arquivo

Arquivo mensal: dezembro 2010

Sou só eu que tenho essa sensação ou a vida anda mesmo muito difícil?

Ok, ela nunca foi fácil, mas não é estranho que tudo pareça tão complicado justo agora que a humanidade criou uma infinidade de ferramentas de altíssima tecnologia para facilitar a vida? Há microprocessadores até na sola do tênis, tudo está conectado, estamos mergulhados num oceano de informação com o mundo ao alcance dos dedos 24 horas por dia. A vida não deveria ter ficado mais fácil?

Na verdade não. O mundo ficou mesmo muito mais complexo. Antes vivíamos numa rede simplezinha, com só meia dúzia de conexões. Hoje a rede é infinitamente grande. A cada momento da vida, temos um quaquilhão de opções. Eu posso escrever este texto ou jogar videogame ou ir para a Finlândia ou aprender uma língua ou assistir aos 10 maiores filmes da história do cinema hoje, se eu quiser. E, diante de tantas possibilidades, ficamos imobilizados, ou escolhemos e depois nos remoemos tentando decidir se a escolha foi certa ou errada. Isso causa ansiedade, sofrimento e essa sensação constante de que a vida anda muito difícil.

Em novembro de 2010, me dei conta de que eu não tinha conseguido terminar nenhum livro ao longo do ano. Comecei dezenas, mas sempre troquei por outro que me tentou. O livro interminado ficava lá aumentando a pilha no criado-mudo. Todos os livros da pilha, em algum momento, me pareceram irresistivelmente fascinantes. Mas aí apareceu um outro impulso irresistível e o mais antigo de repente ficou parecendo uma ideia velha, chata. E logo chegaria outro impulso ainda, para tornar velha a ideia quase recém-nascida.

Aí fui viajar pela Amazônia, e fui decidido a mudar isso. Só andei de barco, geralmente viagens de mais do que 30 horas. Nos barcos na Amazônia se viaja na rede. Passei dezenas e dezenas de horas rangendo minha rede, para cá e para lá. Levei dois livros, comprei mais três em mercados de pulgas por lá. Li livros bem bons e outros bem ruins. Terminei todos. Isso me deu uma imensa paz de espírito.

Temos infinitas escolhas à nossa disposição hoje, e isso deveria ser uma coisa boa. Mas, por um mecanismo evolutivamente implantado em nosso cérebro, escolhas são sempre difíceis. Ter tantas não torna a vida mais fácil – torna-a mais difícil. Nossa tendência é escolher coisas demais (porque reduz a sensação de perda) e nos atormentarmos para acomodar tudo na nossa agenda cada dia mais lotada.

Em 2011 o que eu quero para a minha vida é mais foco. Continuarei curtindo meu iPhone e talvez compre um iPad. Não abandonarei a internet. Continuarei respondendo meus emails. Mas abrirei horas e horas e horas do meu dia para me concentrar em algo, a fundo. Passarei horas e horas e horas na rua coletando informações de primeira mão, não em frente a um computador, onde nada acontece. De celular desligado.

Feio o título que eu dei para este texto, não é? Incomoda. Talvez você esteja até meio indignado com a falta de educação deste colunista. Como assim “merda”? Merda não se escreve num respeitado veículo de imprensa. Não se deve falar uma palavra mal-cheirosa dessas em público.

Pois eu acho que o mal-estar que essa palavra gera é sintoma de uma dificuldade da sociedade contemporânea em lidar com um assunto fundamental: os nossos resíduos. Merda é uma coisa tão feia que, hoje em dia, na nossa sociedade, o tratamento padrão para lidar com ela é despejar 15 litros de água limpa em cima dela para levá-la para bem longe de nós. Enquanto isso, 4,5 milhões de crianças morrem todos os anos por falta de acesso a água limpa. E é claro que os 15 litros não fazem o cocô desaparecer. No geral, aqui no Brasil e na maior parte do mundo, ele é levado para algum rio ou para o mar, onde vai sujar mais água ainda.

O químico alemão Michael Braungart, coautor do livro Cradle to Cradle, que já citei aqui, costuma dizer que “estamos na merda porque não ligamos para a merda”. Quando ele diz que “estamos na merda”, isso deve ser compreendido de maneira bem literal. É exatamente o que está acontecendo. Nossa civilização está soterrada em cocô e em lixo, porque obviamente produzimos essas coisas todos os dias e acumulamos resíduos num ritmo absurdo. Um pedaço cada vez maior do planeta está sendo inutilizado para dispormos os excrementos do nosso sistema de produção.

Para efeito dramático, Braungart, quando falou no TEDxAmazônia, levou com ele uma cadeira, sentou-se e, antes de começar a falar, cerrou os dentes e encarou o público como se estivesse fazendo força.

No livro, Braungart conta que, na China antiga, era considerado falta de educação jantar na casa de alguém e ir embora sem antes fazer cocô lá fora. Isso seria roubar os nutrientes da casa do seu anfitrião. Por conta disso, todo chinês tinha um sistema de compostagem, no qual os excrementos da casa eram tratados de maneira a retirar os compostos orgânicos, que depois alimentariam a plantação para alimentar novos hóspedes.

Parece meio absurdo pensar que um sistema desses pudesse funcionar no mundo atual, povoado por 7 bilhões de pessoas que vivem amontoadas. Mas tem gente boa dedicada a imaginar essa possibilidade. O pessoal do Ipec, o Instituto de Permacultura e Ecovilas do Cerrado, em Pirenópolis, Goiás, desenvolveu um banheiro de compostagem que funciona muito bem e não exala cheiro algum. O Boom Festival, de Portugal, um dos maiores festivais de música eletrônica da Europa, usa esses banheiros do Ipec, em vez dos imundos banheiros químicos dos nossos festivais.

Hoje em dia, com essa nossa paranóia de mandar a merda para longe de nós, nós desperdiçamos um monte de nutrientes. Isso traz duas consequências. 1) o interminável acúmulo de lixo do qual já falei. E 2) há cada vez menos nutrientes disponíveis para nós. Um estudo recente citado no livro “Em Defesa da Comida”, de Michael Pollan, comparou a quantidade de micronutrientes em uma maçã de hoje e uma de 1940. Resultado: para obter a mesma quantidade de nutrientes de uma maçã de 70 anos atrás, você teria que comer três maçãs hoje.

Pois então: merda não é assunto para se varrer para baixo do tapete. É para ser discutido abertamente, sem preconceito. O primeiro passo talvez seja perder o medo de pronunciar essa palavra. Merda, merda, merda, merda.

Andei pensando mais no assunto do último post e cheguei à conclusão de que não me fiz claro o suficiente, como comprovam os comentários do Oswaldo e do sinisorsa, que leram no meu texto um monte de coisas que eu não escrevi. Achei que valia falar mais um pouquinho da polêmica do WikiLeaks, para me explicar melhor.

Primeiro: no fundo, no fundo, não tem nada de realmente avassalador nos documentos diplomáticos vazados. Embaixadores são seres humanos. Uns são inteligentes, interessantes. Outros são bestas quadradas. Nada daquilo é fato comprovado: são apenas opiniões de gente comum sobre os países do mundo, no geral formadas a partir de uma pesquisa medíocre. Eventualmente tem lá alguma informação interna reveladora, mas a grande maioria do conteúdo não surpreendeu ninguém. Os documentos vazados são apenas comunicações entre diplomatas americanos e Washington. Enfim, fofoca. Chavez é isso, Dilma é aquilo, Afeganistão é isso, China é aquilo. Em parte, isso explica o sucesso: as pessoas adoram fofocas. Virou uma espécie de BBB cujos personagens são os maiores líderes políticos do mundo. Quem não quer saber de uma fofoca sobre esse pessoal? Se envolver o Lula então, aí o povo faz a festa: a turma adora fofocas sobre o Lula (seja a favor ou contra, a audiência sempre dispara). Enfim: o conteúdo que está sendo vazado pelo WikiLeaks não é assim tão fundamentalmente importante, como aliás escreveu o Marcelo Coelho na Folha de ontem.

Segundo: o que é importante sim é o fato disso estar sendo vazado. Nascemos em um mundo acostumado às salas fechadas. É universalmente aceito o fato de que os diplomatas circulam numa esfera distante das vistas da população. Eles lidam com questões importantes, logo é de se esperar que o que eles discutem nas reuniões não tenham que ir parar nos ouvidos do mundo. É assim, sempre foi assim, espera-se que seja sempre assim. De repente uma tonelada dessas informações secretas vaza. Isso de repente muda dramaticamente as expectativas da população mundial. De uma hora para a outra, eu e você começamos a nos perguntar: “e se não fosse assim?”. E se os debates fossem públicos? E se houvesse menos assimetria de informação? E se o cidadão da China, do Afeganistão, do Brasil ou da Suécia fossem claramente informados das opiniões dos Estados Unidos e vice-versa? Não seria melhor? Afinal, se não tem nenhuma grande surpresa nos documentos, se aquilo é assim tão banal, porque então classificar como “secreto”? Por que não abrir tudo? É essa a discussão que se coloca. (E vale dizer: acho sim que há argumentos legítimos contra a transparência em certas ocasiões, como muito bem escreveu o pesquisador de Harvard Lawrence Lessig num artigo clássico no ano passado – veja na página 26 desta revista digital.)

Terceiro: não estou defendendo o Assange nem atacando os Estados Unidos. Não defendo ditadores nem justifico a existência de hackers. Caramba, é incrível como a ideologia do esquerdo-direitismo (ou direito-esquerdismo, é a mesma coisa), aquele pensamento dos anos 80 que diz que o mundo é dividido entre bons e maus, está entranhada em qualquer debate. Não tenho menor interesse em defender ou atacar ninguém. Nem conheço esse pessoal. Só quero discutir os sistemas, as ideias, as mudanças que estão acontecendo no mundo. Isso sim é interessante.

O mundo está vivendo uma guerra entre culturas. De um lado, a cultura da transparência. Do outro, a cultura do segredo. É isso que está em jogo na polêmica do WikiLeaks, que agitou o mundo nas últimas semanas e certamente vai continuar agitando por muito tempo mais.

As novas tecnologias da informação criaram a possibilidade de um nível de transparência antes impensável. Se não houvesse computadores ou internet, jamais alguém seria capaz de copiar e distribuir 250.000 documentos, como o Wikileaks acabou de fazer. Agora, informação voa e se reproduz infinitamente a custo zero.

Mas, ao mesmo tempo, houve um investimento tremendo em tecnologias de segurança. Pense num aeroporto atual. Pense na quantidade de senhas criptografadas que você precisa conhecer para sacar 10 reais no banco. Pense na quantidade de catracas, sensores e câmeras pelos quais você passa todo dia.

Obama fez da transparência um tema fundamental de sua presidência, ao ganhar a eleição baseando sua campanha eleitoral numa plataforma online aberta. Depois de eleito, ele fez circular um memorando endereçado a todos os chefes de departamento e de agências do governo federal. O assunto do memorando era “transparência e governo aberto”. Ele determinava que sua administração estava comprometida a “criar um nível sem precedentes de abertura no governo”, de forma a “fortalecer nossa democracia e promover eficiência e eficácia.”

Realmente, mais abertura tende a estimular eficiência e eficácia. Se todas as decisões de todo mundo são registradas e disponibilizadas pela internet, e qualquer cidadão pode saber o que cada servidor público faz, isso tem pelo menos duas consequências. 1) os mal-intencionados tendem a ser desmascarados. Mas, mais importante: 2) os bem-intencionados poderão receber ajuda de fora, de alguém que conhece um jeito melhor de fazer as coisas.

Num videogame online que já espalhou pela rede, o mocinho é Assange, que precisa roubar arquivos do laptop de Obama usando um pendrive

Irônico que esse mesmo Obama tenha ido parar no lado oposto do debate, tentando encontrar algum instrumento legal que ajude a fechar o WikiLeaks e talvez até permitindo que seu governo trame com a justiça sueca para prender seu criador com base em acusações no mínimo polêmicas. Certamente decepcionou muita gente.

Mas eleger Obama (ou Hillary) como o vilão da história é uma distorção. O fato é que a maior parte das decisões realmente importantes do mundo inteiro ainda é tomada em segredo e mal explicada para as pessoas afetadas. Governos e grandes empresas discutem aquilo que realmente importa atrás de portas fechadas. E, no mundo inteiro, diplomacia envolve necessariamente uma dose altíssima de dissimulação: país nenhum diz em público aquilo que realmente quer (obviamente, uns países são mais confiáveis que outros).

O mundo seria melhor se houvesse menos segredo. A maior parte das injustiças do mundo tem em sua base uma assimetria de informação: numa relação entre duas partes, uma sabe mais do que a outra sobre os termos da relação. Isso aumenta a chance de essa parte se dar bem. Aumenta também a chance de sempre os mesmos se darem bem, porque têm mais acesso às salas fechadas.

Ou seja, se houvesse completa transparência, em todos os níveis, tudo seria mais justo. Pouca gente discorda disso. Por outro lado, ninguém é bobo de abrir mão de seus segredos unilateralmente. Todo mundo é a favor de transparência, mas ninguém quer começar. Por isso Obama está tão contrariado.

Na minha opinião, a guerra entre transparência e segredo é a grande questão do nosso tempo. E está longe de estar resolvida. Teremos cada vez mais transparência no mundo, turbinada por novas tecnologias. E, paradoxalmente, teremos também cada vez mais segredos. O mundo vai investir cada vez mais dinheiro em sistemas de segurança mais eficazes. Haverá uma epidemia de políticos querendo aprovar legislação restritiva, negando acesso a informação.

Meu palpite é que, com as tecnologias de informação avançando mais e mais, vai chegar o dia em que as tecnologias de segurança ficarão caras demais. Aí, manter segredo vai se tornar anti-econômico. Com isso, vai valer mais a pena fazer as coisas direito e ser transparente sobre elas. Mas talvez eu esteja só sendo otimista…

São Paulo tem uma rede de ciclovias só comparável à das cidades mais miseráveis da África, uma vergonha que depõe contra a cidade. Tem menos ciclovias do que Bogotá, Belém ou Sorocaba, cidades muito menos populosas e ricas. Houve alguns avanços microscópicos nos últimos anos, como a ciclovia da Marginal Pinheiros, que talvez venha a ser útil daqui a algumas décadas, quando estiver conectada às vias e às redes de trens e metrô (bastaria que um vagão fosse exclusivo para ciclistas com suas bicicletas), mas o cenário geral é de descaso. Gilberto Kassab, o prefeito da cidade, foi tão omisso no que se refere a esse assunto quanto qualquer prefeito antes dele.

Por que é assim? Por que a cidade trata tão mal aquelas pessoas que decidem se locomover de uma maneira que reduz o trânsito, as emissões de poluentes e melhora os indicadores de saúde da cidade?

Ativista demonstra na Avenida Paulista o tanto de espaço que um carro ocupa no trânsito

Parte da razão provavelmente tem a ver com um paradigma cultural. Kassab, como qualquer prefeito recente antes dele, tem carro. Ele está acostumado a ver a cidade através de um para-brisas. Ele é incapaz de criar empatia com um daqueles malucos suando lá fora –  simplesmente não consegue se colocar no lugar deles.

Por conta disso, nem passa pela cabeça dele o imenso absurdo que é construir uma nova ponte na cidade, com a pretensão de ser um cartão postal paulistano (a Ponte Estaiada), sem prever acesso para pedestres e ciclistas. Ele nem consegue imaginar o quanto nossos cruzamentos são ameaçadores para quem pedala, o quanto faz falta sinalização adequada. E não é só do prefeito que estou falando. Pouquíssima gente que trabalha na secretaria de transportes e na companhia de engenharia de tráfego pedala em São Paulo. Para eles, as ruas são dos carros – é esse o paradigma cultural no qual eles vivem.

Muitos motoristas têm o mesmo problema: eles estão tão acostumados a ver as ruas cheias de carro que acreditam que é assim que as coisas são, por natureza. Ciclistas são intrusos na ordem natural das coisas. Por conta disso, muitos motoristas, às vezes até bem intencionados, buzinam quando vêem uma bicicleta à sua frente. Na sua incapacidade de se colocar no lugar do ciclista, eles nem percebem que buzinadas são perigosas e desestabilizadoras para quem depende de ouvidos apurados para se manter vivo. Outros passam pelos ciclistas sem respeitar a distância mínima de 1,5 metro entre o carro e a bicicleta, colaborando para o altíssimo índice de mortes de ciclistas na cidade.

Nessa cegueira por causas culturais, o prefeito e os motoristas nem percebem o óbvio: ciclovias seriam boas para todo mundo, inclusive para os motoristas. Cidades com redes cicloviárias bem planejadas, como Londres, Nova York, Paris, Estocolmo, San Francisco, Bogotá, Copenhague têm muito menos trânsito. Vocês não querem menos trânsito, motoristas?

Sem ciclovias, vocês motoristas terão que dividir o espaço comigo. Eu pedalo no meio da pista, tranquilamente, sem pressa, e vou fazer isso enquanto não houver um espaço decente dedicado para mim. Você quer mesmo ter que dirigir devagarzinho atrás de mim? Não seria melhor dedicar uma faixa para mim e para os outros ciclistas da cidade, para que o seu carro tivesse também um espaço exclusivo e tudo fluísse melhor?

Ser contra uma boa rede cicloviária é ser a favor da lei do mais forte – da barbárie que vigora hoje em dia em São Paulo. Aqui carro maior tem mais direitos. Eu odeio ter que viver numa cidade regida por essa lógica tosca. Mas, se a lógica é essa, posso jogar o jogo: contra a ameaça de morte constante que os carros me oferecem, só o que tenho é a ameaça de chutar o retrovisor alheio.

Motorista, você não preferiria viver numa cidade que respeita o mais fraco e em troca ter seu espelhinho preservado?