A lógica da lealdade

Aprendi cedo na carreira a lógica da lealdade. Eu era um repórter jovem numa publicação pouco rentável quando um executivo agressivo “tomou o poder” por lá. Bateu de frente com a cultura antiga e começou a demitir os chefes, um por um. As demissões foram duras, e deixaram bastante gente deprimida. À mim foi dito que eu poderia ficar, se quisesse. Por semanas, dormi mal, enfrentando o “dilema de lealdade” que me foi imposto. Ficar ou sair definiria quem eu era, no que eu acreditava, em que lado eu me posicionava diante das coisas da vida (por exemplo: era a hora de escolher se eu era de direita ou de esquerda).

Esse tipo de dilema acontece na vida de muita gente, quase todo mundo. Em algum momento da carreira, seja no mundo privado, seja no estatal, seja em instituições religiosas ou em organizações da sociedade civil, chega um dia em que ele se impõe. É uma espécie de rito de passagem da vida adulta: o fim das crenças ingênuas da juventude, o momento em que você abre mão das suas próprias ideias e se torna “leal” a alguém, a um grupo, a uma ideologia.

A lógica da lealdade é cômoda, porque nos dispensa de pensarmos por nós mesmos. No momento em que nos alistamos nas fileiras de alguém, fica fácil navegar pela vida: basta seguir o que o grande líder diz para todas as coisas e tudo ficará bem. A vida sem grande líder nos impõe questionamentos constantes sobre todas as coisas, o que às vezes cansa.

Mas essa lógica é muito ineficaz em momentos de crise sistêmica, como a que o mundo está vivendo na atualidade. Crise sistêmica é quando o sistema que regula as coisas para de funcionar. É o que está acontecendo agora (vide mudanças climáticas, crise de confiança na economia, desmoralização do sistema político, carros que andam na velocidade de galinhas, enchentes, deslizamentos, crise energética, fim das florestas, escalada das extinções etc.).

A lógica da lealdade é uma lógica conservadora, de defesa das instituições. É ela que diz “é assim que fazemos as coisas por aqui”, em vez de permitir que se pense no problema. É a lógica da máfia: aquela que diz “não importa se você está certo ou errado, importa se está conosco ou contra nós”.

Não é disso que precisamos neste momento da história. Precisamos de mais gente inquisitiva, perguntadora, inovadora, criativa, questionadora, independente.

Não estou aqui dizendo que todos devamos ser desleais. Lealdade é um valor indiscutivelmente positivo. Mas não podemos abrir mão de nossas capacidades críticas  e dos nossos valores em nome de lealdades corporativas ou pessoais. Não devemos lealdade a ninguém. Nenhum partido político, ou empresa, ou emprego, ou associação, ou sindicato, ou síndico, ou diretoria, ou governo, ou time de futebol tem direitos sobre nossas opiniões. E eles só podem cobrar obediência de nós se entregarem alguma coisa boa em troca. Se queremos consertar os sistemas, o primeiro passo é abri-los. Sua vida é sua, cuide dela. Menos patrulhamento, mais ideias. E não vem querendo mandar em mim.

27 comentários
  1. www.chadassete.wordpress.com disse:

    A lógica lealdade já esta se tornando a “ilógica da lealdade”. A falta de senso crítico na população alimentada pela alienação dos governos tem deixado as mentes mais preguiçosas. A comodidade à primeiva vista é tentadora, mas somente isso. A realidade chega muito cedo para alguns, todavia para outros ela é ofuscada pela cegueira. Vamos prolongar a fase dos “por que” nas nossas vidas, questionando aprendemos a inovar. “Menos patrulhamento, mais ideias.”

  2. Felipe disse:

    Tem muita gente que é leal e se humilha para o patrão, pq se não o fizer pode ser demitida e não vai conseguir alimentar os 3000 filhos…É foda essa lógica do sistema!

  3. Nome Dinea Gomes Pereira disse:

    Gostei muito do seu texto. Tem uma fase na vida que a gente e’ totalmente idealista e precisamos se-lo. Temos necessidade de nos ancorarmos num partido, numa grande ideia, numa boa religiao. Mas isto e’ uma etapa necessaria de autoafirmacao, pela qual temos que passar, para depois ampliarmos nossa visao de vida, de mundo.Ai’ vemos o quao limitada era nossa visao. Acho que devemos estar sempre questionando tudo mesmo para podermos evoluir.E deixar para traz a roupagem antiga, sem sentimentos de culpa ou apegos..Mas, na noite que vc nem dormiu, preocupado, vc demonstrou muita etica, valor que tambem precisa ser recuperado pela nossa sociedade. Concordo com vc: Questionamentos sempre.

  4. jorji disse:

    Essa questão de lealdade depende do vínculo de confiança, vivemos em um país onde a confiança não é valorizada, obviamente a lealdade dos cidadão praticamente é apenas consigo mesmo. Essa idéia do Denis num mundo com pessoas , ou gente que temos atualmente, onde a capacidade de crítica e autocrítica é limitada em todos os aspectos, pode esquecer.

  5. é… antes de mais nada devemos lealdade e nós mesmos. Aos de opinião diferente devemos respeito. E se o respeito deles tivermos também tá feita a base pra um bom diálogo e para a possibilidade de mudanças de opinião com base nas argumentações de lado a lado.
    Diz Jürgen Habermas na teoria da comunicação ativa que há de existir franqueza para que um dialogo seja possivel, se houverem interesses escondidos já era.
    boa reflexão!

  6. Luna disse:

    Jorgi…
    Lamento muito essa tragedia que se abateu sobre o Japao…

    Denis, muito bom mesmo esse seu blog.
    Embora sejamos sociaveis, a descoberta de “quem sou eu?” ou “em que acredito?” e’ e precisa ser solitaria. Educar deveria ser simplesmente ensinar o individuo a pensar por si mesmo, de tal maneira que possa assumir responsabilidade por seus atos.O planeta agradeceria. Infelizmente o individuo e’ submetido a lavagem cerebral desde que nasce. A ele incutem a lei de deus e dos homens, e a lista de “dos and don’ts” nao para de crescer. Essa lealdade restringe a criatividade, encurta os horizontes, torna a vida chata e o individuo precisa ser constantemente monitorado. E o pior de tudo…quanto desperdicio de massa cinzenta. Feliz e’ o individuo que tem a conviccao de estar vivendo a vida no seu potencial maximo.

  7. Luna disse:

    Quero dizer…Jorji

  8. Glauco disse:

    Fico com a sensação que a demanda por criatividade e inovação nesse tempo de crise gera, como efeito colateral, uma série de soluções que nem sempre apontam para o mesmo caminho. Parece que a busca pela retomada do equilíbrio depois do caos podem gerar até respostas antagônicas. Eu sei que a lealdade meramente “mafiosa” é burra, mas será que para a implementação das “mudanças necessárias” não é necessária a presença de um líder? Ou mesmo que não seja uma pessoa, que haja um pacto de alinhamento das medidas de mudança?

  9. denis rb disse:

    Glauco,
    Vejo assim: há momentos em que precisamos sim gerar um grande volume de ideias, ainda que antagônicas. O tempo vai dizer quais dessas ideias vão florescer e frutificar. Muita gente parece acreditar que crises sistêmicas serão resolvidas pela “invenção” de novos sistemas: trocaremos nossos sistemas quebrados por outros, que funcionam. Não acho que seja assim: sistemas complexos não surgem de uma hora para outra. Cada sistema quebrado será lentamente substituído por uma quantidade imensa de experimentações que lentamente ganharão escala, de maneira orgânica.
    Isso não quer dizer que não precisemos de líderes. Precisamos sim de gente que sintetize o espírito do tempo e aponte caminhos, que nos ajude a enxergar lógica no caos.

  10. jorji disse:

    Luna, a maior decepção tem sido a atuação do governo japonês, na tragédia de Kobe, ninguém passou fome, está faltando “lealdade” dos governantes aos seus cidadãos, está na hora do Japão rever o conceito de lealdade.

  11. Felipe disse:

    Kobe Jorji?? O bicho tá pegando é em Fukushima mermão!!!

    [WORDPRESS HASHCASH] The poster sent us ‘0 which is not a hashcash value.

  12. denis rb disse:

    Kobe foi em 1995, Felipe. O jorji está comparando com o tsunami de Fukushima.

  13. Lu.Moraes disse:

    Amei seu texto. E sou bastante leal a mim.abraços

  14. jorji disse:

    Aliás, um assunto da área do Denis, energia nuclear, compensa ou não compensa?, no caso do Japão pode ter consequência devastadora, mais que o terremoto e tsunami, no caso de contaminação radioativa no país inteiro, será o fim, poderá levar as grandes corporações japonesas à falência, bem como o país. Energia é questão fundamental, não existe outro caminho, a humanidade precisa desenvolver energia limpa, e a solar é a única opção, custe o que custar.

  15. reynaldo disse:

    Quando Denis fala “muita gente parece acreditar que crises sistêmicas serão resolvidas pela ‘invenção’ de novos sistemas” tenho a impressão de que está falando de gente de esquerda, de comunistas que pretendem impor, de cima para baixo, um novo sistema. Peço ao leitor que faça uma distinção: de um lado, os babacas tipo Stalin e Hugo Chavez que usam idéias de esquerda para impor às massas sua visão de mundo doentia, no que se igualam a ditadores de direita que podem, por exemplo, se inspirar na Bíblia ou no Alcorão; de outro lado, Karl Marx que não tinha uma visão individualista da transformação social, que supõe uma acumulação de iniciativas particulares fazendo frente ao sistema, não, ele dizia que havia uma lei que regia as revoluções, a contradição entre as forças produtivas e os modos de produção. Foi assim que as forças produtivas burguesas se impuseram aos poucos a partir do século XVIII porque o modo de produção feudal representava um entrave a sua expansão. O problema de “uma quantidade imensa de experimentações lentamente ganharem escala, de forma orgânica” é que o sistema tem um imenso poder de cooptá-las. Um amigo meu escreveu um livro chamado “O Capitalismo Sindical” provando como nos últimos trinta anos os grandes sindicatos têm se tornado verdadeiras empresas capitalistas, usando muitas vezes contra seus próprios empregados os mesmos métodos de exploração contra os quais lutam quando se trata dos trabalhadores aos quais representam. Um outro problema é o tempo escasso. Enquanto uma ONG leva décadas para lutar contra a burocracia e criar uma reserva legal de mil hectares na Amazônia, as madeireiras, as fazendas de gado e os assentamentos derrubam a mesma área em, sei lá, um mês? uma semana? Não estou dizendo que a história é regida apenas por uma lógica impessoal, embora o seja em alguma medida, segundo prova uma série de estudos sérios que não podemos desprezar, e não estou dizendo que essas pequenas iniciativas transformadoras não devam ser efetuadas, numa espécie de luta de David contra Golias. Estou apenas colocando, como sempre faço, a custa de levar sempre muita paulada, a dimensão do problema que estamos enfrentando. E sempre chamando a atenção para que a ação é importante, mas também o pensamento, a reflexão. Aliás esse diálogo entre a teoria e a prática sempre foi um dos pilares do marxismo. Desculpe ter que citar essas teorias incômodas que tantos anseiam por ver descartadas, mas lamento dizer que elas continuam vivas, em universidades, pelos quatro cantos do planetas, em fóruns de discussão, inspirando a luta de um sem número de movimentos sociais que podem não ter o glamour das soluções apontadas nesta coluna, mas fazem parte da luta.

  16. denis rb disse:

    reynaldo,
    só para esclarecer: eu não tinha a esquerda especificamente na cabeça quando fiz esse comentário (aliás, não ligo muito para essa distinção esquerda/direita)

  17. reynaldo disse:

    Claro, Denis, você paira luminoso sobre todas essas distinções artificiais.

  18. Marcelo Fellows disse:

    Concordo com o Jorji. Acho que seria interessante agora uma reflexão sobre as vantagens e desvantagens da energia nuclear. Confesso que até recentemente estava me inclinando a aceitar sua utilização e já ia comprando a idéia de que pode ser uma alternativa limpa.
    Talvez seja chegada a hora de rever os conceitos.

  19. denis rb disse:

    Não pairo, reynaldo, nem estou dizendo que essas coisas não existam ou não sejam importantes. Só estou dizendo que elas não me interessam pessoalmente.

  20. Luna disse:

    Em um mundo em que seus viventes sao livres para pensar muito e executam tal exercicio, a funcao dos lideres e’ mais uma questao de “ordem e progresso” de verdade do que de imposicao. Fazendo a coneccao com o blog anterior, perguntaria: Aonde esta’ a linha que separa ou diferencia o governo de seu povo? Simplesmente nao existe. Aonde existe um governo corrupto, o povo tambem e’ corrupto e vice-versa. Em um mundo carregado de “…ismos”, na maioria das vez e’ bem mais confortavel ao individuo comum entregar ate’ com boa vontade a unica coisa que o destingue como ser humano (que e’ a capacidade de pensar)e assim ele garante a “paz” com a esposa, com a familia, com o quarteirao, com o governo, e segue em frente consumindo a vida em “solitario desespero” como diria Thoreau. Embora todos os …ismos tenham coisas boas , a caracteristica comum a todos e a repressao a ideias divergentes. Nada facil de engolir, principalmente principalmente aqueles que apreciam a diversidade.

  21. reynaldo disse:

    Quando falo de marxismo não estou falando numa ideologia a que devemos nos alinhar como o crente adere ao cristianismo, por exemplo, e passa a desprezar tudo o que não se encaixa em sua visão fechada do universo, viu, Luna, querida? Estou falando numa corrente de pensamento que influencia profundamente até nossos dias as ciências humanas (além dos movimentos sociais) e constitui um paradigma, uma referência sempre precária, sempre refinada, ou seja, que procede como em qualquer ciência, como na física ou na biologia, por exemplo. Recomendo ao leitor que desconfie de quem tem pressa em taxar de ideológica essa corrente de pensamento, já que se trata de um quadro teórico como qualquer outro, que é sempre renovado, pelos melhores pensadores, diante de uma realidade cambiante. Pesquise, leia e verá. Claro, todos são livres para fazer uso desse quadro, ou de parte dele, ou de outros quadros teóricos, ou de quadros complementares, provenientes da sociologia, da antropologia, da psicologia, etc. Só não vale mesmo é ficar em distinções simplistas, isso não nos ajuda em nada. Se depois de estudar bastante, você resolve tomar posições de esquerda, também não precisa ficar envergonhado, às vezes o pensamento dominante qualifica de ultrapassado aquilo que o incomoda, ou seja, que o amedronta. Mas quem tem espírito científico não pode se ater apenas ao que está na moda, certo?

  22. Felipe disse:

    Faz tempo Kobe então, nesse ano eu só lembro que o coringão ganhou do Palmeiras na final do Paulistinha rssrsr Mas eu falo da maldição nucler, não sei como alguém ainda defende essa fonte de energia. E essa do Japão dá mais medo, pq o país é uma ilha não ficava no meio da Europa como Chernobyl…E pensar que na França a nuclear é quase 80%.

  23. Felipe disse:

    Falam que as energias limpas são caras, mas os gastos com a nuclear podem se igualar pois tem a questão da segurança. Quanto mais potente a usina nuclaer for, mais investimentos com segurança ela demandará.

  24. Larissa Veloso disse:

    É difícil mesmo o caminho do livre pensamento. É por isso que nunca encontrei uma religião ou um partido que refletisse minhas ideias. Estou chegando à conclusão que deveria parar de procurar.

  25. Ivo da Silva bitencourt disse:

    O Brasil precisa mais energia nuclear, mas com segurança.

  26. Bruno Giorgi disse:

    Ivo = troll!

  27. Melissa disse:

    Bonito texto, e lamento a ingenuidade dessas pessoas que acham que energia nuclear pode ser segura.

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