Por que nossas cidades não mudam?

Enrique Peñalosa foi prefeito da cidade de Bogotá, capital colombiana. Bogotá era um inferno, uma cidade arrasada pela violência, de baixíssima auto-estima, sinônimo de lugar ruim. Peñalosa foi um dos líderes de um renascimento que levou os bogoteños de volta para a rua e transformou a cidade numa surpreendente história de sucesso de renascimento urbano. Hoje, ele mora em Nova York, onde é presidente da ITDP, o Instituto para Políticas de Transporte e Desenvolvimento, uma organização mundial dedicada a melhorar os espaços urbanos e a mobilidade das pessoas nas cidades do mundo.

O ITDP de Peñalosa contratou o Jan Gehl Architects, um escritório de arquitetura de Copenhague, na Dinamarca, para fazer um projeto para o centro de São Paulo. Já falei do Jan Gehl aqui. Ele é o arquiteto que, nos anos 60, começou a transformar Copenhague na cidade que é hoje: cheia de gente na rua, mais dependente das bicicletas do que dos carros. Seu escritório está por trás de muitas das histórias de sucesso das grandes cidades da atualidade: as ciclovias de Londres, o renascimento do centro de Melbourne, as cadeirinhas da Times Square, em Nova York.

Enfim, juntou-se um “dream team” do novo urbanismo mundial para dar ideias para São Paulo. Os arquitetos do escritório de Gehl resolveram dedicar-se a transformar a região do Anhagabaú no centro vivo da cidade, um lugar onde a cidade toda se encontraria. Eles passaram semanas observando o jeito como as pessoas se relacionam com o espaço, entendendo o papel de cada um lá: os mendigos, as prostitutas, os policiais, os meninos de rua, os trabalhadores, os executivos, os camelôs. Ao final, eles propuseram um projeto lindo. Fiquei morrendo de vontade de passear pelo novo Anhagabaú.

Mas provavelmente não vou ter a chance. São Paulo recusou o projeto do dream team dos urbanistas do mundo. As ideias deles servem para Bogotá, Londres, Nova York, Copenhague, Melbourne, mas não para nós.

Por quê? Por quê São Paulo – e muitas cidades brasileiras – são tão refratárias a ideias inovadoras? (Mês passado escrevi uma carta aberta ao prefeito Kassab sobre uma outra ideia para a cidade, de um grupo de jovens arquitetos que oferecia o projeto de graça à cidade. Não mereci nem resposta do prefeito ou de sua equipe de planejadores urbanos.)

Em parte é fácil de entender o porquê. Os setores imobiliário e de construção são os maiores financiadores de campanhas eleitorais, tanto à prefeitura quanto à Câmara dos Vereadores. A Associação Imobiliária Brasileira deu dinheiro a 29 dos 55 vereadores em exercício – o suficiente para ganhar com folga qualquer votação em plenário.

Não estou aqui insinuando que todos esses vereadores sejam corruptos e vendam seus votos. Mas claramente há em São Paulo uma tendência de defender os interesses desses setores: e esses setores adoram grandes obras, novas avenidas, túneis, pontes ou projetos de “revitalização” que envolvem demolir um bairro todo e construir outro no lugar. Eles não gostam tanto de projetos feitos para as pessoas, que envolvem pesquisa, observação, inteligência – em vez de apenas derramar concreto.

Aliás isso não é só em São Paulo, nem só nas prefeituras, nem é exclusividade do grupo político do prefeito Kassab (que é dos Democratas. O PT também tem as construtoras entre seus principais doadores e isso ajuda a entender projetos meio sem pé nem cabeça como a transposição do rio São Francisco, num país em que a maioria da população ainda não tem saneamento básico).

Quer entender por que o espaço público tende a ser tão ruim no Brasil? Talvez a resposta esteja nas regras de financiamento de campanhas e no sistema político. Talvez nosso sistema privilegie os candidatos que se preocupam em agradar empreiteiras e incorporadoras, em vez de se especializar em atender as pessoas e tornar a vida delas melhor.

44 comentários
  1. Fabio de Castro disse:

    Pois é, Denis… Meu candidato a Deputado Estadual não teve financiamento de empreiteiras. E não se elegeu, claro. No nosso sistema “democrático” só é eleito quem está a serviço do poder econômico.

  2. he he disse:

    Talvez ele não tenha sido eleito por falta de voto!! É uma possibilidade he he!!

  3. Wildykson disse:

    Sou estudante de arquitetura e urbanismo da PUC de Goiás, além desses problemas de financiamentos por imobiliárias, existe também um grande mercado que gera dentro da prefeitura para aprovação de projetos, uma obra legal que segue a lei, demora um mês para ser liberada, enquanto uma obra que pode prejudicar os moradores que não segue a lei é aprovada mais rápida e sem verificação da prefeitura, isso envolve dinheiro, claro! E prejudica o crescimento das cidades de uma maneira adequada.

  4. Murilo Camargo disse:

    Está claro que o bem conjunto não é considerado prioridade no ponto de vista desses “representantes”.O que continua valendo são os velhos interesses pessoais!ok?!

  5. cleber moura disse:

    Caro amigo vc tem toda razão…Aqui em Aracaju Sergipe existe um plano diretor para a capital que não sai do papel a mais de dez anos….Enquanto isso aqui tbm o mercado imobiliario cresce a passos largos e valorosos como os maiores centros urbanos do Brasil

  6. Ribeirão Preto é uma cidade que cresce e prospera a cada ano. Claro, temos os problemas típicos de uma cidade grande. Entretanto, tenho em minha mente que Ribeirão Preto não deveria crescer desmesuradamente.

  7. Leonardo Xavier disse:

    Eu lembro aqui no Recife do parque Dona Lindu, eu lembro de ter achado fantástico o modo como a associação do bairro conseguiu depois de muita luta a doação de um terreno que pertencia a Marinha à prefeitura para construir um parque no Bairro de Boa Viagem e a prefeitura transformou o parque praticamente em um centro de convenções assinado pelo Niemeyer que não tinha nada de área verde que os moradores queriam.O parque acabou virando até piada de carnaval.

    E o pior de tudo, isso numa prefeitura que vivia se gabando de ter feito orçamento participativo onde as comunidades opinavam a respeito da prioridade nas obras e tudo mais.

    Algumas vezes a gente já tem um dificuldade tão grande de se organizar e quando se faz isso o Governo ainda vai lá e passa perna nas pessoas. Chega a ser desestimulante.

  8. Um Carro a Menos disse:

    Olá, Denis,

    Tem mais detalhes sobre a recusa deste projeto? Quando foi isso?

    Grande abraço,
    @umcarroamenos

  9. wagner disse:

    Oi Denis,

    talvez não foi aceito porque a copa do mundo ta ai, e provavelmente já existam vários outros projetos. Projetos esses, que irão render muito desenvolvimento, progresso e melhora da qualidade de vida… dos empreiteiros e politicos envolvidos…claro…rssr…abço!

    Ahh!!…vc sabe se esse projeto, aqui no Brasil, seria apenas pra São Paulo?

  10. Jonhy disse:

    Se não me engano a FAU USP vem desenvolvendo há alguns meses 2 projetos para São Paulo: um para a Republica e outro para o Anhangabau, talvez aceitar o Projeto proposto pelo Jan Gehl iria por meses de estudos urbanos em meros estudos. Vai aí uma sugestão: você poderia escrever sobre quais são os possíveis cenários urbanos de São Paulo a curto e longo prazo, talvez consiga falar com o prefeiro Kassab, a Secretaria de Planejamento Urbano, CET, Metrô, as escolas de arquitetura que mais influenciam tanto em SP quanto no Brasil (por cioncidencia estão em SP), enfim, se há um plano. Bom, é apenas uma sugestão de um leitor assíduo! Comente sobre a possibilidade😉

  11. Nessas horas eu sempre lembro do gibi do Chico Bento e as máquinas destruindo tudo e a plaquinha “Estamos construindo para o progresso”. É o que acontece aqui no meu bairro, onde haviam árvores agora teremos pilares para sustentar o famigerado Monotrilho.

  12. reynaldo moreira disse:

    Belo exemplo de como os grandes interesses econômicos transformam, no Brasil, em piada o já em si tão precário sistema da democracia formal. Agora, se a polícia do PSDB impediu a entrada e saída de pessoas, mantimentos e água nos prédios abandonados depois que, dias atrás, foram invadidos por grupos organizados de sem-teto, imagina o quanto a prefeitura de seus aliados do DEM está preocupada em colocar na prática projetos arquitetônicos que queiram tornar mais humano o Vale do Anhangabaú. Aliás, bastaria que Mister Kassab Babyface dependurasse seu cabeção lá do alto do prédio da prefeitura, onde fica seu gabinete, e olhasse para baixo para ver os meninos e meninas sujos embolados em cobertores sujos no chão sujo do em torno da saída do metrô como “bichos de monte” todas as manhãs, depois de terem passado a noite cheirando cola e assaltando os motoristas quando entope a Nove de Julho. Por volta das oito horas, vem um Guarda Civil e dá um berro sobre o amontoado (quando é um cara mais gentil) para que todos levantem logo e cacem rumo de modo a não sujar a visão da gente de verdade, contribuintes e votos ambulantes de passagem, a maioria deles também imersa em suas preocupações cotidianas, apressados e insensíveis a um drama que profundos processos de alienação fazem crer que não é o seu drama. Bastaria olhar para baixo, mas Babyface, lá em seus jardins suspensos da Babilônia, está ocupado demais com assuntos mais importantes do que a vida e a morte de crianças de carne, osso e alma.

  13. jorji disse:

    Não temos criatividade, não sabemos planejar, a arquitetura brasileira só sabe projetar prédios, as nossas cidades são feias, sujas, violentas, barulhentas (poluidas), corrupção é generalizada em todos os setores de atividade na nossa sociedade, para se ter uma idéia, ainda se discute as obras da copa do mundo, sendo que tudo já deveria estar definido, aqui se projeta e planeja de forma rápida ( sempre erramos no planejamento), e a execução das obras são lentas, trazendo transtornos, o custo se torna alto, e duvido que isso vá mudar a curto e médio prazo.

  14. Vendo tudo isso eu até desanimo com minha vontade de ser engenheiro urbano, a impressão que tenho é que qualquer projeto que eu faça não vai ser posto em prática mesmo. É triste.

  15. Diogo Fernando, @dihpardal disse:

    Isso irá acontecer; quando outros paises adotarem a idéia. Quando a Venezuela nossa vizinha adotar e mais uma vez o Brasil ficar pra trás.
    Temos medo de coisas novas, foi assim em todas as épocas. Fomos sempre os últimos países a experimentar novos métodos de desenvolvimento.

    Gostaria de saber,
    acha que a população de São Paulo seria como a de Copenhague? Acredita que eles valorizassem isso e passassem a compreender os projetos visando mais as bicicletas e pedestres do que os automóveis?

  16. Luiz Silva disse:

    Opa Denis! Seus artigos parecem aquele jogo do quente e frio. Nesse aí você está pelando. Quase encontrou o nervo, ai ai ai. O fato de São Paulo ser assim tem muito a ver com a realidade de que suas administrações se tornaram meros representantes de interesses de grupos muito poderosos, como o setor imobiliário e as construtoras. Uma pena que (provavelmente para suavizar o ataque inevitável ao PSDB-DEM) você teve que criticar a transposição do rio São Francisco (isso sim ficou meio sem pé nem cabeça no artigo). De qualquer maneira continuarei seguindo sua lógica de raciocinio que deve, acho, concluir “já chega de eleger prefeitos como Kassab, Serra, Pitta e Maluf”. Queremos gente preparada que tenha compromisso com os paulistanos e com o futuro da nossa cidade.

  17. denis rb disse:

    Poxa, acho que não, Luiz Silva, não é mesmo isso que eu quero dizer
    Não me interessa aqui discutir quais são os bons políticos e quais são os maus. Me interessa entender os problemas sistêmicos da política, que são tão nocivos à qualidade da nossa representação política. Entendo, pelo seu comentário, que você apóia o grupo político do PT/PMDB/PR etc, e que acha que as coisas de que estou falando se aplicam apenas ao grupo rival. Pois realmente acho que não é esse o caso. Primeiro: está cheio de políticos no grupo que você apóia que operam pela lógica das grandes obras (e não preciso nem sequer apelas aos exemplos de sempre: Collor, Sarney etc). E realmente acho que agradar as grandes construtoras é a única explicação para a transposição do São Francisco, principalmente o ramal norte, que vai abastecer a grande indústria no Ceará.

  18. denis rb disse:

    Victor Muniz, é o contrário
    Precisamos mesmo é de gente que pense diferente.

  19. denis rb disse:

    Um Carro a Menos,
    Conversei com o pessoal da ITDP e eles me disseram que o projeto foi recusado, mas ainda não tenho muitos detalhes. Volto ao assunto quando souber a história toda.
    abs

  20. Gabriel disse:

    Denis,
    desculpe a ignorância, mas os meus conhecimentos políticos são praticamente nulos. De que forma as regras de financiamento das campanhas poderiam ser alteradas?

  21. Du End disse:

    Países que bem ocupam seus espaços públicos possuem uma boa Reforma Política… Veja à cidade de São Paulo, uma Metrópole em pedaços que não comanda o seu destino… Os parques são propriedade do seu próximo entorno… Os Bairros nobres transformam-se em condomínios fechados pelo trânsito que por ironia suplica fluir em suas espremidas faixas de “enrolamento”… Atrativos sem mobilidade turística contemporânea…etc

  22. @rafamn disse:

    Se também for um projeto que não privilegie os carros, é dificil dar certo. Carros no Brasil (assim como quase tudo) tem impostos exorbitantes…

  23. hacs disse:

    O problema sao os incentivos implicitos (ou nem tao implicitos assim) presentes no arranjo atual (no sistema, se alguem preferir). Boas ideias devem gerar incentivos que as sustentem sob o arranjo atual ou que modifiquem o sistema, caso contrario, sao so boas intencoes.

    Nao so de construtoras sobrevive um politico. Deveriam usar os interesses de um grupo para moderar os interesses do outro. Sera que o projeto (talvez, com algumas modificacoes que nao comprometam o nucleo da ideia) nao interessa a outros?

    Abs

  24. Luiz Silva disse:

    Denis, antes de mais nada, parabéns por abrir esse espaço e responder pessoalmente aos comentários. Sobre sua afirmação: não, eu não apoio o grupo PT/PMDB/PR – devo ter me expressado mal se deixei isso subentendido. Por outro lado, eu acho que sim temos que fazer a diferenciação entre partidos políticos autoritários daqueles que foram fundados a partir de uma mobilização social e popular.

    Para citar um exemplo, a gestão da Erundina em São Paulo (PT) teve participação direta de movimentos sociais na busca de solução para os problemas. Ou seja, os prejudicados estavam envolvidos nesse processo. Isso não poderia ser feito pelo PSDB ou DEM porque não é a lógica com que eles trabalham – eles surgiram a partir de um processo vertical.

    Por fim, você diz que “não interessa analisar quais são os bons políticos”, mas faz menção ao Enrique Peñalosa no começo do seu artigo. Não entendi.

  25. Felipe disse:

    Concordo com o Luiz. Essa ideia num governo Marta, por exemplo, iria pra frente também, acredito. Mas eu acho que não devemos ficar cobrando eles, acredito que devemos fazer pressão. O lobby doss associados da Secovi é brutal.

  26. denis rb disse:

    Luiz Silva,
    Claro que há bons e maus políticos. Mas o centro do meu argumento foi bem traduzido pelo hacs: o que me interessa aqui é discutir os sistemas de incentivos. Do jeito que é hoje, bons políticos têm pouquíssimas chances de serem eleitos e os maus fazem a festa. Daí a importância de olhar a sério o sistema de financiamento de campanha: isso mudaria o sistema de incentivos. Quem sabe os Peñalosas teriam alguma chance. Hoje, no sistema brasileiro, não consigo imaginar um Peñalosa sendo eleito.

  27. denis rb disse:

    Gabriel,
    Ótima pergunta. Há muitas possibilidades de resposta.
    Algumas são ajustes simples mas urgente que podem fazer o sistema atual funcionar muito melhor. Por exemplo: hoje, os políticos podem anunciar as pessoas que pagam suas campanhas depois das eleições. Isso é absurdo. Eu tenho o direito de saber quem paga a campanha antes do dia de votar. Nesse caso, eu certamente jamais votaria num vereador financiado pelas empreiteiras.
    Outras respostas têm a ver com avanços tecnológicos. Hoje já dá para imaginar que pode se tornar possível financiar uma campanha rica apenas com dinheiro dos cidadãos, sem grandes lobistas. Isso teria um imenso efeito democratizador.
    Outras são ideias mais ambiciosas. Por exemplo: um sistema de financiamento público de campanha. Isso colocaria limites na gastança. Claro que muita gente tem medo, com razão, de que o sistema de financiamento público gerasse mais um dreno no erário público. Mas, se for bem feito, pode acabar saindo muito mais barato que o sistema atual, que sai caríssimo para o país.

  28. jorji disse:

    O problema que o número de maus políticos é muito maior que bons políticos, mas muito mesmo!

  29. Felipe disse:

    A votação da Marina, eu votei nela, é um sintoma de que as pessoas querem políticas mais sustentáveis, ainda há chance de melhorar a realidade.

  30. Breno disse:

    Denis,

    Muito bom o artigo – mas não precisa ir muito longe para ter boas ideias de urbanismo sustentável. O Jaime Lerner é referência mundial no assunto e já foi prefeito de Curitiba e Governador.

    http://www2.thetoptips.com.br/2008/06/14/gestao-publica-de-jaime-lerner-e-exemplo-de-sucesso-no-exterior/

    Não entendi a crítica ao projeto de transposição do Rio São Francisco. Até onde sei, o ponto base do projeto é saneamento básico e água tratada para cidades próximas ao rio, inclusive organização das comunidades ribeirinhas.

    Abraço,
    Breno

  31. paula disse:

    Otimo texto Denis, mandei pra os amigos que moram em SP, muito serio esse projeto dessa importancia ficar na gaveta … se SP relamente quer ser uma cidade “moderna ” vai ter que mudar muito .. criança brincando na rua, bike, trem do aeroporto para a cidade, pequenos parquinhos nos bairros, menos shopping center, escola no bairro onde se mora …. senão é não tem jogo ….abraços

  32. denis rb disse:

    Oi Breno,
    Sim, sim. Jaime Lerner na verdade foi a principal referência para o Peñalosa. A transformacão de Bogotá deve demais à de Curitiba, anos antes, de quem emprestou boa parte da visão sobre transporte público.

  33. denis rb disse:

    Breno,
    O governo tem afirmado mesmo que a transposição do São Francisco tem como meta atender o consumo da população do semi-árido. Mas, segundo todos os hidrólogos que entrevistei, isso não é verdade. Hoje já há reservatórios suficientemente grandes para abastecer todas as cidades do semi-árido, sem necessidade de usar a vazão do São Francisco. Falta água, isso sim, para a população dispersa – milhões de pessoas moram longe de qualquer cidade, sem acesso à água encanada. Só que essas pessoas não serão beneficiadas pela transposição – o que eles precisam é de uma cisterna para captar a água da chuva. Na realidade, por trás do discurso de que o objetivo do projeto é beneficiar as comunidades, se esconde a realidade de que o verdadeiro objetivo é viabilizar grandes empreendimentos que usam água intensivamente, como a criação de camarões e a siderurgia no Ceará. Eu acho uma temeridade desviar milhões de litros para resfriar as máquinas de siderúrgicas num momento em que se prenuncia uma redução acentuada nas precipitações do semi-árido.

  34. Breno disse:

    Obrigado pelas respostas, Denis.

    Entendi agora sua colocação. Eu trabalhei por quase 2 anos no semi-árido antes de me mudar para a Inglaterra para fazer meu PhD. Realmente o que não falta são versões sobre os objetivos da transposição.

    Contudo, isso e as cisternas não estavam em questão – pois, sua comparação foi com a falta de saneamento. O ponto que coloco é que a transposição deve obrigatoriamente incluir a revitalização do rio e isso passa pelo saneamento básicos das cidades do interior do Nordeste. Foi a partir daí que passei a ser a favor do projeto. Pois antes, sabendo que há várias formas mais baratas e eficientes de atender os que sofrem com a falta de água, eu era contra.

    Se isso for verdade – acho que o projeto vale a pena
    http://www.integracao.gov.br/saofrancisco/revitalizacao/acoes/index.asp

    Apesar de saber das indagações quanto o destino da água… bem, vamos ter que esperar para ver o que vai acontecer… infelizmente é bem provável que parte considerável da água vá parar nas mãos de políticos fazendeiros e siderúrgicas. O questão é evitar que isso impeça o beneficio da maioria do povo que lá precisa da água.

    Abraço,
    Breno

  35. denis rb disse:

    Então, Breno
    A transposição não é uma obra só. É um conjunto gigantesco de obras, algumas com efeitos bem preocupantes, muitas certamente benéficas. Ninguém é contra as obras de saneamento incluídas no projeto: mas não era necessário mudar o rio de lugar para fazer essas obras.

  36. Breno disse:

    Sim – concordo. Num “mundo ideal” isso seria talvez o melhor…

  37. Daniel De Stefano Menin disse:

    Excelente artigo! Compartilho em gênero, número e grau esta revolta. Sou assíduo ciclista da cidade de São Paulo e também conheço bem capitais como Sydney, Paris, Roma, Atenas… em todas elas vaguei por muitas ruas, avenidas, parques, ciclovias, calçadas, passarelas… tbém utilizei bastante o transporte público nestas cidades… São Paulo é um caos quando comparado a estas capitais. Um lixo mesmo. Obra do descaso e do desinteresse político. A população não enxerga esta situação simplesmente porque não tem parâmetro de comparação. Também não cobra melhorias porque não tem capacidade de se organizar.
    Deveríamos publicar este texto em grandes outdoors por toda a cidade. Mostrar os projetos propostos para a cidade em espaços que todos pudessem ver e sonhar com as mudanças. Talvez assim a população teria ideia e começaria a cobrar da prefeitura estas melhorias.

  38. Daniel De Stefano Menin disse:

    Ah! e em relação ao patrocínio das campanhas: como mudar esta situação?
    Eu focaria os esforços em várias mudanças na legislação eleitorial. Isto para tornar o sistema mais transparente e menos corrupto. Olhando o problema pelo ponto de vista colocado no artigo, seria primordial que os candidatos fossem obrigados e mostrar durante a campanha quem os está financiando. Assim saberíamos quem tem “compromisso” com quem…

  39. Felipe disse:

    Essa matéria me levanta a suspeita de ter sido comprada. Independente de existir um relação estreita entre empreiteiras e políticos com financiamento de campanha, nada impede que uma boa obra de revitalização seja implementada. Muitas vezes essas revitalizações gerariam tanto dinheiro as empreiteiras quanto as obras citadas no texto como “sem pé nem cabeça”. Na certa esse escritório de arquitetura fez um projeto muito ruim.

  40. Dani disse:

    Eu duvido que essa matéria tenha sido comprada, mesmo porque, se isso ocorreu, por que então o projeto dos urbanistas do mundo não foi aceito? (Nem estou falando do outro projeto enviado, que eu duvido que tenha sido tão ruim assim…). Enquanto os políticos brasileiros não mudarem seu modo de pensar, o Brasil não vai para frente. Infelizmente todos sabem que comandar um país onde a maioria não tem um grau elevado de estudos é muito mais fácil do que comandar um país inteligente.

  41. Hélio Bertolucci Jr. disse:

    Ótimo seu artigo que chegou a minha pessoa através de um clipping no Google. Trabalho há 33 anos em vários báirros da cidade: Centro, Brás, Mooca, Pinheiros, etc e o que vejo só as torres subindo, o transito congestionando e nada de uma melhor qualidade de vida para nós que pagamos impostos caríssimos. Eu perdi a ilusão de ver uma São Paulo como um moderna megalópole. Muitos paises asiáticos estão passando a perna em nós em moderninidade. Para a Copa do Mundo acho que vão somente pintar as guias das ruas em cal e encher as avenidades de bandeiras verde amarelo porque não acredito em grandes obras, não vejo sequer um movimento de algo relativo a Copa do Mundo, tudo como está há anos.

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