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Arte

270.000 tubarões são mortos todo ano para extrair suas nadadeiras, para fazer sopa. 20.500 atuns são mortos no mundo a cada 15 minutos. 28.000 barris de petróleo, cada um deles com capacidade de 160 litros, são queimados nos EUA a cada 2 minutos. 1 milhão de copos de plástico descartáveis são descartados a cada 6 horas apenas em viagens aéreas nos EUA.

Esses números da devastação ambiental são chocantes. Mas são também quase incompreensíveis. 270.000, 20.500, 1 milhão, que diferença faz? São só números frios, quase impossíveis de apreender pelas nossas mentes. São números tão imensos que não conseguimos entendê-los.

Foi o que o ex-advogado corporativo Chris Jordan pensou quando resolveu abandonar sua carreira defendendo grandes empresas de processos e se tornar um fotógrafo e manipulador de imagens. Chris passou a tirar fotos de objetos reais – lixo, dentes de tubarão, barris de óleo, garrafas vazias, bitucas de cigarro – e juntá-las no computador. O objetivo: produzir imagens incríveis, impactantes, que tornem concretos esses números abstratos.

Veja por exemplo esta sequência, da última exposição de Chris:

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É uma gravura japonesa clássica, com a típica imagem das ondas do Pacífico e o Monte Fuji ao fundo. Não é? Chegue mais perto para ver:

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A imagem parece formada de um monte de pigmentos coloridos. Um pouco mais perto então:

fuji3

São pedaços de plástico. 2,4 milhões de pedaços de plástico, 1 para cada libra de plástico que polui os oceanos do mundo a cada hora (1 libra = 450 gramas). Todo o plástico da fotografia foi retirado do Oceano Pacífico (daí a escolha da imagem japonesa). Olhe mais de perto.

fuji41

Chris se inspirou no clássico Potências de Dez e acrescentou pitadas de conscientização ambiental.

(Se você é leitor antigo da revista Superinteressante, já conhece as Potências de Dez. Nos anos 80, a revista publicou uma revistinha com imagens tiradas desse vídeo histórico. Se você é leitor moderno da mesma revista, conhece o Chris Jordan. Seu trabalho anterior, inteiramente focado nos EUA, foi assunto da Super numa matéria de dezembro de 2007.)

httpv://www.youtube.com/watch?v=oM-_hz2LLZk

Não, não tem nada a ver com sustentabilidade. É que eu achei que hoje vocês merecem uma folga desse meu papo furado…

🙂

Estou escrevendo uma matéria para a revista Superinteressante sobre coletivos. Legal voltar a escrever para a revista depois de alguns anos perdido entre a vida de executivo (reuniões para decidir as pautas das próximas reuniões) e o ritmo frenético de um blog (assunto novo todo dia que figurinha repetida não enche álbum).

Neste momento estou no meio do duro trabalho de escrever o texto (este post é parte da minha estratégia de procrastinação). Hoje de manhã fiz minha última entrevista, com um sujeito interessantíssimo, o Björn Bjørn Christiansen. Bjørn é parte do coletivo Superflex, formado por três artistas dinamarqueses. Ele casou com uma brasileira e hoje mora no Rio metade do ano. O trabalho do Superflex é o exemplo mais legal que encontrei do que um coletivo pode fazer.

Um dos projetos deles, por exemplo, é uma nova marca de guaraná. O Superflex foi para a Amazônia, fez contatos com agricultores de guaraná, bolou a logística de uma pequena fábrica de refrigerantes, fez contatos com comerciantes do mundo inteiro e criou uma cadeia de produção para vender um guaraná que não tem marca (na verdade, a marca é uma tarja preta). Os lucros vão integralmente para os agricultores. Ou seja, o trabalho deles é arte. Mas é muito mais que arte. É um jeito concreto de questionar o modelo econômico atual: guaraná é uma planta tradicional amazônica, mas só é explorada por um punhadinho de grandes corporações, quase sem benefício para os locais (porque, como trata-se de um oligopólio com baixa concorrência, os preços da fruta são baixíssimos).

Aí você torce o nariz e comenta: “mas que papinho de comunista tem esse dinamarquês”.

É que você não ouviu ele falando:

“É uma bobagem ser contra o capitalismo. É absurdo ser ‘contra o sistema’. O único jeito de mudar o sistema é entrar nele e trabalhar para que ele seja como você quer que ele seja.”

“Não tenho nada contra ganhar dinheiro. Os lucros vão integralmente para os produtores porque neste momento é importante que seja assim, para consolidar o esquema. Mas, se o negócio crescer, também vamos querer ser remunerados.”

“Culpar o capitalismo por tudo é muito fácil. Qualquer um pode ficar num canto apontando o dedo.”

“O problema no Brasil é a falta de uma cultura de empreendedorismo. Há muita burocracia e pouca motivação para fazer coisas novas.”

“O mais importante do nosso projeto é que ele muda a ideia que os agricultores têm do que eles próprios são capazes. Eles podem virar empreendedores.”

Com essa atitude o Superflex consegue ter um impacto real no mundo. Por exemplo: se uma grande corporação quiser vender guaraná na Dinamarca, possivelmente vai encontrar dificuldades para entrar no mercado de lá. Afinal, o guaraná sem marca já ocupou o mercado – é vendido em bares, cafés, restaurantes – e passou sua mensagem democratizante, que caiu bem com a população nórdica. Não que a Dinamarca seja o maior mercado do mundo. Não é, claro. Mas há que se começar de algum lugar.

O guaraná tarja preta, arte que muda o mundo

O guaraná tarja preta, arte que muda o mundo

O guaraná é só um dos muitos projetos do Superflex. Eles também fizeram uma cerveja grátis e uma usina de energia limpa na África. Desliguei o telefone empolgado com as possibilidades. E convencido de que o jeito de mudar o mundo é mudando o mundo. Simples assim. Ou, se fôssemos citar Gandhi:

“Seja a mudança que você quer ver no mundo.”

Muito bom o trabalho da escritora, artista e fotógrafa Franke James, dona do blog My Green Conscience, onde aliás há pôsteres grátis bem legais tipo este aí embaixo.

noonewillknow

Ninguém vai saber, exceto você.

Você tem consciência verde? Parabéns. Mas ninguém vai saber disso, a não ser você mesmo. Ninguém sabe de verdade o quanto você recicla, o quanto você economiza, o quanto não desperdiça, o quanto você ajuda. Ninguém sabe se as bitucas de cigarro que você já jogou na rua ao longo da vida dariam para encher o piscinão do Pacaembu. Ninguém sabe quanto de lixo você produz, e menos ainda quanto poderia produzir. É assunto seu, privado, para você resolver à noite, na cama, com a sua consciência.

Bons sonhos.