O eterno sorriso do motorista

Um carro se movendo a 60 km/h ocupa mais de 120 metros quadrados da cidade, o equivalente a um bom apartamento. (Essa área é calculada somando o espaço ocupado pelo carro em si com a área logo à frente dele, pela qual ele vai passar nos próximos 2 segundos. Ou seja, quanto mais rápido, maior a área ocupada: a 100km/h passa dos 200 metros quadrados.)

Hoje, nas cidades brasileiras, os carros, que são privados, ocupam quase a totalidade das áreas públicas. “Em São Paulo, 90% das vias são tomados por carros particulares, que carregam apenas 50% das pessoas”, diz o engenheiro de tráfego Horácio Figueira, que já citei no post da semana passada, falando da falta de respeito à vida no trânsito.

Quem anda no trânsito das grandes cidades brasileiras tem a impressão de que a maioria das pessoas está dentro de carros. Ledo engano. Eles são minoria. Em São Paulo, por exemplo, mais da metade dos deslocamentos são feitos de transporte público, táxi, a pé, de moto ou de bicicleta. Mas os carros são uma minoria que ocupa tanto espaço que parece maioria. E é tratada pelo poder público como se fosse: quase todos os investimentos são feitos para carros, sobrando um trocadinho para a maior parte da população.

Um só ônibus carrega mais gente do que uma fila de um quarteirão e meio de carros. Precisa de 25 carros (que em média carregam 1,4 pessoa) para levar as mesmas 35 pessoas que cabem sentadas num ônibus. A consequência disso é fácil de calcular para qualquer um que se lembre das leis fundamentais da física: não cabe todo mundo.

Todos os dias, 7.000 novos carros chegam às ruas no Brasil. Como as prefeituras do país quase nunca têm coragem de mudar a lógica do trânsito, elas optam por simplesmente fazer novas vias para acomodar os novos carros. Só que, obviamente, a conta não fecha: é impossível fazer faixas no mesmo ritmo em que as cidades ganham carros.

52% dos paulistanos trocariam o carro pelo ônibus “se fosse viável”. Por que então eles não trocam? Porque o transporte público é uma porcaria. Só que o maior motivo para o transporte público ser ruim é o excesso de carros (como 90% das vias estão tomadas pelos carros, não sobra espaço para um sistema público eficiente). Ou seja, chegamos a um daqueles paradoxos dignos de propaganda de biscoito: o transporte público é ruim porque todo mundo anda de carro e todo mundo anda de carro porque o transporte público é ruim.

Mudar essa situação exige, de cara, uma coisa que não temos em abundância: políticos visionários e corajosos, capazes de contrariar interesses de curto prazo para mudar sistemicamente as cidades. Ano que vem tem eleição para prefeito. É fundamental que procuremos gente assim. Muito provavelmente eles farão campanhas eleitorais pobres, já que os maiores financiadores de campanha municipal são construtoras, empreiteiras e incorporadoras, que adoram o trânsito do jeito que está. Portanto, se a propaganda na TV for muito bem produzida, desconfie.

Outra coisa de que precisamos é uma mudança cultural. Hoje, quase todos os motoristas se comportam como se eles fossem cidadãos privilegiados. Não dão passagem para ônibus (que transportam mais gente) nem para pedestres. Ficam irritados com pessoas atravessando à sua frente ou com ciclistas. Deveria ser o contrário. Um motorista deveria se comportar como alguém que está carregando um contrabaixo acústico numa loja de cristal: se movendo devagar e com um eterno sorriso simpático de quem pede desculpas pelo inconveniente que causa.

Foto: Nationaal Archief / Spaarnestad Photo, Eric Koch, The Commons, CC

48 comentários
  1. Tem problema não. São em média 7 mil novos veículos em circulação a cada mês e portanto, cumprirá-se a “Profecia do Megacongestionamento Derradeiro”, propagada pelo Apostolado Profético do Apocalipse Viário Metropolitano, do qual sou o Presbítero Fundador do Tabernáculo e Perfeito e Sublime Supremo Sacerdote Soberano.

  2. jorji disse:

    O problema é que não temos políticos visionários.

  3. David disse:

    Nao acho que o transporte publico ruim seja o unico culpado. Seguranca é uma questao importante também.
    Uso o carro para trabalhar e tenho horarios que ficam fora dos horarios de pico. Ando com meu notebook sempre, e nao me vejo seguro esperando um onibus as 22h no Jd Sao Luiz com ele.
    Em tempo: eu sou um dos que trocaria o carro pelo transporte publico se achasse viavel. Inclusive fiz isso no passado, mas no meu contexto fica inviavel por causa da questao seguranca.

  4. Letica disse:

    Olá Denis,
    O transporte público em SP não é só lento: é mega-lotado nos horários de pico. Não só ônibus, como trens e metrô. Acho que esta é a pior qualidade… Quanto ao sorriso do motorista, há algum tempo tenho mudado minhas atitudes quando dirijo, já que é a parte que me cabe para civilizar o trânsito – saio mais de hora adiantada para qualquer compromisso, levo um bom disco para ouvir e um bom livro para ler, quando consigo chegar adiantada!

  5. denis rb disse:

    Pois é, Leticia.
    Hoje os carros ocupam 90% do espaço e os ônibus se espremem com as motos e os coitados dos pedestres nos 10% que sobram. Se os carros ocupassem menos espaço, poderia haver mais ônibus e eles ficariam menos lotados. O Horácio, que entrevistei para esse post, acha que é necessário haver duas pistas de ônibus no corredores, em vez de uma. Assim, os ônibus poderiam ultrapassar o que está parado no ponto e caberiam muito mais ônibus. Claro que só se faz isso ao custo de espaço hoje tomado pelos carros.

  6. Roberto disse:

    Não acredito que o problema de se deixar o carro por um transporte público (ônibus) seja por conta do tempo que se leva dentro deste e sim pela qualidade do transporte (ônibus sujos e mal cuidados) e falta de segurança (assaltos em alguns pontos). Hoje em dia tenho um carro que sai apenas uma vez por mês utilizo o metro e taxi, gostaria de usar o ônibus mas é complicado. No mais o texto é ótimo!

  7. André Luis disse:

    Foi dito sobre segurança, qualidade, superlotação… ok, há algo que me incomoda muito: custoXbenefício, os protestos em SP mostraram que há insatisfação com o novo valor, mas falar que algo é caro ou barato é comparado a outro valor, acho CARO em relação ao custo de vida em SP, mas BARATO comparado a cidades de Grande SP que cobram o msm valor para um transporte pior e em menores distancias.
    Na Gde São Paulo andar de carro é mais barato, confortável, seguro, com mais qualidade… o lema é USE CARRO!
    http://newpartida.blogspot.com/2011/03/onibus-um-transporte-de-luxo.html

  8. Leonardo André disse:

    Denis, você escreve muito bem. Seu texto produz uma realidade visionária. Sou ciclista e gostaria muito de deixar meu carro de lado no dia-dia; porém, com medo de acidente ou assalto, prefiro ir de carro. Para ajudar, saio cedo de casa e volto cedo (fora dos horários de pico), mas o objetivo, talvez, fosse ir de bicicleta.

  9. Tomás disse:

    Já fui usuário do transporte público em São Paulo. Já peguei o metrô da Sé tão lotado que, após 35 minutos, saí da estação e peguei um táxi (e em São Paulo temos o táxi mais caro do mundo. Já andei pendurado em porta de ônibus aberta em plena Vila Olímpia. Hoje, vou ao trabalho a pé (estou trabalhando em um novo local, perto de casa), mesmo tendo meu carro. Acredito sim que o carro é muito ineficiente, concordo com seu texto em quase tudo, mas se amanhã 10% dos motoristas decidirem pegar um ônibus em São Paulo para voltar para casa, vai faltar. A nossa malha de metrô, mesmo com trens mais modernos e estações mais espaçosas que no resto do mundo, atende pouquíssimo da geografia de São Paulo. Acho vergonhoso botar a culpa no motorista. Não existe ciclista sem ciclovia, não existe pedestre sem metrô e ônibus, não existe mudança de cultura sem ferramentas que permitam que ela floresça.

  10. Rogério Leite disse:

    O problema se repete em quase todas as cidades grandes do País. E em algumas médias tb onde engarrafamento era uma coisa de outro mundo, agora já ocorrem com alguma frequência. Não existe solução simples nem suave: vai doer sim, na hora em que aparecer um político visionário e forte, que tenha peito para enfrentar o status quo-carrocrático. Só tirando carros das ruas, obrigando a quem tem a NÃO usa-lo, é que o transporte público pode melhorar (anda mais rápido, pode receber mais ônibus/linha, deixa espaço para integrar com bicicletas e metrôs). Várias cidades do mundo já mostraram que é possível: Bogotá, Portland, Barcelona.
    Agora, tem algum político que seja macho suficiente para tomar uma medida “queima-filme” destas, ainda mais a menos de 2 anos da eleição pra prefeito?!

  11. denis rb disse:

    Uma coisa só, André Luis,
    Andar de carro certamente não é mais barato. Se vc computar todos os custos (seguro, custo de vaga na garagem, depreciação do veículo, combustível etc) ter um carro não sai por menos do que R$ 1.000 por mês. Por mais que o ônibus hoje tenha preços extorsivos, ele não chega a R$ 200 por mês.

  12. denis rb disse:

    Tomás,
    Só para esclarecer: de maneira nenhuma estou botando a culpa no motorista. Mas estou dizendo sim que os motoristas deveriam ter uma postura diferente, de reconhecer sua parcela de responsabilidade. De novo repito: não acho relevante nem produtivo encontrar culpados pelos problemas. O que precisamos é de gente assumindo suas responsabilidades.

  13. Ícaro Brito disse:

    Simplesmente perfeito!

  14. denis rb disse:

    André Geraldo,
    Ótimas imagens, valeu! Sabe se o uso é livre?
    abs

  15. Felipe disse:

    Por falar nisso quase saio na porrada com um destes motoristas rsrs Nunca vi rua tão cheia de carros na calçada como a minha.

  16. Marcelo Fellows disse:

    Faltou citar o transporte marítimo, também uma alternativa interessante para o país com litoral e rios tão extensos. Sou usuário das barcas Rio Niterói há muito tempo. Posso dizer que até melhorou ultimamente mas o potencial de mercado tão inexplorado é para mim um enigma.
    Será que tem empresário que não quer faturar? Ou será que o lobby para manter tudo como está é tão poderoso assim?
    Eita povinho resignado, indo e vindo, tocado como gado.

  17. Tais disse:

    Olá, gostei bastante do teu último post! Eu moro há quase 4 anos na Suiça e a coisa que mais me impressionou (e continua me impressionando até hoje) é o transporte público. Não custa barato, mas é qualidade é fenomenal. E a grande maioria das pessoas são usuárias dos trams (bondes), trens e ônibus – sem contar as bicicletas, que é uma febre na Europa. Aqui os automóveis estão em último lugar na pirâmide das prioridades – primeiro vêm os trams, os ônibus, os pedestres e as bicicletas. Quando vou ao Brasil a minha irmã se irrita comigo porque quero dar passagem para os pedestres como faço aqui mas fica aquela situação: eu esperando o pedestre passar e ele esperando eu passar… Não dá pra entender porque o Brasil não se inspira em países assim… Cada vez que vou ao Brasil fico mais decepcionada com a piora gritante no trânsito… Sds.

  18. reynaldo disse:

    Você não dá nome aos bois, mas eu posso dar em seu lugar: o que é bom para os capitalistas que financiam os políticos que privilegiam os interesses dos capitalistas não é bom para o comum dos mortais que pega os ônibus todos os dias. O capitalismo é um cachorro que corre atrás do próprio rabo. Vende toneladas de biscoitos com gordura saturada porque isso é sinal de lucro. O resultado é que as crianças e os adultos estão ficando, em todo o mundo dito “desenvolvido”, cada vez mais precocemente, cada vez mais gordas e mal-nutridas. Podem imaginar: gordas e mal-nutridas, ou seja, estão comendo muito para compensar muita ansiedade e estão comendo mal. Mas isso faz bem para o capital ou, como dizem, faz bem para a “economia” (economia de quem para quem?) e por isso é considerado o “normal”. Cachorro atrás do próprio rabo. Estão vendendo sutiãs com recheio para meninas de seis anos que querem se parecer com suas primas mais grandinhas. Certo, depois os mesmos pais que estimulam essa precocidade aberrante vão ficar furiosos se sua filha for vítima de um pedófilo, quer apostar? Fazendo coro com o Datena que ganha um milhão por mês para estimular diariamente o gosto pelo mórbido que gera gente mórbida que vai se tornar notícia para Datena que está cada vez mais gordo e mal alimentado (de comida e de cultura). É um ciclo infernal e essa é a característica de um sistema, perpetuar-se e ir afundando cada vez mais em suas contradições.

  19. denis rb disse:

    A propósito:
    Lembram-se que mencionei o projeto Cidades para Pessoas, uma proposta de mapear soluções urbanas pelo mundo para inspirar as cidades brasileiras? Tá aqui: http://veja.abril.com.br/blog/denis-russo/cidade/meu-vizinho-folgado/
    Era um projeto financiado por crowdfunding (pequenas doações de pessoas interessadas na questão). A jornalista responsável pelo projeto estava querendo juntar R$ 25.000 de doações em 60 dias. Pois então: ela conseguiu. Veja só: http://www.youtube.com/watch?v=RlWKZXMGMng

  20. denis rb disse:

    Ora bolas, reynaldo.
    Discordo de que eu não tenha dado nome aos bois. Dei sim. No penúltimo parágrafo menciono as grandes “construtoras, empreiteiras e incorporadoras”. No texto todo nomeio outros bois: os motoristas. E os prefeitos e políticos em geral, desprovidos de coragem e de visão. Tem muitos bois no texto, todos nomeadinhos.
    Eu não acho que você esteja dando nomes aos bois. Não me parece que faça sentido culpar “o capitalismo”. Quem é “o capitalismo”? Como responsabilizá-lo pelo que faz? Como cobrar dele o que ele deve? “O capitalismo” é uma entidade subjetiva, etéria, sem corpo nem endereço nem CNPJ. Colocar a culpa nele me parece pouco produtivo – tem só o efeito de colocar a culpa em algo externo a nós, de maneira que não somos responsáveis por nada.
    Eu me sinto responsável sim pela minha parcela do problema. E estou disposto a mudar se todo mundo vier junto.

  21. silvasaurosnet disse:

    olá Denis,o pessoal do transito anda estressado com ele mesmo pode ter certeza disso. eles acham que a solução para tudo é ter um carro ou seja, carro para ir trabalhar, viajar,mostrar que subiu na piramide social etc….porém tem um lado dessa turma que caso houvesse transporte de massa de relativa qualidade nas cidades brasileiras com certeza teria prazer em deixar seu carro em casa.agora quanto aos politicos que a turma uqe está postando acha que não existe lembro do jaime lerner que topou mudar curitiba para melhor e conseguiu.
    abcs

  22. denis rb disse:

    Bem lembrado, silvasaurosnet.
    Certamente o Jaime Lerner é exceção. Mas é desanimador constatar que sejam tão poucas exceções. Quem teve depois dele? (Seu último mandato em Curitiba terminou em 1992.)

  23. Gerson B disse:

    Denis, vale a pena um link pressa página de fotos, não? Alias o teu blog não tem um setor de links, é política da veja?

    Aqui no Rio (RJ) a coisa melhorou por um lado, com o Bilhete Único, e piorou com o aumento dos ônibus sem trocadores, com o motorista tendo trabalho dobrado.Mais lentos e perigosos.

    E tambem com a unificação das cores. Ônibus todos da mesma cor são bem mais difíceis de distinguir, especialmente para pessoas com problemas visuais. Vocês de Sampa já estão acostumados, e não sabem como é mais relaxante quando de longe já se sabe qual é o ônibus.

  24. Felipe disse:

    Mas até Curitiba piorou, segundo moradores que conversei, e uma pessoa que escreveu aqui, se não me engano. Com a cultura dos políticos de não continuar nada de administrações anteriores – até coisas boas – a coisa não vai pra frente, até na “europeia” Curita!!

  25. reynaldo disse:

    Eu também me sinto responsável e estou disposto a mudar, eu, você, Denis, e mais uma meia dúzia que, justamente, desenvolveu, por tendências inatas, formação familiar, educação formal e informal, etc., desenvolveu um poder crítico suficiente para elevar “por os cornos, para fora e acima da boiada”. A imensa maioria só segue a manada e é o espelho do sistema. O capitalista, por exemplo, é a encarnação do capital. Se você dissesse para um capitalista que é uma insanidade o grande objetivo de sua vida que é trabalhar doze horas por dia para juntar capital, ele daria uma grande gargalhada e diria que o louco é você. Já dei aqui vários exemplos tirados da antropologia que ilustram muito bem a incapacidade da maioria de agir em sentido contrário à lógica do sistema e posso repetir, se você quiser. Se lembra do exmplo clássico dos Guayaqui? Quando morre um homem influente matam uma menina porque sua alma pura acompanha a do falecido até o mundo dos mortos. Assim há menos mulheres que homens e esses devem se casar, até três, com uma mulher. O arranjo não satisfaz aos homens e tanto que existem rituais que funcionam como válvulas de escape. Mas não há a possibilidade prática de alguém parar para pensar e muito menos agir no sentido de evitar o assassinato das meninas, o que resolveria o problema estrutural do descontentamento pelo casamento de uma mulher com três homens. O sistema é mais forte do que a mais básica solução racional. Não somos diferentes. O soldado americano prefere morrer numa guerra do que viver sem sentido, sem o sentido dos mistos que o guiam em sua missão civilizatória: “democracia”, “estado de direito”, “liberdade” ou “liberdades individuais”, etc. Pode escrever centenas de colunas, as palavras só vão fazer algum efeito real sobre aqueles que já estão convencidos e naqueles outros, poucos, abertos para a diversidade. E a estabilidade do sistema é garantido com violência, mesmo que seja uma violência surda, virtual. Bilhões de reais do orçamento federal, do dinheiro do povo, todo ano são desviados para o sistema financeiro para custear uma dívida pública que quanto mais se paga, mais aumenta. Por falta desses preciosos recursos, milhares de crianças morrem pela ausência de segurança pública ou por falta de saneamento básico, entre outras causas. O Presidente do Banco Central é indicado pela aristocracia financeira não importa qual seja o Presidente da República eleito, e a dita política econômica está sempre voltada para satisfazer os desejos dessa elite. Agora, se você quiser usar da violência para derrubar esse sistema injusto e violento, vai morrer nas mãos da polícia ou do exército porque agiu contra a “democracia” ou seja, contra o “povo”. Então vamos somar os esforços de pequenas iniciativas. Tudo bem. Já fez alguma soma, caso fosse possível quantificar essas forças? Tem uma idéia de quanto elas são pequenas diante da força do grande dragão, que não pára de avançar? Então, você me diz, aponte uma solução. Não aponto não, não tenho, mas tenho faculdades específicas, que não são as suas, Denis, que me permitem lançar um olhar crítico sobre o problema e se esse olhar nos leva a um impasse, o que fazer? Calar? Não, lançar o impasse para que ele atraia novos olhares, novos pontos de vista, que talvez apontem soluções inesperadas. Dizer que uma soma de pequenas iniciativas que podem crescer e enfrentar o imenso sistema em expansão é tão ilusória quanto o velho slogan “operários do mundo, uni-vos”. Isso, claro, não é um motivo para que não se tomem essas iniciativas.

  26. fernando disse:

    Comento: que aconteceria por aqui se nos fossem impostas as normas rígidas da Europa ou seja: seguro obrigatório de responsabilidade civil (quem bate paga!!! ou não?)e inspeçao periódica dos veículos?
    Quantos picaretas vendedores de carros fechariam as portas, quantos carrinhos deixariam de circular nas estradas bo Brasil. Ou alguém pensa (se calhar até sim) que todos têm direito a possuir um carrinho?
    Brasil setima potencia económica? quem serão os beneficiados? O Lula apregoa o pre sal aos quatro ventos mas isso serve para quê? gasolina a 3 reais…nem em Portugal que está metrido num buraco de todo o tamanho!!!!

  27. Observer disse:

    Esqueceu de dizer do lucro em impostos que esse caos gera.
    Do valor de um automóvel mais ou menos metade são impostos. Mas para tirar da loja paga-se mais 4% de IPVA que é cobrado todo ano. Para disfarçar desvalorizam o produto ao longo dos anos mas paga-se. De cada litro de gasolina mais da metade são impostos. E carro em congestionamento gasta mais. E atrás disso há toda uma enorme indústria de manutenção e reparo desses veículos.
    Alguns, não sei porque, acham que nem todos devem ter carro. Não me parece democrático. Mas desconheço um único motorista parado na Marginal Tiete ou assemelhadas que não troque um trajeto de carro por um metrô DECENTE, não esses que está aí, embora moderno, ínfimo para a demanda.

  28. denis rb disse:

    reynaldo,
    Concordo contigo quanto à maioria não pensar assim (aliás, é justamente por isso que escrevo sobre esses assuntos – não faria sentido defender ideias da maioria, essas não precisam de defesa).
    Mas não sei quem é esse cara que você chama de “o capitalista”. Quem é ele? É todo mundo que ganha lucro? Todo mundo que contrata gente? É todo mundo que é dono de empresa? Para dar um exemplo, meio aleatório: o Fabio Barbosa é capitalista? Ele é presidente do conselho do Banco Santander, ex-presidente do banco, e presidente da Febraban. Soa bem capitalista para mim. Mas tenho bastante segurança de que ele não se encaixa nessa generalização tua. Você pode ouvi-lo falando aqui: http://www.tedxsaopaulo.com.br/fabio-barbosa/
    Enfim, não estou dizendo que não haja um “sistema”, maior que os indivíduos e dificílimo de combater. Há sim. Mas ele é composto de pessoas, como eu, você e o Fabio Barbosa. E pessoas são permeáveis a ideias.
    Agora, se você divide o mundo entre “nós” e “eles” (os capitalistas), aí não vai haver mesmo acordo. Afinal, eles estão errados de princípio, pela natureza deles de capitalistas, e não é possível confiar neles (a história de confiar num escorpião). O único remédio então vai ser calá-los, ou matá-los, ou prendê-los. Por isso que eu acho que não é mera coincidência o fato de que todas as experiências auto-denominadas socialistas ou comunistas já experimentadas tenham descambado para o autoritarismo.

  29. reynaldo disse:

    Denis, é claro que as pessoas não são o reflexo puro e simples do sistema pois seriam todas iguais, como autômatos ou marionetes. O sistema não determina cada ação das pessoas mas determina certos limites dentro dos quais cada indivíduo é forçado a se encaixar. Eu e você, também, de algum modo, nos encaixamos. Assim há donos de empresas ou de grandes fazendas que transferem parte de seus lucros para ações sociais, educacionais, preservacionistas, etc., porque o fato de atuarem dentro de certos limites socialmente impostos não os torna monstros. Por outro lado, existem aqueles sujeitos pretensamente muito liberais, como os eternos comandantes do PV, que estão fechando o cerco em torno de Marina e de seu grupo contestador. Não estou aqui demonizando quem quer que seja nem afirmando que o sistema tem um poder absoluto sobre as pessoas, só estou tentando chamar a atenção para a dificuldade de fazer frente ao problema, não para que causar desânimo ou bancar o catastrofista, mas para que saibamos com o máximo de realismo o que estamos enfrentando. Ao longo de nossa conversa você já devia saber disso e não continuar insinuando que eu estou flertando com ideologias totalitárias. Agora, enquanto vamos tentando escavar alguma mudança com as tais boas iniciativas que quem sabe um dia vão se somar, dia a dia o sistema produz, por exemplo, pelo mecanismo da acumulação capitalista, produz uma aristocracia financeira, um monstrengo que está por trás de governos do mundo inteiro, que suga as riquezas sociais, nos EUA, na Grécia, em Portugal, gerando desemprego, miséria, desespero. É a violência surda de que eu falava, em meu último comentário. Só vejo uma forma de afrontar a violência dessa minoria, a violência da maioria. Enquanto estamos aqui discutindo, eles estão agindo. Sei lá se esse tal Fábio Barbosa é capitalista ou não, se é dono de banco, dirigente, alto-executivo ou empregado do Santander ou representante da classe, pouco me importa. O fato é que existe um número limitado de agiotas trilionários que jogam com o destino das pessoas enquanto jogam no cassino da especulação financeira com o objetivo puro e simples de acumular capital, o objetivo transcendental do sistema, sobre o qual não param para refletir devido à mesma impossibilidade que domina os Guayaqui de refletir sobre o assassinato das meninas. Discursos charmosos são bons, pequenas iniciativas são boas, não estou dizendo aqui para deixarmos essa estratégia de lado, só estou questionando os limites dessas falas e pequenas ações diante do grande dragão que monopoliza a violência surda, efetiva, cotidiana, diariamente oprimindo, empobrecendo, matando as pessoas. Se você não consegue enxergar essa realidade muito palpável atrás dos relativismos de quem é ou não capitalista, estrito ou lato senso, não posso fazer nada por você, amigão.

  30. jorji disse:

    Eu tenho certeza absoluta que daqui a dez anos será ainda pior em São Paulo.

  31. denis rb disse:

    E eu tenho certeza absoluta de que será melhor.
    Quer apostar quanto?
    100 pau.

  32. denis rb disse:

    Não é relativização,
    É estratégia.
    Capitalismo é o que existe. Capitalismo é o que temos. Não existe opção fora disso.
    Acaba o primeiro tempo, o time está perdendo, se reúne no vestiário, aí o técnico vem com a solução: “a culpa é do futebol. Se não fosse futebol, estaríamos ganhando”. Oras bolas, essa instrução do técnico 1) não vai ajudar nada no que se refere a planejar um jeito de chegar ao gol do adversário e 2) vai desanimar todo mundo que está a fim de jogar.

  33. Tia Ví disse:

    Denis,
    Pego ônibus todos os dias, para ir e voltar do trabalho, e tavo reparando a fumaça preta que os Ônibus soltam bastou passar 3 no ponto pra ficar uma nuven preta no ar, aqui em BH a situação dos ônibus tá preta, parece que aí em Sampa é menos ruim. Ano passado quase comprei uma moto, mas desisti pois o trânsito e uma canseira tem acidente com motos todos os dias, e depois você disse outro dia que moto polui 7x mais que carro.

  34. Petrus disse:

    Prezado Denis eu realmente não acho, tenho certeza de que você escolhe os comentários, obviamente que é só aqueles que te elogiam, pois já o critiquei e nunca tive um comentário aceito, diga-se de passagem que foi sem ser vulgar, te xingar, apenas discordando, em todos caso eu já disse e repito, na minha opinião você não passa de um eco-terrorista jurássico no extremismo, que deve mijar em seus pés para economizar aguá, ou destes que odeiam São Paulo, já disse e repito de novo vá andar pelo Brasil, tantas crianças morrendo de fome para você descer a lenha em São Paulo??
    Deve estar de brincadeira né? sabe quantas feiras culturais tem em SP por ano? 90 mil, uma média de 245 por dia, então me faça um favor, para de falar tanta besteira e querer transformar esta revista num atoleiro, agora sim eu tenho certeza de que esta comentário provavelmente será negado, pois, hoje eu decidi descer o nível mesmo, até porque se eu manero não adianta nada

  35. reynaldo disse:

    Num jogo de futebol todos estão envolvidos no mesmo objetivo, fazer o gol e sair vencedor. Na vida, todos estão envolvidos no mesmo objetivo, sobreviver, da melhor forma possível. Mas os homens nascem e crescem dentro de esquemas sociais pre-estabelecidos, e sobre o todo as vontades individuais costumam ter um efeito irrisório, e a estrutura econômica capitalista engendra acumulação de capital e dá poder a quem possui capital de explorar a força de trabalho de quem não possui para que? Para acumular capital e criar mais e mais estruturas de exploração e acumulação. Naturalmente, nem sempre as coisas se passam dentro desse arranjo clássico, mas o que predomina é, por exemplo, o Santander empregando milhares de pessoas com salário baixo e muita pressão ou a Camargo Correia empregando milhares e milhares de peões em estruturas de obra precárias, baixos salários, desrespeito à leis trabalhistas. E são milhões e milhões de gente sendo explorada assim na Índia, na China, nos Estados Unidos e na Suécia. Esse discurso charmoso do desenvolvimento sustentável realmente é uma graça, eu adoro, dá uma sensação de leveza, uma esperança burguesa de arrepiar. Mas o mundo é vasto, amigão, e nele predomina a velha e boa exploração na forma capitalista. É mesmo chato falar nessas coisas, se você não quer, eu falo.

  36. jorji disse:

    Denis, aceito a aposta, torço para que voce ganhe, mas conhecendo a natureza do brasileiro como eu conheço melhor que a maioria dos brasileiros por ser meio brasileiro, onde tudo é pra amanhã, hoje eu li no próprio site da veja de que os aeroportos não vão estar prontos para a copa do mundo, penso que em dez anos a nossa sociedade não será capaz de criar um sistema que melhore a locomoção das pessoas em nossas cidades, e o exemplo mais criticado é o meio de transporte que Rio de Janeiro vai dispor para o acesso para a vila olímpica, o famigerado corredor de ônibus, porque não metrô ou trem de superfície, sempre recorremos aos quebragalhos, não conseguimos planejar a longo prazo, tanto é verdade que em muitas grandes cidades de países desenvolvidos, os metrôs tem mais de cem anos, e ainda é muito útil, voce vive criticando as avenidas que os nossos prefeito constroem para veículos, e estou em acordo contigo, é nesse ponto que me apoio para dizer que em dez anos as coisas estarão pior, a falta de inteligência.

  37. denis rb disse:

    Vc tem toda razão nisso tudo jorji, mas realmente acredito que a vontade de mudar sistemicamente está ganhando massa crítica em São Paulo. Tempos interessantes vêm por aí.

  38. José disse:

    Caro Dênis,
    Concordo com sua resposta ao Jorji. Sou ciclista e me desloco prá todo canto com a magrela. Dia destes, parei prá almoçar num restaurante, e um cliente que também lá almoçava veio puxar conversa. Viu que eu era ciclista e queria umas dicas, porque estava pensando em deixar de ir trabalhar de carro e começar a pedalar. E o cara mora a quinze quilometros do trabalho! Me reacendeu a esperança no ser humano…

  39. Erick de Souza disse:

    Caro Dênis,
    Conheço a realidade de São Paulo pelas informações da imprensa, mesmo assim, devo concordar contigo em parte, pois desaprovo tanto o carro quanto os ônibus, pois ambos são poluentes, pesados e caros. Apoio sim a reestruturação do transporte publico, mas que seja utilizado metrôs leves, não subterrâneos, pois os impactos ambietais são menores, pois eles podem ser elétricos ou a gás natural, andam em velocidade constante, são confortáveis, pontuais e belos, eles lembram a lógica do bonde só que a roupagem do século XXI. A pontualidade, o conforto e o preço é o filão do transporte brasileiro neste século.
    Falando agora da minha cidadem te proponho um desafio, o de me ajudar ou eu te ajuadar, a fazer uma matéria sobre o trânsito de Recife e as alternativas para ele, ou seja Denis, aqui tem-se uma cidade toda cortada por rios navegáveis, que daria para ser explorado de forma excelente com transporte fluvial, chegando a todos os importantes pontos da cidade, ainda tenho a idéia de aproveitamento das vias dando liberdade plena ao pedestre e trocando ônibus por metrôs leves sobre trilhos embutidos que seria a revolução na cidade pondo fim ao problema do transporte.

  40. Patrícia Mota disse:

    Oi Denis,

    Eu sigo andando por aí à pé, de ônibus, metrô, mas é fato o transporte público é ruim e em algumas regiões é pior ainda. O ônibus que pego para ir ao trabalho tem até barata (6403/10 – T. João Dias)! parece piada mas não é, todos tem ligeira, mas entre os bancos tem uma porção de saquinhos amassados, entre outras coisas. É lamentável a atitude das pessoas que fazem isso e da empresa que se cuidasse mais da higiene dos ônibus acabaria por intimidar essas ações. A pressão por ter um carro na nossa sociedade é muito grande, chega a ser doentio o modo como é visto o fato de ter um carro, automaticamente vc passa a ser uma pessoa “melhor” qto maior o carro e mais caro mais “boa pessoa” vc é. Trabalho numa empresa de pessoas muito jovens, 20 a 30 anos e todos trabalham obstinados a comprar um carro, uma TV com mil conectores para diversos games, iphone. Para reunir meia dúzia pra jantar e pra conversar depois do trabalho é um suplício, esse tipo de dinheiro não é bem gasto, tá todo mundo ocupado em ser o mais rico do cemitério.

    Denis, pq na Veja? Você não combina com a Veja! Tudo o que vc escreve vai contra o que a revista prega, vc deve ser o “dr.House” da editora Abril rs. (pode ignorar essa pergunta tá, não quero ser desagradável, é que é uma coisa que me intriga)

  41. Patrícia Mota disse:

    eu juro que quis dizer “a pe”, e “lixeira”

  42. Solange Serrano disse:

    Olá, Denis!
    Esse assunto é um dos mais debatidos em todos os cantos do país e ao mesmo tempo o que apresenta menos ações concretas e eficientes em relação ao que pode ser melhorado. Se apenas as pessoas que circulam num raio de 10 km trocassem seus automóveis por bicicletas, já mudaria muito este cenário. Mas a mudança de hábito é algo muito difícil de surgir por boa vontade e consciência ecológica… Se acontecer, será por motivo de força maior, como uma catástrofe qualquer que obrigue os indivíduos a mudar de postura ou um milagre bem caprichado que faça com que a política se torne uma atividade humanizada, capaz de implantar modelos (que existem e são exemplos pelo mundo todo) baseados em ações que beneficiam mais o meio ambiente e menos o bolso de cada político.

  43. Felipe disse:

    Solange falta vontade política, muda a cultura e incentivos, isso é o mais importante.

  44. Alex disse:

    A tendência é melhorar ,não seremos idiotas para sempre .

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