Diários amazônicos – parte 2

Balanço agora numa rede. À minha esquerda e à minha direita, dezenas de outras redes balançam, uma tão colada na outra que, a cada movimento, esbarro em alguém. Estou em um barco de passageiros, deslizando sobre o Rio Amazonas, cercado da floresta sem fim nas duas margens, escoltado por botos, pacientemente esperando as 36 horas que separam Manaus de Santarém passarem.

Embarquei ontem depois do almoço. Agora, 30 horas depois, o sol se põe pela segunda vez na viagem. Mas não dá para ouvir os pássaros do entardecer cantarem. Em vez deles, só o que se escuta, pelo sistema de som do barco, ligado no talo, é uma sucessão ininterrupta dos grandes sucessos do brega, do tecnobrega, do funk, do axé e do forró. Muito country music, que chegou à Amazônia junto com os bois. Alguns dos meus companheiros de viagem olham desanimados para o rio lá fora, como se contemplassem a possibilidade de se atirar na água, para escapar da tortura musical.

Fico refletindo sobre o quanto os bens mais preciosos da floresta acabam sendo desvalorizados por aqui. A quietude, por exemplo. Se estivéssemos em silêncio aqui no barco, estaríamos escutando a mais poderosa sinfonia de pássaros, sapos e cigarras do mundo, como aprendemos numa palestra memorável do TEDxAmazônia, do especialista em sons da natureza americano Gordon Hempton. Mas os amazonenses urbanos que me acompanham na viagem parecem preferir o rebolation aos sons da floresta. Não acho difícil entender isso. Por aqui vigora uma cultura de enxergar a natureza como um obstáculo, um inimigo, algo a ser superado. Encher o ar de sons eletrônicos é um jeito de afirmar a supremacia humana sobre a floresta.

Nosso barco vai singrando o maior rio do mundo e deixando atrás de si um rastro de latinhas de cerveja, garrafas pet, bitucas de cigarro, embalagens de comida que vão sendo atirados do convés sem qualquer cerimônia. A floresta lá fora é tão monumentalmente grande e infindável que muita gente parece acreditar que essas minúsculas agressões não farão nem cócegas. O resultado se vê nas cidades pelo caminho. Manaus, por exemplo, em alguns lugares lembra um depósito de lixo.

Na semana passada, em outra viagem de barco, fomos conhecer uma reserva natural, o Arquipélago das Anavilhanas, protegido por lei federal. Mal entramos nos limites do parque e ouvimos o zumbido áspero das motosserras vindo de dentro de uma das ilhas. Na água, grandes redes para pegar peixes, o que também é proibido por lá. Passamos algumas horas tentando achar um sinal de celular, para denunciar a infração. Ligamos para uns cinco números diferentes, e em cada um deles nos informaram que “não é aqui não”. Acabamos conseguindo registrar a denúncia, mas algo na voz entediada da moça que nos atendeu nos deu a sensação de que não haveria consequência alguma.

A floresta é gigante, tanto que viajar de uma cidade a outra leva 36 horas de barco ao longo dela. Ela é tão grande que parece infinita. Mas não é. Ela acaba. O silêncio acaba, a madeira acaba, a limpeza acaba.

Minha esposa passeia pelo barco e um sujeito de correntes de ouro no pescoço puxa conversa com ela. Quer saber por onde passeamos nos últimos dias. Ela diz. Ele comenta:

“Ah, vocês são daqueles ecológicos, né? Daqueles que gostam de índio?”

Ele não. Ele gosta de progresso. Índio, com essa história de conhecer e valorizar cada uma das espécies da floresta, atrapalha muito o progresso.

25 comentários
  1. Ai, Denis, que triste ler o seu texto. Pensei que fosse encontrar alguma descrição bonita, alguma experiência divertida no meio da floresta, e me deparo com um post profundo, de doer o coração e a alma. Que tristeza, que tristeza, que tristeza.

  2. Seiichi Okada disse:

    Bem espero que tenha tempo de desembarcar em minha cidade (Santarém) e conhecer a vila de Alter do Chão, ela foi considerada ano passado pelo The Guardian a praia mais bonita do Brasil (creio que não seja pra tanto mas ela vale a pena ser visitada).

    Caso precise de um guia (para indicar bom guias :D) estarei a disposição, espere que aprecie bem as pequenas minúcias da minha região.

    E Raquel não fique tão desolada assim, quem vive aqui sabe (que até o momento) a floresta ainda é muito maior forte do que esses abusos que ela vem sofrendo sistematicamente.

  3. reynaldo moreira disse:

    Sistema fundado no lucro que produz massificação que produz estupidificação que produz consumo desvairado que produz lucro que produz lixo cultural que produz tubainas e bitucas no rio que produz produz produz.

  4. Marcelo Azevedo disse:

    É um grande desafio conciliar o (justo) anseio dos povos amazônicos ao progresso e às facilidades da vida moderna, com a defesa da floresta da qual, sabidamente, depende a vida de toda a humanidade. Não sei bem qual seria o melhor caminho, mas educação de qualidade para esses povos me parece um bom começo, para que possam entender que os “ecológicos” não são apenas um bando de chatos tentando ensinar aos outros como cuidar de seu quintal

  5. Tristeza. Porque nessas horas não é só culpar o sistema, culpar os estrangeiros, culpar qualquer um. O mal, esse pequenininho, está não só nos grandes mas principalmente nos pequenos. E daí, como fazer? Não bastariam convenções, Nagoyas, ativismo e leis. Como entrar nos corações e mentes de cada um?

  6. Erick disse:

    ***aplausos entusiasmados***

  7. Chesterton disse:

    Ué, troca de lugar com eles. Vai morar no mato e cede teu AP para um caboclo.

  8. graziela disse:

    senti um nó na garganta lendo seu texto. o mesmo que me incomodou tantas vezes enquanto eu caminhava pelas ruas do centro de manaus.

    eu gosto muito de acreditar que tudo isso é só uma questão de tempo. do mesmo jeito que o tecnobrega se espalhou pela floresta, por exemplo, um novo olhar sobre ela pode se espalhar tbm.

    que vc volte daí ainda mais inspirado, cheio de ideias para novos lindos projetos que possam atuar como catalisadores da mudança.

  9. Daniel De Stefano Menin disse:

    Parabéns novamente. Você consegue traduzir facilmente em palavras a indignação que sentimos em relação à musica alta, lixo e desinteresse pela proteção da natureza quando viajamos para Manaus e outras cidades do Norte e Nordeste do Brasil. Gostaria de ver seus últimos textos projetados para muito mais gente do que apenas aqui na internet.

    Abs,
    Daniel

  10. Chesterton disse:

    Exemplo de como a tecnologia ajuda a natureza (alguem viu o aquecimento global por aí? Tá um frio danado..)

  11. João Fernando disse:

    Havia um índio que estava a repousar em sua rede, quando um homem branco o surpreendeu com a seguinte pergunta. Índio, porque não está a trabalhar. Trabalhar para quê. Respondeu o índio. Para conseguir o seu sustento. O meu sustento a floresta e o rio me fornecem. Para conseguir uma moradia. Eu mesmo fiz minha moradia, com a ajuda de meus amigos. Para conseguir acumular bens. Acumular bens para quê. Ora índio, para viver com tranquilidade. Homem branco, viver com tranquilidade, é exatamente o que eu estou fazendo nesta rede…

  12. Luna disse:

    Acompanhando pelo radio um encontro de cientistas canadenses…Um deles comentou que vivemos em um mundo tecnologicamente muito avancado, mas que infelizmente o Homem ainda esta’ estacionado no seculo XVIII. Ele nao evoluiu para acompanhar a sua realidade tecnologica atual. E’ incrivel que ainda temos que nos preocupar com poluicao do ar e protecao ambiental. Ha muito ja deveriamos estar em um mesmo passo com a tecnologia.

  13. Leticia disse:

    Oi Denis,
    Adorei seus relatos de viagem! Me identifiquei com seus companheiros que talvez se atirassem no rio… fiz uma viagem num destes barcos pelo Delta do Parnaíba, e foram 8 horas ininterruptas de tortura musical… Será que uma educação de qualidade não criaria uma consciência com um mínimo de respeito ao próximo? ao ouvido próximo… Boa viagem!

  14. Felipe Coelho disse:

    Belo resumo da conflitiva amazônia!
    Quanto mais perto chegamnos de entender a dinâmica amazônica, mais distante da solução.
    Enquanto o padrão “globo” de riqueza for RJ e SP, o brasileiro médio vai seguir odiando índio em prol da supremacia européia burguesa e branca!

    Todos aqui querem o progresso. Cada nova estrada e hidrelétrica, o velho sonho de sair da miséria…. Mal sabem quem são os verdadeiros beneficiários destes mega-projetos….
    Brasil moostra tua cara!!!!

  15. Altamiro Vilhena disse:

    Parabéns pelo blog, muito legal. Os dois textos dos Diários Amazônicos são ótimos. O primeiro então é fantástico. A Amazônia é um mundo a parte. Ou melhor, as Amazônias são mundos a parte, pois cada região é única e completamente diferente das demais. Deve ter percebido: Manaus não tem nada a ver com a região de Anavilhanas,que tampouco lembra Santarém. A semelhança é somente a onipresença da água e da vida.
    Parabéns.
    Altamiro
    http://impressoesamazonicas.wordpress.com

  16. Maurício Bittencourt disse:

    Caro Denis, é dura a vida de quem percebe ser a Amazônia o centro do mundo! Todos dizem que se importam, mas no dia-a-dia continuam destruindo direta e/ou indiretamente. Sobre o evento que você ajudou a organizar, algum brasileiro foi dizer alguma coisa importante lá? Seria muito rico se ouvíssemos um pouco as pessoas da terra, colocando os “sabichões” e seus títulos acadêmicos na platéia. Moro no Acre há 5 anos e vejo como fundamental ouvir pessoas que de fato vivem em harmonia com a floresta. Com o caboclo a gente aprende a ponderar as palavras ouvidas com a observação da vida de quem diz. Falar, falar, depois se trancar num rico escritório… Muitas dessas pessoas se dizem entendidas e nada mais fazem que reproduzir uma lógica desenvolvimentista travestida, especialmente o pessoal dos países centrais. Cadê os brasileiros? E os latino-americanos? Um abraço!

  17. Maurício Bittencourt disse:

    Hihihi… Dei bola fora… Chequei a lista de palestrantes e vi que o evento trouxe pessoas de variadas formações e nacionalidades, com ou sem título acadêmico. Ressalto a importância da presença do mexicano Enrique Leff. Parabéns aos organizadores!

  18. jorji disse:

    A Amazônia está sendo estrupada pela “civilização”.

  19. Louis Tarala disse:

    é mesmo? que bom!

  20. Bruno H disse:

    Larissa,
    Curitiba não é uma cidade verde, nem aqui nem na China.
    É mentira, posso garantir, eu vivo aqui.
    É cinza e (muito) fedida.

  21. Jô Freitas disse:

    Na verdade viver no Amazonas é viver uma experiencia que vai alem do discurso da sustentabilidade.
    Fiz uma viagem de Manaus a Belem de barco, e lhe digo que foi a viagem mais bonita que ja fiz. Acordava as 5:00 hs da manhã para ver o sol surgindo de entre a mata, e as 17:hs já ficava de alerta para assistir o pôr do sol que se escondia do outro lado da floresta vermelho como se estivesse cansado da lida do dia por clarear todo o planeta. Que espetáculo maravilhoso. A mata era apenas um risco ao longe, e quando nos aproximavamos da margem via-se verdes de todas as tonalidades pássaros de todos os tipos e cores.
    Acho que é esta diversidade de cores em tudo, que me encanta aqui. Tudo é mágico, maravilhoso. A Amazônia é fascinante.
    Não é atoa que o mundo está de olho em tudo por aqui.
    Mas apesar de Manaus ficar no meio da floresta, não é uma cidade verde, ou seja bastante arborizada, o que deveria ser,pois seria um exemplo para o resto do mundo, por ser a capital da Amazôzia brasileira.

  22. Pedro disse:

    Na suas férias em Recife, Olinda e Lençois voçe acaba de descobrir o Brasil. Em reportagem de “VEJA”, página 51, é citado que o crack “esta se alastrando de forma alarmante pelas cidades Brasileiras”
    E voçe se assutando com que viu em Recife e Olinda…

    Pedro

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