brasileira para subir segundos andares, comprar carros, tvs de lcd, computadores, eletrodomésticos. O prejuízo em bens materiais me pareceu incalculável. Pior ainda se for somar a ele os prejuízos indiretos mais subjetivos: as famílias rompidas, as doenças contraídas e agravadas, as sogras forçadas a irem morar com noras mal-humoradas, os empregos perdidos, as saúdes irreversivelmente abaladas, as amizades desfeitas, as sanidades mentais arruinadas etc etc etc. A impressão que me deu é que Palmares vai levar anos para se recuperar. E muita gente, claro, não vai se recuperar.

Depoimento unânime: ninguém com quem falei, nem os mais velhos, jamais viu algo parecido. Ninguém conseguia acreditar na força destrutiva da água. Uns aventavam a hipótese de que a responsabilidade fosse de diques estourados rios acima – só isso poderia explicar tanta violência. Mas, até onde pude investigar, não foi isso não. Ninguém soube dizer que diques eram esses. Os especialistas, inclusive Montenegro, desconfiam que a história dos diques seja só um boato que se espalhou empurrado pela sensação de que a natureza sozinha não seria capaz disso, e acabou chegando à imprensa. Ao que tudo indica, o que demoliu Palmares e tantas outras cidades foi mesmo a chuva.

Assim como o que está demolindo as casas na beira da praia que visitamos hoje de manhã perto de Olinda, em Paulista, foi mesmo o mar. Assim como o que está desertificando o sertão, para onde voo amanhã, é mesmo o sol. Difícil de acreditar, não é?

Nem tanto, se você tem acompanhado os relatórios do IPCC na última meia década. Todas essas tragédias estão de pleno acordo com as previsões de mais eventos extremos, mais chuvas concentradas, mais calor, mais mar se empilhando na costa. Tudo isso é exatamente o que se esperava de acordo com quem estuda as mudanças climáticas.

O Nordeste, de onde escrevo, é a região mais vulnerável do Brasil, por conta da precariedade da ocupação, o que é um exemplo da cruel ironia das mudanças climáticas: quase sempre, quem menos emite carbono é quem mais sofre com ele.

E aí? E agora? Pânico? Apocalipse? Ferrou? Dançamos?

Na verdade não.

Não tem como parar a chuva, o mar ou o sol – tudo isso tem mais energia do que a humanidade é capaz de contrapor. Mas tem como sair da frente de sua força destrutiva.

Tem como mover as pessoas que moram na beira dos rios morro acima, e encher as margens de mata reflorestada, que frea o avanço da água e ainda torna as cidades mais agradáveis. Tem como reflorestar o sertão e fazer com que as raízes da caatinga segurem os nutrientes no lugar. Tem como afastar as cidades da orla. Tem como se adaptar – se preparar. E assim prevenir mortes, destruição, prejuízos.

Custa caro e dá trabalho.

Mas, se você não quer ter trabalho e nem gastar dinheiro, é melhor nem ver o que vai acontecer se não fizermos nada.

12 comentários
  1. Maurício Bittencourt disse:

    Denis, q bela iniciativa cobrir as mudanças climáticas “in loco”; essa tragédia do Nordeste não teve a devida repercussão na imprensa. E vc contextualiza o problema em relação a todo o ambiente da região, e não apenas uma ou outra cidade. Abraço!

  2. Leonardo Xavier disse:

    Eu tinha ido para palmares alguns anos atrás e realmente quando mostraram as imagens da praça na televisão, foi custoso acreditar que era o mesmo lugar que eu tinha visitado.

  3. ricardo galvao disse:

    Morei 10 anos no Nordeste…pra resumir…Isto que você viu, era uma tragédia anunciada…”O nordestino é um forte” esta frase se ouve pelo Brasil à fora. Na verdade ele é, mas é também iludido, explorado, enganado e esquecido pelos governantes da região, que ainda vivem no sistema de Capitanias Hereditárias…nossa herança maldita. Nem um presidente nordestino resolveu, até porque não será “bolsa família” que resolverá esta situação. É a natureza calando a boca das autoridades….Denis, se você realmente se emocionou e está preocupado, basta fazer umas contas da verba que será disponibilizada para os governos ajudarem, e o que efetivamente será feito…fiscalize…e você verá… abração e parabéns dá gosto ver um jovem preocupado e atuante, só tenha cuidado o Feldman também foi….

  4. Lucas Migotto disse:

    A verdade é que, para as “otoridades”, não interessa investigar o ocorrido. E, infelizmente, esta tragédia ocorreu durante a Copa, o que ajudou e muito a encobertar as coisas.
    Parabéns ao Denis que procurou investigar o que realmente está acontecendo, se foram barragens, desmatamento ou ocupação irregular.
    Aliás, somente a Veja foi investigar de perto a situação, o resto da imprensa só ficou no “vamos ajudar”.
    Vamos ajudar sim aquelas pessoas, mas também vamos procurar saber o que aconteceu realmente. Não somos gados para comer e viver de acordo com o que as “otoridades” querem.
    http://veja.abril.com.br/noticia/brasil/a-origem-do-tsunami-que-varreu-o-nordeste

  5. Nada como ir (ou voltar) aos locais que hospedaram as tragédias para, depois da emoção, tratar racionalmente das causas, associar fatos e apontar (uma vez mais) os caminhos para solucionar os problemas ou minimizar os estragos. Que bom que vcs foram até lá. Agora quanto ao trabalho — certamente as medidas apontadas não são novidades, porém são caras, dão trabalho, etc… mas o que nós, ou a imprensa, podemos fazer? Seria interessante um trabalho – piloto sobre este “case” de Palmares, seguindo de perto os projetos que serão feitos, conseguindo parceiros privados para apoio, e comunicando isso de tempos em tempos? Sei lá. Concordo que as tragédias não podem ser esquecidas, mas seria excepcional saber o que pode ser feito… e disseminar isso para um monte de gente. Abraços

  6. carlos eduardo ferreira disse:

    Parabens pela materia, como colunista você não é apenas expressivo mas efetivo, de carater minucioso tu vai direto ao assunto sem enrolar linguiça e sem rodeios.
    fiquei gratificado em ler sua materia, e concordo plenamente com seu ponto de vista, continue assim

  7. Ianelle Mayalle disse:

    Eu queria muito ajudar essas pessoas mais ñ posso, e muita tristeza e doi eu sai de caruaru só para ir visitar klá é tudo muito triste!

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