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Arquivo mensal: maio 2011

Não é hora para emocionalismos, sejamos pragmáticos. Vamos olhar os números.

Uma castanheira-do-pará é uma árvore gigantesca, de 50 metros de altura, que pode viver mais de 1.000 anos. Todo ano, a castanheira dá frutos, que têm uma casca dura como a de um coco. Dentro da casca há até 24 castanhas-do-pará, um produto apreciadíssimo no mundo inteiro, rico em selênio e em ômega-3, portanto extremamente eficaz para combater ao mesmo tempo os dois grandes vilões da saúde contemporânea: câncer e doença cardíaca. Na média, uma castanheira não muito grande dá cerca de 30 frutos por ano, o que equivale a quase 500 castanhas. É o suficiente para produzir 1,5 litro de óleo de castanhas, o que rende uns 200 ou 300 reais para um pequeno produtor, por árvore (castanheiras realmente grandes e saudáveis chegam a produzir até 20 litros). Supondo que alguém tenha 30 castanheiras nas sua terras, são pelo menos uns R$ 6 mil por ano em óleo, talvez R$ 10 mil, por toda a eternidade até o tataraneto do tataraneto do tataraneto.

Mas os tempos são de prosperidade no Brasil e os chineses precisam de ferro para construir réplicas da Torre Eiffel. Há inúmeras mineradoras arrancando ferro de dentro da terra, de maneira agressiva. Em boa parte do país, esse ferro, assim que sai do chão, é queimado em fornos a carvão. Na Amazônia, portanto, há uma grande demanda por carvão.

O que acontece então é que os madeireiros procuram os pequenos proprietários da Amazônia e oferecem algo como R$ 150 por cada castanheira. Se o sujeito tiver 30 castanheiras, recebe cerca de R$ 5 mil. O madeireiro vai lá, derruba a castanheira, picota-a, queima, faz carvão, constrói fornos lá mesmo e produz ferro. O dono dos fornos ganha uns R$ 2  mil por forno por mês. Com algumas dezenas de fornos, ele é um homem rico.

Zé Claudio Ribeiro e Maria do Espírito Santo, os empresários e ambientalistas mortos na semana passada perto de Marabá, no Pará, sabem fazer conta, e por isso se recusavam a vender suas castanheiras (não só por isso, eles também amavam aquelas árvores, mas não é hora para emocionalismos). Eles mantiveram as árvores de pé e montaram uma pequena operação industrial para extrair o óleo na sua terra. O governo nunca lhes deu apoio nenhum. O Incra é imensamente burocrático e ineficaz. As estradas são terríveis. É por causa dessas dificuldades todas que muitos dos vizinhos venderam suas castanheiras para virar carvão.

Zé Claudio e sua maior castanheira, a Majestade. FOTO: FELIPE MILANEZ

Matar castanheiras é ilegal há séculos no Brasil, por causa do alto valor da castanha, mas isso não impediu que a espécie esteja hoje em extinção. Mesmo em Marabá, onde essas árvores magníficas surgiram, elas estão acabando. Zé Claudio e Maria denunciavam essas transações ilegais e a corrupção do estado. As denúncias os colocavam em conflito com os madeireiros, os donos de forno, os políticos, os funcionários corruptos e os traficantes de drogas (que, nesse mundo proibicionista, sempre estão metidos em tudo de ruim que acontece). Zé Claudio e Maria recebiam ameaças de morte há anos. Polícia, justiça, governo, ninguém fez nada para protegê-los.

Semana passada, eles foram assassinados.

Ainda sob o impacto das mortes, um deputado homenageou os empresários no Congresso Nacional. A turminha que estava lá para aprovar o novo Código Florestal vaiou, celebrando o assassinato.

A grande maioria dos agricultures e pecuaristas do Brasil é gente boa, que ama a terra onde vive, que não assassina ninguém e que entende que é melhor ter uma árvore viva que produz R$ 200 por ano e que dura 1.000 anos do que matar a árvore e vender a lenha por R$ 150. Mas os políticos que se dizem representantes dos agricultores e pecuaristas do Brasil – a auto-batizada “bancada ruralista” – tem uma alta proporção de picaretas. É gente oportunista, que se diz “desenvolvimentista” mas só está interessada em tirar o máximo possível antes que os nossos filhos tenham a chance de usufruir. Eles tentam fazer parecer que eles são os “pragmáticos”, atentos aos “números” e ao desenvolvimento do Brasil, enquanto os ambientalistas são “românticos” e avessos ao progresso. Mentira. Eles são usurpadores.

A lógica que matou Zé Claudio e Maria e que mata todos os dias árvores que já eram nascidas quando Cabral chegou ao Brasil é a mesma lógica que foi empregada no novo Código Florestal.

Com os assassinatos, a aprovação do acientífico Código Florestal, o pico de desmatamento na Amazônia em resposta à leniência do Congresso, a absoluta falta de preparação para os desastres climáticos que vêm aí, o governo Dilma já se configura como a pior tragédia ambiental no Brasil desde a ditadura militar.

Os números que forneço aqui, certamente imprecisos, foram calculados a partir de uma conversa com o repórter Felipe Milanez, especialista em Amazônia, que está no local apurando a história. Contribuições para melhorar a qualidade dos números são bem vindas.

Acabo de receber a notícia de que Zé Claudio Ribeiro e sua esposa Maria do Espírito Santo foram assassinados perto de casa, em Nova Ipixuna, na região de Marabá, no Pará. Zé Claudio foi um dos palestrantes do TEDxAmazônia, conferência que ajudei a organizar, em Manaus, no final do ano passado. Lá, ele subiu ao palco para contar que sua vida estava sob ameaça. O motivo? Zé Claudio se negava a permitir a derrubada ilegal das imponentes castanheiras da terra onde vivia.

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A tragédia nos atinge logo depois do anúncio de um aumento colossal no desmatamento amazônico. Tudo indica que o progresso feito na titulação de terras na Amazônia e no cumprimento da lei durante a gestão de Marina Silva no Ministério do Meio Ambiente está mesmo escoando pelo ralo em meio à desregulamentação do novo código florestal e à incapacidade do estado de garantir o mínimo de respeito à lei.

Zé Claudio e Maria compraram essa briga porque achavam que as castanheiras são seres monumentais e que matá-los é tão cruel e sem sentido quando matar um ser humano. Eles viviam no Arco do Desmatamento, àrea amazônica assolada por devastação, crime e miséria, em meio a um boom de crescimento em Marabá que gera uma demanda infinita por madeira para construção. Castanheiras dão castanhas do Pará, um produto de grande valor econômico. Matá-las para fazer tábuas é um absurdo.

O mínimo que se espera agora é que as castanheiras pelas quais Zé Claudio e Maria morreram sejam protegidas e transformadas num museu vivo em homenagem ao casal. E que os autores dessa morte anunciada sejam exemplarmente punidos. Mas claro que o mais provável é que eles consigam suas tábuas.

E a polícia desceu o cacete nos manifestantes pacíficos que pediam o fim da proibição da maconha, em São Paulo.

Teoricamente, vivemos numa democracia, na qual o direito de se manifestar é garantido logo nas primeiras linhas da Constituição. Não é a melhor das democracias do mundo, é verdade. Mas, no geral, respeita-se o direito de defender ideias e de manifestar-se em público. Por que é que, quando o assunto é drogas, abre-se uma exceção? Por que é que não se pode falar abertamente disso?

Em parte, a razão é moral. Existe mundo afora uma crença de que há algo profundamente mal nas drogas. É como se elas fossem demônios que infestam nossa juventude, transformando gente boa em gente má. E a verdade é que essa visão, profundamente inspirada pela religião, simplesmente não bate com a verdade.

Um dos bons livros sobre o futuro da política de drogas é um documento chamado “After the War on Drugs: Blueprint for Regulation” (“Depois da Guerra às Drogas: um projeto de regulação”), publicado por um grupo chamado Transform Drug Policy. Acho que eles mataram a charada.

“A política global de drogas está enraizada numa necessidade louvável de combater os danos reais que drogas psicoativas podem criar. Essas preocupações resultaram numa agenda proibicionista, que acaba dando autoridade moral a quem a apoia. Isso acaba fazendo com que a posição mais radical seja vista como a mais moral, e dificulta a análise racional dos impactos da proibição.”

Ou seja, acabamos confundindo moral com política pública. Em vez de tomarmos decisões racionais, partimos do princípio de que quanto mais cruel e furiosa é a proibição, mais “moralmente correta” ela é. E concluímos que qualquer pessoa que pergunte “será que não estamos indo longe demais?” é um inimigo que deve ser tratado a cacetadas. Nesse tema, portanto, não há democracia: há o certo e o errado, o moral e o imoral. Não cabe discussão.

O desembargador Teodomiro Mendes (que, pelo que leio por aí, entende bastante de cacetadas) resolveu proibir a Marcha porque ela favorece a “a fomentação do tráfico ilícito de drogas (crime equiparado aos hediondos)”. A lógica é tortuosa – sabemos que a legalização seria o pior pesadelo dos traficantes criminosos, porque esvaziaria suas carteiras. Mas fica fácil entender o que passa pela cabeça do excelentíssimo quando levamos em conta que ele acredita nessa lógica moralista segundo a qual qualquer pequena dissensão na guerra contra o demônio das drogas vai abrir os portões para todo tipo de desgraça. Deixamos um adolescente falar a palavra “maconha” em público e logo logo todas as nossas crianças vão ficar viciadas em crack. Não podemos deixar isso acontecer, cacete neles.

E a verdade é que esse medo é absolutamente infundado. Todos os países que ousaram enfrentar essa discussão e procuraram adicionar alguma racionalidade a suas políticas estão satisfeitíssimos. Portugal, Espanha, Austrália, Canadá, Suíça, Holanda, vários estados americanos: todo mundo que tentou fazer alguma coisa para realmente atacar os males causados pelas drogas reduziu custos, violência e mortes. Em nenhum lugar o caos se instaurou. Nossas políticas de drogas são tão imensamente burras que quase qualquer coisa que se faça resulta em melhora.

É bom lembrar que esse pavor irracional das drogas, no Brasil, não é exclusividade da direita ou da esquerda. Também o governo federal, de esquerda, mandou embora sumariamente seu secretário nacional anti-drogas, Pedro Abramovay, simplesmente por discutir publicamente um tema importante. Abramovay disse que era favorável a dar penas menores a pequenos traficantes, que estão superlotando nossas prisões enquanto os grandes raramente são presos, já que a polícia está ocupada demais com os pequenos. Pequenos traficantes no geral são usuários de droga que começam a vender para pagar seu vício (dois terços dos traficantes presos no Rio são réus primários pegos com pequenas quantidades). Não são muito perigosos para a sociedade. Aí, quando são presos, vão para o presídio e saem de lá membros de grandes organizações criminosas. Ou seja, nosso atual sistema é uma espécie de curso de formação de bandidos. Abramovay disse o óbvio: que isso não faz sentido e deveríamos pensar em mudar. Poderíamos concordar com Abramovay, ou discordar dele. O governo preferiu mandá-lo embora. Demônios devem ser imediatamente exorcisados. Não dá para conversar com eles.

Essa tendência de fugir do debate como do diabo, paradoxalmente, está nos levando ao inferno. A falta de disposição de discutir resulta num clima de “quanto pior melhor”, um radicalismo sem fim. O número de prisões no Brasil está crescendo num ritmo assustador. Há cada vez mais mulheres na cadeia, geralmente namoradas ou esposas de traficantes, pegas enquanto transportavam droga. Resultado: milhares de famílias desestruturadas, crianças no orfanato no caminho para virarem bandidos também. A violência explode, áreas inteiras das cidades são tomadas pelo tráfico, a corrupção galopa. A repressão provoca um aumento no preço da droga, o que por sua vez resulta numa maior margem de lucro para os traficantes e atrai mais gente para o crime. Nosso modelo produz criminosos.

E tudo isso a troco de quê? De uma redução no consumo de drogas? Nananina. O consumo não para de crescer e, pior, cresce o pior tipo de consumo: descuidado, problemático, de droga impura, sem fiscalização, sem responsabilização, sem controle.

Bom governo é o contrário do que estamos fazendo: é levar todo mundo em conta nas discussões e buscar soluções consensuais, que agradem o maior número de pessoas. Não é o caminho da radicalização.

O desembargador que me perdoe, mas quem está claramente favorecendo “a fomentação do tráfico ilícito de drogas” é ele. Essa cultura do “quanto mais radical melhor” é diretamente responsável pela prosperidade dos traficantes, pela morte de milhões de pessoas todos os anos e pela destruição das vidas de uma multidão. Que um servidor público, teoricamente comprometido com a Justiça, comporte-se dessa maneira é uma irresponsabilidade.

Caros leitores,

Peço desculpas, mas estou atrasado para o post desta semana. Estou em outro fuso-horário, com a agenda cheia, e já vi que só vou conseguir sentar e escrever na madrugada. Amanhã, quando vocês acordarem, vai ter um post quentinho esperando por vocês. E prometo que não vou jogar gás lacrimogênio em ninguém.

Em 1971, no seu primeiro mandato como presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon declarou a Guerra contra as Drogas. Uma das primeiras providências foi criar o Odale, sigla em inglês para Escritório de Aplicação da Lei de Abuso de Drogas, cujo objetivo era acabar de uma vez por todas com a oferta de drogas nas ruas do país.

Para comandar esse escritório, o escolhido foi o advogado Volney Brown, um ex-procurador público com fama de durão e de excelente investigador. O programa era prioritário para o governo americano e Brown recebeu recursos fartos. Abriu escritórios em várias cidades americanas, montou um time cheio de talentos ascendentes e pôs-se a trabalhar.

A primeira ideia de Brown foi prender todos os traficantes de uma cidade, de forma a secar a oferta completamente, na crença de que isso extinguiria o tráfico lá. A escolhida foi Phoenix, no Arizona, uma cidade grande e importante do sudoeste do país. A equipe de Brown gastou uma nota comprando informação nas ruas da cidade. Ao final, descobriu-se que havia em Phoenix um total de 76 passadores de droga. No meio da noite, Phoenix foi tomada por uma multidão de policiais estaduais e federais, que prenderam cada um dos 76. Não sobrou nenhum.

No dia seguinte, a única clínica local de tratamento de viciados estava lotada. Ficou impossível encontrar droga em Phoenix. E assim foi no segundo dia, e no terceiro, e no sétimo. No oitavo dia, Phoenix estava de novo cheia de traficantes, totalmente desconhecidos da polícia e do Odale. Quando passou um mês, estava tudo igualzinho a antes, apesar de todo o trabalho de um time enorme e talentoso, e de todo o dinheiro gasto.

Brown tem uma mente científica, e por isso tentou várias formas diferentes de acabar com o tráfico em cada cidade, para descobrir o que funcionava e o que não funcionava. Nada funcionou. Em San Diego, por exemplo, o Odale descobriu que uma única gangue vendia toda a heroína da cidade. Prendeu a gangue toda, apenas para descobrir que, oito dias depois, várias outras gangues, desconhecidas da polícia, tinham ocupado seu lugar.

Brown é um dos muitos juízes cujos depoimentos fazem parte do livro “Why Our Drug Laws Have Failed” (por que nossas leis de drogas fracassaram), do juiz americano Jim Gray, um veredicto profundo e cheio de dados sobre a política de repressão às drogas que os Estados Unidos e boa parte do mundo estão seguindo há 40 anos.

“Basicamente, o que estamos tentando fazer é revogar a lei da oferta e da procura”, diz Gray. “Não é surpresa que estejamos fracassando.” Não teríamos resultados melhores se tentássemos revogar a lei da gravidade, diz ele.

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A comparação com a gravidade faz bastante sentido aqui onde estou agora, a fronteira entre o México e os Estados Unidos, a porta de entrada do país que é o maior consumidor de drogas do mundo. De Tijuana, quase dá para enxergar a violenta força de atração do outro lado do muro, puxando drogas do México e, no caminho, gerando guerras de gangues, massacres, erodindo as liberdades individuais e corrompendo os níveis mais altos do governo. Um comerciante em Tijuana resumiu para mim o que acontece: “tem um tsunami de drogas sendo puxado pelos Estados Unidos, e construíram uma barragem aqui para segurar esse tsunami. Claro que aqui é violento.” Para segurar o tsunami, o México fez uma guerra civil. Mesmo assim, mais de 90% da droga continua passando.

O juiz Gray compara a fortuna que estamos gastando na Proibição com uma tentativa desesperada de segurar uma cachoeira usando baldes. Nunca vai dar certo. Intoxicar-se é um apetite humano, tanto quanto comer ou fazer sexo. Tentar jogar um apetite humano na ilegalidade é a receita para gerar violência. Enquanto esse apetite existir – e existirá sempre – haverá demanda por drogas. E, enquanto houver demanda, haverá alguém disposto a fazer dinheiro com ela. Cada traficante preso atrairá um traficante a mais para o tráfico. Um dos resultados do endurecimento das nossas leis é o fato de que, em todos os países duramente repressores, hoje há crianças passando drogas. Foi essa a solução que a lei da oferta e da demanda encontrou diante da criminalização dos adultos.

Essa era está acabando. Em todo o mundo civilizado, os governos estão se dando conta de que é mais racional gastar o dinheiro protegendo e educando as pessoas. Também está ficando óbvio que, se um país quer viver em paz e não quer cair nas garras de criminosos, precisa criar canais legais de suprimento de drogas para atender a demanda. Só aí vai conseguir reprimir duramente o crime. A Guerra contra as Drogas cria um clima de tolerância ao crime, porque esvai todos os seus recursos comprando baldes para cachoeiras.

“Daqui a alguns anos olharemos para trás e ficaremos abismados com essa política, assim como hoje acontece com a escravidão”, diz Gray. O Brasil, aliás, foi o último país do mundo ocidental a acabar com a escravidão, diante da nossa tradicional relutância em contrariar interesses. Será que vamos chegar em último de novo?

Sentei num café da cidade de Oakland com a minha entrevistada, a Dale Sky Jones. Dale é uma moça doce, de olhos azuis, com jeito de princesa de desenho da Disney. O tipo de nora que qualquer sogra do mundo adoraria ter. Ela trazia no colo um menino angelical, o Jackson, de quatro meses de idade, olhos azuis e uma penugenzinha loira na cabeça. Sob a luz dourada da primavera californiana, a mãe e o filhinho na janela do café pareciam uma propaganda de margarina.

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Mas não é na indústria de margarina que aquela moça bonita trabalha. É na indústria de maconha. O café onde conversamos, o Bulldog, vende café na frente, mas nos fundos abriga fumadores de maconha. Se Dale morasse no Brasil, o trabalho que ela faz seria chamado de “tráfico de drogas” e daria cadeia.

Dale é gerente executiva da Universidade Oaksterdam, um prédio grande no centro de Oakland que se propõe a ser a primeira escola de nível superior dos Estados Unidos dedicada exclusivamente à indústria da maconha medicinal, que está bombando na Califórnia enquanto o resto da economia afunda. Ela é também, cada dia mais, uma espécie de porta-voz da indústria, participando com destaque da campanha de legalização. Com seu rosto de anjo, ela é adorada inclusive pelos conservadores. A Fox News sempre a entrevista.

Dale veio de um passado corporativo, gerenciando a comunicação de uma grande empresa alimentícia. Era uma executiva linha-dura, exigente, respeitadora das regras e durona com os indisciplinados. Mas fez uma reviravolta na carreira quando foi cuidar da comunicação de um consultório médico que receitava maconha para pacientes. A mãe dela ficou preocupadíssima, o pai nem ficou sabendo. Mas Dale sentia que precisa dar esse salto.

Dale sofre de uma síndrome que causa vômitos. Não é uma doença mortal, seríssima, mas é chata. A medicina tradicional tem tratamento para ela: uma pílula cara que muitas vezes não funciona porque é expelida do corpo. Muitas vezes Dale tinha que se internar num hospital e ficar cheia de tubos pendurados, tomando soro. Dale preferia tratar os vômitos enrolando um baseadinho e fumando um pouquinho. Funcionava que era uma beleza. Ela achava mais prazeroso, menos agressivo, mais confortável, mais barato.

Dale me contou que a indústria da maconha medicinal aqui em Oakland está indo de vento em popa. A cidade está atraindo alguns dos melhores horticultores do mundo, cansados de viver na ilegalidade em seus países. Há uma infinidade de novas empresas surgindo: produtoras, distribuidoras, centros de tratamento médico, um laboratório de análise de segurança que detecta fungos e agrotóxicos. A indústria lembra um pouco a do vinho, pela alta rentabilidade e pelo forte incentivo para buscar qualidade.

Oakland, a única cidade na baía de San Francisco que tem população majoritariamente negra, costumava ser a cidade mais complicada e violenta da região. Foi por anos a recordista nacional de homicídios. Era território de traficantes e policiais.

Melhorou. Os dispensários de maconha, num esforço de relações públicas, deram dinheiro para a polícia e ajudaram a melhorar a iluminação pública. Tem mais gente na rua. Oakland, quem diria, está atraindo até turistas: fãs de Bob Marley em busca de souvenirs de Oaksterdam (mistura de Oakland com Amsterdam). A economia local vai bem, mesmo enquanto o país mergulha nas profundezas da crise. As salas de aula da universidade de Dale estão abarrotadas de gente, apesar de os cursos, com aulas semanais ao longo de um semestre, custarem 700 dólares. Entre os comerciantes da região, os mais felizes parecem ser os donos de restaurantes.

Alguns dos pacientes têm doenças sérias, letais. Outros têm ansiedade (quem é que não tem ansiedade nos dias de hoje?). Tirar a carteirinha é fácil, acessível a qualquer um, custa 70 dólares e fica pronta na hora. O que está acontecendo aqui é um experimento importante neste momento da história da humanidade: o momento em que a classe dirigente do mundo está finalmente se dando conta de que precisamos de um novo modelo para combater o mal que as drogas fazem. O modelo atual faz mais mal do que as drogas. Dale se emociona enquanto fala disso. Aí ela olha no olho azul de Jackson, e suspira, com o coração de executiva durona amolecido pelos hormônios da maternidade:

– É por ele que eu estou fazendo isso.

O nó na garganta me deixou sem conseguir fazer outra pergunta por alguns segundos.

Em 1967, um pesquisador fez um experimento clássico da história do comportamento animal. Ele colocou três grupos de cachorros em três jaulas separadas. Uma era o grupo-controle, onde nada acontecia. Nas outras duas, o cientista aplicou choques elétricos dolorosos nos cachorros – naqueles tempos, os cientistas não davam muita bola para os direitos dos animais. Em cada uma das duas jaulas, havia uma alavanca. Numa delas, quando os cachorros batiam na alavanca, o choque parava. Na outra, não. O choque parava e recomeçava, mas sem que os cachorros tivessem qualquer controle.

Isso não vai dar certo

Aí, num segundo momento, os coitados dos cachorros foram colocados numa sala com uma cerca baixa e de novo receberam choques. Dessa vez, era fácil escapar da dor: bastava pular por cima da cerca e os choques paravam. Os cachorros do grupo-controle e os que, na primeira fase do experimento, ficaram na sala onde a alavanca funcionava, escaparam tranquilamente da tortura. Os que estavam na sala onde a alavanca não funcionava, no entanto, ficaram estendidos no chão, ganindo, levando um choque atrás do outro, sem se mover. Eles tinha aprendido a não ter esperança.

A teoria da “learned hopeleness” (desesperança aprendida), elaborada pelo psicólogo americano Martin Seligman a partir desse experimento, foi muito citada ontem em Washington no Transparency Camp, uma conferência da qual eu participei que discutia transparência pública e participação cívica. Estávamos conversando sobre esse senso de apatia que domina a política no mundo. Por toda parte (inclusive aqui na área de comentários deste blog), se ouve com frequência comentários do tipo “isso nunca vai mudar, as pessoas são más, a política nunca vai funcionar, não adianta querer fazer as coisas de um jeito diferente, qualquer tentativa de transformar o mundo é ingenuidade”. Isso é “desesperança aprendida”. Puxamos tanto as alavancas sem ver as coisas fundamentais mudarem que ficamos como os cachorros da última sala: deitados no chão, deprimidos, achando que no final vai dar tudo errado.

Isso me faz pensar no tema da pesquisa que estou fazendo agora: política de drogas. Oitenta anos atrás, um grupo de idealistas utópicos com inspiração religiosa, movidos pela boa intenção de tentar acabar com o sofrimento causado pelas drogas, resolveu inventar um sistema ultra-radical para lidar com esse problema: a proibição. Eles puxaram as alavancas, proibiram as drogas e nada mudou: o sofrimento continuou. Ao longo das décadas, o que eles fizeram foi tornar o projeto deles cada dia mais radical: a cada década gastou-se mais com armas e prisões para acabar com as drogas. Quanto mais radical a proibição, maior o sofrimento, maior o consumo de drogas, mais problemas eram causados por elas.

A proibição falhou, obviamente. Todos os países do mundo tentaram, nenhum conseguiu. Mas nossa sociedade está tão tomada por um senso de “desesperança aprendida” que não há espaço para ideias. Só o que é permitido é mais do mesmo. Os defensores do radicalismo da proibição bloqueiam qualquer tentativa de discutir o assunto e de chegar a uma política menos ingênua para lidar com as drogas. É proibido discutir, é proibido debater, é proibido propor, é proibido pensar. Só o que se permite é ficar deitado no chão, ganindo. Pior, quando alguém tenta dar alguma ideia nova, a matilha de cachorros deprimidos parte para cima, a dentadas.