Um plano

Já que o Brasil está tentando dar uma utilidade para a Amazônia – torná-la produtiva –, tenho um plano. Naquela área gigantesca, de 5,5 milhões de quilômetros quadrados, duas vezes maior que a Índia, poderia funcionar uma gigantesca usina.

Precisaríamos usar tecnologia sofisticadíssima para a coisa dar certo. Seria assim: haveria uma infinidade de máquinas complexas injetando água no ar. Esse movimento carregaria o ar para cima, de maneira constante. O movimento vertical puxaria o ar da região vizinha – o Oceano Atlântico. O ar oceânico viria carregado da umidade do mar. Dessa maneira, ele produziria uma violenta corrente constante de ar úmido, que entraria rasgando pelo norte do Brasil, se chocaria com os Andes, desviaria para o sul e levaria água para a América do Sul inteira.

Não é legal?

Pois então. Essa usina já está em funcionamento. É a chamada bomba biótica da floresta. “Bomba” porque bombeia água. “Biótica” porque é a vida que a produz: em especial as árvores da floresta. Quem contou essa história foi o pesquisador Antonio Donato Nobre, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, em sua palestra do TEDxAmazônia, no dia 6 de novembro.

As máquinas sofisticadas que movem a usina são os bilhões de células que compõem cada uma das bilhões de árvores da floresta. Sem que nos déssemos conta, elas já estão há milênios injetando água no ar e garantindo que a América do Sul não se transforme num deserto igual a todas as outras regiões continentais do mundo que ficam em sua latitude. É a Floresta Amazônica que garante que haja água para beber em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Buenos Aires, é ela que faz a soja e a cana crescerem em Goiás, no Mato Grosso, é ela que enche os reservatórios que faz as turbinas hidrelétricas de Itaipu e Furnas gerarem energia.

Essa dinâmica é tão complexa que só hoje nossa ciência começa a engatinhar para compreendê-la. Ainda assim, estamos seriamente empenhados em derrubar a floresta. Primeiro foi a indústria madeireira, depois os fazendeiros de soja, depois a turma do gado e os mineradores. Agora quem avança sobre a floresta são as grandes usinas hidrelétricas. Belo Monte é só a mais famosa: há mais de 50 projetos de hidrelétricas, destinadas a cada um dos grandes rios amazônicos, dentro das fronteiras brasileiras e fora delas, nas nascentes bolivianas e peruanas. Uma imensidão de floresta será alagada.

Para mim, desmantelar nossa usina de bombeamento de água para construir usinas hidrelétricas é mais ou menos como se, em algum momento das primeiras décadas do século 20, abríssemos um supercomputador, arrancássemos lá de dentro os microchips e colocássemos pistões e engrenagens no lugar. A tecnologia celular da bomba biótica é milhões de vezes mais sofisticada do que qualquer coisa que a tecnologia humana é capaz de produzir. Se tivéssemos que construir uma bomba igual à que a floresta nos dá de graça, gastaríamos muito mais energia que todas as hidrelétricas do mundo somadas. E não ficaria tão bom.

Claro que o Brasil precisa de energia elétrica para se desenvolver. Mas, antes de alagar um pedaço tão gigantesco da Floresta Amazônica, eu adoraria ter certeza de que estamos nos esforçando ao máximo para aproveitar inteiramente nosso gigantesco potencial de produzir energia do vento e do sol. Que estamos zelando para que não haja energia desperdiçada nas nossas linhas de transmissão, que contamos com uma rede inteligente e descentralizada. E, obviamente, não é esse o caso. Estamos abrindo mão de um tecão da floresta para fazer hidrelétricas sem antes fazermos todos os esforços para reduzir o desperdício, sem antes espalhar painéis solares e turbinas eólicas pelo nosso vasto território cheio de vento e sol.

A questão não é ser a favor ou contra Belo Monte. É reconhecer a importância crucial de cada centímetro quadrado da floresta e se esforçar ao máximo para que a destruição de uma única árvore seja apenas um último recurso para quando não houver mais alternativas. Não é isso que está acontecendo.

O rio-mar

Digo isso à beira do rio-mar, onde a imensidão de água doce amazônica dilui o salgado da água do mar. Estou na Ilha do Marajó, no alto de um morro junto à praia, sob o vento oceânico constante. É por aqui que as correntes úmidas que evitam que a América do Sul vire um deserto adentram o continente.

Por quanto tempo mais?

***

Termina aqui minha jornada amazônica. Volto esta semana a São Paulo. Peço desculpas por não interagir com os comentários ao longo das últimas semanas. As coisas se normalizam na semana que vem.

20 comentários
  1. A palestra do Antonio Nobre foi uma das melhores do TEDxAmazonia. A explicação, nua e crua, do porquê de se manter muito, mas muito intacta a Amazônia. Não se trata de discursinho ideológico. Trata-se de mais pura evidência sobre a enorme usina geradora de água, clima e riqueza que existe aí num pedaço de território sul-americano. Mais sério e evidente, impossível.

  2. heloisa disse:

    oi denis, parabens, gostei mto dessa imagem da amazonia como uma grande usina comparada as usinas hidreletricas como algo ineficiente, uma grande sacada para traduzir os temas ambientais. beijos Helo

  3. Altamiro Castelan disse:

    Olá Denis,

    Parabéns pelo artigo, veja se os nossos planejadores fossem mais espertos, eles usariam os sistemas de armazenamento de água que já temos no sudeste,centrooeste e nordeste, com a instalação de turbinas menores, após as hidrelétricas atuais, ao invés de ficarem construindo represas de alto custo e que ainda agridem o meio ambiente. É claro que essas represas são movidas pela ganência e corrupção.

  4. João Batista Ferreir de Andrade disse:

    Caro Denis,
    Excelente!… Em função do pouco espaço, sugiro uma pesquisa à nossa prooposta:
    http://www.tiploc.com.br/solucoes.html
    No Google: GEAP João Batista Ferreira de Andrade REBIA

    Saudações ecológicas!…

  5. lene c. disse:

    Adoraria conhecer isto tudo…

  6. Tia Ví disse:

    Joao Batista,
    Sou de Minas (Contagem), conheço bem sua cidade. Dei uma folheada em sua revista e uma olhada no site, mas acho q falta muita coisa pra vc dizer q a revista é ecologica! A começar pela capa q passa a imagem de modismo, consumismo e padronização da beleza. Isso me irrita! Já basta asses comerciais de cosméticos e etc… Sua cidade é pequena tem beleza natural, e q eu sei não precisa emperequetar nada.
    Abços! Tia Ví

  7. jorji disse:

    O maior patrimonio da America do Sul, e principalmente do nosso país, é a floresta amazônica, deveria ser considerada patrimônio da humanidade.

  8. Janine Stecanella disse:

    Eu não podia imaginar a complexidade de uma mata, mas sem dúvida, é um grande tesouro. Talvez isso deveria ser mais visto em salas de aula. Isso é reconhecer o valor das florestas para evitar que todos sejam enganados facilmente com uma visão empreendedora e devastadora.

  9. Jô Freitas disse:

    Denis Russo!!!… Valeu de verdade. Sou fascinada por tudo que diz respeito a Amazônia. Lí tudo que você escreveu e gostaria que tivesse escrito muito mais.
    Obrigada pelas informações, foram maravilhosas. Pena que durou tão pouco.
    Volte sempre, o Amazonas com certeza terá sempre prazer em lhe receber.

  10. Altamiro Vilhena disse:

    E eu nem sabia do TEDx Amazônia. Perdi um evento único. Obrigado por partilhar um pouco. Quanto as usinas… Belo Monte… ai, ai… enquanto o pensamento for puramente desenvolvimentista teremos que conviver com isso… como Porto Velho que submergiu sua maior atração turística. Viva a energia limpa, mas abaixo Belo Monte.

  11. Chesterton disse:

    Densi, qual a percentagem da área da Amazonia que estão pretendendo alagar (esses petistas só fazem M não é)?

  12. Chesterton disse:

    Denis, digitei errado.

  13. arminda disse:

    dá-lhe, denis !! longa vida a essa coluna !!

  14. Brunna Machado disse:

    É incrivel como tem gente que não sabe o quanto é extremamente importante para nossas vidas a existencia da floresta amazônica…

    è revoltante saber que ainda há diversas pessoas que querer desmatar a floresta para retirada de recursos, criação de gado, plantação de soja!!

    Que ingnorância!!!!! que egocentrismo!!!!

  15. eu... disse:

    REVISTA VEJA…
    A REVISTA MAIS MENTIROSA, SENSACIONALISTA, HIPÓCRITA E INESCRUPULOSA QUE O NOSSO PAÍS PODERIA TER…
    NAO LEIAM ESSA REVISTA….
    MANIPULADORA DE OPINIÕES…

  16. eu... disse:

    desde qdo a revista veja se preocupa com o meio ambiente e ainda mais a Amazônia…
    vcs nao entendem nd…

  17. souza disse:

    muito legal o seu blog….nada a ver a opiniao do eu…a revista é sensacional…muito boa..

  18. Gerson B disse:

    Denis, já soube deste vídeo?

    Não coloquei nos posts mais recentes por causa do tema.

    • denis rb disse:

      Sensacional, Gerson B. Muito bom.

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