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Clima

As chuvas deste ano foram excessivas, muito acima da média, e pegaram nossos governantes – federal, estaduais, municipais – de surpresa.

Mas espera… Não contaram exatamente essa mesma história no ano passado, quando um bairro de São Paulo virou um lago por bíblicos 40 dias, Angra dos Reis desmanchou-se como sorvete derretido e dois rios encheram tanto e tão rápido que fizeram pernambucanos e alagoanos compararem-nos a um tsunami?

O hospital de Palmares, Pernambuco, que visitamos um mês após a enchente de 2010.

Aliás, essa “surpresa” não tem acontecido praticamente todo ano?

Vamos por partes. Primeiro: não é surpresa. Faz pelo menos uma década que se sabe que, com o avanço das mudanças climáticas globais, aumentará imensamente a ocorrência de eventos climáticos extremos no Brasil. A quantidade total de precipitação não aumentará muito, mas ficará mais concentrada, com mais água caindo em menos tempo. É exatamente o que está acontecendo: na semana passada já tinha caído no país toda a água esperada para janeiro.

Também não há sombra de dúvida de que as mudanças climáticas causadas pelo aumento da concentração de gases estufa na atmosfera é uma realidade que já está nos afetando. As previsões que os cientistas fizeram só não estão se confirmando porque estão sendo superadas (cientistas tendem a ser conservadores em suas estimativas). 2010 foi o ano mais quente e o mais chuvoso da história. Nove dos dez anos mais quentes da história aconteceram de 2000 para cá. Os gastos da defesa civil brasileira com tragédias subiu mais de 1000% em cinco anos.

Ou seja, se os governantes ficaram surpresos é porque não estavam prestando atenção – talvez estivessem ocupados demais discutindo a proibição do aborto para mulheres vítimas de estupro ou outra sandice dessas.

Mas colocar a culpa nos governantes é fácil. Façamos justiça: a sociedade toda está que parece anestesiada. Ninguém se mexe. Mesmo a imprensa morre de medo de dizer com todas as letras que a mudança no clima está por trás disso tudo. Uma tragédia depois da outra e ninguém se toca que tem algo bizarro acontecendo.

Continuamos bovinamente aceitando disparates, como a obra paulistana que, em meio aos indícios de que precisamos de um solo mais permeável, asfaltou uma faixa a mais de avenida na beiradinha do Rio Tietê. “Ah, vai melhorar o trânsito.” Trânsito de rabecões?

Tem gente que até apóia o projeto horripilante do deputado Aldo Rabelo de mudança no Código Florestal, que vai anistiar ocupações ilegais e permitir ocupação mais perto dos rios e em encostas mais íngremes, aumentando o assoreamento que faz os rios saírem de seus leitos.

Enfim, estamos fingindo que não é conosco. Estamos fazendo igualzinho aos governantes – em vez de trabalhar, torcemos para no ano que vem não chover tanto, apesar dos indícios de que vai chover mais.

As mudanças climáticas estão acontecendo e vão piorar. É um fato, precisamos lidar com ele.

Mas isso não precisa ser o apocalipse. É possível enfrentar as inevitáveis mudanças sem tantas mortes e prejuízos. A receita é simples (o que não quer dizer que seja fácil): tire as pessoas das encostas e das beiras dos rios, tire muito do asfalto para o solo absorver água, refloreste intensamente. Já é tarde demais para os mais de 700 brasileiros que morreram nas chuvas de janeiro. Quantos mais antes de fazermos alguma coisa?

Foto: ® Cia de Foto / !sso Não É Normal

Se você fosse um extraterrestre voando de espaçonave na alta atmosfera do Planeta Terra há 100 mil anos atrás o que veria abaixo de você seria muito azul do oceano, muito branco dos pólos, um tanto de amarelo avermelhado dos desertos e imensas extensões de um verde felpudo: as árvores.

Se voltasse 50 mil anos depois, veria mais ou menos a mesma coisa. E não seria muito diferente a paisagem na janela se você cruzasse o céu no tempo do avô do seu tataravô.

Mas, se você fosse passear de disco voador hoje, veria uma mudança bem fácil de notar: o verde felpudo está acabando. Hoje há apenas metade das 800 bilhões de árvores que havia há cento e poucos anos. Para onde foram as árvores?

Foto: denis rb (CC)

Elas desmaterializaram-se.

Foram queimadas para produzir energia. Foram transformadas em papel e depois descartadas para apodrecer nos aterros sanitários.

Desmaterializaram-se, mas não sumiram. Afinal, desde o tempo de Lavoisier se sabe que nada desaparece: as coisas mudam de forma. Nossas árvores, transformadas em gás carbônico (fumaça) e gás metano (do lixo), estão neste exato momento flutuando sobre a sua cabeça, prezado leitor.

Óbvio que isso traz consequências para o clima. Ou você acha que 400 bilhões de árvores gasosas voando na atmosfera passam despercebidas? Óbvio que essas gases fazem diferença no ar que respiramos, no equilíbrio das correntes de ar, na dinâmica do transporte de umidade, na transmissão de calor. No clima.

Lógico também que a ausência dessas árvores faz falta cá embaixo na terra. Ao arrancá-las, o que deixamos foi terra exposta. Exposta, ela escorre para os rios, gerando assoreamento. Ela é fritada pelos raios de sol, o que mata nutrientes. Ela se saliniza, perde a fertilidade. Ela é compactada e torna-se impermeável. Ela é comida pela erosão. Ela dá à luz desertos.

Aí a atmosfera mudada pelas árvores voadoras (e também pelo petróleo queimado) acaba explodindo com mais frequência em tempestades, nevascas, furacões, tufões, ondas de calor. E tudo isso acaba carcomendo ainda mais o solo exposto. E os rios, entupidos pelo assoreamento, não dão vazão às chuvas cada vez maiores. E nossas cidades se acabam em enchentes, deslizamentos, falta d’água, epidemias.

Tudo isso é causado pela desmaterialização das árvores.

O que me faz pensar…

A solução é simples: rematerializem as árvores!

Tirem-nas da atmosfera e fixem-as novamente no solo. Uma árvore, quando cresce, suga as árvores voadoras da atmosfera. Cada árvore nova no chão é uma árvore voadora a menos no ar.

As árvores rematerializadas vão segurar e proteger o solo de novo. E os rios voltarão a correr.

E, se por acaso algum ET atento voar pelo céu de espaçonave e olhar para baixo pela janela, vai anotar no diário de bordo:

– Está tudo certo aqui de novo.

Cena da cidade de Palmares, mais de um mês depois da tragédia

Foto: Cia de Foto

Na última quinta-feira, aluguei um carro no aeroporto do Recife e dirigi para o oeste, serra acima, na companhia do hidrólogo Abelardo Montenegro e do fotógrafo Pio Figueiroa. Fomos até a nascente do Rio Una, na boca do sertão. O Rio Una é um dos dois que transbordou no mês passado, entre Pernambuco e Alagoas, deixando um rastro de destruição e arrancando da Terra mais de meia centena de vidas humanas. Entre quinta e sexta, percorremos de carro todo o curso do rio, da nascente à foz.

O que eu vi não tenho palavras adequadas para contar. No começo, perto da nascente, o rio é um fiapo d’água, e a destruição que ele causou é proporcional. Móveis estragados, eletrodomésticos perdidos, histórias apagadas, muita sujeira. Mas, à medida em que fomos descendo a serra, a coisa foi ficando pior. Visitei uma senhora cuja casa caiu em mais ou menos uma hora. Gente que perdeu tudo. Quarteirões inteiros demolidos pela água. E aí, já na sexta-feira, cheguei à cidade de Palmares.

Não vou nunca esquecer o que vi lá. A cidade foi praticamente inteira destruída. Da escola, em meio aos escombros e ao barro, sobrou um amontoado de cadeiras retorcidas. Meninos reviravam os montes de entulho que ficaram no lugar das casas em busca de algo que pudesse ser salvo. O hospital, abandonado, estava todo coberto de uma camada grossa de barro preto e fedido. Parecia que ele estava fechado fazia 100 anos, e não um mês. O barro, aliás, estava pela cidade toda, mesmo 40 dias depois da enchente. A água atingiu casas a 5 quarteirões do rio e foi bater no alto do segundo andar das casas. Na praça central, abriu-se uma cratera, entre a igreja e a prefeitura, por causa do chão que cedeu – uns 3 metros de profundidade, mais de 30 de comprimento.

Palmares se acabou.

Talvez você imagine que Palmares fosse um vilarejo de casebres frágeis de madeira. Não era. Era uma cidade de classe média, desses que se aproveitaram da recente prosperidade brasileira para subir segundos andares, comprar carros, tvs de lcd, computadores, eletrodomésticos. O prejuízo em bens materiais me pareceu incalculável. Pior ainda se for somar a ele os prejuízos indiretos mais subjetivos: as famílias rompidas, as doenças contraídas e agravadas, as sogras forçadas a irem morar com noras mal-humoradas, os empregos perdidos, as saúdes irreversivelmente abaladas, as amizades desfeitas, as sanidades mentais arruinadas etc etc etc. A impressão que me deu é que Palmares vai levar anos para se recuperar. E muita gente, claro, não vai se recuperar.

Depoimento unânime: ninguém com quem falei, nem os mais velhos, jamais viu algo parecido. Ninguém conseguia acreditar na força destrutiva da água. Uns aventavam a hipótese de que a responsabilidade fosse de diques estourados rios acima – só isso poderia explicar tanta violência. Mas, até onde pude investigar, não foi isso não. Ninguém soube dizer que diques eram esses. Os especialistas, inclusive Montenegro, desconfiam que a história dos diques seja só um boato que se espalhou empurrado pela sensação de que a natureza sozinha não seria capaz disso, e acabou chegando à imprensa. Ao que tudo indica, o que demoliu Palmares e tantas outras cidades foi mesmo a chuva.

Assim como o que está demolindo as casas na beira da praia que visitamos hoje de manhã perto de Olinda, em Paulista, foi mesmo o mar. Assim como o que está desertificando o sertão, para onde voo amanhã, é mesmo o sol. Difícil de acreditar, não é?

Nem tanto, se você tem acompanhado os relatórios do IPCC na última meia década. Todas essas tragédias estão de pleno acordo com as previsões de mais eventos extremos, mais chuvas concentradas, mais calor, mais mar se empilhando na costa. Tudo isso é exatamente o que se esperava de acordo com quem estuda as mudanças climáticas.

O Nordeste, de onde escrevo, é a região mais vulnerável do Brasil, por conta da precariedade da ocupação, o que é um exemplo da cruel ironia das mudanças climáticas: quase sempre, quem menos emite carbono é quem mais sofre com ele.

E aí? E agora? Pânico? Apocalipse? Ferrou? Dançamos?

Na verdade não.

Não tem como parar a chuva, o mar ou o sol – tudo isso tem mais energia do que a humanidade é capaz de contrapor. Mas tem como sair da frente de sua força destrutiva.

Tem como mover as pessoas que moram na beira dos rios morro acima, e encher as margens de mata reflorestada, que frea o avanço da água e ainda torna as cidades mais agradáveis. Tem como reflorestar o sertão e fazer com que as raízes da caatinga segurem os nutrientes no lugar. Tem como afastar as cidades da orla. Tem como se adaptar – se preparar. E assim prevenir mortes, destruição, prejuízos.

Custa caro e dá trabalho.

Mas, se você não quer ter trabalho e nem gastar dinheiro, é melhor nem ver o que vai acontecer se não fizermos nada.