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Arquivo mensal: fevereiro 2011

Hoje no Brasil 50 mil pessoas morrem em homicídios por ano, número digno de zona de guerra. A segunda causa de morte do país é o trânsito, com 40 mil por ano. Quem mais morre no trânsito são os pedestres. Não é difícil de entender por quê.

O trânsito está nervoso, agressivo. Quando o sinal abre, os motoristas pisam fundo, para aliviar a frustração de ficar parado, e freiam bruscamente alguns metros a frente, porque o trânsito para de novo. Entre um carro e outro, cidades superlotadas estão inventando de enfiar motos. Em São Paulo, 578 pedestres morreram no trânsito em 2009 (258 atropelamentos envolviam carros, 123 envolviam motos).

Há pela cidade um bom número de faixas de pedestre, a maioria delas sem o reforço de um semáforo. Geralmente elas ficam nos cruzamentos, demarcando o caminho que os pedestres precisam cruzar para chegar ao quarteirão seguinte. Obviamente, os pedestres têm a preferência em cima dessas faixas. Na maioria das cidades brasileiras, os motoristas ignoram completamente esse fato. É como se as faixas não existissem. Se um pedestre tentar usar de seu direito de preferência, entrando na frente do carro, terá sorte se levar apenas um dedo médio erguido e uma homenagem à mãe.

Um pedestre, de muleta, com a preferência, na chuva, espera pacientemente que um carro lhe dê a preferência. Nenhum deu

Outro dia eu estava no boteco aqui em frente de casa e na mesa ao lado sentaram-se quatro fiscais do Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), exaustos, comendo um lanche no final do expediente. Perguntei a eles por que eles não multavam carros que desrespeitam a faixa. Eles responderam:

– É questão de cultura.

Cultura? E por que então não mudamos a cultura? Multas, sabe-se bem, mudam a cultura muito rapidamente. Pois qual não foi minha surpresa quando descobri o inesperado: os fiscais da CET são proibidos de multar por esse motivo. Seus talões nem sequer contêm a infração.

Ok, não têm a infração, mas têm a linha “outros”. Os fiscais, se quiserem, podem multar assinalando “outros”, não? Não exatamente. O “outros” raramente é utilizado. A CET padroniza o procedimento para cada tipo de infração e, nesse caso, até alguns meses atrás, não havia sequer procedimento estabelecido. Quando não há procedimento estabelecido, os fiscais são proibidos de agir mesmo que vejam um jipão com cara de tanque e vidro fumê passar numa poça e encharcar uma velhinha com um andador que tinha a preferência e estava na faixa de pedestres.

Uma coisa que me chamou a atenção na conversa que tive com os fiscais é que todos eles eram cidadãos bem educados, articulados, preocupados com a saúde dos cidadãos, inteligentes. Tivemos uma ótima conversa e eles tinham muitas boas ideias. Mas a prefeitura veda a eles usar seu próprio julgamento e influir no sistema.

Isso é típico do Brasil, uma das muitas lembrancinhas que a escravidão deixou no caráter nacional. Não confiamos nos “subalternos”. Por conta disso, toda decisão sobre o complexo trânsito das cidades é tomada em salinhas bege com ar condicionado por sujeitos gordinhos e de terno que andam com motorista. Os fiscais não têm liberdade de ação para colocar inteligência no sistema. Enquanto isso, a imensa maioria de nós – pedestres, usuários de transporte público, ciclistas e motoristas depois que estacionam – tenta sobreviver nas ruas.

Os gordinhos de terno só levam uma coisa em conta na hora de tomar decisões: o fluxo de veículos. Eles só são cobrados pelo prefeito por um número: quantos veículos passam pela via por hora. Esse número é uma baboseira – basta pensar que um carro, nessa conta, vale a mesma coisa que um ônibus. Contar veículos e achar que isso mede a qualidade do trânsito é uma estupidez.

Enquanto isso, as prefeituras brasileiras estão negligenciando sua tarefa de zelar pela vida dos cidadãos que pagam seus salários. Se ficar provado que a prefeitura tem instrumentos para zelar pelo bem público e pela vida do cidadão e conscientemente nega-se a utilizá-los, isso não é razão para processos civis, ações de impeachment e responsabilização criminal de gestores públicos?

PS: Quanto ao motorista que tentou assassinar dezenas de ciclistas em Porto Alegre na semana passada, só posso dizer que ficarei muito frustrado se ele passar na cadeia um dia a menos do que a pena máxima permitida neste país.

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Um dia, papeando à beira de uma cachoeira na Floresta Amazônica, reclamei da formigaiada que forrava o chão, ameaçando meus pés descalços. Meu guia, meio que assim de passagem, comentou:

– Esta saúva a gente come muito, quando não tem pimenta em casa.

Saúva? Pimenta?

– É, é apimentada. E dá para fazer chá também, parece capim-santo – disse Manuel, o guia, um caboclo de uns 60 anos, todos eles passados dentro do mato.

– Quer provar?

Relutei, confesso. Comer saúva, assim, sem preparo, sem farofa, sem técnica humanizada de abate? Elas estão vivas, pô. Mas, a essa altura, o Manuel já tinha pego uma coitada no chão, entre o indicador e o polegar e, sem pestanejar, com a outra mão, arrancava a cabeça do corpo para depois cuidadosamente descascar as antenas e as mandíbulas. O que sobrou em sua mão foi uma bolinha quase preta, a cabeça roliça da saúva.

– Cheira – ordenou o Manuel.

Igualzinho a capim cidreira, ou capim-santo como se diz ao norte.

Enfim, provei. Que delícia. Tinha um quê de pimenta–do–reino, picante, e um sabor bem parecido com cidreira, só que ainda mais vivo, mais cheio, se espalhando pela boca. Uau.

No mundo inteiro, há milênios, gente simples como o Manuel guarda os segredos das maiores iguarias que existem. Quem foi o pescador maluco no centro da Ásia que em algum momento achou que ia ser uma boa ideia meter na boca um bocado daquelas nojentas ovas pretas de esturjão? Que bravo camponês francês, destemido do cheiro de chulé, encarou aquela massa de leite embolorado e descobriu que queijo fedido é delicioso? Que doido fazendeiro italiano primeiro enfiou na boca aquelas bolas de fungo descobertas pelos porcos.

As comidas mais sofisticadas e caras do mundo têm sempre suas origens numa tradição culinária imensamente rural e popular. Claro. É em lugarejos perdidos e cercados de natureza que os homens ousam colocar na boca esquisitices nojentas que acabam se tornando a mística gastronômica de um povo.

No Brasil, tendemos a desprezar o saber popular sobre as coisas da terra. Preferimos cultuar o caviar, o rockefort ou a trufa negra, prestando homenagem ao saber ancestral de outros povos, e enviando milhares de dólares para a Europa. Isso é típico do nosso complexo de viralatas: as coisas daqui não prestam, importado é melhor.

Acontece que não é. A Amazônia é a mais potente fábrica de matéria orgânica do mundo, alimentada por uma quantidade insuperável de umidade, calor e nutrientes. Em nenhum lugar do mundo há tantos sabores, tantas esquisitices, tantas coisas para serem experimentadas. E estamos sistematicamente queimando tudo para colocar pasto no lugar.

Semana passada, por causa de um projeto jornalístico, tive uma reunião com o Alex Atala, tido como um dos maiores chefs do mundo. Ele falava de sua paixão pelas possibilidades gastronômicas da Amazônia. Uma hora ele se empolgou.

– Vem aqui. Preciso te mostrar uma coisa – ele disse

Entramos na mítica cozinha de seu restaurante, o D.O.M., e ele abriu a porta de um congelador. Lá de dentro, tirou um pote de plástico, desses de sorvete, e abriu. Olhei dentro da caixa e vi algumas centenas de saúvas engruvinhadas uma na outra. Pus uma delas na boca, e o sabor transbordante de pimenta e cidreira me transportou de volta para aquela cachoeira amazônica, perto da casa do seu Manuel.

Perguntei o que ele pretendia fazer com as saúvas.

– Não sei ainda – respondeu, cheio de mistério.

Será que vai dar tempo de sabermos? De desvendarmos o infinito potencial da floresta? De tirarmos dela os sabores do Brasil do futuro?

Quando o século 19 começou, não havia no Planeta Terra nenhuma democracia digna desse nome (naquela época, negros e mulheres eram proibidos de votar nos EUA). Em 1942, só 12 países do mundo eram democráticos, todos eles localizados na Europa ou na América do Norte. A Segunda Guerra Mundial estava no auge. Milhões de pessoas haviam sido mortas, em grande medida por causa da loucura de um punhado de ditadores. Foi aí que ganhou força um certo idealismo, uma convicção da superioridade da democracia e da necessidade de acabar com as tiranias.

De lá para cá, não dá para dizer que não tenhamos tido sucesso nessa missão. Há hoje no mundo cerca de 120 “democracias eleitorais” (aquelas que elegem seus líderes), o que dá 60% das nações da Terra, espalhadas por todos os continentes. O número de “países livres” – aqueles que, além de eleger seus presidentes, respeitam as liberdades básicas e possuem poderes independentes que se contrabalançam – já beira os 90, metade dos governos do mundo (mas bem menos que metade da população, já que a China desequilibra a balança).

O gráfico mostra a quantidade de países "livres" (verde), "parcialmente livres" (amarelo), e "não-livres" (vermelho), segundo os critérios da organização Freedom House

Esse número, que cresceu aceleradamente após o fim da Guerra Fria (quando ditaduras de esquerda e de direita proliferaram pelo mundo com o pretexto de que era o único modo de combater um “mal maior”), parece que está prestes a passar por mais um aumento dramático. Ajudado por ferramentas digitais, o povo foi às ruas na Tunísia e no Egito e derrubou velhos ditadores, e agora quase todas as ditaduras islâmicas estão balançando no pé. Ainda é cedo para saber se o que haverá no lugar dos ditadores será mesmo uma democracia, mas parece difícil acreditar que o povo, orgulhoso pelas vitórias, vá se contentar com muito menos que isso.

Isso é boa notícia, sem sombra de dúvida. Países democráticos são mais pacíficos, mais motivados, têm maiores índices de desenvolvimento humano, mais confiança entre as pessoas, economia mais dinâmica, mais possibilidades de realização pessoal, mais capacidade de inovar do que países autoritários. Apesar de serem aparentemente mais bagunçados, já que estão sujeitos à vontade do povão, a longo prazo eles são na realidade muito mais estáveis, porque têm regras claras, enquanto ditaduras quase sempre entram em crise à beira da sucessão. Ditaduras são caldeirões de frustrações e ressentimentos, cozidos a xenofobia.

Mas essa distinção entre democracia e ditadura esconde o fato de que há muitíssimos cinzas entre o branco e o negro. Há democracias de excelente qualidade, com três poderes independentes se fiscalizando mutuamente, muita transparência, muita responsabilidade, muitas oportunidades para participação cívica. E há outras mais capengas.

A brasileira, por exemplo, se não é das piores do mundo, está bem longe das melhores. Nossas instituições são fracas, o cidadão tem pouca voz, o judiciário é ineficaz, a polícia é corrupta e violenta, o legislativo é refém do executivo, os parlamentares se deram aumento de mais de 60% assim que passou a eleição e o deputado mais votado atende pela alcunha de Tiririca. Enfim, é uma democracia meia-boca.

Longe de mim querer desprezá-la. Ter uma democracia meia-boca é 1 milhão de vezes melhor do que não ter nenhuma – como não tínhamos há duas décadas e o Egito não tem ainda. Mas isso não significa que tenhamos que ficar satisfeitos com o pouquinho que temos – na realidade, a maior das vantagens da democracia é sua capacidade de melhorar, de incorporar contribuições da sociedade. No Egito, as novas tecnologias mudaram o espírito do país: aumentaram os anseios, os sonhos, as expectativas. Será que algo parecido está sendo gestado no Brasil?

Conheci Pedro Abramovay em 2008. Na época eu tinha a encomenda da Editora Abril de criar uma nova revista para adultos jovens – gente entre a maioridade e o auge da idade produtiva, aos 30 e tantos. Decidimos começar o projeto com uma pesquisa. Juntei um time de quatro pessoas e por um mês rodamos de carro 7 mil quilômetros, entrevistando gente que “estava fazendo coisas legais”. Fomos para 11 cidades em 10 estados do país e em todas elas encontramos uma cena vibrante de jovens criativos e independentes, conectados ao mundo, brilhando por seu talento. Foi uma viagem reenergizante.

Brasília estava no nosso roteiro. Eu estava interessado em saber se a capital federal – geralmente associada no imaginário popular a burocracias lentas e preguiçosas – tinha uma “classe criativa” tão agitada quanto as outras. Resposta: tinha sim. Encontramos por lá um monte de gente legal com projetos grandiosos e divertidos.

Mas será que esse agito só estava acontecendo na esfera privada? Será que não havia também dentro do governo uma cultura de criatividade, inovação, independência? Comecei a perguntar e logo me falaram do Pedro, na época com 28 anos, comandando um time de 15 advogados no Ministério da Justiça, a maioria com menos de 30. Segundo me disseram, era um núcleo extremamente ativo que produzia muito, trabalhava com paixão e conseguia resultados.

Pedro Abramovay, no dia em que o entrevistamos

Fomos entrevistá-lo em seu gabinete. Encontramos um sujeito apaixonado por seu trabalho e empenhado em transformar o panorama jurídico brasileiro, cheio de ineficiências e injustiças. Por exemplo: ele estava empolgadíssimo com a ideia de abrir espaço para discussões públicas de leis na internet, de maneira a aumentar a qualidade da democracia brasileira. Por horas, Pedro nos contou com os olhos brilhantes sobre as batalhas que ele estava lutando. Ele disse que, quando chegou, o lugar era tão burocrático quanto o estereótipo de uma repartição pública: “era um grande cartório isso aqui”. O rejuvenescimento da equipe trouxe um time menos acomodado, gente idealista verdadeiramente interessada em participar de transformações importantes. “Os salários não são altíssimos e trabalha-se 14 horas por dia. Só está aqui quem realmente acredita nas coisas que dá para fazer, quem não quer apenas bater ponto”, disse.

Pedro não tinha muita paciência para a vida partidária. “Os partidos políticos estão todos muito chatos”, reclamou. “O sistema político os induz a não discutir nada”. Mas ele acreditava que os governos ficariam cada vez mais criativos, com núcleos como o dele se multiplicando e ocupando cada vez mais espaço, como está acontecendo em muitos países.

Na época, Pedro me contou de uma ideia que eles estavam discutindo lá: a de distinguir na lei o pequeno do grande traficante de drogas, de maneira a diminuir a influência das grandes organizações criminosas, como o PCC e o Comando Vermelho. Do jeito que a lei é hoje, tratando qualquer adolescente que compra fumo para os amigos como se ele fosse o Fernandinho Beira Mar, ela serve de incentivo para os meninos da favela para que eles se armem, tornem-se violentos e ingressem nas fileiras do crime organizado. O time de Pedro estava fazendo estudos para descobrir como fazer para mudar isso.

Essa ideia finalmente veio a público no comecinho de 2011, quando Pedro anunciou que o governo apoiaria a mudança na lei. Duas semanas depois, ele perdeu o emprego. Poderíamos entrar na discussão sobre se o projeto que ele defendeu é bom ou ruim (eu acho que é bom), mas, para mim, essa não é a questão mais importante. Mais importante é entender que país autoritário é esse que, em vez de debater ideias em público, demite quem ousa tentar propor algo diferente daquilo que todo mundo espera. Como é que queremos mudar o Brasil se temos tanto medo de mudança? Não pode nem conversar sobre ela?

Pedro estava certo quando disse que o atual sistema político acaba com a possibilidade de haver um debate vibrante no Brasil. Mas acho que, infelizmente, ele estava errado quando previu que núcleos jovens e vibrantes iriam ganhar mais e mais espaço no interior dos governos. Não é o que parece estar acontecendo.