Merda

Feio o título que eu dei para este texto, não é? Incomoda. Talvez você esteja até meio indignado com a falta de educação deste colunista. Como assim “merda”? Merda não se escreve num respeitado veículo de imprensa. Não se deve falar uma palavra mal-cheirosa dessas em público.

Pois eu acho que o mal-estar que essa palavra gera é sintoma de uma dificuldade da sociedade contemporânea em lidar com um assunto fundamental: os nossos resíduos. Merda é uma coisa tão feia que, hoje em dia, na nossa sociedade, o tratamento padrão para lidar com ela é despejar 15 litros de água limpa em cima dela para levá-la para bem longe de nós. Enquanto isso, 4,5 milhões de crianças morrem todos os anos por falta de acesso a água limpa. E é claro que os 15 litros não fazem o cocô desaparecer. No geral, aqui no Brasil e na maior parte do mundo, ele é levado para algum rio ou para o mar, onde vai sujar mais água ainda.

O químico alemão Michael Braungart, coautor do livro Cradle to Cradle, que já citei aqui, costuma dizer que “estamos na merda porque não ligamos para a merda”. Quando ele diz que “estamos na merda”, isso deve ser compreendido de maneira bem literal. É exatamente o que está acontecendo. Nossa civilização está soterrada em cocô e em lixo, porque obviamente produzimos essas coisas todos os dias e acumulamos resíduos num ritmo absurdo. Um pedaço cada vez maior do planeta está sendo inutilizado para dispormos os excrementos do nosso sistema de produção.

Para efeito dramático, Braungart, quando falou no TEDxAmazônia, levou com ele uma cadeira, sentou-se e, antes de começar a falar, cerrou os dentes e encarou o público como se estivesse fazendo força.

No livro, Braungart conta que, na China antiga, era considerado falta de educação jantar na casa de alguém e ir embora sem antes fazer cocô lá fora. Isso seria roubar os nutrientes da casa do seu anfitrião. Por conta disso, todo chinês tinha um sistema de compostagem, no qual os excrementos da casa eram tratados de maneira a retirar os compostos orgânicos, que depois alimentariam a plantação para alimentar novos hóspedes.

Parece meio absurdo pensar que um sistema desses pudesse funcionar no mundo atual, povoado por 7 bilhões de pessoas que vivem amontoadas. Mas tem gente boa dedicada a imaginar essa possibilidade. O pessoal do Ipec, o Instituto de Permacultura e Ecovilas do Cerrado, em Pirenópolis, Goiás, desenvolveu um banheiro de compostagem que funciona muito bem e não exala cheiro algum. O Boom Festival, de Portugal, um dos maiores festivais de música eletrônica da Europa, usa esses banheiros do Ipec, em vez dos imundos banheiros químicos dos nossos festivais.

Hoje em dia, com essa nossa paranóia de mandar a merda para longe de nós, nós desperdiçamos um monte de nutrientes. Isso traz duas consequências. 1) o interminável acúmulo de lixo do qual já falei. E 2) há cada vez menos nutrientes disponíveis para nós. Um estudo recente citado no livro “Em Defesa da Comida”, de Michael Pollan, comparou a quantidade de micronutrientes em uma maçã de hoje e uma de 1940. Resultado: para obter a mesma quantidade de nutrientes de uma maçã de 70 anos atrás, você teria que comer três maçãs hoje.

Pois então: merda não é assunto para se varrer para baixo do tapete. É para ser discutido abertamente, sem preconceito. O primeiro passo talvez seja perder o medo de pronunciar essa palavra. Merda, merda, merda, merda.

22 comentários
  1. Pierre Schurmann disse:

    Muito bom Denis. Enquanto não cuidarmos de nossa merda, de merda alguma adianta cuidar do resto.

  2. Lucas Nunato disse:

    Que merda de artigo!!

  3. ricardo galvão disse:

    Denis,
    Parabéns mais uma vez…
    A humanidade precisa acordar para isso. Nunca jogamos LIXO fora, só o mudamos de lugar…e isso é MUITO sério…
    Mas nossos dirigentes já aumentaram os salários deles, talvez, só na próxima eleição possamos fazer algo…
    Triste Brasil…
    Fico impressionado com você. Com sua capacidade e visão, na europa, já estaria em posição muito mas privilegiada e reconhecida…
    mas abnegadamente permanece no Brasil, só posso aplaudí-lo…

  4. Luna disse:

    Excelente…

  5. Bruno Canesi Morino disse:

    Fala Dênis, hoje no Brasil rola uma briga pra se utilizar o resíduo das estações de tratamento de esgoto na silvi e agricultura, que infelizmente ainda não é permitido por órgãos sanitaristas. Em vários países Europeus a prática já é realizada em larga escala, e se fosse liberado o seu uso no nosso país, traria uma reduçao no uso de fertilizantes (normalmente importados) e diminuiria a descarga de biosólidos em aterros sanitários, já saturados.
    Pra saber mais procure artigos do POGGIANI, TSUTIYA, GUERRINI. Abraçoss

  6. jorji disse:

    4,5 milhões de crianças morrem todos os anos por falta de acesso a água limpa, é impressionante, dever ser o continente africano, a Índia. O que fazer com os nossos excrementos, e de nossos cachorrinhos, porquinhos, do nosso gado, viabilizar economicamente a merda é possivel, uma matéria prima que pode gerar energia ou adubo para o solo, são toneladas e toneladas, estamos desperdiçando as nossas fezes, dar um destino decente para algo com tantos nutrientes, poderiamos até fazer alimento, quem sabe.

  7. paula disse:

    maravilha de texto!

  8. Chesterton disse:

    um texto de merda, literalmente. A merda equina já foi vendida a peso de ouro…..hoje há(bunda) -trocadalho do carilho.

  9. denis rb disse:

    Lucas, Chesterton, deixa eu tirar uma dúvida?
    Quando vocês dizem que o texto está uma merda, o que exatamente vocês estão querendo dizer? Que está ruim? Ou que pode servir de adubo para outros textos?😉

  10. Chesterton disse:

    Sem juizo de valor, apenas uma constatação. Merda é uma coisa boa em si. O termo “obrar” é justo.

  11. gino disse:

    Uai, mas pensando assim nossos rios são riquissimos em nutriente…

  12. denis rb disse:

    Exato, gino
    Os rios estnao cheios de nutrientes – e por isso atraem tantas bactérias, algas e outros seres, que matam os peixes e tornam a água imprópria para beber. Encher os rios de nutrientes não é boa ideia – água potável não deve ser nutritiva.

  13. Matias Mickenhagen disse:

    Hum, concordo com o raciocínio, as pessoas têm de lidar com as merdas, banheiros secos deveriam ser obrigatórios, assim como aquecimento solar de água. Estamos construindo, ou melhor, dando prosseguimento à construção de uma sociedade intensiva em mão de obra supostamente pouco qualificada para lidar com a merda dos sopostamente cultos. O Bruno disse da importação de fertilizantes, muitos a base de petróleo, oscilando com esse mercado tornam mais complicado algo que poderia ser simples como o cultivo/enriquecimento de solos por resíduos orgânicos. Mas pra isso é preciso que haja uma valorização da atividade agrícola, pois de alguma forma esses precisariam não só se estruturar melhor. Também precisam levantar a cabeça e não acreditar nos moradores da cidade que lhes menosprezam ao ver suas botas “sujas” com terra, mas não se lembram que sem essas botas sujas seu pão não teria estado na mesa hj cedo. bom artigo denis!

  14. Norberto disse:

    Nunca tinha lido teu blog, nem imaginava o porque dele estar na veja.A primeira vez na vida, encontro esse título.Bela primeira impressão hein?Até Nunca.

  15. ilma da silva xavier alves disse:

    “merda”?
    Milhões de crianças morrem todos os anos por falta de acesso a água limpa.
    Nossa civilização está soterrada em cocô e em lixo.
    “merda”?
    Merda é uma coisa tão feia que, hoje em dia, na nossa sociedade,
    o tratamento padrão para lidar com ela é despejar 15 litros de água limpa em cima dela para levá-la para bem longe de nós.
    “merda”?
    Merda não é assunto para se varrer para baixo do tapete.
    É para ser discutido, sem preconceito.
    “merda”?

  16. Adriano Aldrey disse:

    Uma maravilha de texto,alem de ter muito conteudo e ser infornativo é muito engraçado a forma de si falar sobre merda!

  17. Ana Nava disse:

    Compartilhemos então a merda!

  18. Tia Ví disse:

    Jorgi,
    rs… espero q vc coma suas proprias merdas. Eca!

  19. Legal o ponto de vista Denis. Também acho que devemos prestar muita atenção à nossa merda, porque uma coisa que é problema hoje (queremos a merda bem longe) pode virar recurso amanhã (nutrientes, adubo – algo que se aplica também aos outros resíduos organicos).

    Tenho um amigo que compostava sua própria merda pra usar na horta de casa e, pensando nisso, eu e um amigo escrevemos um sambinha. A letra segue abaixo, se quiser te envio uma gravacao caseira… Abraco!

    *Samba da composta*

    Não ria de mim se acredito em composta
    Faço bom uso da bosta
    Com uma boa proposta

    Eu observo a natureza
    Tenho toda certeza
    O mundo vai mudar

    De dentro pra fora
    O amanhã começa agora
    Vai ser incrível
    Cagar o nosso próprio combustível

  20. celso verdão disse:

    sr. quando nas discussões sobre sustentabilidade mundial,meio ambiente,aquecimento global, são realizadas e as conclusões dos lideres mundiais são as mais inesperadas ,mandamos estes líderes à merda, gostariamos que eles o fizessem após ler seu comentário …….

    para assim, o mundo sair da MERDA EM QUE SE ENCONTRA!

    parabéns!

  21. Edgard Gouveia Júnior disse:

    Cara, espero que vc saiba o quão poderosa é essa tua matéria… bom, eu acho que você sabe sim. ADOREI!
    Como diz um grande amigo meu: Você é bom… e não é de bondade que estou falando😉
    Te abraço!

  22. Raíssa Vieira Teixeira disse:

    Tudo bem que a matéria trata de um assunto muito importante, mas dizer que a veja é uma revista conceituada que não deve receber a palavra merda em suas páginas e texto, ai já ta forçando a barra…😉

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