Diários amazônicos – primeira parte

Nasci e cresci lá no centro econômico do Brasil. Esta semana, um trabalho me trouxe à extrema periferia do país: a floresta amazônica. Vou passar três semanas viajando por aqui e contando pelo blog das coisas que vejo pela janela, das pessoas que encontro no caminho.

Vim para cá participar da organização de uma conferência independente, o TEDxAmazônia, cujo objetivo era refletir sobre ideias que tornem a vida melhor aqui neste planeta (entenda o que é aqui). Fiz parte do grupo de curadoria do evento. Convidamos para palestrar um monte de gente do centro econômico do mundo. Nova-iorquinos, londrinos, alemães, californianos e nórdicos aceitaram empolgados o convite (apesar da nossa política de não pagar cachê para ninguém).

A conferência durou dois dias e teve um pouco mais de 50 palestrantes. Não vou nem tentar resumir aqui o que aconteceu lá – eu nem seria capaz, de tão emocionalmente envolvido que eu estava na história. Mas, ao longo do fim de semana, uma certeza foi me dominando:

Não, aqui não é a periferia do Brasil.

Não, a Amazônia não é o lugar onde nove periferias problemáticas (Bolívia, Colômbia, Venezuela, Peru, Equador, as três Guianas, Brasil) se encontram. Aqui é o centro.

É o centro climático. É o termostato que regula a temperatura do planeta inteiro. Quando a concentração de carbono na atmosfera terrestre aumenta e a temperatura sobe, a floresta, alimentada de calor e gás carbônico, cresce. E, ao crescer, captura carbono e emite oxigênio, esfriando o mundo (um efeito que obviamente anda meio prejudicado pela nossa mania de desmatar).

É o centro hídrico. É uma bomba de ar quente que faz circular uma parte enorme da umidade da Terra. Não fosse a floresta, a América do Sul seria tão desértica quanto a África e não daria para se plantar nada em Goiás ou no Mato Grosso, não daria para se viver em São Paulo, no Rio ou em Buenos Aires.

É o centro energético. É aqui que fica a grande usina do mundo: a floresta, que captura a energia do sol e produz com ela quase toda a matéria orgânica do planeta. É essa energia que move nossa sociedade.

É o centro de biodiversidade. É o grande laboratório de pesquisa e desenvolvimento da evolução, gerando uma quantidade astronômica de espécies. Numa só árvore há mais insetos do que a maioria de nós vai ter chance de ver ao longo da vida. Em 1 hectare, o tamanho de um campo de futebol, há mais espécies de árvore do que na Europa toda.

E é sim o centro econômico do Planeta Terra, não São Paulo ou Londres ou Nova York. Num mundo em que 50% do PIB é extrair e vender recursos naturais, o centro econômico não é onde estão os bancos – é onde estão os recursos naturais. São Paulo, Londres e Nova York é onde estão os atravessadores, mas a riqueza do mundo provem daqui. E vai-se embora sem deixar rastro, para irrigar o sistema econômico mundial.

A Amazônia é o centro do futuro do mundo. É onde estão as respostas para todas as nossas questões. Isso ficou claro durante a conferência, enquanto os palestrantes subiam ao palco, um após o outro – o economista, o designer tecnológico do Vale do Silício, o pensador da educação, o químico industrial alemão, a evolucionista, o ativista digital, a designer de moda, a executiva da indústria de cosméticos, os pesquisadores de felicidade da Finlândia, o ativista urbano.

Ao final do domingo, eu estava literalmente esgotado, física e emocionalmente. Foi intenso. Passei a segunda-feira balançando numa rede, com febre, me recuperando.

Por sorte, fui fazer isso na floresta. Eu estava acompanhado de um guia, o Samuel, etnicamente índio, mas que nasceu na cultura dos brancos. Seu pai, um homem culto e inteligente que fala línguas e toca violino, abandonou a tribo antes que o Samuel nascesse, em busca de uma vida melhor. Aos 13 anos, com a curiosidade alimentada pela convivência com o avô, que falava uma língua misteriosa, Samuel disse aos pais que iria tirar um mês de férias e entrou no mato perto da divisa com a Venezuela, na periferia da periferia. Bem lá no centro dela. Achou uma tribo, disse ao chefe que queria aprender a cultura deles e só voltou para casa, todo pintado e transformado, dois anos depois.

O Samuel e um outro guia incrível, o caboclo Manuel, nos ensinaram o que puderam sobre a floresta. Comemos cabeça de saúva, com gosto de erva cidreira e pimenta. Vimos como se faz corda, com a mesma fibra que está nas pastilhas de freio dos carros mais caros. Mastigamos cascas de árvore, raízes, sementes e seiva, e reconhecemos neles o gosto e o cheiro de um monte de alimentos, medicamentos e cosméticos conhecidos nossos. Ouvimos centenas de histórias que um dia ainda vou contar aqui.

É tanta riqueza.

É tanto potencial.

É o centro do mundo.

Depois dessa experiência, minha vida em São Paulo parece tão periférica.

*

(Quem quiser acompanhar o que aconteceu no TEDxAmazônia pode assistir às palestras no site. Vão subir uma por semana, ao longo de um ano inteiro).

24 comentários
  1. Karina Miotto disse:

    Caro Denis…muito obrigada.

  2. ricardo galvão disse:

    Denis,
    Que inveja meu amigo…Uma experiência riquíssima…
    Que enriquecerá a todos que lerem seus relatos…
    parabéns!

  3. A. V. Vianna disse:

    Denis, ainda não tive oportunidade de assistir às palestras, que com certeza farei. Todavia, como morador de Rondônia, informo a tristeza com que vejo algumas discussões serem travadas, sem levar em conta que aqui não queremos viver primitivamente. Isso significa que exigir desse povo a manutenção dos recursos naturais, deve caminhar ao lado das discussões sobre a compensação dessa abstenção. Principalmente porque os benefícios são coletivos. Quem já transformou suas riquezas em desenvolvimento (os grandes centros), não podem apenas nos exigir não nos desenvolvermos. Quais mecanismos serão criados para isso? Ou afinal, deveremos “despopulacionar” a região?

  4. transmissões mágicas, sábias e puras, do grande Burgiershaman das palavras, diretamente do centro do Unowverso.

  5. Daniel De Stefano Menin disse:

    Oi Denis,

    Em 2007 estive na Amazônia para mapear cavernas (espeleologia). Fiquei alguns dias acampado na casa de uns moradores perto do Rio Tapajós. Entre outras lembranças incríveis da natureza na sua mais forte expressão, lembro-me de acordar todas as manhãs (lá pelas 4hs) com o ensurdecedor barulho dos macacos Bugios. Ao voltar para São Paulo fiquei meses para me reacostumar à vida periferica desta cidade. Realmente você traduziu bem os sentimentos que ainda hoje carrego: a Amazônia é o centro da Terra e nós, aqui nas grandes cidades, somos uma pobre periferia.

    Abs
    Daniel Menin

  6. Glauco disse:

    Denis, agradeço mais uma vez a oportunidade de eu estar aqui vivendo essa experiência. Abraços desde Santarém

  7. newton disse:

    (um efeito que obviamente anda meio prejudicado pela nossa mania de desmatar).
    Denis moro no Rio Grande do Sul e o efeito anda muito prejudicado,há cerca de um mês atrás, com as queimadas no Norte,literalmente choveu picumã por aqui. Primeiro foi a fumaça e após uma chuva, a água de minha piscina ficou preta, efeito constatado com os vizinhos também. Esse rio aéreo que estão comentando por aí, realmente existe e já está contaminado pelo desmatamento.

  8. Sebastian disse:

    Mr. Burgierman, O que o senhor quer è nos convencer que a Amazonia nos pertence aos as nove “problematicas” naçoes, que o senhor se refere como periferias desses Paises estrangeiros aos quais tao orgulhoso o senhor faz parte. Na verdade o seu papel è o de passar vivamente essa idèia de que a Amazonia nao nos pertence, e que nao somos capaz de nos ocuparmos de nossa floresta. O senhor deveria tambem nos fazer ciente do tamanho do bonus ao qual lhe sera destinado no de suas precepadas… Espero algum dia ler num de seus artigos uma pequena referencia de como os USA e outros Paises tao referenciado por sua pessoa, destruiram todas as floresta que um dia la existiram, ah, seria bom se tambem a vossa senhoria podesse dizer uma palavrinha do tratamento que eles reservaram aos Indios que la viviam. E que sao as multinacionais desses Paises as resposaveis pela devastaçao da Amazonia pois sao eles os importadores de madeiras da Amazonia.

    Menos sinismo!!!

  9. @FelixZiul disse:

    nós moramos embaixo da linha do equador e v6 axam q nóis somos a periferia… #euri
    Ainda bem q vc percebeu a vdd ao vim pra cá, nós somos o centro, porém o centro está passando por serias dificuldades, vide a seca histórica q ocorreu no rio Solimões e no rio Negro este ano, sem mencionar q houve uma cheia historica no Negro a pouco tempo… estamos destruindo nosso maior patrimonio e nada fazemos e ainda vos lembro q um dia a água será artigo raro e se v6 soubessem a quantidade de água q existe aqui, ñ tow falando apenas da maior bacia hidrografica, tow falando dos rios q flutuam no ceu amazonico, que é produzido pela floresta, esses rios de nuvens são muito importante para o planeta…
    [divago]

  10. keity roma disse:

    Um dos grandes problemas do Brasil e da Amazonia eh justamente esse… pessoas informadas cmo o caro jornalista demoram tempo demais para descobrir o valor da floresta e das pessoas que estao nela. A ignorancia infelizmente ainda faz parte da mentalidade da maioria

  11. André Gravatá disse:

    “São Paulo, Londres e Nova York é onde estão os atravessadores” é uma ótima constatação. Aliás, curti muito esse texto, transmite uma sinceridade profunda. Abs!

  12. Milena disse:

    É isso aí!!! Descentralização. Adorei Denis!!!

  13. Mônica Barroso disse:

    Denis, obrigada pela lúcida reflexão. É exatamente por esta razão que nunca acreditei ser possível realizar um TEDxAmazônia NA Amazônia e não SOBRE a Amazônia. Curta muito a Amazônia real e vá contando as novidades. Grande abraço!

  14. Luna disse:

    Sempre que sobrevoo a amazonia minha imaginacao voa tambem. Imagino a riqueza da fauna e flora e de como a floresta esta bem sem o homem civilizado e arrogante por perto. O meio ambiente nao precisa de nos. O sol continuara’ brilhando apesar de e depois de nos. O Planeta Terra tambem continuara’, nao importa quanto dano causemos a ele. A natureza tem habilidade gigantesca de renovacao. Alias, nos nao somos a unica forca transformadora do planeta. Nos nao deveriamos nos preocupar em salvar o planeta. Deveriamos unir forcas para salvar o “Homem”, planeta sustentavel seria natural conseguencia. Nao havera’ esperanca para a raca humana, se nao houver mudanca de valores e conceitos. Lamemtavel como o Homem caminha a passos largos, desconectando-se cada vez mais do planeta como se fora portador de uma doenca auto-imune. Espero que o Denis encontre na Amazonia e de la’ traga, alguma erva medicinal que milagrosamente reverta o quadro doentio de nossa sociedade civilizada.

  15. mauricio disse:

    Parabéns pelo texto, com toda certeza, ao longo dessa viagem irá citar o Pará, o estado mais rico do brasil em reservas naturais, minerio,fauna e flora, quiça a mais rica área do planeta.Orgulho-me de ser Paraense.

  16. Kassiana disse:

    Tenho o privilégio de morar no centro do futuro do mundo. E poder diariamente me maravilhar com tudo isso que você pode conhecer. Parabéns pelo texto e obrigada por compartilhar sua viagem com todos. Sei que a maioria dos brasileiros nunca esteve na Amazônia.
    Tenho orgulho de ser nortista e paraense.

  17. José Teixeira Filho disse:

    É, mas como nada é perfeito, lá em cima todo mundo infelicitou o Brasil: votou em Dilma.

  18. Jonhy disse:

    Ler esse texto me fez pensar: “Será que ele está falando da mesma Amazônia que vejo na tv?” Parece contraditório ler esse texto e comparar com as matérias jornalísticas (que diga-se de passagem: superproduções) que desvendam o misterioso e inacreditável mundo amazônico com seus métodos medicinais inacreditáveis e lendas indígenas do mundo perdido… (estou sendo sarcástico)
    Denis, ótima matéria, e ótima curadoria, li o Manisfesto da Política da Felicidade (que vc havia postado) e… incrível, conhecia o Marko Brajovic… Não espero por assistir os vídeos!
    Denis vc sabe dizer como (e se) os TEDs realizados no Brasil têm influenciado as políticas públicas brasileiras (independente da escala cidade, estado, país)?

  19. wilson aragao disse:

    americano esperto,e tem um monte de troxas ai querendo dividir o brasil,dividam mesmo seus povinhos insignificantes,pois depois que vcs se matarem,nos os americanos vamos tomar a amazonas que nos interessa e o resto do brasil vamos doar ao paraguai,que sao nossos amigos dai da america do sul,briguem mesmo se matem pois o que nos interessa o pre sal e amazonas vai ficar mais facil anexar do nos pensamos.

  20. Claudia Roberta Soares de Alcântara disse:

    Fantástico o texto. Sou Paraense e cansada de ouvir comentários como se aqui só houvesse índios e mata, como se nós todos morássemos em meio da mata, e se isso fosse verdade, como se fosse algum demérito, alguma humilhação. Sorte dos que possuem o privilégio de respirar o ar mais puro.

  21. DELCIRO BATISTA DA SILVA disse:

    A AMAZONIA É BRASILEIRA E ESTAR PRESERVADA GRAÇAS AOS RIBEIRINHOS E INDIOS QUE AQUI HABITAM.PORÉM POUCO TEM SE FEITO POR ESSES POVOS QUE GARANTEM A SOBERANIA BRASILEIRA, TEMOS BAIXO INDICE DE IDH . SOMOS SEMPRE A REGIÃO DO FUTURO PARA OS GRINGOS E ENDINHEIRADOS QUE AQUI VISITAM. ATÉ SOMOS REPREENDIDOS POR ESSA TURBA DE PSEUDOS ECOLOGISTAS. MAIS TODO MUNDO SABE QUE O QUE QUEREM SÃO AS RIQUEZAS DA FAUNA, FLORA E MINERAL QUE PENTENCEU A NOSSOS ANTEPASSADOS E A NÓS PERTENCE POR DIREITO.NÃO AS EMPRESAS FARMACÊUTICAS E DE PESQUISAS TRANSNACIONAIS. IREMOS LUTAR COMO AJURICABA, PARA DEFENDER NOSSA TERRA E NOSSO MODO DE VIVER AMAZÔNICO.

  22. Parabéns Denis! Só uma correção: Faltou mencionar o Suriname e são somente 2 Guianas: Guiana e Guiana Francesa.
    Abraços

  23. Zoe Melo disse:

    Parabéns Denis e obrigada pelo convite de participar deste momento tão unico que foi o TEDx Amazonia. Concordo com vc…depois dessa experiencia é dificil nao refletir aonde é a verdadeira periferia. Me emociona só de pensar! Abraços.

  24. Jô Freitas disse:

    É o que eu sempre digo, a Amazônia é mágica, encantadora.Tem uma seduçao sem limites…é tudo isso e muito mais.
    Amo este pedaço de Brasil.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: