O ponto-cego

Os 68 anos de vida de Antonio Bertolucci terminaram bruscamente numa gigantesca poça de sangue em cima de uma faixa de pedestres no acesso à Avenida Sumaré, em São Paulo, na semana passada. Ele trafegava de bicicleta, como fazia sempre, quando foi esmagado por um ônibus de mais de 15 toneladas. O motorista disse que Antonio, que era presidente do conselho de administração de uma fábrica de chuveiros e ciclista experiente, estava no seu “ponto-cego”. Sem saber, ele acertou na mosca na sua avaliação.

Ciclistas e pedestres, que são a maioria dos pagantes de impostos de São Paulo, estão mesmo no ponto-cego. Mas não é no ponto-cego do espelho retrovisor: é no ponto-cego da consciência da cidade. Assim como o matador de Bertolucci, a imensa maioria dos motoristas da cidade nem pensa em quem está lá fora, na rua, desprotegido, enquanto conduz seus monstros de metal. Somos invisíveis. Faixas de pedestre, como aquela manchada de sangue na zona oeste paulistana, são peças decorativas.

Ciclistas e pedestres estão também no ponto-cego da polícia. Mal o crime foi cometido e a polícia civil anunciou que tratou-se de uma “fatalidade”, como bem lembrou a cicloativista Renata Falzoni, neste vídeo:

httpv://www.youtube.com/watch?v=vHEXqXQKHnE&feature=player_embedded#at=22

Ciclistas e pedestres estão no ponto-cego dos controladores do tráfego da cidade. Os guardas de trânsito paulistanos jamais multaram alguém por ameaçar de morte um ser humano, avançando sobre a faixa, ultrapassando ciclistas a menos de 1,5 metro de distância ou desrespeitando a sagrada preferência do menor veículo sobre o maior. Na verdade, o que eles costumam fazer é incitar a agressividade dos motoristas. Não é incomum vê-los nos cruzamentos mais movimentados da cidade gesticulando com as mãos para APRESSAR os motoristas, como se eles precisassem ser estressados ainda mais. Claro que é assim: eles só se preocupam com a velocidade do fluxo dos carros. E quanto aos homens e mulheres e crianças que tentam sobreviver no meio de gigantes de aço? Hmmm, mal aí, esses estão no ponto cego.

Ciclistas e pedestres estão no ponto-cego da administração da cidade – e de quase todas as cidades do Brasil. Aliás, tudo aquilo que não é politicagem está no ponto-cego do prefeito Kassab, que está obviamente ocupado demais fundando um novo partido. Sua administração prometeu construir 367 quilômetros de ciclovias até 2012 – uma merreca para o tamanho da cidade. Construiu 10 quilômetros até hoje.

Não se trata só de números. Cadê a discussão pública que a cidade precisa urgentemente sobre o planejamento a longo prazo do sistema de trânsito e do modelo da cidade? Cadê as ideias? Cadê a nova mentalidade, com a qual a cidade se comprometeu, ao reconhecer, em 2005, que as mudanças climáticas são o maior problema ambiental, social e econômico que temos que enfrentar? Era só papo-furado? Era só blablablá? Era mentira para ganhar eleição?

Eu acho que Kassab é cúmplice do homicídio de Bertolucci e dos outros pedestres e ciclistas que morrem esmagados todos os dias no trânsito burro de São Paulo. Se não é o mandante. Eu acho que ele deu razão de sobra para um processo civil milionário e para um processo de impeachment.

Mas o que interessa o que eu acho? Ninguém está vendo.

Devo estar no ponto-cego.

+++

PS: existe solução possível, como demonstra o projeto Cidades para Pessoas, do qual sou um dos orgulhosos patrocinadores (doei R$ 130, na esperança de não terminar meus dias embaixo de um ônibus). Veja o vídeo, sobre Copenhague, na Dinamarca, e sobre o que isso tem a ver com São Paulo:

httpv://www.youtube.com/watch?v=2g0aghfjxag

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20 comentários
  1. Leila disse:

    Ótimo texto! Motoristas dentro de suas bolhas com vidros pretos se isolando da cidade é a negação da vida em sociedade. O pior é que este é o sonho de consumo da maior parte dos pedestres… triste objetivo!

  2. Edmilson disse:

    É triste saber que não há segurança para ciclista em qualquer lugar do Brasil. Vou de bicicleta para meu trabalho e para casa de minha namorada e sei muito bem se eu der um vacilo já era a minha curta vida.
    O mundo feito pra carros é extremamente burro, caro e lento. Do que adianta ter uma carro que anda a 200km por hora se na hora do rush se movimenta a 13km/h. Nosso sistema de transporte público é mesmo uma porcaria. O pior é que o estado continua gastando dinheiro com mais estradas!

    Pena que o Antonio Bertolucci tenha morrido…

  3. Luiz Aurélio disse:

    Muito triste e acender uma vela só serviu para avivar a sensação de impotência não do ciclista, mas do cidadão que vota e paga impostos.

    O ciclista, na concepção tacanha da grande maioria da sociedade sobre rodas, é um estorvo e o que se deve esperar não é a solução para todos os problemas, mas uma inflexão clara na forma irresponsável como as autoridades, o Kassab por exemplo, trata a questão.

  4. denis rb disse:

    Mudei duas palavras no texto agora. Inicialmente chamei o que aconteceu na semana passada de “assassinato”, movido pela indignação e pelo esforço de mostrar que uma morte provocada por um ônibus não tem nada de diferente de uma morte causada por um revólver ou uma faca. Foi acima do tom. Troquei por “crime”. É revoltante ver a polícia absolvendo sem investigar, mas isso não me autoriza a condenar sem investigar. Uma coisa, no entanto, precisa ficar clara: não foi acidente. Não é acidente que alguém morra num trânsito como o de São Paulo. É consequência direta do modo de pensar a cidade.

  5. jorji disse:

    “CEGO”, grande e precisa definição, acertou na mosca, “policia absolvendo sem investigar”, Denis, não é apenas o modo de pensar a cidade, é o modo que pensamos a respeito da “vida”, eu disse da “vida”, se valorizássemos mais a vida……………não apenas dos humanos……..

  6. Isabel disse:

    Não concordo com a forma como se está tratando o motorista do ônibus. Não ouvi nenhum passageiro testemunhar sobre o ocorrido ou comentar como é o tal motorista no dia a dia.
    Ele pode não ter visto o senhor Bertolucci. O senhor Bertolucci pode ter cometido um erro sim. Mas, ninguém cogita falar sobre isso por se tratar de uma personalidade da sociedade paulistana.
    O que vejo nessa situação toda é uma posição muito tendenciosa em que os ciclistas encarnam as grandes vítimas desse caos que é o trânsito de São Paulo.
    O buraco é muito mais embaixo. Quem opta por trabalhar de bike em São Paulo está, no mínimo, morando perto do trabalho ou da escola. Tem dinheiro para ter uma bela e cara bicicleta e tempo.
    Mas, e quem vive na grande São Paulo e é obrigado a atravessar a bela capital para trabalhar ou estudar? Alguém pensa no desrespeito com que essa pessoa é tratada há décadas nos ônibus, trens e metros da cidade? Bike para essas pessoas de nada vai resolver. As ciclovias, nesse momento, vai beneficiar uma minoria que tem dinheiro para andar de carro, de taxi, a pé, de bicicleta. Mas, não fará a menor diferença para uma grande maioria que não tem opção e não tem escolha: é obrigada a ficar em pé, num ônibus lotado, por horas, em um trânsito lento. Ou passar horas em um trem mal cheiroso, lento e sempre muito cheio para chegar ao trabalho que lhe pagará um salário que não dá nem para pagar um pedal.
    Sinto pela morte do Sr. Bertolucci. Mas, sinto mais pelo egoísmo de grupos que detém o poder de influência, de formação de opinião. Mas, só consegue enxergar o que está em torno do próprio umbigo.

  7. Sumaya disse:

    Isabel, desculpe, mas discordo completamente de você. Os ciclistas se colocam na posição de vítimas, sim, mas ao lado de pedestres e de outros que não utilizam veículos automotores. É claro que todos podem cometer erros, mas isso precisa ser investigado, não? Você concorda com a posição das autoridades, que mesmo sem averiguar o ocorrido já consideram o acontecido como mais uma fatalidade? E a perícia, onde fica? Eles se calam para apagar a própria responsabilidade. Todos nós pensamos na loucura que é atravessar a cidade utilizando transportes públicos, por isso mesmo nossa luta inclui políticas de infraestrutura decente para todos. Você julga que ciclistas têm mais tempo e dinheiro que você? Quanto você acha que custa uma bike adequada para andar na cidade? Pode ter certeza que equivale aprox. a 6 meses de combustível para o seu carro, portanto, faça o cálculo e perceba que não é preciso ter grana sobrando para escolher esse veículo para se deslocar. Aliás, vc diz que a ciclovia vai “beneficiar quem tem dinheiro”? Não entendo. O desafogamento do trânsito beneficia a todos, Isabel, até mesmo quem usa ônibus. Quanto a tempo, certamente que ciclistas chegamos ao destino antes de muitos veículos, portanto, esse tempo às vezes é muito menor. Pense bem: se para as distâncias menores, 5, 10 ou 15 km, as pessoas utilizassem mais a bike, por exemplo, as vias ficariam mais livres para quem precisa percorrer 25, 30 ou 40 km diariamente de carro, certo? Ou seja, o uso do carro ficaria mais restrito às reais necessidades e o trânsito fluiria. Pensar na bicicleta como um meio viável de transporte é pensar no bem de todos, não de uma minoria.

  8. Willian Cruz disse:

    Isabel, entenda por que não é preciso ouvir o motorista, os passageiros ou quem quer que seja para perceber que não foi um simples acidente: http://vadebike.org/2011/06/por-que-nao-foi-acidente/

    E o que os passageiros viram, além de seus jornais e iPhones? Conheço gente de bom caráter que se torna irresponsável quando atrás do volante. Eu mesmo era assim, até uns 11 anos atrás, antes de começar conhecer a cidade de fora do carro e perceber que um simples “erro” que eu cometesse dirigindo poderia ser irreparável.

  9. Leeward disse:

    Olha que legal esta campanha de Londres:

  10. denis rb disse:

    Isabel,
    Você está errada. Seus comentários simplesmente não batem com a realidade, e refletem preconceitos muito repetidos.
    A grande maioria dos ciclistas de São Paulo é de baixa renda e mora nos bairros de periferia. Eles usam a bicicleta, entre outros motivos, porque o transporte público atende mal suas regiões e é muito caro. Andar de bicicleta é muito mais barato do que andar de trem ou de ônibus e há sim ciclistas com resistência física para percorrer grandes distâncias. Além disso, é possível integrar as ciclovias com os sistemas de transporte público.
    Outra coisa: talvez o senhor Bertolucci tenha cometido um erro. Todos cometem erros. Mas a pena para cometer erro não pode ser a morte por esmagamento. É por isso que há leis de trânsito que estabelecem limites de velocidade, é por isso que há faixas de pedestre, é por isso que é proibido ultrapassar um ciclista a menos de 1,5 metro. Garanto para você que o motorista desrespeitou essas leis, colocando uma vida em risco. A maioria dos motoristas de São Paulo desrespeita essas leis, o que é mais ou menos como andar no cinema lotado dando tiros de metralhadora. Culpar quem morre por levar um tiro (“ele entrou bem na frente da bala”) é no mínimo um equívoco.
    E mais: está mais do que provado, pelas experiências da Colômbia, do México, da Dinamarca, do Oregon, da Holanda que ciclovias beneficiam sim a população toda, principalmente a de baixa renda, mesmo aqueles que não querem andar de bicicletas. Bicicletas ocupam menos espaço nas ruas que carros, portanto desafogam o trânsito e permitem que todos os veículos, inclusive os ônibus, fluam melhor. Todas as cidades do mundo que tem bons sistemas cicloviários têm também bons sistemas de transporte público.

  11. denis rb disse:

    E digo mais:
    Hoje, em São Paulo, o maior problema do sistema de transporte público é o excesso de carros. Se não houvesse tanto carros entupindo o trânsito, a rede que temos de ônibus, trem e metrô seria, se não excelente, pelo menos aceitável.

  12. Anselmo Arruda disse:

    O problema não é o motorista do ônibus, é a falta de incentivo às bicicletas. Se quiserem fazer uma ciclovia praticamente inteira em área plana nas marginais Tiête e Pinheiros entre os rios e a pista é possível ir do aeroporto de Cumbica ao largo de Socorro a 60 km de distância.

  13. Necrosauro disse:

    Arriscaria dizer que presenciamos acontecimentos como estes do atropelamento e morte do Antonio Bertolucci porque fazemos parte de uma sociedade doente, a população urbana não está muito interessada se alguém foi arrastado por um ônibus ou um caminhão, querem é chegar aos seus destinos o mais rápido possível, muitas vezes nem sabem porque estão com tanta pressa.

    Sou um irremediável radicalóide: Veículo automotor animaliza as pessoas!

  14. Edmilson disse:

    Ignorância animaliza as pessoas. Infelizmente o fim dos carros não vai deixar a população mais civilizada.

    O carro é até uma boa invenção. Ótimo para grandes distâncias. A parte ruim é que o Estado simplesmente quer nos dar uma única forma de se locomover e por isso constrói estradas e estradas.
    A avaliação para retirar uma carteira de motorista no Brasil é estúpida. Você só precisa manobrar o carro para estacionar e circular uma área a 30 ou 40km/h. A lei de trânsito não é respeitada e existem as fábricas corruptas de licenças e multas.

    Isso pra mim só reflete o quanto o brasileiro é ignorante e é difícil acabar com essa ignorância de um povo que não sabe ouvir.

  15. Petrus disse:

    Eu não acho, acabo de ter certeza de que a sua pessoa esta no ponto cego da moral e da ética, creio que você em seus posts faz questão de lutar contra a ciência e provar que o ser humano é um animal irracional começando por você
    Li seus posts anteriores sobre a legalização das drogas, acho que te faria bem ler o blog mais acessado da revista veja, é o primeiro os blogs, conhece ele? é um ”tal” de Reinaldo Azevedo, entretanto vamos voltar ao foco:
    Neste post eu concordo com você na questão do ciclista ser tratado como um bicho repugnante e que as ciclovias são quase inexistentes, mas vamos lá, você escreve para a Veja, não deve ser tão burro, será que ciclovia é mais importante que escola, hospital, vias seguras para os carros, portos, aeroportos, entre muitas outras coisas?!
    Outro fator impressionante em seus posts é o seu preconceito com os Paulistanos, pois São Paulo é retratado como o lixo do Brasil!!
    Se São Paulo é tão ruim e seu povo é tão podre porque você mora aqui?!

  16. márcio neves disse:

    gostaria de fazer uma pergunta sobre as qualidades medicinais da maconha: o fumo foi descoberto pela nobreza européia em contato com outros povos nas grandes navegações(da mesma forma que a cocaína e a maconha)e pra alguns médicos comteporâneos de malthus,curava até turbeculose.hoje já se sabe que não tem esse efeito e pode causar até cancêr de pulmão.a heroína,no século 19 foi inventada pra ser um remédio,mas sabe-se que seus efeitos eram placebos (que nem a homeopatia da mesma época) e era deletério e viciante e por isso foi proibida.qual seria então o objetivo de achar “chifre-na-cabeça-de-cavalo” em procurar utilidade naquilo que não presta ? já não basta o lobby , a corrupção e o contrabando do cigarro ? o brasil tem que legalizar a maconha pra ele encontrar sua vocação de expotar commodities agrícolas ? essa indústria legalizada não seria mnais um instrumento na exploração dos operários e camponeses de nosso país ? (fortalecendo latifúndios no estilo da cana agrocombustível ?) espero respostas.

  17. Jorge Luiz Thompson disse:

    Moro no Rio de Janeiro, tinha um sonho de poder cruzar toda a cidade com meu maior meio de locomoção a minha bicicleta; no dia 29/04/2011 fui atropelado por um irresponsável, avançou o sinal que estava fechado para ele, resultado não fui atendido pelo motorista e o resultado foi o umero do braço esquerdo quebrado e também uma pequena fratura na bacia; estou me recuperando bem.
    No início fiquei como muita raiva porém acho que a culpa de toda uma sociedade, não entedem que do jeito que vamos daqui a dois ou três anos a minha cidade ficará intransitável e também não param as emissões de CO2.
    Espero que o meu sonho não esteja terminado.
    THOMPSOM/SAUDAÇÕES

  18. guilherme disse:

    otimo texto, otima metáfora.
    muito obrigado.

    ps. respondendo a um comentário, acredito SIM que ciclofaixas nos levam bem mais longe q aeroportos. abx.

  19. Gabriel disse:

    Ótimo texto e vídeos. Vamos nos mobilizar como os moradores de Copenhagen? Só aqui na net não tem adiantado. Melhor ainda que isso, ao invés de tentarmos sensibilizar os vereadores e prefeito da cidade, temos nós é que tomar as decisões. Denis, quando vc vai sair candidato? Tem meu voto. Renata Falzoni também. Abraços, Gabriel

  20. Guilherme disse:

    A bicicleta tem 2 obstáculos a vencer no Brasil. O primeiro é a geografia. Kopenhagen (ou Amsterdam etc) é absolutamente plana; já pedalar em São Paulopelo menos para a região central, exige muitos músculos. O segundo obstáculo é um misto de calor e cultura. O norte da Europa, onde se pedala muito, além de plano é frio. Não se sua muito e, quando se sua, ninguém se importa do colega de trabalho passar o dia exalando fedor de suor. Já pensou no Brasil? Como pedalar 20km, chegar encharcado de suor no trabalho e passar o resto do dia fedendo? Eu mesmo já tentei, no Rio, e digo que não funciona. Agora, se as bicicletas elétricas se popularizarem, então a história todo muda…

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