Nosso sistema é burro – precisamos de um outro

Imagine que tem dois cestos de frutas em cima de uma mesa. Um deles contém uma centena de maçãs vermelhas (é o da foto abaixo). O outro tem a mesma quantidade de frutas, mas elas são variadas: bananas, ameixas, peras, goiabas, melões, graviolas, mamões, cerejas. E maçãs. A pergunta é: qual dos dois cestos é o mais rico?

Do ponto de vista da biologia não há muitas dúvidas de que o mais rico é o segundo. A evolução, que é o motor da vida no planeta, favorece a diversidade. É assim que ela opera: criando mais e mais variações. Num ambiente rico – onde há muita energia e nutrientes – a diversidade será certamente imensa. É por isso que florestas tropicais têm tantas espécies. Pouca diversidade é sinal de crise, de carência de nutrientes, de pobreza.

Mas, desde a revolução industrial, a humanidade apostou no caminho oposto: o da supressão de diversidade. Isso porque, com menos opções, fica mais fácil padronizar processos e produzir em grande escala, reduzindo custos e aumentando margens de lucros.

Há sobre a Terra algo como 80.000 plantas comestíveis. Mas a humanidade usa apenas 30 delas para suprir 90% das calorias da dieta. Há pelo menos 1 milhão de espécies de animais, mas apenas 14 delas compõem 90% do nosso cardápio. Metade de todos os medicamentos que existem no mundo vêm de substâncias naturais e, ainda assim, só testamos 1% das plantas do mundo para determinar se elas têm potencial farmacêutico.

Pegue um hectare da Amazônia – o equivalente a um campo de futebol. Em média, nesse espacinho, há 200 espécies diferentes de árvores, 1.300 espécies de aves, 1.400 espécies de peixes, 300 espécies de mamíferos. Estou falando apenas de um hectare: no hectare ao lado as árvores, os peixes, as aves e os mamíferos são outros, muitas vezes completamente diferentes. Numa só planta amazônica, é possível encontrar até 80 espécies diferentes de formiga.

Até hoje, para explorar esse hectare, seguimos a lógica industrial: cortamos tudo, separamos as pouquíssimas espécies de madeira com valor comercial e queimamos o resto. No lugar, tentamos fazer com que haja uma espécie vegetal só – geralmente capim para alimentar uma única espécie animal, a vaca.

Interessante é que a estratégia de suprimir diversidade está presente em várias esferas do nosso sistema econômico, não só no uso da terra. Veja por exemplo as políticas de recursos humanos das grandes empresas. Lembro que fiz um curso de “gestão de pessoas”. O consultor de RH, supostamente um psicólogo, nos ensinou que só há quatro tipos de pessoas e que nosso trabalho como gestor é identificar de que tipo cada um na equipe é e tratá-lo propriamente.

Outro exemplo: a lógica de nossas cidades é pensar em deslocamentos de grandes grupos de pessoas. Para isso se criam linhas de ônibus e vias para carros. Mas não se leva em conta que pessoas diferentes gostam de se deslocar de formas diferentes, e não se abre espaço para alternativas. Cidades que têm grande diversidade de opções de transporte, como San Francisco e Copenhague, tendem a ter menos trânsito e um espaço urbano mais feliz.

O que estamos fazendo em todas essas esferas é a mesma coisa. Pegamos cestos cheios de frutas variadas, separamos as maçãs e jogamos o resto fora. É desperdício. É abrir mão da riqueza para viver com escassez. É pouco inteligente. Com o avanço tecnológico que alcançamos, em especial no que se refere às tecnologias da informação, poderíamos fazer melhor que isso. Poderíamos inventar um sistema que preserve a diversidade enquanto produz.

44 comentários
  1. Luna disse:

    Voce esta’ certissimo Denis…um hectare de pasto enriquece poucos e empobrece a o planeta inteiro.Ainda bem que sou vegetariana.

  2. Cláudio disse:

    é verdade, comer só maça não é tão nutritivo quanto uma alimentação mais balanceada … pena que os políticos não pensam assim …

  3. reynaldo moreira disse:

    Parece óbvio, mas não custa repetir, um sistema é um sistema enquanto existe como tal. Sistemas possuem características intercruzadas que o mantêm de pé. O sistema feudal se caracterizava, entre outras coisas, pela primazia da religião, pelo trabalho servil, pela baixa produtividade de cunho artesanal e pela vida no campo. O sistema capitalista, que o revolucionou, também tem elementos típicos, que o definem como tal: exploração do homem pelo homem na forma mascarada do trabalho assalariado, produção industrial, ambientalmente irresponsável, crescente urbanização, crescente isolamento individualista, lógica do lucro engendrando a massificação tanto de produtos como de consumidores, estupidificando para vender mais produtos estupidificadores, etc… A padronização de alimentos de que fala a coluna da semana se enquadra dentro desta lógica do lucro, característica do sistema capitalista. Não é possível pensar uma sem a outra e não há solução, em ampla escala, para a primeira, sem uma mudança radical na segunda, sem uma mudança radical em nosso modo de produzir-consumir. Busque em arquivos cenas de TV do centro de Pequim em 2000, há dez anos atrás: um mar de bicicletas. Busque cenas de agora e se verá um trânsito de veículos mecânicos idêntico ao de Lagos, Cairo ou São Paulo. Considere que esse crescimento é exponencial: X nos últimos dez anos gerando 5X nos próximos dez. Imagine quando, em 2020, um terço de chineses puder comprar uma caminhonete 4.0 para que a madame leve o poodle ao veterinário e depois passe para pegar na escola a criança entediada. Pense quando esse novo rico chinês, muito além de suas necessidades diárias para sobreviver, estiver exigindo quatro vezes mais aço, quatro vezes mais plástico, borracha, combustível, gordura hidrogenada, cirurgias plásticas, etc., do que o que seria razoável. Muito antes que as boas iniciativas apontadas por Denis venham purificar o sistema capitalista, ele terá implodido por não enfrentar suas contradições de forma ampla e radical, o que certamente não é um motivo para que essas iniciativas não sejam implementadas. Todavia, pelo simples exemplo da China (há tantos outros!) a transformação essencial de nosso modo de produção não é um luxo, meus amigos, é uma necessidade urgente, digo isso com extrema infelicidade, muito amedrontado, e não pelo gosto pueril da polêmica. Quem quiser tapar o sol com a peneira, fique à vontade.

  4. Isabel disse:

    É isso aí Denis, vamos comer pequi, uxi, buriti, macaúba, cagaita, abiu, puçá, araçá, umbu, pitomba, jaracatiá, murici e também taioba, orapronobe, inhame e cará!

  5. Muito bom entender como a diversidade pode nos dar um espaço urbano mais feliz e uma alimentação mais balanciada. Mais que isso, como a diversidade é algo inerente a natureza e, nós tentamos arrancá-la em nosso sistema. Gostei muito do texto.

  6. André Luis disse:

    Em primeira análise a diversidade só tem a contribuir, no transporte por exemplo, se todos usassem o metrô … uhhhh que caos seria… e ainda em um dia anormal como foi hoje na linha vermelha PEOR (peor = força de expressão), há um vídeo muito legal tratando da interação dos transportes (http://www.youtube.com/user/IBMbrasil?v=DofCL36dzWU&feature=pyv&ad=5721484884&kw=IBM%20planeta#p/u/61/xvlksON0zrU)
    Acredito que grandes mudanças acontecem quando há competitividade, o que não deve ser um fator de existência… estudo Arquitetura e há uma exigência enorme para que haja competividade, mas de uma forma sadia: a diversidade de trabalho deve inspirar trabalhos melhores …
    E Goiaba vai bem ;))

  7. Antonio disse:

    Denis, você poderia, por gentileza, citar a(s) fonte(s) dos números mencionados no quarto e quinto parágrafos?
    Grato.

  8. Antonio disse:

    Reynaldo Moreira, você mantém algum blog, site ou algo do gênero? Passa aí o endereço prá gente…

  9. reynaldo moreira disse:

    Antonio, meu blog é móvel, sempre que tenho um tempinho livre gosto de tirar o sono dessa turba de jornalistas bem pensantes e escrevo frequentemente para tipos ligeiros como Helio Schwartsman e Sérgio Malbergier, da Folha de São Paulo (os mais pesados, mais velhacos, nos ignoram, sequer fingem dialogar). Ataco também revistas como a Caros Amigos, que sobrevivem de vender o discurso boboca do socialismo. Não sou um ideólogo, como vão tentar me pintar para lidar mais facilmente com minhas idéias, uso as ciências humanas e o marxismo para dar um diagnóstico incômodo da sociedade capitalista em que vivemos e isso irrita certas pessoas, que gostam de transitar apenas dentro do discurso charmoso da sustentabilidade, pois ele ajuda a vender revistas, o meu não, nem as ditas “de esquerda”. Mas devo dizer que, apesar de minha oposição, respeito os esforços de Denis Russo e não o equiparo a sujeitos como os citados acima ou outros, muito piores, que escrevem para essa mesma Veja e não possuem propriamente idéias mas interesses defendidos com ferocidade, interesses que nem são os deles, pois colunistas da grande imprensa geralmente são apenas peões intelectuais, mas os grandes interesses, você sabe, os interesses da classe dos patrões, dos donos do poder, dos donos do dindinzão. Denis RB me conhece bem pois há muito me correspondo com ele e já tenho um arquivo de quarenta páginas reunindo nossos diálogos via email. Ele sabe o valor de minhas idéias, apenas anda se enervando com elas desde que resolvi postar aqui meus comentários, ao invés de contrapô-las com fundamento (vide nossas últimas intervenções na postagem anterior). Não entendo porque essa agressividade, eu não mereço. Ah, e estou usando o rico material que recolho ao provocar esses caras para escrever um romance ambientado na grande imprensa escrita. Quando for publicado, te convido, tá bão, amigão? Vou fazer isso pessoalmente porque não vai sair nas grandes revistas e jornais. Eles vão fazer em torno de meu livro o “muro de silêncio” que, nas palavras de Marx, fizeram em relação à primeira edição de “O Capital”. Certas pontos de vista perturbadores jamais se publicam na grande imprensa, anote aí. Mas como gostam de posar de democratas abrindo brecha para a publicação de comentários, então toma!!!

  10. denis rb disse:

    🙂
    valeu, reynaldo
    Não estou irritado não, peço desculpas se pareceu que estou. Aprecio sua colaboração. Mas insisto em dizer que acho que vc está menosprezando um aspecto importante do debate: construir um ambiente criativo não é uma mudança sutil. É uma revolução: maior do que aquela que se faz quando se alterna entre o privatismo autoritário e o estatismo autoritário.

  11. Antonio disse:

    Grato, Denis, pelas informações. Vou ajudar a espalhar os números que você mencionou em seu artigo (citando o seu blog e as fontes originais, claro!)

  12. Antonio disse:

    Muito bem, Reynaldo Moreira! Me avisa quando tiver publicado sua obra; terei grande prazer em lê-la. Aprecio sobremaneira esta visão “prismatizada”, tão necessária e tão escassa.
    Falando em mídia, aí vai o link para acesso a um interessante trabalho redigido pelo professor Paulo F. Liedtke: http://www.emtese.ufsc.br/c_Paulo.pdf

  13. reynaldo moreira disse:

    Denis, acho que já deu para reparar que não estou do lado de autoritarismo nenhum, de direita ou de esquerda, estou do lado do conhecimento, e ele, infelizmente, nos dias em que vivemos, revela que estamos num beco sem saída. No caso específico de seu último post, eu quis deixar claro uma coisa: a padronização está longe de se restringir ao campo das frutas e demais produtos da agro-indústria, ela abrange todos os produtos industriais e serviços, automóvel, brinquedo, peito e bunda de silicone, televisão, cinema, editora, internet (há aqui uma ilusão de diversidade, mas isso é outro assunto, para depois). Você sabe disto muito bem. A questão é: o que determina tal padronização? É quando peço socorro ao marxismo (que, em muitos outros aspectos, certo, provou estar equivocado): primeiro, o dinheiro, meio universal de troca que tende a reduzir tudo que toca, como na lenda do Rei Midas, à mesmice sensaborosa; segundo, mais recentemente, o lucro nos moldes capitalistas. Funciona assim: padronização é produtividade e simplificação, a simplificação facilita a massificação, a massificação determina perda de sentido, estupidificação, estupidificação gera consumo inconsciente que por sua vez produz lucro que produz estupidificação que produz lucro. O marxismo e depois a antropologia estruturalista nos ensinam a ver os fenômenos sociais de forma interligada, formando sistemas, e sistemas podem ser aperfeiçoados setorialmente mas a tendência a longo prazo é que eles, por sua força centrífuga, assimilem toda e qualquer iniciativa que caminhe no sentido contrário. Assim só há uma forma de transformá-los de forma definitiva: radicalmente, criando novos sistemas. Como isso pode ser feito na atualidade? Não sei, infelizmente. Qual o primeiro passo para que isso seja feito? Aperfeiçoando, sutilizando a crítica marxista e as ciências sociais em geral e revelando suas conquistas ao grande público, sem mascaramentos, para que ele possa avaliar os problemas que vivemos em profundidade e tome sua decisão de forma esclarecida. Conhecimento doloroso não é simpático, não vende revistas de direita ou de esquerda, você não pode fazê-lo dentro do contexto da revista de ultra-direita em que escreve. Então deixa que eu faço isso nesse blog-comentário. No mais, antes de querer te pautar, tudo o que eu tenho pedido insistentemente é que Vossa Excelência contextualize sua crítica: toda iniciativa que procure humanizar o sistema é benvinda, porém vai sucumbir, em curto prazo, a sua força centrífuga. Se não mudamos radicalmente nosso modo de produzir e consumir, no período de uma geração o capitalismo predador (de pessoas e recursos naturais) vai entrar em colapso. Pense um único evento: os aviões de 11 de setembro atacando não os símbolos do capitalismo mas sua força motriz, duas ou três grandes usinas atômicas. Ou pense que, daqui a uma década, quinhentos milhões de chineses ter-se-ão transformado em estúpidos e arrogantes burgueses de classe média, à moda americana. A revolução não é um luxo, é uma necessidade urgente. Já é uma necessidade humana, mas vamos tapando o sol com a peneira. Em breve, à beira do colapso, vai se tornar uma necessidade material, anote aí.

  14. reynaldo moreira disse:

    Acabei de entrar no site indicado por Antonio, muito obrigado. É uma tese acadêmica que demonstra o poder do dinheiro atrás da grande mídia, nem um pouco livre, nem um pouco democrática, como apregoa. É o tipo de conhecimento incômodo que não alcança o grande público e sugiro que o leitor entre lá e dê uma olhadinha. O buraco é mais embaixo.

  15. João Fernando disse:

    Nesta atmosfera de filmes e novelas espíritas, arriscaria dizer que Reynaldo seria a reencarnação de Engels, e que ao ler nesta vida a obra do seu antigo amigo Marx, reavivou em seu interior a necessidade pela revolução.
    Esta revolução já estava sendo arquitetada aos poucos em sua cabeça, porém com o inflamação que seu ego sofreu nos últimos comentários deste post, ele decidiu a data e local da revolução: 03/10/2010 em Brasília.
    No poder, o General Moreira tratará de tirar os empresários do poder e passá-lo para os operários, para que eles possam aproveitar da riqueza que geram.
    Porém aos poucos será notado que a motivação das pessoas não é mais a mesma, que não se há mais inovações, que a criatividade não é mais necessária porque não há mais sonhos para serem perseguidos.
    Mas nosso General Moreira, estará convicto que fez o melhor para a sociedade, e inconscientemente se tornará um déspota por causa do sentimento de autorrealização.
    Como sempre existirão revolucionários (ainda bem, pois eles são os responsáveis por estarmos em uma sociedade bem melhor do que já estivemos antes), começarão a aparecer comentários contra a nova forma de governo, que nosso General tentará oprimir com medo de voltarmos ao capitalismo predador de outrora. Inclusive blogs serão fechados, por causa de um jornalista que tentará mandar uma carta aberta ao General.🙂
    Vale lembrar que tudo isso que eu escrevi, é uma brincadeira. Pois apoio que o sistema atual deve ser mudado, visto que ele não é nem um pouco sustentável, e por causa disso colapsará quando ultrapassar o horizonte de eventos do buraco negro consumista.

    Afinal, o que eu queria reforçar é a necessidade de testes. Digo isso, porque não há nenhuma mente, por mais brilhante que seja, capaz de estimar os efeitos de cada pequena variável que compõe o mundo real. O Marxismo é perfeito na teoria, mas até hoje não vingou, a Escola Plural daqui de BH idem.
    Teste, começando em pequena escala, corrigindo os erros e depois crescendo, só assim para realmente mudar algo.

  16. denis rb disse:

    Interessante isso que o reynaldo diz: que há uma padronização global disfarçada de diversidade. Mais uma vez, a comida é um bom exemplo. Se você passear pelo supermercado, vai ter a sensação de que nunca na história tivemos acesso a uma diversidade tão grande de comidas. Mas, se parar para olhar os rótulos, vai notar que, no fundo, todos aqueles produtos são combinações das mesmas 30 plantas e 14 animais. Há uma falsa diversidade.

  17. denis rb disse:

    E não discordo do reynaldo quando ele diz que estamos num beco sem saída. Por isso mesmo, este blog se dedica a discutir maneiras de desviar o curso. Não é um blog criado para lamentar – ele foi criado para procurar saídas. Não uma saída só, geral, um novo sistema que salve o mundo todo. Mas pequenas saídas, diversas e variadas, para que cada um de nós escolha a sua.
    O João Fernando falou a palavra-chave: testes. O que precisamos não é de um novo sistema. Precisamos é de brechas no sistema, para que cada um possa procurar alternativas.

  18. hacs disse:

    Oi Denis,

    Concordo com a ideia geral do post, mas o uso da palavra escassez se referindo aa diversidade, ao inves da quantidade, me chamou a atencao. Fiquei matutando sobre quais sao as dependencias entre esses dois conceitos. Ate que ponto a escassez no primeiro sentido eh resultante da escassez no sentido mais usual, e vice-versa. Somos tao burros assim?

    Na natureza, a diversidade eh consequencia do “acaso” e de bilhoes de anos de selecao segundo criterios dinamicos (e aleatorios em certa medida tambem). Pelo menos eh isso o que sei sobre evolucao (nao sou nenhum especialista no assunto). A longo prazo, algumas especies geradas sao mais robustas (adaptaveis), o homem por exemplo, e outras extremamente especializadas, vulneraveis, as quais serao substituidas em algum instante (como varias outras no passado).

    Na natureza, apesar da diversidade de especies, cada especie nao eh tao diversa no uso dos recursos existentes, podendo se extinguir em meio a abundancia (no sentido da diversidade) se os recursos de que depende se tornarem demasiadamente escassos (no sentido da quantidade). Ja o homem, especie muito mais flexivel, so correria risco de extincao sob condicoes muito mais severas (um colapso geral).

    O equilibrio desse processo parece consistir em especies robustas e duradouras existindo junto a especies especializadas que sao rapidamente (tempo geologico) substituidas (destruicao criativa?).

    A diversidade me parece a consequencia de um processo interminavel de ensaios aleatorios que gera uma externalidade: cria novas especies. Especies mais robustas (o homem por exemplo) eh uma externalidade que a infindavel criacao de novas especies produz apos um tempo suficientemente longo. Assim, somos a externalidade da externalidade (rs).

    Resumindo, o valor da diversidade, da forma como eu entendo, esta na possibilidade de gerar algo mais duradouro (robusto), nao na diversidade presente. Preservar o mecanismo que gera a diversidade me parece mais importante, e esse parece estar funcionando perfeitamente bem.

    Quanto aa questao especifica da diversidade existente hoje em dia, acredito que eh um problema de “trade-off”. Ou seja, com o conhecimento que temos, as necessidades presentes, os recursos existentes (os financeiros tambem) e gostos/habitos vigentes, compensa “produzir” mais determinados tipos de bens em “detrimento” de outros (na fronteira, em que mais de um implica menos do outro).

    Abs

  19. denis rb disse:

    hacs,
    O que eu quis dizer é que a evolução não caminha necessariamente na direção de gerar mais e mais diversidade. Em períodos de abundância, a diversidade aumenta. Em tempos bicudos (glaciações, impactos de meteoros), ela se reduz. Em outras palavras: aumento da diversidade é sinal de que as coisas vão bem. E o mundo hoje, enquanto comemora recordes no PIB, está passando por uma brutal redução da biodiversidade. (Não é coincidência: estamos fazendo uma grande liquidação de biodiversidade para turbinar o PIB. Mas comércio nenhum consegue estender indefinidamente uma liquidação.)
    Uma coisa sobre o seu raciocínio: eu não diria que o homem é uma espécie robusta. Somos sim onívoros, como o rato. Comemos de tudo, o que facilita nossa adaptação, e temos boa tolerância à variações climáticas (ao contrário de muitas espécies tropicais extremamente especializadas). Mas somos uma espécie bastante recente no planeta – temos só 100.000 anos. Nada indica que nosso tempo na Terra será maior que o do jacaré, do tubarão, da formiga. Temos adaptações extremamente úteis que podem ser utilizadas para prolongar nossa existência na Terra: a consciência, a alta capacidade cerebral. Será que, num momento de crise sistêmica, saberemos usar essas adaptações evolutivas a nosso favor?

  20. hacs disse:

    Oi Denis,

    A robustez da especie humana nao eh um mecanismo especialista com alguma(s) funcao(oes) especifica(s) pre-programada(s) no processo evolutivo (em geral, na forma de um instinto), mas a nossa capacidade de pensar, planejar, equacionar e resolver problemas em geral, o que nos da a impressao de sermos “diferentes” dos outros animais. De fato somos, mas eh uma questao quantitativa, nao qualitativa, pois varios de nossos tracos estao presentes em especies mais primitivas. Contudo, apesar dessa aparente similaridade, esses tracos, nessas especies, nao conseguem produzir algo sequer proximo do que somos capazes. Assim, se tubaroes, jacares, etc, sao especies de longa existencia, isso deve ser atribuido ao acaso (o ambiente que habitam nao mudou tanto assim), nao a uma capacidade de adaptacao consciente e planejada, ou aa modificacao intencional do ambiente como resultado do calculo explicito. Um exemplo claro disso eh o continuo aumento da capacidade de vivermos em ambientes extremos mesmo sem possuirmos os mecanismos especificos de certas especies que habitam esses lugares. No extremo, em alguns seculos habitaremos o espaco (luas, planetas, etc), mas sendo mais prosaico, experimente deixar um jacare na Antartica ou um tubarao no Sahara (rs). Ja li muitos textos que nao consideram nosso cerebro como um mecanismo generico de adaptacao e robustez resultante da evolucao. Mais ainda, ja li textos em que, implicitamente, a nossa capacidade de raciocinio eh vista como uma “trapaca” contra a natureza (rsrs). Concordo que nao surgimos a tanto tempo quanto certos tubaroes, mas nao eh dificil concluir que estaremos por ai daqui a 500 milhoes de anos, talvez com algumas modificacoes, mas o cerebro humano (ou algo mais sofisticado ainda) veio para ficar, inclusive por que eh capaz de contornar boa parte da pressao evolutiva. Tubaroes e jacares nao tem “cacife” evolutivo para por o planeta em risco (rsrs), mas nos podemos destrui-lo de varias formas (guerra nuclear e superaquecimento sao so duas entre outras possibilidades que criamos). Para ser bem honesto, nao seriamos uma ameaca ao planeta se fossemos uma das especies vulneraveis, dai a nossa responsabilidade (a velha dupla poder-responsabilidade). Poderiamos ter o poder que temos sem sermos dotados, tambem, da capacidade de refletir sobre o que esse poder representa?

    Abs

  21. EDESIO VIANA disse:

    NA MINHA REGIÃO EM MINAS GERAIS TEMOS UMA GRANDE EMPRESA Q SE DENOMINA GRANDE DEFENSORA DO MEIO AMBIENTE.ERRADO,SE FAZ DE BOAZINHA MAS UTILIZA DA MAQUINA PUBLICA PARA FAZER UMA POLITICA AMBIENTAL SO NO PAPEL INFELIZMENTE SOMOS DO INTERIOR POUCO VISTOS E A CADA ATITUDE VAMOS SENDO LUDIBRIADOS GOSTARIA DE UMA MATERIA DESTA REVISTA E QUE INVESTIGASSEM TAIS FATOS ACELOR MITAL DESMATA AREAS DE PRESERVAÇÃO EM TIMOTEO MINAS GERAIS

  22. reynaldo moreira disse:

    Eu avisei que iam querer me enquadrar como autoritário de esquerda para ficar mais fácil lidar com o incômodo que provoco a partir desse enquadramento. João Fernando, você não me conhece pessoalmente e duvido que gostaria que eu te chamasse de general após subverter seu modo de pensar, nem de brincadeira. Leia com menos pressa meu texto e mais coragem. O que não vingou foi a deformação política das teses marxistas, há sempre um idiota para diminuir uma idéia com uma prática imediatista e interesseira. Felizmente, esse golpe está sendo debelado também pela prática. O marxismo como ciência vai muito bem, obrigado, progride sem cessar, é estudado em universidades pelos quatro cantos do mundo, é um dos fundamentos das ciências sociais modernas, adquiriu contributos importantes de diversos campos, como a antropologia, se afina, se aperfeiçoa a cada dia. “O Capital” é um dos livros mais lidos do planeta apesar dos esforços para enterrá-lo de vez no lixão da história e se você acredita que as milhões de pessoas que buscam se informar em suas páginas são idiotas retrógrados autoritários, deve haver alguma coisa de errado com sua mente, meu caro, cuidado. Uma sugestão: vai estudar. Denis, quanto à questão de reclamar, não estou reclamando de nada, por favor não diminua minha intervenção. Eu não diminuo a importância dos “testes” de que você fala, leia meus comentários, está tudo lá. Apenas, o que estou afirmando é que não há tempo, o ritmo da degradação é acelerado. Repito: o dia em que a China e a Índia somarem um bilhão de burgueses indo buscar o poodle no veterinário com uma caminhonete 4.0, o sistema vai implodir. E esse horizonte já pode ser avistado, basta levantar os olhos. A mudança radical de nosso modo de consumir e produzir não é um luxo, é uma necessidade urgente.

  23. João Fernando disse:

    Reynaldo,
    Acho que você não chegou ao final do meu texto, ficando logo irritado com a minha comédia, e tratando logo de explicá-la cientificamente. Isso é o mesmo que explicar a impossibilidade física dos quadros de Salvador Dalí.

  24. João Fernando disse:

    Só mais uma coisa que eu esqueci de comentar. Desde que eu tirei o diploma de graduação, eu só estudo o que me interessa.
    No momento estou lendo Declínio e Queda do Império Romano de Edward Gibbon. Se vier a me convir eu estudarei sobre o marxismo, e não porque alguém me diz que eu deva estudá-lo.

  25. Mariana Kapps disse:

    Olá Denis!
    Faço vídeos curtos (3min em média) para incentivar a visão sistêmica do mundo.São mais de 20 vídeos.Também tenho um blog para trocas e empréstimos e escrevo no twitter sobre consumo consciente.Fiz um vídeo que se chama Diversidade e Espiritualidade com o ambientalista Celso Sanches que tem tudo a ver com seu texto.O link é:
    http://videolog.uol.com.br/mkapps/videos/345597
    Até!
    Mariana Kapps

  26. Janine Stecanella disse:

    Oi Denis! Teu texto novamente me lembrou de um problema sério em Caxias, as ciclovias. No inicio do crescimento da cidade ela foi pensanda de uma forma. Hoje, muito maior em tamanho e pessoas, é muito difícil desenvolver um projeto que contemple as vias urbanas com ciclovias. E não é um problema da administração X ou Y. Além disso, as cidades da Região buscam a reconstroção de um trem regional, que serviria de transporte de pessoas e também de cargas. Esbarramos em outro problema de estrutura. As cidades crescem muito mais do que seus moradores imaginam e isso nem sempre é um bom sinal.

    Abraço!

  27. Cínthia disse:

    Sonho com um governo que vai além do mero ‘conceito” de sustentabilidade. cansei de ver empresas usando os recursos energéticos de forma desregrada e pousando de defensoras do meu ambiente. Cansei de um país que é exemplo pela sua fonte de energia limpa(hidrelétricas), defende um programa de substituição do petróleo e fica saltitante, contando os milhões, bilhões que irão conseguir com a obtenção desse produto. Nós podemos mais, nós podemos ir além. estamos parecendo robozinhos. Verdadeiros marionetes de um sistema psicótico. acorda Brasil… Foram dois palmos de granizo em São Paulo, enchentes no Nordestee,, seca no Centro-oeste. Acordaaa Brasil

  28. Mauricio - Porto Alegre disse:

    Belo artigo! Parabéns! Sinto pela falta de esperança, excesso de realismo ou conformismo de muitas pessoas que acham que o sistema que temos é esse e acabou. Pensam que devemos nos adaptar a ele e tirar o máximo proveito; entender bem as regras para jogar na vantagem. Acredito que o mundo precisa de grandes mudanças e de pessoas que tenham coragem para começar a mudar. O potencial está aí!

  29. Luiz Silva disse:

    Ao mesmo tempo que leio a sua coluna, uma chamada no site da Veja diz: “Incêndio em favela da Zona Sul de São Paulo complica trânsito”. Acho que esse título resume o pensamento que governa essa cidade de privilegiar o carro sobre todas as outras coisas – até mesmo a vida dos seus habitantes.

  30. Felipe disse:

    aehuaehua Essa do Luiz foi foda…Não importam os feridos, como estão as pessoas e suas casas e sim como os carros vão se locomover. Lamentável!

  31. Chesterton disse:

    Esse texto foi a verdadeira mistura de alhos com bugalhos…

  32. Chesterton disse:

    Luiz Silva, o transporte barato foi a mola propulsora de nosso tempo de abundância. Dentro de carros e ônibus existem seres humanos, assim como dentro das favelas, não é contradição alguma.

  33. Chesterton disse:

    Há sobre a Terra algo como 80.000 plantas comestíveis. Mas a humanidade usa apenas 30 delas para suprir 90% das calorias da dieta.

    chest- vai ver elas tem um gosto péssimo.

    Há pelo menos 1 milhão de espécies de animais, mas apenas 14 delas compõem 90% do nosso cardápio.

    chest- achei que isso faria você feliz. Se bem que você pode ter razão nesse ponto, o fato de um animal ser comestível garante a sobrevivência de sua espécie, pois os humanos vão cultivá-los.

    Metade de todos os medicamentos que existem no mundo vêm de substâncias naturais e, ainda assim, só testamos 1% das plantas do mundo para determinar se elas têm potencial farmacêutico.

    chest- custa muito caro fazer um remédio. Os laboratórios podem vender com lucro por 5 anos, depois vem os outros e os copiam na maior pirataria. A menos que você queira que o dinheiro dos contribuintes vá apenas para a pesquisa médica – o que causaria um empobrecimento geral do povo – é inviável.

  34. Vinicius Koehler disse:

    Dennis, será que você conhece as idéias do movimento zeitgeist (www.mzbr.com.br) e a Economia Baseada em Recursos. Se não, saiba que as afinidades entre o seu texto e as idéias do MZ são impressionantes! rsrs

  35. Monica disse:

    Vinícius, assisti a dois vídeos do zeitgeist este fim de semana e tbm fiquei bastante mobilizada com a riqueza de informações, mas tbm um pouco atordoada…por essas, e pelo tanto de coisas bacanas que tenho lido e compartilhado, cada com menos paciência para pessoas com a ‘qualidade’ de idéias e comentários como os de chesterton. êta visão distorcida e limitada do mundo! como disse o Denis aqui uma vez, ‘deve ser muito ruim ver o mundo com seus olhos’, mesmo que seja de dentro de um apt da zona sul carioca!!
    gostei muito do texto, Denis, só ressaltando que a ‘supressão da diversidade’ não é consequencia, mas condição para as diferentes revoluções industriais, bem como a escassez. entendo qdo diz que precisamos inventar/construir pequenas rachaduras,linhas de fuga, mas concordo com o reynaldo sobre a necessidade urgente de novas formas de produzir, distribuir e consumir…

  36. Chesterton disse:

    Monica, com todo respeito, *&¨&¨¨%$$#@#$%.
    Já que vocês adoram dar palpites sem conhecimento de causa, recomendo um livro interessante sobre como a humanidade em sua evolução precisou de certos alimentos cozidos, inclusive carne, para desenvolver neurônios.
    http://www.amazon.com/Catching-Fire-Cooking-Made-Human/dp/0465013627
    Talvez exista alguma tradução.

  37. denis rb disse:

    Nossa, Chesterton, que confusão vc fez com argumentos dessa vez… Vamos lá, por partes:
    – obviamente as plantas de gosto ruim tendem a ficar fora do cardápio, mas não é esse o fator determinante. A característica principal das 30 escolhidas é a produtividade. As que privilegiamos são geralmente capins, que crescem muito rápido e se adaptam facilmente a qualquer ambiente. Nada contra consumir capins, mas a lógica da humanidade tem sido substituir florestas por capim. Tudo contra isso.
    – sobre os animais, realmente não entendi nada. Achou que isso me faria feliz? Como assim?
    – sobre os medicamentos: óbvio que não estou sugerindo que se gaste o PIB do mundo desenvolvendo medicamentos. O que estou dizendo é que devíamos nos esforçar para conhecer o potencial das espécies existentes antes de extingui-las. E que estamos reduzindo biodiversidade de maneira brutal sem saber do valor dela.
    – sobre o comentário do Luiz Silva: o que ele está dizendo é que, diante de uma tragédia humana, a imprensa achou que a notícia mais importante é o fato de o trânsito ter ficado mais lento. Nada contra o trânsito fluir, mas pessoas são mais importantes que carros, óbvio.

  38. denis rb disse:

    Oi Vinicius,
    Não conhecia não, vou olhar com calma. Obrigado!

  39. Chesterton disse:

    Leia o livro e verá que quando nos tornamos omnivoros ficamos dependentes de alimentos com alto teor calórico. A produtividade conta, mas dentro dessa gama de alimentos calóricos.

  40. denis rb disse:

    Chesterton,
    Na verdade é exatamente o contrário do que você está dizendo. Veja só: a invenção da agricultura foi fundamental para a história da humanidade. Foi o que nos permitiu nos fixarmos, e criarmos nossas primeiras cidades, há quase 5 mil anos. Mas ela foi acompanhada de uma imensa carência nutricional que pode ser verificada nas ossadas de humanos do período. A diminuição da diversidade da dieta custou caro à saúde – um custo obviamente mais do que compensado pela diminuição do risco da vida nômade.
    “Nos tornamos onívoros”? Como assim, Chesterton? Sempre fomos onívoros. A não ser que o livro ao qual vc se refere seja a Bíblia (que instituiu o mito do nosso passado vegetariano).

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