A moça brava e a cidade

Uma vez por ano, tenho esperança em São Paulo. É na noite da Virada Cultural, um evento de 24 horas no qual o centro da cidade é fechado para os carros, centenas de shows e performances artísticas tomam as ruas e a cidade toda sai da casa para celebrar. É uma das maiores festas do mundo. Fui para a rua aproveitar, como faço sempre.

Na madrugada fui assistir a um show de Eumir Deodato, o mítico músico brasileiro de jazz que vive há anos nos Estados Unidos. O palco estava armado no largo de São Bento, em cima da calçada e virado para a rua. O público ficava em pé no asfalto.

Logo no começo do show, uma viatura policial apareceu e começou a se enfiar no meio do público – queria que todo mundo saísse da frente do palco para ele passar. Os músicos, claro, ficaram incomodados com a interrupção. Mas um policial, simpático, abriu a janela, pediu desculpas e licença e o povo saiu da frente compreendendo que emergências acontecem. Todo mundo se espremeu, o carro andou devagar, a massa de gente se fechou atrás dele, o show recomeçou

Uns 10 minutos depois apareceu uma ambulância. Mesma coisa. O público teve até mais boa vontade do que da primeira vez, como costuma acontecer com ambulâncias. Logo depois surge uma van. Dessa vez, Deodato, que mora em Nova York e quase nunca toca no Brasil, deu sinal de impaciência. Recusou-se a parar de tocar, incentivando o público a ficar onde estava. O motorista da van ficou contrariado, passou uns 5 minutos tentando empurrar o povo, mas foi bloqueado, acabou desistindo e indo embora de ré.

Mais uns 10 minutos e surge uma viatura de imprensa. O motorista, certamente escolado em lidar com multidões, encostou o para-choques na galera e foi acelerando devagar, técnica perfeita para tirar as pessoas da frente, quase sempre sem derrubar ninguém. O público se irritou e começou a chacoalhar o carro. Uma hora uma moça que estava dentro da van abriu a janela e começou a berrar:

– Saiam da frente. Estamos trabalhando.

Um espectador do show protestou:

– Estamos vendo o show, vocês estão atrapalhando.

A moça, impafiosa, retrucou:

– Vocês é que estão atrapalhando. Nós estamos trabalhando.

O show durou 1 hora, mais ou menos. Sete carros tentaram passar nesse intervalo, sempre atrapalhando os músicos. Placar final, Carros 6 X 1 Público (só conseguimos resistir à van).

A cena da moça loirinha de olhos azuis, berrando esganiçada e vermelha de raiva, não me sai da cabeça. Para mim ela é reveladora de tanta coisa. Aqueles gritos indignados são ecos de um Brasil escravagista, onde quem estava na rua era inferior, indigno de respeito. Aquela moça realmente achava que cobrir a Virada Cultural é mais importante do que a Virada Cultural.

Essa mesma atitude da moça está presente nos gestores públicos brasileiros. No fundo, eles se acham seres melhores do que o povão lá fora. Consequentemente, eles não vão muito lá fora. A Virada Cultural é a melhor coisa de São Paulo hoje, mas ela é cheia de traços que denunciam esse desprezo dos gestores públicos pelas pessoas. A programação musical é ótima, mas, de resto, quase nada é divertido, criativo, focado em melhorar a experiência das pessoas (nesse sentido, a Virada de 2011 foi um retrocesso em relação a 2009 e 2010). A sinalização do evento é confusa e cheia de erros. Vi uma seta apontando o lado oposto que deveria apontar – sinal de que a sinalização foi planejada dentro de um escritório com ar-condicionado. Se fosse planejada na rua, não estaria errada.

Gostamos de culpar os políticos pelos nossos problemas, e é mesmo verdade que os políticos são de uma ruindade de dar dó. Mas é importante reconhecermos que os políticos são ruins porque têm determinados traços de personalidade que estão presentes na sociedade toda. Não nos livraremos dos políticos ruins antes de nos livrarmos dessa mentalidade.

29 comentários
  1. Thais disse:

    É por isso que não participo da virada.

  2. ricardo galvão disse:

    Verdades que deveriam ser ditas as elites e políticos…
    Por isso o clássico “Casa Grande e Senzala” retrata bem o Brasil,

    Parabéns mais uma vez….

  3. paulinho disse:

    .belo texto, denis.
    @thais, com todo o respeito à sua opinião, permita expor a minha. acho o que a solução não seja deixar de participar da virada. pelo contrário temos de participar para a partir da nossa experiência ajudar a corrigir os erros, apontar soluções com a nossa inteligencia para o bem-comum. contamos, é claro, com a sua. abração a todos.

  4. rubens osorio disse:

    Cara, o trabalho tem mais valor que o lazer; a técnica, mais do que a arte, o compromisso, mais do que o prazer; e por aí vai. Quem poderia tecer algumas boas considerações seria Antonio Carlos Bramante, especialista em lazer. Acho que ele tb gostaria do teu texto, como eu gostei. Ab

  5. Newton Silva disse:

    “Não nos livraremos dos políticos ruins antes de nos livrarmos dessa mentalidade.” Essa frase e otima…
    Sera preciso muita Virada Cultural para virar a incultura em cultura.

  6. Kelly Zambelo disse:

    De onde vem isso? Esse comportamento…. isso é Cultura de Educação. Acredito que a educação do brasileiro é parte da cultura. As pessoas não sabem discernir certo do errado, sensato do insensato. Elas só sabem reconhecer o que se tornou comum! Quando alguem fala em educação neste país, as pessoas logo pensam em ler, escrever e matemática. Isso é apenas uma parte da “educação”, representa 25% … os outros 75% são os valores, cultura, comportamento, carater, uma lista imensa. Uma pessoa analfabeta que tenha estes 75% consiguirá ser uma pessoa ter uma vida digna mesmo sem saber ler e escrever.

  7. jorji disse:

    Essa mentalidade a que se refere o Denis em nenhum lugar do mundo foi extirpado 100%, o conceito de superioridade está presente em todas as culturas e sociedades, no Brasil o que acontece é o exagero, existe duas classes de pessoas aqui , uma é o tal do Zé povão, a outra são os reis do pedaço, se misturar os dois vai virar salada da ignorância, da extrema ignorância, mas sou otimista, um dia nos humanos aprenderemos a respeitar até os insetos……………..

  8. Ladislau disse:

    Denis, você revelou o “milagre”, mas não revelou o “santo”. De que veículo da imprensa era a van?

  9. Silvano Febroni disse:

    Verdade, esta mesma moça quando viajam para Londres volta glorificando, tudo, mas quando acontece aqui o que acontece em Londres, acha ruim, se acha dona de tudo. CONHEÇO vários assim,
    Mas espero melhorar um dia.
    POIS JÁ FUI EM CONCERTOS E SHOWS AO AR LIVRE EM LONDRES E BERLIM, carro nem passa perto, todos todos mesmo, somente á pé, até quem esta trabalhando.

  10. Chico Sal disse:

    Essa “jornalista” de sofá tem que ser desmacarada.

  11. Frank disse:

    Tremenda falta de educação!
    Mas não me surpreende. Se num show como no do Paul McCartney com ingresso a 700 reais, fui mal tratado por pessoas da organização que estavam lá trabalhando com salário pago pelos valores dos nossos ingressos, o que para mim os qualifica como pessoas que estavam prestando um serviço aos que foram assistir o show, num evento gratuito infelizmente isso também seria esperado.
    Mas se eu não conhecesse esta realidade seria impressionante, de cair o queixo essa inversão que foi muito bem exemplificada no trecho “Aquela moça realmente achava que cobrir a Virada Cultural é mais importante do que a Virada Cultural.” Como também não sabiam aqueles do show do ex-Beatle que eles foram contratados pelos organizadores para facilitar a vida e tornar mais agradável o evento para o público, mas parecia que eles estavam guiando o gado a entrar no matadouro.
    Parece que os fins se perdem nos meios.
    E nossos políticos, como já dito no seu texto, não foram trazidos de outro planeta para nos governar. São representantes nossos com nossa mentalidade escolhidos em meio à população. Muitos dos que criticam os políticos e atribuem a eles todos os males do nosso país se estivessem nos lugares desses políticos tomariam as mesmas decisões que os políticos costumam tomar, visto que em situações cotidianas agem com a mesma filosofia que criticam nos políticos.

  12. Antonio disse:

    O problema da virada cultural é o público. Toda a organização e publicidade do evento foram feitas excluíndo o público. O público é mero coadjuvante, coisa inútil do evento. O importante é sair no jornal que São Paulo promoveu a virada cultural, o povo, ou melhor, o público que se dane.

  13. denis rb disse:

    Ladislau,
    Infelizmente não deu para ver. Me pareceu que a van tinha apenas o adesivo “imprensa” ou “reportagem”, sem logotipo que identificasse.

  14. denis rb disse:

    Antonio,
    O prefeito só lembrou do público na hora de pedir para não jogarem lixo.

  15. denis rb disse:

    Só uma coisa importante de dizer:
    A tal moça provavelmente estava assustada com o povo balançando o carro. Não que isso justificasse seu destempero – ela poderia ter gritado com o motorista, em vez de com o povo, e ordenado que ele não passasse por cima das pessoas. Mas claro que tenho consciência de que uma situação de medo tende mesmo a fazer as pessoas se comportarem mal.

  16. Pedro Vilhena disse:

    Denis, o Deodato não criou o tema de 2001. O Kubrick usou a música do Strauss sem nenhuma alteração, “Assim Falou Zarathustra”. O Deodato só fez um arranjo brazuca-funk que fez mto sucesso, mas não mexeu em nada do “tãã tãããã TA RÃÃÃÃÃÔ.

    Deodato é um músico maravilhoso, mas aqui o crédito pelo tema atemporal é do Richard Strauss.

  17. denis rb disse:

    ops, obrigado pela correção, Pedro. Arrumei lá.

  18. Felipe disse:

    Eu presenciei, no palco de ska/dub, um carro que veio atropelando o pessoal também e levou uma chuva de pontapés – bem merecidos – na lataria. Uma amiga minha também quase foi atropelada. É um absurdo ter acontecido isso, mais até do que as poucas cenas de violência, num evento do povo. Me lembra os carros que insistem em estacionar na calçada perto de casa, um dia vou tirar uma foto para denunciar a falta de educação.

  19. Martha disse:

    Mesmo que transporte público de qualidade fosse uma realidade no Brasil, muita gente ainda assim entraria sozinho no carro, pra não ter que dividir o espaço com os outros. Outros. Cada um no seu clube, no seu pleigraunde, atrás das suas grades. Educação, como alguém já disse aqui, não é questão de diploma. É um paradigma cultural que a gente precisa mudar.
    E pra contribuir com o momento trívia: A versão de Zarathustra do Deodato foi pra 2001 Odyssey – a discoteca onde filmaram Os Embalos de Sábado à Noite.
    Abraço.

  20. Rosana disse:

    Tua descrição da moça foi tão real que me levou a pensar: será que ela tinha placas vermelhas pelo pescoço? Tendeu não? Pergunta pra Biba, garanto que ela entenderá. Bjks

  21. Gabriel disse:

    Vamos nos ater à plateia, que não pensou duas vezes ao ceder espaço para a viatura da polícia e para a ambulância. Ou então pensamos na própria Virada, que, mesmo com os seus percalços, é o evento anual mais divertido e democrático do país, na minha opinião.
    Ou seja, podemos pensar na iniciativa da prefeitura, nos cidadãos que foram se divertir, nos músicos, na ideia (e é uma pena que ainda seja apenas uma ‘ideia’) de revitalização do centro…
    Houve tanta coisa boa em SP neste final de semana, que começar a semana reclamando de uma jornalista acompanhada de seu motorista seria um desespero de tempo e energia… Pelo menos pra mim, e pro feriadão que me espera.🙂 Bom feriado!

  22. Gabriel disse:

    No post anterior: por “desespero”, leia-se “desperdício”. rs

  23. Mauri disse:

    Estive na virada e concordo com o ponto onde você diz que a programação musical estava ótima. Concordo também que faltou o resto.
    Esperava ver teatro, dança, palhaços, cultura que tanto é abundante em São Paulo.
    Mas não vi…
    Concordo que os políticos não vêm, mas somos nós que os colocamos lá e é de nós que deve partir a mudança. Não concordo com a cisão entre casa grande e senzala, pois ela só existe por que Brasileiros se acham membros da senzala, e que nunca vão pisar na casa grande, ter estudo, não ter sido um coitado é razão de vergonha hoje, num pais ignorantizado por um governo populista.
    Se ter estudo, garantido com o suor dos meus pais, se não ser coitado por ter tido valores morais e cuidado de uma família estruturada forem fatores elitizantes, perdão senhores e senhoras, SOU elite e me orgulho disso!
    Uma pena ver um povo que quer cultura pensar com mente inculta. A Virada é uma maravilhosa iniciativa. Vamos nos voluntariar para melhorar a próxima, a Virada é do Povo, por que não ser PELO povo?
    Abraços

  24. denis rb disse:

    Mauri,
    Também não concordo com a cisão entre casa-grande e senzala, passou da hora de a deixarmos para trás. Minha crítica é contra aqueles que não pensam assim e que querem continuar se distinguindo dos outros…

  25. Doca disse:

    Estive na virada e adorei, os artistas ótimos, o policiamento presente, nunca me senti tão segura pelas ruas do Centro de São Paulo que é lindo.
    O que me deixou triste foi ver adolescentes alcoolizados dormindo pelas ruas,isso sim não poderia acontecer, os policiais tinham que ser mais rigorosos quanto a venda de bebidas alcoólica, temos que cuidar dos nossos filhos o alcoolismo esta muito presente na vida social deles…

  26. Mauri disse:

    Beleza, denis rb, fazemos nossa parte!
    Doca, concordo contigo… só faltou neguinho pedir pra policia pegar uma geladinha no bar! Venda descarada, lixo de monte nas ruas e crianças morrendo no álcool, uma vergonha! Esse saldo não aparece na mídia.
    Na abertura, no show da Rita Lee, nem UMA palavra de conscientização social…

  27. Felipe disse:

    Os pais deles que tem que cuidar deles, a gente tem que cuidar de marmanjo rsrr tá loco

  28. C. Adriano Satler disse:

    Prezado Denis,
    A cada leitura que faço do que escreve, passo a contemplá-lo ainda mais. Desculpe se estou sendo muito meloso, mas a sua forma de perceber o cotidiano me deixa admirado e alegre. Digo, alegre no sentido de perceber tamanha atenção com os problemas e ao menos pô-los às claras, acusando, denunciando, especificando-os… Num mundo tão complexo, invejo-o por ser direto nas críticas, porém educado e elegante ao mesmo tempo. Ademais, coaduno em total concretude quando diz que “A cena da moça loirinha, berrando esganiçada, que achava que cobrir a Virada Cultural é mais importante do que a Virada Cultural.” Categórico, você expõe as mazelas de um país de desonestos, arruaceiros, mal-educados… e por aí vai.

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