Diários amazônicos – parte 3

O caboclo Iracildo desde menino gosta de estar na floresta. Nascido à beira de uma praia de areia branca na margem do lindo Rio Tapajós, que escoa as águas do Mato Grosso até o Rio Amazonas, ele passou a vida entre o mato e o rio. Vivia do que catava, do que caçava, do que pescava. Aprendeu com a vida a sentir o cheiro do tatu, a enxergar o rastro da paca, a ver o peixe debaixo d’água, a tecer telhados e erguer paredes com folhas, fibras e madeiras, a extrair remédios e comidas da casca e da seiva das árvores. Aprendeu a ler a floresta, a enxergar sua riqueza e a viver dela.

Iracildo trabalhando

O povo do vilarejo de Jamaraquá, onde ele vive, sempre achou que Iracildo era tímido, arredio, introvertido. Ele mesmo sempre acreditou nisso: que sua vocação não era interagir com as pessoas.

Aí, uns dois anos atrás, um gringo apareceu por lá, atraído pela beleza impressionante do lugar. Andou na canoa de Iracildo e perguntou se ele não o guiaria para dentro do mato. Iracildo foi, meio envergonhado. No caminho, foi contando um pouquinho do que sabia. Para sua surpresa, o gringo adorou. Ficou de queixo caído. Para ele, aquela floresta era só uma massa verde, um matão indistinguível. Andando com Iracildo, ele percebeu que havia lá um milhão de personagens diferentes. Percebeu que havia um mundo de conhecimento sobre a floresta. E a experiência de alguém num lugar é muito mais interessante quando se conhece melhor esse lugar.

Iracildo percebeu que ele não era arredio. Ele era, isso sim, um especialista. Um conhecedor. Ele percebeu que tinha um monte de gente interessada em conhecer esse lugar e disposta a pagar a ele para que ele os ajudasse.

Hoje ele é guia. O barco que usava para pescar agora busca turistas no balneário encantado de Alter do Chão, não muito longe de Jamaraquá. Os turistas dormem em redes numa cabaninha que Iracildo ergueu com troncos e folhas de palmeira. Ele cobra de cada turista 160 reais por três dias de passeio, que incluem andar de canoa ao pôr do sol, nadar num igarapé mágico, descansar à sombra de uma samaúna gloriosa, atravessar uma mata até chegar a uma praia, três belas refeições ao dia e uma infinidade de histórias incríveis que só quem passou 52 anos na floresta sabe contar. Ele não dá conta da demanda.

Explorando uma praia do Tapajós

Na hora do almoço, na casa de Iracildo, os turistas não têm como não notar a exposição de pulseiras, colares, brincos, cadernos com capa de látex de seringueira e bolsas confeccionados pela filha dele, a Nice. As mulheres, brasileiras e estrangeiras, enlouquecem quando vêm aquilo. No meu grupo, logo no primeiro dia, vi três mulheres avançarem aos gritos sobre todas aquelas coisas bonitas. Uma gastou 45 reais, outra, 60, a outra certamente mais de 100. Quase todo dia é assim. A Nice cresceu aprendendo sobre a floresta com o pai. Seu trabalho, imensamente criativo, é todo feito com sementes, ossos, fibras naturais e borracha das seringueiras. Ela me descreveu seu processo criativo: “à noite eu imagino o que vou fazer no dia seguinte. Quando não imagino antes, não sai nada interessante”. A floresta é sua matéria-prima, mas a mágica acontece dentro da sua cabeça, quando ela mistura a criatividade com a qual nasceu com o conhecimento que herdou do pai.

Iracildo, alguns de seus filhos e netos, e parte da obra da filha mais velha

Jamaraquá fica dentro de uma Floresta Nacional, ou Flona, uma área preservada, mas na qual é permitido que as populações locais exerçam atividade econômica, desde que não destruam a floresta. No vilarejo vizinho, Maguari, há uma fábrica de produtos de látex, o chamado “couro ecológico”, que exporta bolsas, sapatos e brinquedos para a Europa. Há pela Amazônia uma infinidade de tecnologias sendo desenvolvidas para transformar conhecimento tradicional em produtos e serviços, pelos quais o mundo está ávido.

O modelo das Flonas parece imensamente promissor para a região. Em vez do xiismo dos parques nacionais, que expulsam a população local, colocam fiscalização insuficiente em seu lugar e deixam a àrea vulnerável a invasores que vêem a floresta como apenas um estoque de madeira e caça, aqui o que se vê é um estímulo ao empreendedorismo baseado em conhecimento.

O que se vê aqui é prosperidade. Jamaraquá, que até cinco anos atrás era tão pobre quanto é possível ser, hoje tem água tratada saindo da torneira, luz elétrica, loja coletiva de artesanato e uma rádio comunitária. As crianças vão estudar numa escola em Maguari e a saúde vai muito bem. A associação dos moradores é rica porque recebe uma porcentagem do que os turistas gastam, e zela pelo cumprimento das regras da Flona. Na casa de Iracildo, tem televisão e geladeira e ele está pensando em mandar construir um segundo barco, para seus filhos levarem turistas. O construtor de barcos, seu genro, também mora na comunidade. O dinheiro circula. Todo mundo parece saudável, feliz e orgulhoso.

Bem diferente do que acontece mais ao sul, no mesmo estado do Pará, no chamado arco do desmatamento. Por lá, quem manda na floresta não conhece nada dela: só vê a massa verde, como aquele gringo antes de encontrar Iracildo. A regra é derrubar tudo, o que provoca um breve crescimento econômico, quando a madeira é vendida. Mas aí a madeira acaba e grandes pastos se instalam, abrigando um boi por hectare na média. O dono do boi não tem do que reclamar, embora provavelmente faça muito menos dinheiro por hectare do que a família de Iracildo. O resto da comunidade mergulha em depressão e criminalidade.

Aqui no Brasil a gente tem a mania de achar que a fórmula do desenvolvimento está fora daqui. Nossa auto-estima é baixa, então desconfiamos do conhecimento local. Achamos que desenvolvimento é produzir vinho no sertão do São Francisco. Muito lindo plantar uva no sertão, sem dúvida um grande feito. Mas não acrescenta nada ao mundo. Contratamos especialistas franceses para nos ensinarem a fazer vinho e, ao final, temos um vinho passável, embora obviamente não tão bom quanto o francês. Temos aqui a floresta mais rica do mundo. A solução para ela não vem de fora – vem de dentro, de quem a conhece. Pergunte para os franceses se não é esse o segredo de um bom vinho. Pergunte a eles se não é esse o segredo de um bom país.

14 comentários
  1. ricardo galvão disse:

    parabéns!!!!
    Este é o segredo de um país…que você nos ajuda a descobrir…
    obrigado…

  2. Chico Piancó Neto disse:

    Muito bom Dênis, concordo com tudo o que já sabia, e me enchi de conhecimento com o que você nos passou com esse instantâneo duma das mais belas regiões do nosso vasto Amazonas.

    Dênis, já pensou em ser vice da Marina em 2014? =))

  3. Paul McCartney disse:

    Ei Denis, quando vc lê esses comentários, vc considera dispensável comentários apelativos a politica, elogios vagos…, coisas que não não fariam falta não ter lido…? Nada contra os posts abaixo, falo por mim mesmo, há 3 meses tenho cumprido a rotina de ler todos os seus textos, (desde a criação do título do blog adiante, ah e depois o blog “O Experimento”) a intenção é refletir sobre a mensagem passada e comecei a notar que vc responde alguns comentários, porém de forma seletiva, apenas os que realmente demonstram alguma reflexão do texto lido, vez e outra corrige a interpretação de alguns, redirecionando-os… Falo isso porque vejo que muitos (inclusive eu) gostariam de ser respondidos também, essa forma de contato entre o leitor e o escritor (vc) é ótima, a reciprocidade é incrível, mas as vezes axo que para poupar trabalho eu poderia apenas guardar meus pensamentos e reflexões para mim mesmo.
    Sem pé nem cabeça oq disse ou ao mínimo tem fundamento?
    Não sei se como jornalista vc tbm se considera um escritor, pela força q a palavra “ESCRITOR” carrega, sim ou não saiba que vc é um dos melhores escritores contemporâneos que “conheço”.
    Digamos que essa foi minha Carta Aberta ao Denis Russo🙂

  4. jorji disse:

    Este contato com os nativos da região deve ser super interessante, com certeza é um outro povo, um outro Brasil, muitas coisas a se aprender com essa gente.

  5. Cínthia disse:

    Obrigada por nos transportar em tão bela viagem Denis. Me encho de orgulho ao tomar conhecimento de uma área tão importante e desprezada desse meu país… Simplesmente fascinante

  6. Chesterton disse:

    Isso é modelo de desenvolvimento? Você só pode estar de brincadeira. Isso é modelo de conservação (em estado virgem). E muito precário. O povo das cidades nunca vai aceitar esse nível mínimo de consumo e retornar ao neolítico.

  7. Murilo disse:

    Bonito texto, mas eu acho que é só este povo começar a conhecer a civilização (vaso sanitário, vacinas, informática) para rapidamente abandonarem essa vida de caboclo. É o que acontece, sempre. A saída é irmos se acostumando com um mundo sem florestas enquanto isso nos contentamos ouvindo histórias saudosistas como esta. A verdade é que o capitalismo não resolve os problemas do mundo, mas enche a barriga de todos.

  8. Chesterton disse:

    Murilo, o objetivo do Denis é que a população do mundo diminua até uns 100.000.000 de habitantes -se tanto- , todos em “harmonia” com a natureza (sim, harmonia com bactérias, parasitas, pulgas e carrapatos).

  9. Diogo Fernando disse:

    Encerrou o post maravilhosamente.
    É hora de integrar a comunidade local com o desenvolvimento da sua terra; eles conseguem pensar no social, economico e ecologico, pois VIVEM aquele lugar.
    Estudiosos são importantes, claro. Mas é preciso trabalhar junto com esses povos.

  10. leonardo disse:

    muito profundo. belíssimo texto.

  11. Jô Freitas disse:

    Na verdade o Amazonas e Pará, são maravilhosos, mas não esuqeçam que a região norte tem mais 5 estados e que todos eles têm suas belezas e peculiaridades. Procurem conhecer Roraima. Lá tambem tem muita beleza uma das que mais gosto é a Serra do Tepequem onde foi a primeira exploração de diamantes. Hoje tem uma pousada administrada pelo SESC. É ótimo para um final de semana.

  12. jorji disse:

    Não importa como vivamos, se da forma primitiva, ou com toda modernidade, cedo ou tarde a vaca vai pro brejo.

  13. paula disse:

    Mais um vez, maravilha de texto Denis! parabens pelo teu trabalho.

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